"As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidas e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta."
(The World as Will and Representantion - A. Schopenhauer)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Reviravolta
De repente, todos os planos e desejos mudaram.
De repente mesmo.
Recebi uma ótima proposta de trabalho para uma cidade pequenina (3.000 habitantes).
Na hora, tinha certeza que não aceitaria. É loucura simplