Sabe o que é pior?
Pior é estar vivendo todas essas coisa, é estar passando por todas essas emoções, sentindo toda essa angústia e não ter ninguém com quem se possa compartilhar, dividir, trocar...
Ninguém que me ouça com atenção, me entenda, me dê suporte...
Tentei conversar com minha colega de quarto, uma das minhas melhores amigas, minha irmã de coração. Várias vezes. E sabe o que sempre acontece? Ela me interrompe e começa a contar algo que ela viveu, que ela está passando e dizendo o quanto ela está angustiada. Eu sempre a ouço, converso, tento tranquilizá-la, partilho de suas alegrias e depois ela sai dizendo que precisa estudar ou fazer algo realmente importante.
Tentei conversar com minha colega de panela. Várias vezes. E ela diz: "isso não é nada, vai passar" ou "pára de se preocupar com isso, você leva algumas coisas muito a sério" ou simplesmente "esquece isso!".
Tentei conversar com meu colega de panela. Mas já comecei apelando: "tô me sentindo tão sozinha... tento conversar com as pessoas sobre coisas que estão me preocupando ou me deixando tristes, mas elas só se preocupam consigo mesmas". E ele até me ouviu por uns 5 minutos, deu um conselho meio nada a ver e saiu para fazer suas coisas.
Tentei conversar com minha madrinha. Sempre ocupada. Sempre falando de si e me pedindo ajuda para alguma coisa.
Tentei conversar com meu residente. Esse sim partilhou da minha angústia e me fez sentir melhor nos 2 minutos que ficou comigo. Mas logo chamaram ele para resolver um problema e simplesmente não conseguimos nos encontrar mais.
Tentei conversar com meu ex, que sempre foi a pessoa que melhor me entendeu, que sempre me deu suporte e sempre esteve a meu lado. E tive que ouvir um: "por que você precisa tanto da opinião das pessoas? por que você não pode simplesmente viver sua vida, fazer as coisas que você acha que é certo? por que você precisa de outras pessoas?". E percebi que o passado é passado e como tal deve ser deixado lá.
Não é que eu precise da opinião, nem da aprovação de ninguém. Faço as coisas sozinha, resolvo meus problemas e os dos outros. Na maioria das vezes consigo e com sucesso. Mas me sinto sozinha e isso é algo que me entristece. Gosto de partilhar minhas alegrias e tristezas, gostaria de poder contar para alguém que passei um catéter central pela primeira vez e fui elogiada, que vi um intestino de paciente com RCU por dentro e como era bizarro, que colhi algumas gasos com sucesso e falhei em outras, que não tenho mais medo de colher sangue. Gostaria de poder ser abraçada quando vi minha paciente dando o primeiro passo para a morte, quando fiquei sabendo que a dona L.D. morreu por algo que talvez a gente agravou, que fiquei brava com meu amigo por ele ter quebrado a mão e que agora estou triste porque ele não fala mais comigo... Enfim, não poderia ser uma pessoa só para partilhar tantas coisas... ou poderia... se me amasse.
Quem me sobra é minha amiguina da casa. Acho que eu nem fazia muita diferença na vida dela antes. Mas com o tempo fui demonstrando o quanto gostava dela e o quanto poderíamos nos divertir juntas e ela foi deixando eu me aproximar. Jantamos juntas sexta e foi tão bom... Não foi tão divertido quanto ela faria ser se houvesse mais gente lá, mas foi maravilhoso. Com ela eu converso, consigo contar algumas coisas (quando temos tempo), ela me conta coisas dela. Quando ela está presente, impressionantemente, aquela minha outra amiga que mora comigo muda, passa a ouvir mais, passa a ser menos egocêntrica. Tadinha... acho que por só ter ela, acabo sobrecarregando-a. Mas pelo menos tenho ela e sou muito feliz com isso.
"O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino." Carl Gustav Jung
terça-feira, 24 de junho de 2008
Já se passaram 4 dias. Faz 4 dias que saí do hospital, que entrei de férias. E não consigo esquecer, não consigo me desvincular, não consigo seguir em frente.
Minhas férias estão servindo para 2 coisas: estudar para o próximo estágio e conseguir digerir tudo que vivi nesse mês que se passou. Sozinha.
Infelizmente, nesse momento sou médica full time. 24 horas por dia. 7 dias por semana. Penso em Medicina todo tempo, sonho com isso, leio livros sobre isso, assisto seriados na tv e reportagens sobre médicos e suas vidas.
Não sei como uma pessoa pode suportar viver assim, mas enfim... estou feliz apesar de todas essa angústia que carrego.
Não consigo esquecer minha paciente M.R. Uma senhorinha muito simpática. Chegou para nós com diagnóstico de câncer, com muitas metástases. Precisava ser operada porque estava obstruída. Nos primeiros dias em que esteve lá, percebi que ela não tinha idéia de sua doença nem da gravidade. Ela me dizia que tinha uma infecção mas que iam fazer uma cirurgia e ela ficaria curada. Fui, aos poucos conversando com ela, tentando fazê-la entender o que era e o quão grave... Mas ela simplesmente se recusava. Apesar de em alguns momentos ela perguntas, ela querer saber, quando eu começava a contar, ela mudava de assunto, perguntava outra coisa qualquer. Com o tempo fomos conversando com a família, com ela, pedi acompanhamento psicológico e ficou assim. Saí de lá na sexta sem que ela entendesse sequer que eu não voltaria mais. Falei para ela que eu estava entrando em férias e que posteriormente ia para outro serviço e ela respondeu: "tá bom, dra. te vejo depois então, te vejo segunda-feira". Nem insisti muito. Acho que no fundo ela sabia tudo, ela entendia tudo, só não estava pronta para lidar com tudo de uma vez só. Ela queria fazer a cirurgia primeiro, sobreviver, melhorar para depois lidar com a idéia de que precisaria de quimio ou radio ou que não teria muito mais tempo... E provavelmente meu "abandono" no meio daquilo tudo não era algo que ajudaria. Fico pensando agora, como poderia tê-la ajudado melhor, como poderia ter conversado mais... se não poderia passar lá para vê-la essa semana.
Minha outra paciente chegou lá muito otimista, mas com muito medo. Ela não tem nenhuma doença grave e passaria por uma cirurgia eletiva pela qual ela esperava há 3 anos. Mas ela tinha muito medo porque da última vez que ela precisou de anestesia, teve complicações, ficou um tempo em coma e depois que acordou ficou sem mexer as pernas por alguns meses. O maior medo dela era que isso acontecesse novamente.
Desde o começo, fui conversando com ela, tentando entender o que tinha acontecido da outra vez, tentando fazê-la entender que essa cirurgia era diferente e que conhecendo os acontecimentos anteriores outros cuidados seriam tomados.
No dia da cirurgia dela, ela e a família estavam muito tensos. A filha dela, estava em desespero. Sentei, conversei com elas. Garanti a minha paciente que manteria a filha dela informada. Depois, acabei dando o número do meu celular, para que ela pudesse ir para sua casa e me ligasse mais tarde para saber como estava indo a cirurgia. Sei que isso foi um erro muito perigoso, mas não sabia como confortar aquela família. Foi o jeito mais simples que encontrei. Era o que eu gostaria que tivessem feito comigo, se fosse minha mãe.
A cirurgia foi bem, ela voltou para o quarto no mesmo dia. Ela estava evoluindo muito bem, apesar de uma tosse estranha que surgiu no 1ºPO.
No meu último dia lá, à tarde, quando estava me despedindo das pessoas, fui vê-la e fiquei sabendo que ela teve um TEP. Eu não podia acreditar nisso. Não conseguia... Ela estava bem, ela estava com profilaxia, tudo certinho de manhã. E, naquela hora em que fui me despedir, ela mal podia falar com tanta falta de ar, ela mal podia respirar... Fiquei enlouquecida. Questionei os residentes, disse que devia ser outra coisa, vi e revi todos os exames.
Agora fico aqui pensando se eu não deveria ter percebido antes. Fico me perguntando por que não examinei as pernas dela, a procura de uma TVP. Eu sei, minha cabeça sabe que isso não teria mudado nada. Ela provavelmente não tinha uma TVP. Nada que eu tivesse feito ou achado mudaria a evolução, mudaria o problema ou a conduta. Nada. Mas meu coração não sabe...
Queria passar lá para vê-la, para saber como ela está hoje, para explicar para a filha dela tudo que aconteceu...
Minha terceira pacientezinha... ah, como eu a adorava! Ela está lá desde meu primeiro dia. E continua lá após meu último... Não sei se a ajudei em alguma coisa, não sei se mudei seu dia-a-dia de alguma forma. Mas eu quis. E tentei. No começo eu fugia do filho dela a todo custo. Um cara mala, que enfernizava a vida de toda a equipe. Minha sorte é que ele não sabia que ela era minha responsabilidade e eu usava isso a meu favor, para me esquivar. Mas na última semana, resolvi enfrentar. Fui lá diretamente, enfrentei, me apresentei, conversei, respondi suas perguntas tentei ajudá-lo e fazer com que ele nos ajudasse também. Fiz ele entender o quanto a presença dele ali era importante para a recuperação da mãe dele. E isso mudou alguma coisa. Nos primeiros dias após essa conversa, ela teve uma melhora considerável. Ele passou a ficar mais tempo com ela, encheu menos o saco do resto da equipe, tentou efetivamente ajudar. Mas, como isso não é um conto de fadas, como eu sou uma simples interna sem experiência, logo ficou óbvio que o que eu falava para ele, ele ia para algum médico mais velho para confirmar a informação. E não foi necessário muito tempo para ele perceber que minhas informações não eram muito precisas, que o que eu condiserava melhora, não era considerado assim pelos outros médicos, que o que eu considerava uma evolução, eles consideravam estabilização. Fui perdendo toda a credibilidade e deixando de prestar esse papel de informante, já que não estava mais ajudando em nada para a recuperação da minha paciente.
Até que... até que uns médicos mais velhos, que passam por lá uma vez por semana apenas, foram vê-la e acharam que ela estava muito mal, que tinha piorado muito. E mandaram-na para a UTI. Eu e o R2 ficamos tão putos, tão putos.... PQP!!! Eu cuido da paciente de perto, passo para examiná-la no mínimo -NO MÍNIMO- 2 vezes por dia. E um cara que vem vê-la uma vez simplesmente desconsidera nossa opinião e manda ela para UTI, onde com certeza ela vai piorar porque lá ninguém vai tirá-la da cama para caminhar, ninguém vai se preocupar em alimentá-la nem nada assim. Onde simplesmente vão enfiar um monte de tubo nela e deixá-la lá, sendo cuidada por aparelhos e especialistas... até ela pegar uma infecção e morrer de vez.
Eu a via todos os dias, várias vezes por dia. Eu sei que ela piorava muito à noite, que ela sempre acordava muito cansada. Mal. Eu via o quanto ela melhorava de dia. Via sua saturação subir a 99 em ar ambiente, via seu rosto corado e sua animação.
Sim, eu deveria ter prestado mais atenção a esses eventos noturnos, deveria ter tentado mais mudanças (tentamos algumas mas não deram certo), deveríamos ter feito mais e melhor. Mas tive minhas limitações. Não consegui.
E agora ela está lá na UTI. Esperando o pior.
E eu estou aqui pensando nela, revendo meus erros. Sonho com ela toda noite. Simplesmente não consigo me livrar desses pensamentos, dessa angústia. Não consigo.
Por isso que dizem que a gente não pode se envolver com o paciente. Você perde sua vida, sua identidade. É por isso que os mais velhos são tão frios, são tão maus às vezes.
Não quero ser fria como eles, não quero ser má e não quero parar de me envolver porque acho que sou melhor médica quando me envolvo.
Mas também não quero continuar trazendo-os para minha casa, para minhas férias, para minhas noites de sono...
Minhas férias estão servindo para 2 coisas: estudar para o próximo estágio e conseguir digerir tudo que vivi nesse mês que se passou. Sozinha.
Infelizmente, nesse momento sou médica full time. 24 horas por dia. 7 dias por semana. Penso em Medicina todo tempo, sonho com isso, leio livros sobre isso, assisto seriados na tv e reportagens sobre médicos e suas vidas.
Não sei como uma pessoa pode suportar viver assim, mas enfim... estou feliz apesar de todas essa angústia que carrego.
Não consigo esquecer minha paciente M.R. Uma senhorinha muito simpática. Chegou para nós com diagnóstico de câncer, com muitas metástases. Precisava ser operada porque estava obstruída. Nos primeiros dias em que esteve lá, percebi que ela não tinha idéia de sua doença nem da gravidade. Ela me dizia que tinha uma infecção mas que iam fazer uma cirurgia e ela ficaria curada. Fui, aos poucos conversando com ela, tentando fazê-la entender o que era e o quão grave... Mas ela simplesmente se recusava. Apesar de em alguns momentos ela perguntas, ela querer saber, quando eu começava a contar, ela mudava de assunto, perguntava outra coisa qualquer. Com o tempo fomos conversando com a família, com ela, pedi acompanhamento psicológico e ficou assim. Saí de lá na sexta sem que ela entendesse sequer que eu não voltaria mais. Falei para ela que eu estava entrando em férias e que posteriormente ia para outro serviço e ela respondeu: "tá bom, dra. te vejo depois então, te vejo segunda-feira". Nem insisti muito. Acho que no fundo ela sabia tudo, ela entendia tudo, só não estava pronta para lidar com tudo de uma vez só. Ela queria fazer a cirurgia primeiro, sobreviver, melhorar para depois lidar com a idéia de que precisaria de quimio ou radio ou que não teria muito mais tempo... E provavelmente meu "abandono" no meio daquilo tudo não era algo que ajudaria. Fico pensando agora, como poderia tê-la ajudado melhor, como poderia ter conversado mais... se não poderia passar lá para vê-la essa semana.
Minha outra paciente chegou lá muito otimista, mas com muito medo. Ela não tem nenhuma doença grave e passaria por uma cirurgia eletiva pela qual ela esperava há 3 anos. Mas ela tinha muito medo porque da última vez que ela precisou de anestesia, teve complicações, ficou um tempo em coma e depois que acordou ficou sem mexer as pernas por alguns meses. O maior medo dela era que isso acontecesse novamente.
Desde o começo, fui conversando com ela, tentando entender o que tinha acontecido da outra vez, tentando fazê-la entender que essa cirurgia era diferente e que conhecendo os acontecimentos anteriores outros cuidados seriam tomados.
No dia da cirurgia dela, ela e a família estavam muito tensos. A filha dela, estava em desespero. Sentei, conversei com elas. Garanti a minha paciente que manteria a filha dela informada. Depois, acabei dando o número do meu celular, para que ela pudesse ir para sua casa e me ligasse mais tarde para saber como estava indo a cirurgia. Sei que isso foi um erro muito perigoso, mas não sabia como confortar aquela família. Foi o jeito mais simples que encontrei. Era o que eu gostaria que tivessem feito comigo, se fosse minha mãe.
A cirurgia foi bem, ela voltou para o quarto no mesmo dia. Ela estava evoluindo muito bem, apesar de uma tosse estranha que surgiu no 1ºPO.
No meu último dia lá, à tarde, quando estava me despedindo das pessoas, fui vê-la e fiquei sabendo que ela teve um TEP. Eu não podia acreditar nisso. Não conseguia... Ela estava bem, ela estava com profilaxia, tudo certinho de manhã. E, naquela hora em que fui me despedir, ela mal podia falar com tanta falta de ar, ela mal podia respirar... Fiquei enlouquecida. Questionei os residentes, disse que devia ser outra coisa, vi e revi todos os exames.
Agora fico aqui pensando se eu não deveria ter percebido antes. Fico me perguntando por que não examinei as pernas dela, a procura de uma TVP. Eu sei, minha cabeça sabe que isso não teria mudado nada. Ela provavelmente não tinha uma TVP. Nada que eu tivesse feito ou achado mudaria a evolução, mudaria o problema ou a conduta. Nada. Mas meu coração não sabe...
Queria passar lá para vê-la, para saber como ela está hoje, para explicar para a filha dela tudo que aconteceu...
Minha terceira pacientezinha... ah, como eu a adorava! Ela está lá desde meu primeiro dia. E continua lá após meu último... Não sei se a ajudei em alguma coisa, não sei se mudei seu dia-a-dia de alguma forma. Mas eu quis. E tentei. No começo eu fugia do filho dela a todo custo. Um cara mala, que enfernizava a vida de toda a equipe. Minha sorte é que ele não sabia que ela era minha responsabilidade e eu usava isso a meu favor, para me esquivar. Mas na última semana, resolvi enfrentar. Fui lá diretamente, enfrentei, me apresentei, conversei, respondi suas perguntas tentei ajudá-lo e fazer com que ele nos ajudasse também. Fiz ele entender o quanto a presença dele ali era importante para a recuperação da mãe dele. E isso mudou alguma coisa. Nos primeiros dias após essa conversa, ela teve uma melhora considerável. Ele passou a ficar mais tempo com ela, encheu menos o saco do resto da equipe, tentou efetivamente ajudar. Mas, como isso não é um conto de fadas, como eu sou uma simples interna sem experiência, logo ficou óbvio que o que eu falava para ele, ele ia para algum médico mais velho para confirmar a informação. E não foi necessário muito tempo para ele perceber que minhas informações não eram muito precisas, que o que eu condiserava melhora, não era considerado assim pelos outros médicos, que o que eu considerava uma evolução, eles consideravam estabilização. Fui perdendo toda a credibilidade e deixando de prestar esse papel de informante, já que não estava mais ajudando em nada para a recuperação da minha paciente.
Até que... até que uns médicos mais velhos, que passam por lá uma vez por semana apenas, foram vê-la e acharam que ela estava muito mal, que tinha piorado muito. E mandaram-na para a UTI. Eu e o R2 ficamos tão putos, tão putos.... PQP!!! Eu cuido da paciente de perto, passo para examiná-la no mínimo -NO MÍNIMO- 2 vezes por dia. E um cara que vem vê-la uma vez simplesmente desconsidera nossa opinião e manda ela para UTI, onde com certeza ela vai piorar porque lá ninguém vai tirá-la da cama para caminhar, ninguém vai se preocupar em alimentá-la nem nada assim. Onde simplesmente vão enfiar um monte de tubo nela e deixá-la lá, sendo cuidada por aparelhos e especialistas... até ela pegar uma infecção e morrer de vez.
Eu a via todos os dias, várias vezes por dia. Eu sei que ela piorava muito à noite, que ela sempre acordava muito cansada. Mal. Eu via o quanto ela melhorava de dia. Via sua saturação subir a 99 em ar ambiente, via seu rosto corado e sua animação.
Sim, eu deveria ter prestado mais atenção a esses eventos noturnos, deveria ter tentado mais mudanças (tentamos algumas mas não deram certo), deveríamos ter feito mais e melhor. Mas tive minhas limitações. Não consegui.
E agora ela está lá na UTI. Esperando o pior.
E eu estou aqui pensando nela, revendo meus erros. Sonho com ela toda noite. Simplesmente não consigo me livrar desses pensamentos, dessa angústia. Não consigo.
Por isso que dizem que a gente não pode se envolver com o paciente. Você perde sua vida, sua identidade. É por isso que os mais velhos são tão frios, são tão maus às vezes.
Não quero ser fria como eles, não quero ser má e não quero parar de me envolver porque acho que sou melhor médica quando me envolvo.
Mas também não quero continuar trazendo-os para minha casa, para minhas férias, para minhas noites de sono...
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Mais um estágio termina. E com ele, o semestre.
Esse foi, sem dúvida, meu melhor mês da faculdade até agora. Pela primeira vez me senti médica, fiz coisas que médicos fazem, assumi responsabilidades, procedimentos... Não aprendi quase nada teórico, como esperava. Mas passei um mês numa enfermaria aprendendo o que é ser médico.
- Aprendi a colher sangue e finalmente perdi o medo. Colhi gasos (ainda não com muito sucesso, mas já saberia me virar). Passei um cateter central direitinho (até o último dia do estágio ouvi elogios por isso).
- Aprendi que não se deve dar boas notícias precocemente. É sempre melhor preparar para o mal (mesmo quando você sabe que a probabilidade é pequena). Eu já sabia isso na teoria, mas quando me deparei com a situação de conversar com uma família, acabei metendo os pés pelas mãos. Duas vezes seguidas.
- Aprendi que não sou boa em reconhecer a piora dos pacientes. Tenho tendência de achar que eles estão sempre melhores. Tenho a tendência de suprimir meu sexto sentido que diz que algo não vai bem e fechar os olhos. Meus colegas acham que isso se aprende com o tempo e a experiência, mas eu acho que não é um aprendizado, mas sim uma capacidade. Capacidade de lidar com meu próprio medo do que está por vir, lidar com a frustração de saber que nem tudo está indo tão bem quanto eu gostaria.
Uma das minhas pacientes ontem estava com muita falta de ar. Mas ela sempre esteve com falta de ar. Alguma coisa me dizia que dessa vez era diferente. Tive medo. Suprimi. 2 horas depois ela estava na UTI. Péssimo. Tenho um pressentimento de que ela não sairá mais de lá. Tomara que eu esteja errada de novo.
Fui ao quarto de uma outra paciente hoje. Achei ela diferente, estranha. Mas suprimi. O exame físico estava normal, não tinha queixa, exames lab normais. À tarde passei lá pra vê-la e fui informada que ela teve um TEP. Ainda não consegui processar essa informação. Não consigo aceitar/acreditar. Mas sei que é totalmente possível e provável. Ela tinha todos os fatores de risco e mais um pouco. Todos os cuidados que tomamos não foram suficientes... e eu não consegui processar a informação da possibilidade e da percepção para diagnosticar.
Mas continuando com os acontecimentos do mês:
- Briguei com um dos meus melhores amigos. Ele fez a cacada, não teve coragem de assumir, quase me prejudicou por isso e ficou magoado porque dei uma baita bronca nele. Ele simplesmente não fala mais comigo, apesar das minhas tentativas frustradas de contato. Acabei desistindo. Acabei me cansando de ser ignorada e parei de tentar falar com ele. Aí, acho que ele se arrependeu e não soube mais como voltar a falar comigo sem ter que tocar nesse assunto. Agora estamos nesse ponto. Ninguém sabe como fazer parar. Nenhum dos dois sabe como deixar passar sem mais mágoas.
- Me apaixonei (mas essa história fica para o próximo post)
- Convivi com homens lindos, inteligentes, médicos e comprometidos... que estavam no cio. Eles não podiam ver uma mulher bonita que já ficavam todos se contorcendo, fazendo comentários escrotos. Eles nem ligavam que eu estava presente. Homens são simplesmente homens.
- Fiquei sabendo que sou comum. Ou tenho um rosto comum. Primeiro, começaram a me confundir com uma residente da minha equipe. Depois, as equipes todas começaram a me chamar de Inezinha, dizendo que eu era a cara de uma outra residente. Até chegar ao cúmulo de pararem uma "convenção" porque sentei do lado dela e todo mundo se impressionou com a semelhança. Simplesmente o anfiteatro inteiro parou para comentar. E hoje, para terminar, algumas enfermeiras que estavam comentando que eu era muito parecida com a Luciana (???), disseram que tenho um rosto comum.
O que me tranquiliza é que as duas residentes com quem me confundiam são consideradas muito bonitas pelos meus residentes no cio.
- Confirmei a importância das enfermeiras para nossa profissão. Se não fossem elas teríamos demorado muito mais para diagnosticar algumas intercorrências. Diagnosticaríamos e trataríamos da mesma forma, mas talvez num momento de maior gravidade. Teve um dia que a enfermeira veio pedir para olharmos o dreno de um paciente de 1º PO. Ela disse que estava hemático, perguntou se já tínhamos visto. Os residentes: "Imagina, tá sero-hemático, a gente acabou de olhar, não exagera e pára de assustar a gente, vai!". Ela insistiu, pediu que eles fossem lá ver de novo... O rapaz simplesmente tinha tido uma hemorragia interna naquele instante. Foi reoperado no mesmo dia. Grave.
No outro dia, a outra enfermeira veio me dizer que minha paciente estava rebaixada. E eu: "imagina, ela não tá não, falei com ela agora pouco e ela estava normal". E ela insistiu, pediu que eu fosse lá ver de novo. Óbvio que ela estava rebaixada. Toda a razão para as enfermeiras tão pouco valorizadas.
Esse foi, sem dúvida, meu melhor mês da faculdade até agora. Pela primeira vez me senti médica, fiz coisas que médicos fazem, assumi responsabilidades, procedimentos... Não aprendi quase nada teórico, como esperava. Mas passei um mês numa enfermaria aprendendo o que é ser médico.
- Aprendi a colher sangue e finalmente perdi o medo. Colhi gasos (ainda não com muito sucesso, mas já saberia me virar). Passei um cateter central direitinho (até o último dia do estágio ouvi elogios por isso).
- Aprendi que não se deve dar boas notícias precocemente. É sempre melhor preparar para o mal (mesmo quando você sabe que a probabilidade é pequena). Eu já sabia isso na teoria, mas quando me deparei com a situação de conversar com uma família, acabei metendo os pés pelas mãos. Duas vezes seguidas.
- Aprendi que não sou boa em reconhecer a piora dos pacientes. Tenho tendência de achar que eles estão sempre melhores. Tenho a tendência de suprimir meu sexto sentido que diz que algo não vai bem e fechar os olhos. Meus colegas acham que isso se aprende com o tempo e a experiência, mas eu acho que não é um aprendizado, mas sim uma capacidade. Capacidade de lidar com meu próprio medo do que está por vir, lidar com a frustração de saber que nem tudo está indo tão bem quanto eu gostaria.
Uma das minhas pacientes ontem estava com muita falta de ar. Mas ela sempre esteve com falta de ar. Alguma coisa me dizia que dessa vez era diferente. Tive medo. Suprimi. 2 horas depois ela estava na UTI. Péssimo. Tenho um pressentimento de que ela não sairá mais de lá. Tomara que eu esteja errada de novo.
Fui ao quarto de uma outra paciente hoje. Achei ela diferente, estranha. Mas suprimi. O exame físico estava normal, não tinha queixa, exames lab normais. À tarde passei lá pra vê-la e fui informada que ela teve um TEP. Ainda não consegui processar essa informação. Não consigo aceitar/acreditar. Mas sei que é totalmente possível e provável. Ela tinha todos os fatores de risco e mais um pouco. Todos os cuidados que tomamos não foram suficientes... e eu não consegui processar a informação da possibilidade e da percepção para diagnosticar.
Mas continuando com os acontecimentos do mês:
- Briguei com um dos meus melhores amigos. Ele fez a cacada, não teve coragem de assumir, quase me prejudicou por isso e ficou magoado porque dei uma baita bronca nele. Ele simplesmente não fala mais comigo, apesar das minhas tentativas frustradas de contato. Acabei desistindo. Acabei me cansando de ser ignorada e parei de tentar falar com ele. Aí, acho que ele se arrependeu e não soube mais como voltar a falar comigo sem ter que tocar nesse assunto. Agora estamos nesse ponto. Ninguém sabe como fazer parar. Nenhum dos dois sabe como deixar passar sem mais mágoas.
- Me apaixonei (mas essa história fica para o próximo post)
- Convivi com homens lindos, inteligentes, médicos e comprometidos... que estavam no cio. Eles não podiam ver uma mulher bonita que já ficavam todos se contorcendo, fazendo comentários escrotos. Eles nem ligavam que eu estava presente. Homens são simplesmente homens.
- Fiquei sabendo que sou comum. Ou tenho um rosto comum. Primeiro, começaram a me confundir com uma residente da minha equipe. Depois, as equipes todas começaram a me chamar de Inezinha, dizendo que eu era a cara de uma outra residente. Até chegar ao cúmulo de pararem uma "convenção" porque sentei do lado dela e todo mundo se impressionou com a semelhança. Simplesmente o anfiteatro inteiro parou para comentar. E hoje, para terminar, algumas enfermeiras que estavam comentando que eu era muito parecida com a Luciana (???), disseram que tenho um rosto comum.
O que me tranquiliza é que as duas residentes com quem me confundiam são consideradas muito bonitas pelos meus residentes no cio.
- Confirmei a importância das enfermeiras para nossa profissão. Se não fossem elas teríamos demorado muito mais para diagnosticar algumas intercorrências. Diagnosticaríamos e trataríamos da mesma forma, mas talvez num momento de maior gravidade. Teve um dia que a enfermeira veio pedir para olharmos o dreno de um paciente de 1º PO. Ela disse que estava hemático, perguntou se já tínhamos visto. Os residentes: "Imagina, tá sero-hemático, a gente acabou de olhar, não exagera e pára de assustar a gente, vai!". Ela insistiu, pediu que eles fossem lá ver de novo... O rapaz simplesmente tinha tido uma hemorragia interna naquele instante. Foi reoperado no mesmo dia. Grave.
No outro dia, a outra enfermeira veio me dizer que minha paciente estava rebaixada. E eu: "imagina, ela não tá não, falei com ela agora pouco e ela estava normal". E ela insistiu, pediu que eu fosse lá ver de novo. Óbvio que ela estava rebaixada. Toda a razão para as enfermeiras tão pouco valorizadas.
sábado, 14 de junho de 2008
Hoje percebi que não. Não nasci para ser cirurgiã, não estou disposta a ter essa vida, eu simplesmente não caberia nesse mundo.
Aprendi da pior maneira que para ser um cirurgião, você precisa colocar sua carreira profissional em primeiro lugar (acima de sua família, de seus amigos, de você mesmo, de qualquer outra coisa/pessoa, inclusive de seus pacientes). Além disso, você tem que aprender a não se importar com o prejuízo/chateação que você causa para os outros por causa da sua profissão. Tem gente que nasceu não se importando mesmo... mas para os que se importam minimamente, se não aprenderem a parar de se importar, serão infelizes para o resto da vida, continuarão mantendo os outros ao seu redor infelizes e, ainda por cima, serão cirurgiões ruins.
Falando assim até parece uma coisa horrível, absurda. Mas as pessoas passam a concordar com isso quando pensam em si mesmas como pacientes. Imagina só, por exemplo: você é submetido a uma cirurgia por apendicite. Um procedimento razoavelmente simples, mas de urgência e que envolve riscos. Você é operado por um cirurgião que você gosta e confia, é internado num hospital bom, tudo certo, mas você não conhece nenhum outro médico do lugar. De repente, às 23h da noite você tem uma hemorragia, começa a sangrar horrores. Qual a primeira coisa que você vai pedir? "Chamem o dr. fulano, rápido, quero que ele esteja aqui se acontecer qualquer coisa". Não importa se hoje é aniversário do filho dele, ou se ele combinou de jantar com a esposa dele, ou se ele está cansado depois de um dia inteiro de trabalho. Não importa se ele se comprometeu a ajudar seu primo ou se ele vai ter que pegar o carro de seu vizinho doente emprestado porque o dele quebrou (e se o vizinho tiver alguma intercorrência vai ter que chamar uma ambulância e rezar para ela chegar antes dele morrer). Nada importa. É a sua vida que está em risco e você e todos os seus familiares vão querer o melhor atendimento do médico em quem mais confiam. Ponto final.
Sendo assim, cada paciente que o dr. fulano atende, se ele for bom, vai querer ele sempre por perto para que ele resolva eventuais problemas, principalmente os mais sérios. Hoje é você. Amanhã é o João, no dia seguinte o José, depois a Maria, o Pedro, a Vanessa, o Augusto, o Frederico, a Ofélia, a Neusa etc etc etc.
Não nasci pra isso. Não estou disposta a prejudicar outras pessoas para me dar bem na minha carreira (o prejudicar não faz parte do meu exemplo, apenas algo do qual fui vítima hoje). Não estou disposta a largar meu filho doente em casa para resolver o problema de outra pessoa.
Sim, escolhi ser médica e terei que fazer isso eventualmente independente da especialidade que escolher. Mas, pelo que tenho vivido esses meses, cirurgião faz isso (largar tudo e todos para resolver algo relacionado a sua carreira/seus pacientes) pelo menos 3 vezes por semana. Pelo menos...
Menos um problema na minha vida. Mais uma coisa para aprender: como conviver com meus amigos futuros cirurgiões, ser prejudicada e/ou ferida por eles, e aceitar, e perdoar...
Aprendi da pior maneira que para ser um cirurgião, você precisa colocar sua carreira profissional em primeiro lugar (acima de sua família, de seus amigos, de você mesmo, de qualquer outra coisa/pessoa, inclusive de seus pacientes). Além disso, você tem que aprender a não se importar com o prejuízo/chateação que você causa para os outros por causa da sua profissão. Tem gente que nasceu não se importando mesmo... mas para os que se importam minimamente, se não aprenderem a parar de se importar, serão infelizes para o resto da vida, continuarão mantendo os outros ao seu redor infelizes e, ainda por cima, serão cirurgiões ruins.
Falando assim até parece uma coisa horrível, absurda. Mas as pessoas passam a concordar com isso quando pensam em si mesmas como pacientes. Imagina só, por exemplo: você é submetido a uma cirurgia por apendicite. Um procedimento razoavelmente simples, mas de urgência e que envolve riscos. Você é operado por um cirurgião que você gosta e confia, é internado num hospital bom, tudo certo, mas você não conhece nenhum outro médico do lugar. De repente, às 23h da noite você tem uma hemorragia, começa a sangrar horrores. Qual a primeira coisa que você vai pedir? "Chamem o dr. fulano, rápido, quero que ele esteja aqui se acontecer qualquer coisa". Não importa se hoje é aniversário do filho dele, ou se ele combinou de jantar com a esposa dele, ou se ele está cansado depois de um dia inteiro de trabalho. Não importa se ele se comprometeu a ajudar seu primo ou se ele vai ter que pegar o carro de seu vizinho doente emprestado porque o dele quebrou (e se o vizinho tiver alguma intercorrência vai ter que chamar uma ambulância e rezar para ela chegar antes dele morrer). Nada importa. É a sua vida que está em risco e você e todos os seus familiares vão querer o melhor atendimento do médico em quem mais confiam. Ponto final.
Sendo assim, cada paciente que o dr. fulano atende, se ele for bom, vai querer ele sempre por perto para que ele resolva eventuais problemas, principalmente os mais sérios. Hoje é você. Amanhã é o João, no dia seguinte o José, depois a Maria, o Pedro, a Vanessa, o Augusto, o Frederico, a Ofélia, a Neusa etc etc etc.
Não nasci pra isso. Não estou disposta a prejudicar outras pessoas para me dar bem na minha carreira (o prejudicar não faz parte do meu exemplo, apenas algo do qual fui vítima hoje). Não estou disposta a largar meu filho doente em casa para resolver o problema de outra pessoa.
Sim, escolhi ser médica e terei que fazer isso eventualmente independente da especialidade que escolher. Mas, pelo que tenho vivido esses meses, cirurgião faz isso (largar tudo e todos para resolver algo relacionado a sua carreira/seus pacientes) pelo menos 3 vezes por semana. Pelo menos...
Menos um problema na minha vida. Mais uma coisa para aprender: como conviver com meus amigos futuros cirurgiões, ser prejudicada e/ou ferida por eles, e aceitar, e perdoar...
sábado, 31 de maio de 2008
Claaaaaro que deveria estar estudando... Mas não estou. Não abri o livro sequer por um segundo hoje.
Se me sinto culpada?
Claro! Sou pressionada a estudar a cada 5 minutos de folga que tiver, no fim de semana inteiro (quando não estiver de plantão), durante as madrugadas...
Mas não me arrependo. Fazia tempo que não me sentia tão cansada. Precisava de um tempo para mim hoje.
Essa semana morreu uma tia minha. Irmã da minha vó. Eu não tinha muito contato com ela, mas simplesmente me ligaram avisando que eu era a parente mais próximas apta a cuidar da burocracia. Fiquei desesperada.
Ela nunca se casou, não tem filhos, suas duas únicas irmãs vivas estão idosas e doentes. Meu tios moram em outras cidades. Meu pai tinha acabado de pegar um avião para o sul. Meu irmão sumiu.
E eu estava no hospital, com um monte de responsabilidades, com minha paciente com a barriga aberta (não que eu fosse importante para a cirurgia dela, mas eu queria estar lá... eu prometi que estaria...). Entrei em parafusos. Desespero total.
Mas no fim, depois de muito estresse, muitos cabelos arrancados, muitos telefonemas... consegui participar da cirurgia, depois fui liberada e resolvi as coisas (com ajuda de um adulto responsável, claro). Mais foi muito estressante. Momentos de tensão absurda.
É muito difícil virar gente grande.
E tudo acabou com minha vó deprimida, um pouco mais surda que antes (???) e com piora da coréia que ela tem por efeito colateral das medicações que toma. Fico preocupada, mas não sei o que fazer...
Fui para enfermaria hoje de manhã (sábado, sim!). Para minha felicidade (claro que estou sendo irônica) os residentes resolveram trocar de estágio justo antes do fim de semana - todos eles juntos. Estava eu lá, interna perdida, a única que conhecia os casos (conhecia os meus - os outros 8 eu sabia muito mal e porcamente), tentando explicar para os perdidos "more" quem era quem e porque tal prescrição era de tal jeito, tal controle estava assim ou assado, tal dreno estava sem vácuo, tal paciente tinha trocado de leito etc etc etc. Justo eu... (sem falar que deixei todos eles irem embora e esqueci - simplesmente esqueci - de perguntar umas 4 coisas que faltavam... quando lembrei, estava eu sozinha na enfermaria, sem carimbo e sem um cérebro adequado, para resolver os problemas dos pacientes - saí correndo pelo hospital na esperança de encontrar uma boa alma, um bom cérebro com um carimbo que se dispusesse a me ajudar sem me dedurar para os residentes depois).
Cheguei em casa (quase não cheguei porque simplesmente morri ao entrar no ônibus e quase perdi o ponto), caí na cama e só acordei às 18h, com o telefone tocando. Fiquei assistindo tv, lendo meu livro, conversando com minha vó...
E depois entrei no orkut e fiquei fuçando algumas comunidades de colégios onde estudei e pessoas que conheci há muitos anos.
É incrível como as coisas mudam, né?!
Quando era pequena, do maternal à 4ª série estudei num colégio muito bom (na época), mas muito caro. Saí de lá porque meus pais não podiam mais pagar. Mas antes de sair, minha mãe foi conversar com o diretor para pedir uma bolsa de estudos para nós. Afinal, eu era uma aluna razoável, nunca dei problemas para o colégio (não se pode dizer o mesmo do meu irmão, mas enfim)... O diretor recusou a bolsa, dando a entender que não éramos alunos em quem valia a pena investir.
Minha mãe ficou muito chateada na época. Eu, apesar de criança, fiquei com muita raiva e, de certa forma, entendi aquilo como um "você não é e nunca será boa o suficiente".
Fui para um outro colégio. Periferia total. Mas muito mais educativo. Fui bem recebida e bem tratada. Tenho amigos de lá até hoje.
No colegial, fui fazer técnico em outro colégio. Mais central, mais desorganizado, menos educador. Eu era a melhor amiga da melhor aluna da época. Ela até ganhou uma medalha de ouro no final do 1º colegial por ser tão boa e dar tanto orgulho para o colégio. E eu, na mesma cerimônia, ganhei uma caneta branca (daquelas que vendem em camelô, sabe?), só para não ficar chato. Afinal, nós duas estávamos sempre juntas, fazíamos trabalho juntas, o projeto que fez sucesso na época foi liderado por nós duas. Mas ela era mais talentosa, mais inteligente, mais simpática, mais popular. E eu, uma sombra...
Olhando para tudo isso hoje, me orgulho de mim, de até onde consegui chegar. Eu tinha potencial para ser apenas uma pessoa comum de classe média baixa, com um currículo mediano (faculdade particular sem vestibular, curso medíocre, trabalho braçal, emprego-desemprego para o resto da vida).
Mas venci.
Vou me formar médica o ano que vem, em uma das melhores faculdades do país, seguir uma carreira boa, sem nunca ficar desempregada, sem ter que me submeter a entrevistas humilhantes de empregos e chefes abusivos.
Sem ter me formado ainda, tenho um ótimo currículo, alguns trabalhos internacionais publicados, participações em congressos, organizações de eventos nacionais...
E os outros do passado, como estão hoje?
O colégio que me recusou como bolsistas é atualmente um dos piores da região, mas continua cobrando caro. Poucos alunos que se formam lá fazem faculdade de qualidade, a maioria cai na vida para se virar. A melhor aluna da minha sala naquela época (para quem nunca recusariam uma bolsa) virou crente, casou com um pastor e vive disso.
Aquela minha amiga que ganhou a medalha, considerou-se boa demais para ficar estudando para prestar vestibular, teve muitos problemas sérios na vida, ainda não conseguiu se formar numa faculdade meia-boca onde conseguiu entrar e está prestes a se casar com um traste com o qual ela namora há 5 anos (ele não estuda, não trabalha, vive de "bico" e dependente dela). Até hoje é minha amiga e sempre que me vê ela diz "falo todos os dias para minha irmã menor se espelhar em você e nunca em mim... se eu pudesse voltar no tempo seguiria seus conselhos, seu exemplo... como fui burra".
O mundo dá volta.
Nada como a força de vontade, a superação, a perseverança para nos ajudar a crescer, a melhorar, a provar para nós mesmos que não somos tão ruins como os outros tentam fazer a gente acreditar.
Se me sinto culpada?
Claro! Sou pressionada a estudar a cada 5 minutos de folga que tiver, no fim de semana inteiro (quando não estiver de plantão), durante as madrugadas...
Mas não me arrependo. Fazia tempo que não me sentia tão cansada. Precisava de um tempo para mim hoje.
Essa semana morreu uma tia minha. Irmã da minha vó. Eu não tinha muito contato com ela, mas simplesmente me ligaram avisando que eu era a parente mais próximas apta a cuidar da burocracia. Fiquei desesperada.
Ela nunca se casou, não tem filhos, suas duas únicas irmãs vivas estão idosas e doentes. Meu tios moram em outras cidades. Meu pai tinha acabado de pegar um avião para o sul. Meu irmão sumiu.
E eu estava no hospital, com um monte de responsabilidades, com minha paciente com a barriga aberta (não que eu fosse importante para a cirurgia dela, mas eu queria estar lá... eu prometi que estaria...). Entrei em parafusos. Desespero total.
Mas no fim, depois de muito estresse, muitos cabelos arrancados, muitos telefonemas... consegui participar da cirurgia, depois fui liberada e resolvi as coisas (com ajuda de um adulto responsável, claro). Mais foi muito estressante. Momentos de tensão absurda.
É muito difícil virar gente grande.
E tudo acabou com minha vó deprimida, um pouco mais surda que antes (???) e com piora da coréia que ela tem por efeito colateral das medicações que toma. Fico preocupada, mas não sei o que fazer...
Fui para enfermaria hoje de manhã (sábado, sim!). Para minha felicidade (claro que estou sendo irônica) os residentes resolveram trocar de estágio justo antes do fim de semana - todos eles juntos. Estava eu lá, interna perdida, a única que conhecia os casos (conhecia os meus - os outros 8 eu sabia muito mal e porcamente), tentando explicar para os perdidos "more" quem era quem e porque tal prescrição era de tal jeito, tal controle estava assim ou assado, tal dreno estava sem vácuo, tal paciente tinha trocado de leito etc etc etc. Justo eu... (sem falar que deixei todos eles irem embora e esqueci - simplesmente esqueci - de perguntar umas 4 coisas que faltavam... quando lembrei, estava eu sozinha na enfermaria, sem carimbo e sem um cérebro adequado, para resolver os problemas dos pacientes - saí correndo pelo hospital na esperança de encontrar uma boa alma, um bom cérebro com um carimbo que se dispusesse a me ajudar sem me dedurar para os residentes depois).
Cheguei em casa (quase não cheguei porque simplesmente morri ao entrar no ônibus e quase perdi o ponto), caí na cama e só acordei às 18h, com o telefone tocando. Fiquei assistindo tv, lendo meu livro, conversando com minha vó...
E depois entrei no orkut e fiquei fuçando algumas comunidades de colégios onde estudei e pessoas que conheci há muitos anos.
É incrível como as coisas mudam, né?!
Quando era pequena, do maternal à 4ª série estudei num colégio muito bom (na época), mas muito caro. Saí de lá porque meus pais não podiam mais pagar. Mas antes de sair, minha mãe foi conversar com o diretor para pedir uma bolsa de estudos para nós. Afinal, eu era uma aluna razoável, nunca dei problemas para o colégio (não se pode dizer o mesmo do meu irmão, mas enfim)... O diretor recusou a bolsa, dando a entender que não éramos alunos em quem valia a pena investir.
Minha mãe ficou muito chateada na época. Eu, apesar de criança, fiquei com muita raiva e, de certa forma, entendi aquilo como um "você não é e nunca será boa o suficiente".
Fui para um outro colégio. Periferia total. Mas muito mais educativo. Fui bem recebida e bem tratada. Tenho amigos de lá até hoje.
No colegial, fui fazer técnico em outro colégio. Mais central, mais desorganizado, menos educador. Eu era a melhor amiga da melhor aluna da época. Ela até ganhou uma medalha de ouro no final do 1º colegial por ser tão boa e dar tanto orgulho para o colégio. E eu, na mesma cerimônia, ganhei uma caneta branca (daquelas que vendem em camelô, sabe?), só para não ficar chato. Afinal, nós duas estávamos sempre juntas, fazíamos trabalho juntas, o projeto que fez sucesso na época foi liderado por nós duas. Mas ela era mais talentosa, mais inteligente, mais simpática, mais popular. E eu, uma sombra...
Olhando para tudo isso hoje, me orgulho de mim, de até onde consegui chegar. Eu tinha potencial para ser apenas uma pessoa comum de classe média baixa, com um currículo mediano (faculdade particular sem vestibular, curso medíocre, trabalho braçal, emprego-desemprego para o resto da vida).
Mas venci.
Vou me formar médica o ano que vem, em uma das melhores faculdades do país, seguir uma carreira boa, sem nunca ficar desempregada, sem ter que me submeter a entrevistas humilhantes de empregos e chefes abusivos.
Sem ter me formado ainda, tenho um ótimo currículo, alguns trabalhos internacionais publicados, participações em congressos, organizações de eventos nacionais...
E os outros do passado, como estão hoje?
O colégio que me recusou como bolsistas é atualmente um dos piores da região, mas continua cobrando caro. Poucos alunos que se formam lá fazem faculdade de qualidade, a maioria cai na vida para se virar. A melhor aluna da minha sala naquela época (para quem nunca recusariam uma bolsa) virou crente, casou com um pastor e vive disso.
Aquela minha amiga que ganhou a medalha, considerou-se boa demais para ficar estudando para prestar vestibular, teve muitos problemas sérios na vida, ainda não conseguiu se formar numa faculdade meia-boca onde conseguiu entrar e está prestes a se casar com um traste com o qual ela namora há 5 anos (ele não estuda, não trabalha, vive de "bico" e dependente dela). Até hoje é minha amiga e sempre que me vê ela diz "falo todos os dias para minha irmã menor se espelhar em você e nunca em mim... se eu pudesse voltar no tempo seguiria seus conselhos, seu exemplo... como fui burra".
O mundo dá volta.
Nada como a força de vontade, a superação, a perseverança para nos ajudar a crescer, a melhorar, a provar para nós mesmos que não somos tão ruins como os outros tentam fazer a gente acreditar.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Dúvidas que podem mudar uma vida... ou várias...
Entrei na cirurgia da minha paciente hoje de manhã. Quando cheguei, já tinha começado. Ela estava lá com a barriga aberta e os cirurgiões tentando decidir o que fariam com alguns achados inesperados.
Pensei muito nessa paciente nesses dias. Ela é uma senhorinha de 80 anos, com algumas comorbidades meio sérias mas com uma doença que seria de fácil correção. Ela estava muito em dúvida se deveria operar ou não, ficou com medo de morrer (claro! todo mundo que vai ser submetido a uma cirurgia tem medo), medo de piorar sua vida após, de ter uma recuperação muito difícil.
Um dia vinha um cirurgião e dizia pra ela que ela precisava operar, que o risco de ela ficar com aquela doença e ter complicações sérias e ter que operar de emergência era alto, que seria pior se ela não operasse.
Outro dia vinha outro e dizia que o risco da cirurgia era muito maior, que ela passaria muito tempo na UTI depois, que era melhor ela ir pra casa.
E depois aparecia um outro e sugeria que ela fosse pra casa pensar, conversasse com os médicos dela e depois voltasse se decidisse operar. Que a escolha era dela.
Cada dia vinha um e falava uma coisa diferente... Isso quando não vinham os 3 nos mesmo dia (um de cada vez, claro) e falavam essas coisas incoerentes, deixando a cabeça da mulher girando...
No meio dessa confusão, eu, simples interna, que a acompanhava diariamente, explicava o melhor que eu sabia sobre a cirurgia, os riscos e a recuperação, estimulava ela a conversar com médicos que a conheciam a mais tempo, que já a acompanhava antes, mas ficava em cima do muro quando ela perguntava minha opinião pessoal (eu achava que ela devia operar sim, mas claro que não iria dizer isso porque tenho ínfimos conhecimentos para dar uma opinião tão importante na vida, ou morte, de alguém - mas acho que no fundo, ela acabava percebendo o que eu pensava a respeito).
Enfim, ela decidiu fazer a cirurgia, acreditando (ela, eu e os médicos) que seria o melhor para ela. Mas... mas... mas ao entrar em campo hoje, ao ver a barriga dela aberta, tudo que a gente encontrou lá dentro e tudo que tivemos que fazer... Me arrependi amargamente da minha opinião. Não conseguia esquecer a cara dela de medo do dia anterior... não conseguia parar de pensar em como seria a recuperação dela (com certeza muito pior do que imaginei). Foi muito duro.
Acho que ela vai sair dessa. Vai demorar um pouco para se recuperar mas vai conseguir. Mas fico pensando... será mesmo que ela deveria ter operado? Como eu podia ter uma opinião formada sobre isso antes? Como a gente pode interferir tanto? Como a gente pode causar tal mudança na vida de uma pessoa? Tal risco? Como a gente pode brincar de Deus desse jeito, decidindo o que é pior ou melhor, o que é mais ou menos arriscado?
O pior é que acho que os cirurgiões não tem muita noção do tamanho disso. Acho que no dia-a-dia do trabalho (que é muito duro, muito estressante, muito cansativo) eles se esquecem do quanto estão interferindo na vida da pessoa (pelo menos, os cirurgiões mais novos, com os quais tenho contato). Preocupante...
Paralelamente a todas essas emoções de hoje, voltei a pensar na possibilidade de fazer cirurgia. Meu maior argumento para não fazer, além de ter essa responsabilidade gigantesca nas mãos, é porque acho que essa especialidade vai despertar o que de pior há em mim (meu lado egocêntrica, que quer aparecer, maldosa com os mais novos/"fracos", brincar de Deus - características que eu sei que existem em mim e com as quais tento lidar para ser uma pessoa boa). Além disso, penso na vida que os cirurgiões levam que de qualidade (tempo, família) não tem nada...
Mas comecei a pensar que posso lutar contra essas coisas, principalmente contra esses sentimentos ruins. Olha só: eu poderia ser cirurgiã pediátrica (porque a pediatria corre no meu sangue e não há como negar isso), trabalhar duro para melhorar o serviço do hospital (que atualmente é administrado por um troglodita horroroso). Poderia mudar o que tem de ruim, passar a fazer maior contato entre a clínica e a cirurgia na pediatria, tentar melhorar o ambiente de lá, a graduação... nossa! muitas coisas para fazer, mudar, reconstruir... Muitas idéias.
Mas para isso eu teria que fortalecer muito minha personalidade insegura, teria que melhorar minha forma de me relacionar com as pessoas, criar um bloqueio para receber patadas sem me importar etc etc etc. Não sei se consigo...
Tem uma residente de primeiro ano lá na faculdade que me inspira horrores. A conheci no pronto socorro, no meio de uma emergência grave... mulher alta, linda, cabelos perfeitos, toda maquiada, salto alto, roupa impecável. Ok ok. Bastante inadequada para uma sala de emergência. Mas ela era demais. Sabia muuuuito, tocou tudo com uma perfeição inacreditável para uma R1, discutiu com os homens mais velhos quando tentaram tomar uma conduta com a qual ela não concordava. Show!!! A mulher simplesmente brilha.
E é cirurgiã. Alegre. Espontânea. Meio infantil. Inadequada. Mas totalmente segura de si. Totalmente brilhante!
Teve uma hora, discutinho um caso, que ela falou para o chefe que tal coisa tinha 10 cm. Ele discordou totalmente. Disse que tinha uns 20cm. E ela: "imagina! claro que não! é 10cm. 10cm igual a minha régua dos ursinhos carinhosos!!!". Esse argumento ele nem tinha como contestar. A discussão acabou por aí e ele aceitou que tinha 10cm.
Será que consigo?
Será que minha paciente vai conseguir?
Entrei na cirurgia da minha paciente hoje de manhã. Quando cheguei, já tinha começado. Ela estava lá com a barriga aberta e os cirurgiões tentando decidir o que fariam com alguns achados inesperados.
Pensei muito nessa paciente nesses dias. Ela é uma senhorinha de 80 anos, com algumas comorbidades meio sérias mas com uma doença que seria de fácil correção. Ela estava muito em dúvida se deveria operar ou não, ficou com medo de morrer (claro! todo mundo que vai ser submetido a uma cirurgia tem medo), medo de piorar sua vida após, de ter uma recuperação muito difícil.
Um dia vinha um cirurgião e dizia pra ela que ela precisava operar, que o risco de ela ficar com aquela doença e ter complicações sérias e ter que operar de emergência era alto, que seria pior se ela não operasse.
Outro dia vinha outro e dizia que o risco da cirurgia era muito maior, que ela passaria muito tempo na UTI depois, que era melhor ela ir pra casa.
E depois aparecia um outro e sugeria que ela fosse pra casa pensar, conversasse com os médicos dela e depois voltasse se decidisse operar. Que a escolha era dela.
Cada dia vinha um e falava uma coisa diferente... Isso quando não vinham os 3 nos mesmo dia (um de cada vez, claro) e falavam essas coisas incoerentes, deixando a cabeça da mulher girando...
No meio dessa confusão, eu, simples interna, que a acompanhava diariamente, explicava o melhor que eu sabia sobre a cirurgia, os riscos e a recuperação, estimulava ela a conversar com médicos que a conheciam a mais tempo, que já a acompanhava antes, mas ficava em cima do muro quando ela perguntava minha opinião pessoal (eu achava que ela devia operar sim, mas claro que não iria dizer isso porque tenho ínfimos conhecimentos para dar uma opinião tão importante na vida, ou morte, de alguém - mas acho que no fundo, ela acabava percebendo o que eu pensava a respeito).
Enfim, ela decidiu fazer a cirurgia, acreditando (ela, eu e os médicos) que seria o melhor para ela. Mas... mas... mas ao entrar em campo hoje, ao ver a barriga dela aberta, tudo que a gente encontrou lá dentro e tudo que tivemos que fazer... Me arrependi amargamente da minha opinião. Não conseguia esquecer a cara dela de medo do dia anterior... não conseguia parar de pensar em como seria a recuperação dela (com certeza muito pior do que imaginei). Foi muito duro.
Acho que ela vai sair dessa. Vai demorar um pouco para se recuperar mas vai conseguir. Mas fico pensando... será mesmo que ela deveria ter operado? Como eu podia ter uma opinião formada sobre isso antes? Como a gente pode interferir tanto? Como a gente pode causar tal mudança na vida de uma pessoa? Tal risco? Como a gente pode brincar de Deus desse jeito, decidindo o que é pior ou melhor, o que é mais ou menos arriscado?
O pior é que acho que os cirurgiões não tem muita noção do tamanho disso. Acho que no dia-a-dia do trabalho (que é muito duro, muito estressante, muito cansativo) eles se esquecem do quanto estão interferindo na vida da pessoa (pelo menos, os cirurgiões mais novos, com os quais tenho contato). Preocupante...
Paralelamente a todas essas emoções de hoje, voltei a pensar na possibilidade de fazer cirurgia. Meu maior argumento para não fazer, além de ter essa responsabilidade gigantesca nas mãos, é porque acho que essa especialidade vai despertar o que de pior há em mim (meu lado egocêntrica, que quer aparecer, maldosa com os mais novos/"fracos", brincar de Deus - características que eu sei que existem em mim e com as quais tento lidar para ser uma pessoa boa). Além disso, penso na vida que os cirurgiões levam que de qualidade (tempo, família) não tem nada...
Mas comecei a pensar que posso lutar contra essas coisas, principalmente contra esses sentimentos ruins. Olha só: eu poderia ser cirurgiã pediátrica (porque a pediatria corre no meu sangue e não há como negar isso), trabalhar duro para melhorar o serviço do hospital (que atualmente é administrado por um troglodita horroroso). Poderia mudar o que tem de ruim, passar a fazer maior contato entre a clínica e a cirurgia na pediatria, tentar melhorar o ambiente de lá, a graduação... nossa! muitas coisas para fazer, mudar, reconstruir... Muitas idéias.
Mas para isso eu teria que fortalecer muito minha personalidade insegura, teria que melhorar minha forma de me relacionar com as pessoas, criar um bloqueio para receber patadas sem me importar etc etc etc. Não sei se consigo...
Tem uma residente de primeiro ano lá na faculdade que me inspira horrores. A conheci no pronto socorro, no meio de uma emergência grave... mulher alta, linda, cabelos perfeitos, toda maquiada, salto alto, roupa impecável. Ok ok. Bastante inadequada para uma sala de emergência. Mas ela era demais. Sabia muuuuito, tocou tudo com uma perfeição inacreditável para uma R1, discutiu com os homens mais velhos quando tentaram tomar uma conduta com a qual ela não concordava. Show!!! A mulher simplesmente brilha.
E é cirurgiã. Alegre. Espontânea. Meio infantil. Inadequada. Mas totalmente segura de si. Totalmente brilhante!
Teve uma hora, discutinho um caso, que ela falou para o chefe que tal coisa tinha 10 cm. Ele discordou totalmente. Disse que tinha uns 20cm. E ela: "imagina! claro que não! é 10cm. 10cm igual a minha régua dos ursinhos carinhosos!!!". Esse argumento ele nem tinha como contestar. A discussão acabou por aí e ele aceitou que tinha 10cm.
Será que consigo?
Será que minha paciente vai conseguir?
terça-feira, 13 de maio de 2008
Ontem. Professor entregando as provas corrigidas.
Foi entregando, entregando, entregando. Eu estava triste. Sabia que tinha sido uma das piores notas e estava triste por não ser tão boa quanto meus colegas.
De repente, depois de ter entregue mais da metade (a minha ainda não), ele parou e falou: "as provas que eu entregar daqui para frente são das pessoas que estão de parabéns, que foram muito bem".
Quase caí da cadeira quando descobri que eu estava nesse bolo, entre os 5 melhores. Inacreditável!!
Achei que ele tinha cometido algum erro e colocado a minha lá por engando, mas não. Eu tinha ido bem mesmo.
Fiquei mais feliz ainda quando vi que a maior nota tinha sido daquele meu colega de panela que "tocou" a reanimação da parada cardíaca da semana passada. O cara é bom na teoria, é bom em momentos de estresse, atende paciente no ambulatório como ninguém... fiquei realmente impressionada e admirada com ele. Mais ainda porque durante a faculdade, ele nunca foi grande coisa. Ele nunca esteve entre os melhores alunos nem nada. Nunca chamou a atenção de nenhum professor para seu talento. E não é que o rapaz tem muuuuito talento?!
Por outro lado, dois dos meus colegas que sempre foram os melhores alunos da sala, que se acham super inteligentes, que semprem respondem tudo na lata, que vivem sendo elogiados pelos professores... tiraram notas baixa e são péssimos médicos, péssimos em conversar com pacientes, em explicar, em entender. Simplesmente péssimos.
Me animei com esse acontecimento e com a obviedade da minha insegurança novamente e fui ontem à reunião de Cuidados Paliativos. Eu tinha parado de ir porque o professor andava me cobrando muito, dizendo que eu era muito calada, que eu não podia ser assim etc etc etc. Não sei qual o problema dele. Eu não atrapalho. Estou simplesmente lá ouvindo e anotando. Não quero participar e ponto. Ele não tem que ficar me enchendo o saco... Enfim, ontem fui novamente. E qual não foi minha supresa quando percebi o quanto de meu aprendizado de lá foi para o ralo nessas semanas em que estive afastada. Nos estágios do internato é tudo muito burocrático, muito rápido. Não dá muito para ficar discutindo filosofia (muito menos na cirurgia que é tudo "corta e arranca fora"). Mas eu não consigo tratar de pacientes sem saber quem são, o que pensam, o que querem, o que precisam. Eu até faço isso - simplesmente discuto superficial e trato - porque me exigem muito. Mas não gosto e faço muito mal feito.
Mas voltando ao ambiente bio-psico-social dos cuidados paliativos, reaprendi novos métodos de conhecer o paciente, abordar questões difíceis como a finitude da vida, religião... Me lembrei o que é ser médico por inteiro. Resgatei uma parte de mim, tão importante, mas que estava adormecida.
Vai me ajudar nas minhas tentativas de mudanças, no reforço da minha segurança, no meu trato do dia-a-dia.
Lá na Liga, encontrei meu ex, que eu não via há algum tempo. Conversamos pouco, mas o suficiente para matar um pouquinho da saudade. E me lembrei de uma conversa que tive com minha madrinha no domingo.
Estávamos conversando sobre homens e tive um "insight". Me toquei do porque afasto os homens. Vivo perguntando para as pessoas o que tem de errado em mim. Sou uma mulher bonita, inteligente, não tão chata assim, mas sempre afasto os homens que se aproximam minimamente, sem perceber como. E nunguém nunca conseguiu me responder por que eles fogem.
Acho que descobri um dos motivos: eu os sobrecarrego. Minha madrinha disse: "eles aguentam mulher feia, louca, chata, ciumenta... mas mulher angustiada, mulher sofrida, ninguém aguenta". Problemas profundos, "dor da alma" não dá para jogar só numa pessoa. Em ninguém. Por que ninguém aguenta tanta pressão, tanta angústia, tanto sofrimento. Não é tristeza, nem depressão. É algo mais fundo, mais duro, menos constante, menos patológico.
E eu faço isso. Sempre. Desde o começo dos meus relacionamentos. Falo muito sobre mim, sobre minha mãe, sobre minhas dificuldades com a Medicina, os sofrimentos com os pacientes, com minha família... e eles não aguentam e fogem antes de se meterem nessa encrenca.
Faz muito sentido. Preciso é de um terapeuta a pagar. Não um namorado/amigo-terapeuta.
Foi entregando, entregando, entregando. Eu estava triste. Sabia que tinha sido uma das piores notas e estava triste por não ser tão boa quanto meus colegas.
De repente, depois de ter entregue mais da metade (a minha ainda não), ele parou e falou: "as provas que eu entregar daqui para frente são das pessoas que estão de parabéns, que foram muito bem".
Quase caí da cadeira quando descobri que eu estava nesse bolo, entre os 5 melhores. Inacreditável!!
Achei que ele tinha cometido algum erro e colocado a minha lá por engando, mas não. Eu tinha ido bem mesmo.
Fiquei mais feliz ainda quando vi que a maior nota tinha sido daquele meu colega de panela que "tocou" a reanimação da parada cardíaca da semana passada. O cara é bom na teoria, é bom em momentos de estresse, atende paciente no ambulatório como ninguém... fiquei realmente impressionada e admirada com ele. Mais ainda porque durante a faculdade, ele nunca foi grande coisa. Ele nunca esteve entre os melhores alunos nem nada. Nunca chamou a atenção de nenhum professor para seu talento. E não é que o rapaz tem muuuuito talento?!
Por outro lado, dois dos meus colegas que sempre foram os melhores alunos da sala, que se acham super inteligentes, que semprem respondem tudo na lata, que vivem sendo elogiados pelos professores... tiraram notas baixa e são péssimos médicos, péssimos em conversar com pacientes, em explicar, em entender. Simplesmente péssimos.
Me animei com esse acontecimento e com a obviedade da minha insegurança novamente e fui ontem à reunião de Cuidados Paliativos. Eu tinha parado de ir porque o professor andava me cobrando muito, dizendo que eu era muito calada, que eu não podia ser assim etc etc etc. Não sei qual o problema dele. Eu não atrapalho. Estou simplesmente lá ouvindo e anotando. Não quero participar e ponto. Ele não tem que ficar me enchendo o saco... Enfim, ontem fui novamente. E qual não foi minha supresa quando percebi o quanto de meu aprendizado de lá foi para o ralo nessas semanas em que estive afastada. Nos estágios do internato é tudo muito burocrático, muito rápido. Não dá muito para ficar discutindo filosofia (muito menos na cirurgia que é tudo "corta e arranca fora"). Mas eu não consigo tratar de pacientes sem saber quem são, o que pensam, o que querem, o que precisam. Eu até faço isso - simplesmente discuto superficial e trato - porque me exigem muito. Mas não gosto e faço muito mal feito.
Mas voltando ao ambiente bio-psico-social dos cuidados paliativos, reaprendi novos métodos de conhecer o paciente, abordar questões difíceis como a finitude da vida, religião... Me lembrei o que é ser médico por inteiro. Resgatei uma parte de mim, tão importante, mas que estava adormecida.
Vai me ajudar nas minhas tentativas de mudanças, no reforço da minha segurança, no meu trato do dia-a-dia.
Lá na Liga, encontrei meu ex, que eu não via há algum tempo. Conversamos pouco, mas o suficiente para matar um pouquinho da saudade. E me lembrei de uma conversa que tive com minha madrinha no domingo.
Estávamos conversando sobre homens e tive um "insight". Me toquei do porque afasto os homens. Vivo perguntando para as pessoas o que tem de errado em mim. Sou uma mulher bonita, inteligente, não tão chata assim, mas sempre afasto os homens que se aproximam minimamente, sem perceber como. E nunguém nunca conseguiu me responder por que eles fogem.
Acho que descobri um dos motivos: eu os sobrecarrego. Minha madrinha disse: "eles aguentam mulher feia, louca, chata, ciumenta... mas mulher angustiada, mulher sofrida, ninguém aguenta". Problemas profundos, "dor da alma" não dá para jogar só numa pessoa. Em ninguém. Por que ninguém aguenta tanta pressão, tanta angústia, tanto sofrimento. Não é tristeza, nem depressão. É algo mais fundo, mais duro, menos constante, menos patológico.
E eu faço isso. Sempre. Desde o começo dos meus relacionamentos. Falo muito sobre mim, sobre minha mãe, sobre minhas dificuldades com a Medicina, os sofrimentos com os pacientes, com minha família... e eles não aguentam e fogem antes de se meterem nessa encrenca.
Faz muito sentido. Preciso é de um terapeuta a pagar. Não um namorado/amigo-terapeuta.
sábado, 10 de maio de 2008
"A couple of hundred years ago, Benjamin Franklin shared with the world the secret of his success. “Never leave that till tomorrow”, he said, “Which you could do today.” This is the man who discovered electricity. You’d think more of us would listen to what he had to say. I don’t know why we put things off, but if I had to guess, I’d say it had a lot to do with fear. Fear of failure. Fear of pain. Fear of rejection. Sometimes the fear is just of making a decision, because what if you’re wrong? What if you make a mistake you can’t undo? Whatever it is we're afraid of, one thing holds true: that by the time the pain of not doing the thing gets worse than the fear of doing it. It can feel like we're carrying around a giant tumor. And you thought I was speaking metaphorically.
[...]
The early bird catches the worm; a stitch in time saves nine. He who hesitates is lost. We can't pretend we haven't been told. We've all heard the proverbs, heard the philosophers, heard our grandparents warning us about wasted time, heard the damn poets urging us to ‘seize the day'. Still sometimes we have to see for ourselves. We have to make our own mistakes. We have to learn our own lessons. We have to sweep today's possibility under tomorrow's rug until we can't anymore, until we finally understand for ourselves like Benjamin Franklin meant. That knowing is better than wondering, that waking is better than sleeping. And that even the biggest failure, even the worst most intractable mistake beats the hell out of never trying."
(GA S1E06)
[...]
The early bird catches the worm; a stitch in time saves nine. He who hesitates is lost. We can't pretend we haven't been told. We've all heard the proverbs, heard the philosophers, heard our grandparents warning us about wasted time, heard the damn poets urging us to ‘seize the day'. Still sometimes we have to see for ourselves. We have to make our own mistakes. We have to learn our own lessons. We have to sweep today's possibility under tomorrow's rug until we can't anymore, until we finally understand for ourselves like Benjamin Franklin meant. That knowing is better than wondering, that waking is better than sleeping. And that even the biggest failure, even the worst most intractable mistake beats the hell out of never trying."
(GA S1E06)
Perdi um paciente hoje. Ele morreu nas minhas mãos. Literalmente.
Cheguei à enfermaria hoje cedo. Hoje sábado.
Não havia nenhum residente, nenhum médico, apenas as enfermeiras, eu e meu colega de panela.
Assim que entramos, a enfermeira nos chamou e disse que a paciente que veio da UTI ontem estava dispineica, que precisávamos avaliá-la logo porque ela não estava bem. Entramos no quarto, começamos a examiná-la e a enfermeira começou a gritar do corredor: "Doutores, doutores, ajuda aqui."
Saimos correndo, cena de filme mesmo.
Entramos no quarto de outro paciente, ele estava em parada. A enfermeira nos contou que ele estava em pé minutos antes, disse que não estava se sentindo bem, mas estava andando. Ela olhou para ele e viu que estava cianótico, pediu que ele se deitasse e alguns segundos depois ele estava vomitando, desacordado.
Chegamos nesse momento.
Eu simplesmente fiquei em choque, assustada, sem saber o que fazer. Tipo a Meredith no 1º episódio de Grey's. Meu colega, mais esperto e com mais experiência começou a fazer massagem cardíaca. Ele sabia o que fazer, já tinha visto e vivido situações semelhantes e simulações - ele fez curso de suporte avançado e já deu diversos plantões no PS da cirurgia durante a faculdade - simplesmente porque ele gosta dessas coisas de salvar vidas em situações de emergência).
Eu, com espírito de pediatra/puericultura, sempre fugi de coisas assim. Não gosto, não funciono.
Mas sou quase médica. Tenho que saber. E sei. Na teoria.
Quando ele começou a massagem cardíaca e passou a liderar a "equipe", eu acordei do meu choque e passei a ajudá-lo. Ambuzando, revezando na massagem, pedindo as drogas (que só poderíamos ministrar quando chegasse um médico formado).
Um residente apareceu, mandou aplicar as drogas que já estavam à mão, continuou a monitorização e depois ficou lá assistindo eu e meu colega tocando a parada, tentando salvar a vida do senhorzinho. Chegou um outro residente, os dois começaram a conversar sobre plantões e tal... e nós lá ambuzando fazendo massagem...
Foda. Foda. Foda.
Passados 40 minutos, não tinha mais o que fazer. Paramos e o senhorzinho se foi.
Sem nem ter tido tempo de respirar, corri para ver a senhora que estava com falta de ar. Eu não sabia o que fazer. Examinei, achei que podia ser edema pulmonar, mas chamei o residente para avaliar sem uma sugestão de conduta. Meu cérebro mal funcionava.
Poucos minutos depois, minha paciente me vendo no corredor (eu estava esperando o residente terminar a avaliação da outra para podermos discutir) veio perguntar se eu tinha novidades para ela. Eu, na maior inocência, disse que ainda não tínhamos visto o resultado de exame que ela fez porque no dia anterior ficamos o dia todo em cirurgia (saímos era 19h30 e fui direto para casa). Pra quê??? Como sou idiota!!!
Na hora, ela fez aquela cara de "essa criancinha vestida de médica é uma inútil mesmo" virou para mim e disse que ela já tinha visto o resultado de exame e que os médicos tinham dito que estava alterado sim. O que ela queria saber é o que eles iam fazer com ela. Eu tentei me desculpar, expliquei que eu tinha ficado em cirurgia e não sabia disso e que eu iria conversar com a residente em seguida.
Merda gigante. Essa cena aconteceu na frente de 4 outros pacientes que passaram a me tratar como criança.
Nessa altura do campeonato, já eram uma 8h30 (eu tinha chegado lá às 6h30), não tinha evoluído nenhum paciente nem prescrito (em geral tudo deve estar pronto até às 8h). Saí correndo, fui vendo os paciente, prescrevendo, resolvendo os pepinos. E, para continuar bem esse maravilhoso dia, a maioria dos pacientes tinha uma queixa nova importante (um tinha tido uma dor torácica de forte intensidade à noite, outro tinha começado a desenvolver uma lesão sacral que parecia uma escara, outro com falta de ar, a outra com dor abdominal e parada de eliminação de flatos...). Caraca! Eu nunca imaginei que ia passar por algo assim.
Os médicos mais velhos chegaram (nem vi quando porque estava tão ocupada)... discutimos os casos, passei os problemas... até que um deles virou e disse "ouvi dizer que você tocou uma parada hoje... você tá bem?". Ele pôs a mão no meu ombro, me olhou e respondi "não, não estou". Ele simplesmente virou e mudou de assunto. Disse que era assim mesmo e me mandou ir até a recuperação pós anestésica avaliar um paciente que não tinha voltado ontem após a cirurgia (aquele que ficamos até às 19h30).
Depois disso ainda fiz um milhão de coisas, vi exames, colhi, mudei prescrições, tomei broncas, respondi a um interrogatório de conhecimento (óbvio que eu errei 90%).
Umas 12h, eu louca para ir embora (num fim de semana normal a gente costuma sair umas 9h-10h), a residente me pediu ajuda para um procedimento. Fui lá, ajudei, demorou horrores. Quando terminou, todos saíram da sala de procedimentos e eu fiquei responsável por levar a paciente de volta para o quarto. Porém, ela estava nauseada e pediu que eu esperasse até ela melhorar um pouco. Enquanto isso, ela pediu que eu fosse até o quarto dela e retirasse seu almoço se ele já tivesse chegado porque ela não queria sentir o cheiro, se sentisse vomitaria. Fui lá, pedi para a enfermeira tirar a bandeja e, quando estava voltando para buscar a paciente, alguém veio me pedir ajuda para alguma coisa simples. Fui, ajudei e... simplesmente esqueci que tinha deixado a paciente na sala de procedimento. Esqueci.
Perguntei para a residente se eu podia ir embora porque ainda ia viajar em seguida, ela disse que já estava tudo mais ou menos encaminhado e que ela terminaria sem problemas. Fui lembrar da paciente quando estava no ônibus, quase chegando ao meu destino. Imperdoável. Vergonhoso. Certamente alguém passaria por lá e veria ela (fica num lugar exposto onde sempre passa gente). Mas eu era a responsável, eu tinha que ter voltado lá, não podia ter esquecido.
Enfim. Foi tudo horrível hoje.
Não posso dizer que não aprendi. Aprendi muito. Pra vida inteira.
Mas foi péssimo. Estou me sentindo um lixo, podre, estragada. Uma péssima aluna, uma médica desprezível, uma profissional medíocre. Vendo como meu colega atende os pacientes dele e todo seu interesse e conhecimento, me sinto pior ainda. Como posso querer ser médica se não tenho capacidade intelectual, nem manual e muito menos equilíbrio emocional para um dia desses??? Como pude escolher essa profissão e como sobrevivo a tanta pressão, cobrança, frustração, incapacidade???
Cheguei à enfermaria hoje cedo. Hoje sábado.
Não havia nenhum residente, nenhum médico, apenas as enfermeiras, eu e meu colega de panela.
Assim que entramos, a enfermeira nos chamou e disse que a paciente que veio da UTI ontem estava dispineica, que precisávamos avaliá-la logo porque ela não estava bem. Entramos no quarto, começamos a examiná-la e a enfermeira começou a gritar do corredor: "Doutores, doutores, ajuda aqui."
Saimos correndo, cena de filme mesmo.
Entramos no quarto de outro paciente, ele estava em parada. A enfermeira nos contou que ele estava em pé minutos antes, disse que não estava se sentindo bem, mas estava andando. Ela olhou para ele e viu que estava cianótico, pediu que ele se deitasse e alguns segundos depois ele estava vomitando, desacordado.
Chegamos nesse momento.
Eu simplesmente fiquei em choque, assustada, sem saber o que fazer. Tipo a Meredith no 1º episódio de Grey's. Meu colega, mais esperto e com mais experiência começou a fazer massagem cardíaca. Ele sabia o que fazer, já tinha visto e vivido situações semelhantes e simulações - ele fez curso de suporte avançado e já deu diversos plantões no PS da cirurgia durante a faculdade - simplesmente porque ele gosta dessas coisas de salvar vidas em situações de emergência).
Eu, com espírito de pediatra/puericultura, sempre fugi de coisas assim. Não gosto, não funciono.
Mas sou quase médica. Tenho que saber. E sei. Na teoria.
Quando ele começou a massagem cardíaca e passou a liderar a "equipe", eu acordei do meu choque e passei a ajudá-lo. Ambuzando, revezando na massagem, pedindo as drogas (que só poderíamos ministrar quando chegasse um médico formado).
Um residente apareceu, mandou aplicar as drogas que já estavam à mão, continuou a monitorização e depois ficou lá assistindo eu e meu colega tocando a parada, tentando salvar a vida do senhorzinho. Chegou um outro residente, os dois começaram a conversar sobre plantões e tal... e nós lá ambuzando fazendo massagem...
Foda. Foda. Foda.
Passados 40 minutos, não tinha mais o que fazer. Paramos e o senhorzinho se foi.
Sem nem ter tido tempo de respirar, corri para ver a senhora que estava com falta de ar. Eu não sabia o que fazer. Examinei, achei que podia ser edema pulmonar, mas chamei o residente para avaliar sem uma sugestão de conduta. Meu cérebro mal funcionava.
Poucos minutos depois, minha paciente me vendo no corredor (eu estava esperando o residente terminar a avaliação da outra para podermos discutir) veio perguntar se eu tinha novidades para ela. Eu, na maior inocência, disse que ainda não tínhamos visto o resultado de exame que ela fez porque no dia anterior ficamos o dia todo em cirurgia (saímos era 19h30 e fui direto para casa). Pra quê??? Como sou idiota!!!
Na hora, ela fez aquela cara de "essa criancinha vestida de médica é uma inútil mesmo" virou para mim e disse que ela já tinha visto o resultado de exame e que os médicos tinham dito que estava alterado sim. O que ela queria saber é o que eles iam fazer com ela. Eu tentei me desculpar, expliquei que eu tinha ficado em cirurgia e não sabia disso e que eu iria conversar com a residente em seguida.
Merda gigante. Essa cena aconteceu na frente de 4 outros pacientes que passaram a me tratar como criança.
Nessa altura do campeonato, já eram uma 8h30 (eu tinha chegado lá às 6h30), não tinha evoluído nenhum paciente nem prescrito (em geral tudo deve estar pronto até às 8h). Saí correndo, fui vendo os paciente, prescrevendo, resolvendo os pepinos. E, para continuar bem esse maravilhoso dia, a maioria dos pacientes tinha uma queixa nova importante (um tinha tido uma dor torácica de forte intensidade à noite, outro tinha começado a desenvolver uma lesão sacral que parecia uma escara, outro com falta de ar, a outra com dor abdominal e parada de eliminação de flatos...). Caraca! Eu nunca imaginei que ia passar por algo assim.
Os médicos mais velhos chegaram (nem vi quando porque estava tão ocupada)... discutimos os casos, passei os problemas... até que um deles virou e disse "ouvi dizer que você tocou uma parada hoje... você tá bem?". Ele pôs a mão no meu ombro, me olhou e respondi "não, não estou". Ele simplesmente virou e mudou de assunto. Disse que era assim mesmo e me mandou ir até a recuperação pós anestésica avaliar um paciente que não tinha voltado ontem após a cirurgia (aquele que ficamos até às 19h30).
Depois disso ainda fiz um milhão de coisas, vi exames, colhi, mudei prescrições, tomei broncas, respondi a um interrogatório de conhecimento (óbvio que eu errei 90%).
Umas 12h, eu louca para ir embora (num fim de semana normal a gente costuma sair umas 9h-10h), a residente me pediu ajuda para um procedimento. Fui lá, ajudei, demorou horrores. Quando terminou, todos saíram da sala de procedimentos e eu fiquei responsável por levar a paciente de volta para o quarto. Porém, ela estava nauseada e pediu que eu esperasse até ela melhorar um pouco. Enquanto isso, ela pediu que eu fosse até o quarto dela e retirasse seu almoço se ele já tivesse chegado porque ela não queria sentir o cheiro, se sentisse vomitaria. Fui lá, pedi para a enfermeira tirar a bandeja e, quando estava voltando para buscar a paciente, alguém veio me pedir ajuda para alguma coisa simples. Fui, ajudei e... simplesmente esqueci que tinha deixado a paciente na sala de procedimento. Esqueci.
Perguntei para a residente se eu podia ir embora porque ainda ia viajar em seguida, ela disse que já estava tudo mais ou menos encaminhado e que ela terminaria sem problemas. Fui lembrar da paciente quando estava no ônibus, quase chegando ao meu destino. Imperdoável. Vergonhoso. Certamente alguém passaria por lá e veria ela (fica num lugar exposto onde sempre passa gente). Mas eu era a responsável, eu tinha que ter voltado lá, não podia ter esquecido.
Enfim. Foi tudo horrível hoje.
Não posso dizer que não aprendi. Aprendi muito. Pra vida inteira.
Mas foi péssimo. Estou me sentindo um lixo, podre, estragada. Uma péssima aluna, uma médica desprezível, uma profissional medíocre. Vendo como meu colega atende os pacientes dele e todo seu interesse e conhecimento, me sinto pior ainda. Como posso querer ser médica se não tenho capacidade intelectual, nem manual e muito menos equilíbrio emocional para um dia desses??? Como pude escolher essa profissão e como sobrevivo a tanta pressão, cobrança, frustração, incapacidade???
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Hoje tive discussão de Bioética. Discussão orientada depois de uma reunião inesperada que também tratou do assunto. Assunto esse tão renegado, evitado, excluído...
Sempre que tenho essas discussões (pelo menos 1x por mês por determinação da Graduação), minha cabeça vai a mil. Ao mesmo tempo que me angustia falar nesses assuntos pesados, me alivia por saber que posso falar em algum lugar (ou pelo menos ouvir como geralmente faço - por opção, por falta de vivência).
Discutimos alguns casos de pacientes graves que não sabem do diagnóstico, o que fazer quando a família pede para não contar, o que fazer quando você tenta contar e o paciente não quer entender, ou mesmo quando o médico não quer contar ou pede para que escondamos ou, pior, para que a gente minta (nós, como internos, seguimos ordens - na medida do aceitável, claro - mentir para o paciente é algo que eu não aceitaria fazer).
O médico mais velho estava nos contando de experiências que ele teve com pacientes que estavam para morrerm e a dificuldade de lidar com o diagnóstico, mas a dificuldade maior de lidar com as dúvidas, angústias e medos do paciente e da família.
Falamos sobre um caso atual de uma paciente de um colega meu que não sabia que tinha câncer. Ela não sabia, os médicos não esclareceram, a família não tinha muita noção do que estava acontecendo e meu colega, interno como eu, novinho em folha, perdido... não sabia o que fazer.
A orientação desse professor mais velho foi: siga a instrução do serviço. Se você quer contar e os médicos assistentes do lugar onde o paciente está te autorizam a contar, você conta, conversa, tenta tirar as dúvidas. Mas, se os assistentes te orientam a não contar, ou não dão muita atenção, é melhor não se meter.
Fiquei pensando: mas o paciente tem o direito de saber o que está acontecendo com ele, nossa obrigação como médicos é contar. E o professor respondeu, sem que eu perguntasse: nós somos internos, a gente passa 10 dias, no máximo 1 mês, em cada serviço. Já pensou se meu colega vai lá e conta para a paciente que ela tem um câncer. Por mais que ele explique, tire as dúvidas dela no momento, no dia seguinte, quando outras dúvidas aparecerem, quando ela tiver feito um exame que veio uma coisa esquisita e ela não entendeu, quando a filha dela quiser conversar com o médico para saber melhor... meu colega já não vai mais estar lá. Se os assistentes não estão dispostos a fazer esse papel, a paciente vai ficar lá com suas dúvidas, isolada, angustiada, sem ter o que fazer. E meu colega, com sua consciência tranquila por ter cumprido sua obrigação, vai estar em outro andar do hospital, atendendo outro paciente sem sequer imaginar o que está acontecendo com o anterior. Se sairmos por aí, nós como internos rotativos, contando para todos os pacientes seus diagnósticos, poderemos estar causando mal àquelas pessoas. Poderemos, com a melhor das boas intenções, estar prejudicando aquele paciente, os familiares e até os médicos do serviço. Nós não temos condição de acompanhar o paciente, portanto, não temos condição de fazer algo de tamanha responsabilidade como contar um diagnóstico.
O melhor a se fazer nesses casos, é conversar com os médicos responsáveis pelo caso, explicar que o paciente não sabe, o que ele quer saber e tentar convencê-lo de contar, estando a gente junto ou não. Mas garantir que aquele paciente vai ter um suporte depois quando passar o choque e vierem todas as outras dúvidas e angústias.
Uma outra coisa que falamos e sobre a qual eu poucas vezes tinha pensado, é sobre a importância da esperança. O professor contou um caso de um tio dele que tinha câncer. Ele, médico, o levou no melhor especialista que ele conhecia, fizeram todos os exames e concluíram que não poderia ser curado, que só poderiam fazer tratamento paliativo e dar assistência ao paciente na evolução da doença. A tia desse meu professor, esposa do paciente, desesperada, resolveu que ia pedir outras opiniões. Consultou alguns médicos que disseram a mesma coisa. Até que um dia ela encontrou um que falou que poderia curá-lo. O charlatão disse que faria uma cirurgia para tirar o tumor e que o paciente ainda ia viver muitos anos.
Charlatão mesmo.
O tal fez a cirurgia, cobrou rios de dinheiro e, no final, disse que a doença tinha afetado o outro lado do cérebro e não dava para abrir de novo etc etc etc.
A viúva pobre, ao contar o caso anos depois disse que se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, igualzinho, e daria todo dinheiro dela para o tal charlatão de novo, mesmo sabendo que ele é charlatão. Por quê???
Porque ele foi o único médico que lhes deu esperança. O paciente morreu do mesmo jeito, em pouco tempo, mas morreu sabendo que lutou tudo que podia, morreu com esperança.
Não estou dizendo que enganar paciente é bom. De maneira nenhuma. Acho que um charlatão desse deve ir preso! Mas acho que essa história nos deve ensinar a, mesmo dando notícia de uma doença terminal, nunca acabar com a esperança do paciente. Nunca dizer "o senhor vai morrer daqui a 2 meses". A gente não tem como prever isso. As estatísticas mostram que os pacientes com a doença tal vivem em média 2 meses. E daí? Estatísticas não servem para nada quando se trata de individualidade, de uma pessoa. Aquele paciente pode tanto morrer dali a 2 horas atropelado por uma moto quanto viver 2 anos. Não dá pra prever.
Moral da história (só como registro para o dia em que eu for uma má médica, poder reler isso e repensar minhas atitudes): não se preocupar só com a notícia, com a informação a ser passada para o paciente, mas também com suas angústias, medos, expecativas que vão vir depois; saber que tipo de ajuda o paciente quer, o que ele espera da vida dele dali para frente e o que ele espera de nós; nunca acabar com a esperança (ela é algo de mais precioso que um paciente tem); nunca determinar o tempo de vida - só Deus sabe.
Sempre que tenho essas discussões (pelo menos 1x por mês por determinação da Graduação), minha cabeça vai a mil. Ao mesmo tempo que me angustia falar nesses assuntos pesados, me alivia por saber que posso falar em algum lugar (ou pelo menos ouvir como geralmente faço - por opção, por falta de vivência).
Discutimos alguns casos de pacientes graves que não sabem do diagnóstico, o que fazer quando a família pede para não contar, o que fazer quando você tenta contar e o paciente não quer entender, ou mesmo quando o médico não quer contar ou pede para que escondamos ou, pior, para que a gente minta (nós, como internos, seguimos ordens - na medida do aceitável, claro - mentir para o paciente é algo que eu não aceitaria fazer).
O médico mais velho estava nos contando de experiências que ele teve com pacientes que estavam para morrerm e a dificuldade de lidar com o diagnóstico, mas a dificuldade maior de lidar com as dúvidas, angústias e medos do paciente e da família.
Falamos sobre um caso atual de uma paciente de um colega meu que não sabia que tinha câncer. Ela não sabia, os médicos não esclareceram, a família não tinha muita noção do que estava acontecendo e meu colega, interno como eu, novinho em folha, perdido... não sabia o que fazer.
A orientação desse professor mais velho foi: siga a instrução do serviço. Se você quer contar e os médicos assistentes do lugar onde o paciente está te autorizam a contar, você conta, conversa, tenta tirar as dúvidas. Mas, se os assistentes te orientam a não contar, ou não dão muita atenção, é melhor não se meter.
Fiquei pensando: mas o paciente tem o direito de saber o que está acontecendo com ele, nossa obrigação como médicos é contar. E o professor respondeu, sem que eu perguntasse: nós somos internos, a gente passa 10 dias, no máximo 1 mês, em cada serviço. Já pensou se meu colega vai lá e conta para a paciente que ela tem um câncer. Por mais que ele explique, tire as dúvidas dela no momento, no dia seguinte, quando outras dúvidas aparecerem, quando ela tiver feito um exame que veio uma coisa esquisita e ela não entendeu, quando a filha dela quiser conversar com o médico para saber melhor... meu colega já não vai mais estar lá. Se os assistentes não estão dispostos a fazer esse papel, a paciente vai ficar lá com suas dúvidas, isolada, angustiada, sem ter o que fazer. E meu colega, com sua consciência tranquila por ter cumprido sua obrigação, vai estar em outro andar do hospital, atendendo outro paciente sem sequer imaginar o que está acontecendo com o anterior. Se sairmos por aí, nós como internos rotativos, contando para todos os pacientes seus diagnósticos, poderemos estar causando mal àquelas pessoas. Poderemos, com a melhor das boas intenções, estar prejudicando aquele paciente, os familiares e até os médicos do serviço. Nós não temos condição de acompanhar o paciente, portanto, não temos condição de fazer algo de tamanha responsabilidade como contar um diagnóstico.
O melhor a se fazer nesses casos, é conversar com os médicos responsáveis pelo caso, explicar que o paciente não sabe, o que ele quer saber e tentar convencê-lo de contar, estando a gente junto ou não. Mas garantir que aquele paciente vai ter um suporte depois quando passar o choque e vierem todas as outras dúvidas e angústias.
Uma outra coisa que falamos e sobre a qual eu poucas vezes tinha pensado, é sobre a importância da esperança. O professor contou um caso de um tio dele que tinha câncer. Ele, médico, o levou no melhor especialista que ele conhecia, fizeram todos os exames e concluíram que não poderia ser curado, que só poderiam fazer tratamento paliativo e dar assistência ao paciente na evolução da doença. A tia desse meu professor, esposa do paciente, desesperada, resolveu que ia pedir outras opiniões. Consultou alguns médicos que disseram a mesma coisa. Até que um dia ela encontrou um que falou que poderia curá-lo. O charlatão disse que faria uma cirurgia para tirar o tumor e que o paciente ainda ia viver muitos anos.
Charlatão mesmo.
O tal fez a cirurgia, cobrou rios de dinheiro e, no final, disse que a doença tinha afetado o outro lado do cérebro e não dava para abrir de novo etc etc etc.
A viúva pobre, ao contar o caso anos depois disse que se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, igualzinho, e daria todo dinheiro dela para o tal charlatão de novo, mesmo sabendo que ele é charlatão. Por quê???
Porque ele foi o único médico que lhes deu esperança. O paciente morreu do mesmo jeito, em pouco tempo, mas morreu sabendo que lutou tudo que podia, morreu com esperança.
Não estou dizendo que enganar paciente é bom. De maneira nenhuma. Acho que um charlatão desse deve ir preso! Mas acho que essa história nos deve ensinar a, mesmo dando notícia de uma doença terminal, nunca acabar com a esperança do paciente. Nunca dizer "o senhor vai morrer daqui a 2 meses". A gente não tem como prever isso. As estatísticas mostram que os pacientes com a doença tal vivem em média 2 meses. E daí? Estatísticas não servem para nada quando se trata de individualidade, de uma pessoa. Aquele paciente pode tanto morrer dali a 2 horas atropelado por uma moto quanto viver 2 anos. Não dá pra prever.
Moral da história (só como registro para o dia em que eu for uma má médica, poder reler isso e repensar minhas atitudes): não se preocupar só com a notícia, com a informação a ser passada para o paciente, mas também com suas angústias, medos, expecativas que vão vir depois; saber que tipo de ajuda o paciente quer, o que ele espera da vida dele dali para frente e o que ele espera de nós; nunca acabar com a esperança (ela é algo de mais precioso que um paciente tem); nunca determinar o tempo de vida - só Deus sabe.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
"The game, they say a person either has what it takes to play, or they don't. My mother was one of the greats. Me on the other hand, I'm kind of screwed.
[...]
I can't think of a single reason why I should be a surgeon, but I can think of a thousand reasons why I should quit. They make it hard on purpose. There are lives in our hands. There comes a moment when it's more than just a game, and you either take that step forward or turn around and walk away. I could quit but here's the thing, I love the playing field."
(Grey's Anatomy 01x01)
É incrível como sentimentos podem ser retratados tão fielmente numa série de tv. Isso é arte!
I'm kind of screwed too. Eu me sinto assim constantemente. Eu também não consigo pensar numa única razão pela qual eu deveria ser médica, que não exista em outras profissões. E consigo pensar em centenas de razões para desistir...
Hoje recomecei a assistir Grey's. Tenho todas as temporadas guardadas em casa porque sabia que um dia (ou várias vezes) eu iria ver novamente e ia sentir diferente.
Agora que passei para o outro lado (saí da parte teórica e me tornei uma "quase médica", uma interna), todas as situações desse seriado tem um significado diferente. Antes eu via, imaginava se aquilo um dia aconteceria comigo e hoje... ah, hoje... sou eu quem tenta passar um acesso venoso, fura o paciente várias vezes e não consegue, sou eu que tenho que acordar o residente porque não sei passar um cateter central que o paciente precisa, sou eu que levo bronca de enfermeira por "comer bola" ou (não) fazer algo que para ela é tão óbvio (como jogar um frasco de vidro inutilizado no lixo comum, ao invés do lixo para pérfuro-cortantes - óbvio!), sou eu quem esquece de colocar na prescrição o remédio que o residente pediu e insitiu tantas vezes, que acaba fazendo procedimentos que meus colegas queriam (mesmo o paciente sendo meu) e eles ficam bravos (mas depois sempre entendem e aceitam)...
É tudo tão parecido... tantas situações que vivo e que saio me sentindo uma retardada, uma idiota, uma burra, uma malvada... e que estão retratadas num seriado de tv de forma tão parecida. Me faz sentir menos burra. Se está num seriado é porque todos passam por isso para aprender.
Todos aqueles médicos fodões que fazem pose de "sempre soube tudo e você é um idiota", que falam conosco como se tudo fosse tão óbvio, que nos exigem tanto... eles já passaram por isso, eles já foram internos idiotas que não sabiam a topografia do canal inguinal ou a anatomia do pescoço para passar um cateter central, ou mesmo como manter uma criança parada para fazer um exame especular em seu ouvido.
Pensar nisso me faz sentir melhor, tão mais tranquila, tão menos estúpida. Assistir a esse seriado me faz sentir parte do mundo e me dá forças para continuar. Me dá vontade de estudar, de prestar mais atenção, de conversar mais com os mais velhos sobre minhas dificuldades e angústias. Afinal, eles já passaram por isso.
Na faculdade de Medicina, o clima fake que tenta se manter é que todo mundo sabe muito, que nasceram sabendo, que ninguém nunca erra, que todo mundo tem muito talento para aquilo... que ninguém sofre, que ninguém dorme, faz cocô... que ninguém ama.
Com certeza, Meredith, há uma razão para eles fazerem tudo tão difícil de propósito. Estamos lidando com vidas, com pessoas cheia de histórias, angústias, medos, dores, vontades, sonhos. O paciente não é uma prova prática diária, na qual você precisa ser aprovado para passar para o próximo estágio. Às vezes, é assim que a gente os enxerga, inconscientemente. Exigem tanto da gente em conhecimento, em postura, em mostrar que sabe tudo, que esquecemos que estamos lidando com pessoas... pessoas exatamente iguais a nós.
A dificuldade da Medicina, o maior aprendizado que a gente tem que adquirir (que eu tenho que adquirir), apesar de todas as dificuldades, das angústias, da falta de tempo, da vontade de fazer xixi, do cansaço, da fome, da insegurança... é conseguir atender bem o paciente, entendê-lo e ajudá-lo, unindo nosso conhecimento com nossa percepção e nosso sentimento.
Meu maior desafio nesse internato, é aprender a evoluir um paciente bem, realmente cuidar dele, apesar de saber que daqui a pouco tem visita com o assistente fodão e que ele vai me perguntar detalhes que eu não vou saber responder, que ele vai me humilhar, que ele vai me massacrar. Entender que não adianta ficar com a cara no livro tentando prever quais serão as perguntas que eu vou errar, que é muito mais válido sentar ao lado do paciente e entender sua história e descobrir quais são seus medos e seus sonhos, saber o que o está incomodando mais e tentar ajudá-lo.
A matéria será aprendida de qualquer forma. Conhecimento é essencial, mas, se formos analisar profundamente, veremos que é o mais fácil de se adquirir.
[...]
I can't think of a single reason why I should be a surgeon, but I can think of a thousand reasons why I should quit. They make it hard on purpose. There are lives in our hands. There comes a moment when it's more than just a game, and you either take that step forward or turn around and walk away. I could quit but here's the thing, I love the playing field."
É incrível como sentimentos podem ser retratados tão fielmente numa série de tv. Isso é arte!
I'm kind of screwed too. Eu me sinto assim constantemente. Eu também não consigo pensar numa única razão pela qual eu deveria ser médica, que não exista em outras profissões. E consigo pensar em centenas de razões para desistir...
Hoje recomecei a assistir Grey's. Tenho todas as temporadas guardadas em casa porque sabia que um dia (ou várias vezes) eu iria ver novamente e ia sentir diferente.
Agora que passei para o outro lado (saí da parte teórica e me tornei uma "quase médica", uma interna), todas as situações desse seriado tem um significado diferente. Antes eu via, imaginava se aquilo um dia aconteceria comigo e hoje... ah, hoje... sou eu quem tenta passar um acesso venoso, fura o paciente várias vezes e não consegue, sou eu que tenho que acordar o residente porque não sei passar um cateter central que o paciente precisa, sou eu que levo bronca de enfermeira por "comer bola" ou (não) fazer algo que para ela é tão óbvio (como jogar um frasco de vidro inutilizado no lixo comum, ao invés do lixo para pérfuro-cortantes - óbvio!), sou eu quem esquece de colocar na prescrição o remédio que o residente pediu e insitiu tantas vezes, que acaba fazendo procedimentos que meus colegas queriam (mesmo o paciente sendo meu) e eles ficam bravos (mas depois sempre entendem e aceitam)...
É tudo tão parecido... tantas situações que vivo e que saio me sentindo uma retardada, uma idiota, uma burra, uma malvada... e que estão retratadas num seriado de tv de forma tão parecida. Me faz sentir menos burra. Se está num seriado é porque todos passam por isso para aprender.
Todos aqueles médicos fodões que fazem pose de "sempre soube tudo e você é um idiota", que falam conosco como se tudo fosse tão óbvio, que nos exigem tanto... eles já passaram por isso, eles já foram internos idiotas que não sabiam a topografia do canal inguinal ou a anatomia do pescoço para passar um cateter central, ou mesmo como manter uma criança parada para fazer um exame especular em seu ouvido.
Pensar nisso me faz sentir melhor, tão mais tranquila, tão menos estúpida. Assistir a esse seriado me faz sentir parte do mundo e me dá forças para continuar. Me dá vontade de estudar, de prestar mais atenção, de conversar mais com os mais velhos sobre minhas dificuldades e angústias. Afinal, eles já passaram por isso.
Na faculdade de Medicina, o clima fake que tenta se manter é que todo mundo sabe muito, que nasceram sabendo, que ninguém nunca erra, que todo mundo tem muito talento para aquilo... que ninguém sofre, que ninguém dorme, faz cocô... que ninguém ama.
Com certeza, Meredith, há uma razão para eles fazerem tudo tão difícil de propósito. Estamos lidando com vidas, com pessoas cheia de histórias, angústias, medos, dores, vontades, sonhos. O paciente não é uma prova prática diária, na qual você precisa ser aprovado para passar para o próximo estágio. Às vezes, é assim que a gente os enxerga, inconscientemente. Exigem tanto da gente em conhecimento, em postura, em mostrar que sabe tudo, que esquecemos que estamos lidando com pessoas... pessoas exatamente iguais a nós.
A dificuldade da Medicina, o maior aprendizado que a gente tem que adquirir (que eu tenho que adquirir), apesar de todas as dificuldades, das angústias, da falta de tempo, da vontade de fazer xixi, do cansaço, da fome, da insegurança... é conseguir atender bem o paciente, entendê-lo e ajudá-lo, unindo nosso conhecimento com nossa percepção e nosso sentimento.
Meu maior desafio nesse internato, é aprender a evoluir um paciente bem, realmente cuidar dele, apesar de saber que daqui a pouco tem visita com o assistente fodão e que ele vai me perguntar detalhes que eu não vou saber responder, que ele vai me humilhar, que ele vai me massacrar. Entender que não adianta ficar com a cara no livro tentando prever quais serão as perguntas que eu vou errar, que é muito mais válido sentar ao lado do paciente e entender sua história e descobrir quais são seus medos e seus sonhos, saber o que o está incomodando mais e tentar ajudá-lo.
A matéria será aprendida de qualquer forma. Conhecimento é essencial, mas, se formos analisar profundamente, veremos que é o mais fácil de se adquirir.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Dias de luta, dias de glória...
Hoje foi um dia de consagração e felicidades.
Há cerca de 2 anos, fiz um trabalho com alguns professores que, por acaso (simplesmente por eu estar no lugar certo na hora certa), me pediram ajuda para um único evento e acabei me envolvendo com o projeto deles e ajudei em muito mais. Trabalhei bastante, aprendi muito, vivi situações meio desagradáveis, mas formamos um grande time.
Hoje foi o dia de apresentar o trabalho final resultante do projeto. E... caraca!... ficou MARAVILHOSO!
A cada segundo que ia vendo a apresentação, um filme vinha passando na minha cabeça de tudo que fiz, de todos os momentos bons que vivi com aquelas pessoas. A minha professora que estava apresentando foi simplesmente sensacional. O queixo de todos os presentes caiu de uma forma... E foram muitos elogios, críticas muito construtivas, muita filosofia, muitas metáforas (ela é a mestre das metáforas inesperadas), muita história.
Eu, inserida num mundo de cirurgiões (que não é exatamente um ambiente estimulante), precisava muito de um momento de reflexão assim, precisava voltar a entrar em contato com pessoas que pensam parecido comigo, que acham que o mundo pode ser melhor e fazem acontecer. Exemplos de superação, perseverança.
"Se as coisas são inatingíveis... ora, não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas." (Mário Quintana)
Hoje foi um dia de consagração e felicidades.
Há cerca de 2 anos, fiz um trabalho com alguns professores que, por acaso (simplesmente por eu estar no lugar certo na hora certa), me pediram ajuda para um único evento e acabei me envolvendo com o projeto deles e ajudei em muito mais. Trabalhei bastante, aprendi muito, vivi situações meio desagradáveis, mas formamos um grande time.
Hoje foi o dia de apresentar o trabalho final resultante do projeto. E... caraca!... ficou MARAVILHOSO!
A cada segundo que ia vendo a apresentação, um filme vinha passando na minha cabeça de tudo que fiz, de todos os momentos bons que vivi com aquelas pessoas. A minha professora que estava apresentando foi simplesmente sensacional. O queixo de todos os presentes caiu de uma forma... E foram muitos elogios, críticas muito construtivas, muita filosofia, muitas metáforas (ela é a mestre das metáforas inesperadas), muita história.
Eu, inserida num mundo de cirurgiões (que não é exatamente um ambiente estimulante), precisava muito de um momento de reflexão assim, precisava voltar a entrar em contato com pessoas que pensam parecido comigo, que acham que o mundo pode ser melhor e fazem acontecer. Exemplos de superação, perseverança.
"Se as coisas são inatingíveis... ora, não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas." (Mário Quintana)
domingo, 27 de abril de 2008
(Post para análise pessoal)
Percebi algo muito feio em mim esses dias (não devia estar publicando isso, mas...).
Percebi que muito das minhas angústias, minhas fugas, meu cansaço, meu mau humor está relacionado com minha dificuldade de aceitar que não sou a melhor naquilo (ou uma das melhores). Quando fica estampado que tem gente que faz determinada coisa muito melhor que eu, eu não aguento a pressão que imponho sobre mim mesma e tento fugir, fico angustiada, às vezes até desesperada. E, o pior, mesmo percebendo isso agora, não consigo evitar, não consigo fazer diferente.
Passei para o estágio de cirurgia sexta passada. Na quinta (antes de perceber essas coisas), fiz toda uma "reflexão" sobre mim, sobre o estágio, sobre o que e como iriam exigir de mim. Passei a tarde descansando (graças a um professor de bom coração da gineco, tivemos o dia livre). Eu sabia que lá eles seriam exigentes, que iam me cobrar muito (tanto conhecimento como habilidades - que não tenho), sabia que minhas horas de trabalho aumentariam horrores. Como conclusão das minhas reflexões decidi que ia respeitar meus limites, que não ia me matar só para parecer interessada (quando estivesse cansada, simplesmente iria para casa e suportaria a bronca depois), que ia estudar o que achasse importante para minha formação (não o que me mandassem), que levaria as broncas numa boa, saberia que não é só comigo e não é pessoal (eles destribuem broncas em todo mundo mesmo - dos mais velhos para os mais novos, é uma cascata de humilhações) e sairia do estágio sabendo que dali há dois meses eles sequer lembrariam de mim (porque já teria outra panela lá com a qual eles iria se preocupar).
Estava tudo certo, eu estava bem comigo mesma e com minhas idéias.
Fui para o estágio na sexta, conversamos com nosso chefe direto. Ele nos deu informações totalmente desorganizadas e incompletas, ficamos perdidos, sem saber direito o que teríamos que fazer.
Beleza. Se o cara não consegue ser minimamente organizado, não teria como exigir tanto da gente. Fiquei o dia todo assistindo aulas (porque era um dia atípico do serviço) e à noite, resolvi passar no PS para acompanhar meu colega que estava de plantão.
Cheguei às 19h. Pretendia ficar até às 22h. Mas quando deu 20h eu saí correndo daquele lugar pois não aguentava mais. Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo, só estava atrapalhando, morrendo de dor nas costas e nas pernas, meu colega já estava super bem adaptado, fazendo as coisas dele numa boa. (A Pérola do dia - chegou um trauma, eles fizeram os primeiros atendimentos e quando estava tudo ok, alguém gritou "interno, vai lá chamar o Fast". Eu olhei para os lados, o interno mais velho correu, meu colega correu atrás e eu, como uma boa interna perdida fui atrás, pensando "quem será esse tal de Fast? será que é um assistente?". Perguntei para meu colega QUEM era o tal do Fast. Ele começou a dar muita risada da minha cara e continuou correndo. Até que percebi que estávamos correndo em direção à Radiologia... e descobri que Fast é um tipo de USG para ver líquido livre em cavidade. Desacreditei no que tinha acabado de fazer). Fui para casa dormir.
No dia seguinte, sábado, cheguei à enfermaria 6h30, encontramos o R+, que nos pediu para escolher pacientes que gostaríamos de acompanhar e ir vê-los. Ele explicou mais ou menos o que tinha cada um, escolhemos e fizemos nossa parte. Quando terminou, ele pediu para que colhêssemos exames. Eu nunca tinha feito isso na vida (mas já tinha visto fazer várias vezes). Fui lá com a cara e a coragem. Furei a coitada da paciente duas vezes e nada de conseguir sangue. Um desastre. O R+ foi lá em seguida e em poucos segundos os tubos estavam completos. Ok. Segundo desastre do estágio (o primeiro foi o do PS da noite anterior, claro!). Acompanhei meu colega para que ele colhesse de sua paciente. E, em poucos segundos, lá estavam os tubos cheios.
Fomos para as "aulas" da tarde. Eu me sentindo péssima. Comecei a ficar de profundo mau humor, que piorou quando percebi que minha outra colega tinha ganhado um livro por pura sorte e eu, que já tinha pedido o tal várias vezes, não consegui.
Foi por aí meu momento de epifania. Em meio a um tremendo mau humor que não tinha muita explicação lógica, vendo aquele livro na mão dela, lembrando do Fast, do sangue não colhido e de todos os pontos de interrogação que estavam rondando minha mente desde que pisei na enfermaria (até agora não entendi nada da história de nenhum dos dois pacientes que peguei)... percebi que todo meu mal-estar era decorrente do sentimento de inferioridade que estava tendo. Queria sair correndo e não voltar nunca mais, ficava pensando que realmente escolhi a profissão errada, que não sirvo para aquilo. Tudo simplesmente porque não sou boa o suficiente em cirurgia, nem em obstetrícia, nem em qualquer procedimento... Me sentia bem na Ped e na Gineco porque me sentia segura, porque tinha alguma idéia do que estava fazendo e na maioria das vezes fazia muito bem e era realmente boa (me sentia tão boa quanto a maioria dos meus colegas e melhor do que alguns).
Simplesmente queria parar com isso. Queria parar de sentir obrigação de ser uma das melhores, de me destacar. Certeza que esse sentimento vem do meu pai que vivia dizendo que eu tinha que tirar só 10 na escola, que olhava meu boletim com desdém e dizia "ah, filha, você tirou um 8,0? que vergonha!", para quem eu nunca fui boa o suficiente, bonita o suficiente, inteligente o suficiente. O sonho dele era que eu fosse miss brasil, mas só atingi 1,55m (a culpa foi dele que casou com uma mulher de 1,50m!). Quando entrei na faculdade ele ficou feliz e orgulhoso, mas o orgulho foi embora muito rápido. Quando ele descobriu que eu queria ser pediatra, ele me massacrou dizendo que era um desperdício, que eu tinha que aproveitar o potencial da minha faculdade e ser uma especialista de renome, a melhor na minha área, que era vergonhoso escolher ser pediatra, ter um consultoriozinho qualquer.
Claro que não posso ser uma pessoa muito sã... com alguém assim por perto (ainda bem que não tão perto assim)...
Mas vou me esforçar para entender, para enxergar, para tentar mudar. Quero passar por esse estágio bem, sem me jogar de um prédio no final e sem matar nenhum dos meus colegas, que, obviamente não tem culpa nenhuma de serem melhores do que eu naquilo.
Percebi algo muito feio em mim esses dias (não devia estar publicando isso, mas...).
Percebi que muito das minhas angústias, minhas fugas, meu cansaço, meu mau humor está relacionado com minha dificuldade de aceitar que não sou a melhor naquilo (ou uma das melhores). Quando fica estampado que tem gente que faz determinada coisa muito melhor que eu, eu não aguento a pressão que imponho sobre mim mesma e tento fugir, fico angustiada, às vezes até desesperada. E, o pior, mesmo percebendo isso agora, não consigo evitar, não consigo fazer diferente.
Passei para o estágio de cirurgia sexta passada. Na quinta (antes de perceber essas coisas), fiz toda uma "reflexão" sobre mim, sobre o estágio, sobre o que e como iriam exigir de mim. Passei a tarde descansando (graças a um professor de bom coração da gineco, tivemos o dia livre). Eu sabia que lá eles seriam exigentes, que iam me cobrar muito (tanto conhecimento como habilidades - que não tenho), sabia que minhas horas de trabalho aumentariam horrores. Como conclusão das minhas reflexões decidi que ia respeitar meus limites, que não ia me matar só para parecer interessada (quando estivesse cansada, simplesmente iria para casa e suportaria a bronca depois), que ia estudar o que achasse importante para minha formação (não o que me mandassem), que levaria as broncas numa boa, saberia que não é só comigo e não é pessoal (eles destribuem broncas em todo mundo mesmo - dos mais velhos para os mais novos, é uma cascata de humilhações) e sairia do estágio sabendo que dali há dois meses eles sequer lembrariam de mim (porque já teria outra panela lá com a qual eles iria se preocupar).
Estava tudo certo, eu estava bem comigo mesma e com minhas idéias.
Fui para o estágio na sexta, conversamos com nosso chefe direto. Ele nos deu informações totalmente desorganizadas e incompletas, ficamos perdidos, sem saber direito o que teríamos que fazer.
Beleza. Se o cara não consegue ser minimamente organizado, não teria como exigir tanto da gente. Fiquei o dia todo assistindo aulas (porque era um dia atípico do serviço) e à noite, resolvi passar no PS para acompanhar meu colega que estava de plantão.
Cheguei às 19h. Pretendia ficar até às 22h. Mas quando deu 20h eu saí correndo daquele lugar pois não aguentava mais. Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo, só estava atrapalhando, morrendo de dor nas costas e nas pernas, meu colega já estava super bem adaptado, fazendo as coisas dele numa boa. (A Pérola do dia - chegou um trauma, eles fizeram os primeiros atendimentos e quando estava tudo ok, alguém gritou "interno, vai lá chamar o Fast". Eu olhei para os lados, o interno mais velho correu, meu colega correu atrás e eu, como uma boa interna perdida fui atrás, pensando "quem será esse tal de Fast? será que é um assistente?". Perguntei para meu colega QUEM era o tal do Fast. Ele começou a dar muita risada da minha cara e continuou correndo. Até que percebi que estávamos correndo em direção à Radiologia... e descobri que Fast é um tipo de USG para ver líquido livre em cavidade. Desacreditei no que tinha acabado de fazer). Fui para casa dormir.
No dia seguinte, sábado, cheguei à enfermaria 6h30, encontramos o R+, que nos pediu para escolher pacientes que gostaríamos de acompanhar e ir vê-los. Ele explicou mais ou menos o que tinha cada um, escolhemos e fizemos nossa parte. Quando terminou, ele pediu para que colhêssemos exames. Eu nunca tinha feito isso na vida (mas já tinha visto fazer várias vezes). Fui lá com a cara e a coragem. Furei a coitada da paciente duas vezes e nada de conseguir sangue. Um desastre. O R+ foi lá em seguida e em poucos segundos os tubos estavam completos. Ok. Segundo desastre do estágio (o primeiro foi o do PS da noite anterior, claro!). Acompanhei meu colega para que ele colhesse de sua paciente. E, em poucos segundos, lá estavam os tubos cheios.
Fomos para as "aulas" da tarde. Eu me sentindo péssima. Comecei a ficar de profundo mau humor, que piorou quando percebi que minha outra colega tinha ganhado um livro por pura sorte e eu, que já tinha pedido o tal várias vezes, não consegui.
Foi por aí meu momento de epifania. Em meio a um tremendo mau humor que não tinha muita explicação lógica, vendo aquele livro na mão dela, lembrando do Fast, do sangue não colhido e de todos os pontos de interrogação que estavam rondando minha mente desde que pisei na enfermaria (até agora não entendi nada da história de nenhum dos dois pacientes que peguei)... percebi que todo meu mal-estar era decorrente do sentimento de inferioridade que estava tendo. Queria sair correndo e não voltar nunca mais, ficava pensando que realmente escolhi a profissão errada, que não sirvo para aquilo. Tudo simplesmente porque não sou boa o suficiente em cirurgia, nem em obstetrícia, nem em qualquer procedimento... Me sentia bem na Ped e na Gineco porque me sentia segura, porque tinha alguma idéia do que estava fazendo e na maioria das vezes fazia muito bem e era realmente boa (me sentia tão boa quanto a maioria dos meus colegas e melhor do que alguns).
Simplesmente queria parar com isso. Queria parar de sentir obrigação de ser uma das melhores, de me destacar. Certeza que esse sentimento vem do meu pai que vivia dizendo que eu tinha que tirar só 10 na escola, que olhava meu boletim com desdém e dizia "ah, filha, você tirou um 8,0? que vergonha!", para quem eu nunca fui boa o suficiente, bonita o suficiente, inteligente o suficiente. O sonho dele era que eu fosse miss brasil, mas só atingi 1,55m (a culpa foi dele que casou com uma mulher de 1,50m!). Quando entrei na faculdade ele ficou feliz e orgulhoso, mas o orgulho foi embora muito rápido. Quando ele descobriu que eu queria ser pediatra, ele me massacrou dizendo que era um desperdício, que eu tinha que aproveitar o potencial da minha faculdade e ser uma especialista de renome, a melhor na minha área, que era vergonhoso escolher ser pediatra, ter um consultoriozinho qualquer.
Claro que não posso ser uma pessoa muito sã... com alguém assim por perto (ainda bem que não tão perto assim)...
Mas vou me esforçar para entender, para enxergar, para tentar mudar. Quero passar por esse estágio bem, sem me jogar de um prédio no final e sem matar nenhum dos meus colegas, que, obviamente não tem culpa nenhuma de serem melhores do que eu naquilo.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Tive um dia perfeito hoje, maravilhoso como há muuuito tempo eu não conseguia.
Acordei tarde (às 6h15 - tarde comparado com a hora que eu sou obrigada a acordar normalmente), fui para o hospital, evolui minhas pacientes e desci para a cirurgia. Até aí, eu estava de muito mau humor porque odeio ter que instrumentar cirurgias e seria obrigada a fazer isso hoje. Mas a paciente que ia operar era uma das minhas preferidas e eu tinha prometido tentar estar presente no procedimento, então... fui sem reclamar.
Me lavei, comecei a arrumar as coisas na mesa, derrubei um instrumento, montei a mesa ao contrário, rasguei minha luva 2 vezes e contaminei mais uma vez (e a circulante obviamente estava puta da vida comigo porque eu estava fazendo ela trabalhar triplicado para dar conta das minhas atitudes desastradas).
No meio da cirurgia, do nada, a residente que estava assistindo (ela seria a cirurgiã da próxima) chega do meu lado e começa a conversar:
(Ela) - Você vai fazer residência em cirurgia?
(Eu, com aquela cara de "o que é que essa doida quer???") - Não!
- O que você pretende fazer de especialidade, então?
- Pediatria. Quase certeza.
- Ahhhhh, mas que desperdício!! Você instrumenta muito bem!! Devia fazer alguma especialidade cirúrgica.
Hahahahaha. Foi por pouco que não dei uma baita gargalhada na cara dela. Óbvio que ela não achava isso. Eu sou uma das pessoas mais desastradas do mundo (tudo bem que interno sempre é desastrado, mas eu venço qualquer competição)!!! Mas até que me animei com o elogio. Pelo menos, ele significava que eu não tinha feito nada de muito errado até então. Fiquei feliz.
Acabada a cirurgia, desci para a reunião clínica, que é uma reunião com diferentes especialidades para discutir um (ou alguns) caso mais complexo, que exija a opinião de outros profissionais. Em geral, nós internos ficamos lá boiando na discussão, sem entender nada. Mas a parte boa é que no final sempre tem um "coffe-break" delicioso. Foi exatamente nessa parte que cheguei hoje. Entrei na sala, a discussão estava acabando, nem sentei e já fomos comer.
Como não poderia deixar de ser, após uma reunião dessas, lá fora estavam os representantes dos laboratórios distribuindo amostras grátis de medicações boas. Saí com duas sacolas cheias (incluindo 11 meses de anticoncepcionais para minha irmã e para minha colega de quarto).
Fui para casa guardar minhas sacolas e, como tinha uns minutinhos, abri meu e-mail para ver se tinha algo importante. Para minha enorme surpresa e felicidade, havia acabado de receber uma mensagem de um amigo que considero muito, de quem gosto muito mesmo, mas que não falava comigo há alguns meses (sem que eu soubesse direito por que). Saí de casa radiante e voltei para o hospital para o Ambulatório da hora do almoço.
E não é que meus atendimentos no ambulatório foram ótimos! Fizemos 2 procedimentos (nunca tinha dado a sorte de pegar nenhum) e atendemos alguns casos bem interessantes. A residente que estava conosco era muito boa também. Foi muito produtivo.
Saí de lá umas 13h30, fui para casa, assisti um capítulo do seriado que estou baixando na net (meu atual vício) e depois resolvi tirar um cochilo. Dormi até às 17h. Foi maravilhoso.
Levantei verde de fome porque não tinha almoçado - só tinha comido lá no coffe às 10h da manhã. Resolvi, então, ir ao Mc - estava há umas 3 semanas com vontade e nunca tinha tempo/dinheiro. Comi tudo que tinha direito e voltei para casa andando com meu sundae de chocolate.
No caminho, encontrei um amigo querido que não via há algum tempo. Ele olhou para mim de cima abaixo e soltou um "nossa! mas você é muito sensual andando, sabia?". Detalhe: ele é gay, mais que assumido e certo disso - não havia possibilidade de ele estar dando em cima de mim. Eu só consegui dar risada e responder um "como assim?? você bebeu, né?" e continuei minha caminhada, flutuando de alegria.
Agora, chegando em casa, vou tomar um banho (no meu super chuveiro recém consertado) e estudar um pouco depois, até minha colega de quarto voltar do hospital para nossa sessão diária de fofocas hiper atualizadas.
Dia tão bom assim, merece um post desse (tipo "querido diário"), não?!
Acordei tarde (às 6h15 - tarde comparado com a hora que eu sou obrigada a acordar normalmente), fui para o hospital, evolui minhas pacientes e desci para a cirurgia. Até aí, eu estava de muito mau humor porque odeio ter que instrumentar cirurgias e seria obrigada a fazer isso hoje. Mas a paciente que ia operar era uma das minhas preferidas e eu tinha prometido tentar estar presente no procedimento, então... fui sem reclamar.
Me lavei, comecei a arrumar as coisas na mesa, derrubei um instrumento, montei a mesa ao contrário, rasguei minha luva 2 vezes e contaminei mais uma vez (e a circulante obviamente estava puta da vida comigo porque eu estava fazendo ela trabalhar triplicado para dar conta das minhas atitudes desastradas).
No meio da cirurgia, do nada, a residente que estava assistindo (ela seria a cirurgiã da próxima) chega do meu lado e começa a conversar:
(Ela) - Você vai fazer residência em cirurgia?
(Eu, com aquela cara de "o que é que essa doida quer???") - Não!
- O que você pretende fazer de especialidade, então?
- Pediatria. Quase certeza.
- Ahhhhh, mas que desperdício!! Você instrumenta muito bem!! Devia fazer alguma especialidade cirúrgica.
Hahahahaha. Foi por pouco que não dei uma baita gargalhada na cara dela. Óbvio que ela não achava isso. Eu sou uma das pessoas mais desastradas do mundo (tudo bem que interno sempre é desastrado, mas eu venço qualquer competição)!!! Mas até que me animei com o elogio. Pelo menos, ele significava que eu não tinha feito nada de muito errado até então. Fiquei feliz.
Acabada a cirurgia, desci para a reunião clínica, que é uma reunião com diferentes especialidades para discutir um (ou alguns) caso mais complexo, que exija a opinião de outros profissionais. Em geral, nós internos ficamos lá boiando na discussão, sem entender nada. Mas a parte boa é que no final sempre tem um "coffe-break" delicioso. Foi exatamente nessa parte que cheguei hoje. Entrei na sala, a discussão estava acabando, nem sentei e já fomos comer.
Como não poderia deixar de ser, após uma reunião dessas, lá fora estavam os representantes dos laboratórios distribuindo amostras grátis de medicações boas. Saí com duas sacolas cheias (incluindo 11 meses de anticoncepcionais para minha irmã e para minha colega de quarto).
Fui para casa guardar minhas sacolas e, como tinha uns minutinhos, abri meu e-mail para ver se tinha algo importante. Para minha enorme surpresa e felicidade, havia acabado de receber uma mensagem de um amigo que considero muito, de quem gosto muito mesmo, mas que não falava comigo há alguns meses (sem que eu soubesse direito por que). Saí de casa radiante e voltei para o hospital para o Ambulatório da hora do almoço.
E não é que meus atendimentos no ambulatório foram ótimos! Fizemos 2 procedimentos (nunca tinha dado a sorte de pegar nenhum) e atendemos alguns casos bem interessantes. A residente que estava conosco era muito boa também. Foi muito produtivo.
Saí de lá umas 13h30, fui para casa, assisti um capítulo do seriado que estou baixando na net (meu atual vício) e depois resolvi tirar um cochilo. Dormi até às 17h. Foi maravilhoso.
Levantei verde de fome porque não tinha almoçado - só tinha comido lá no coffe às 10h da manhã. Resolvi, então, ir ao Mc - estava há umas 3 semanas com vontade e nunca tinha tempo/dinheiro. Comi tudo que tinha direito e voltei para casa andando com meu sundae de chocolate.
No caminho, encontrei um amigo querido que não via há algum tempo. Ele olhou para mim de cima abaixo e soltou um "nossa! mas você é muito sensual andando, sabia?". Detalhe: ele é gay, mais que assumido e certo disso - não havia possibilidade de ele estar dando em cima de mim. Eu só consegui dar risada e responder um "como assim?? você bebeu, né?" e continuei minha caminhada, flutuando de alegria.
Agora, chegando em casa, vou tomar um banho (no meu super chuveiro recém consertado) e estudar um pouco depois, até minha colega de quarto voltar do hospital para nossa sessão diária de fofocas hiper atualizadas.
Dia tão bom assim, merece um post desse (tipo "querido diário"), não?!
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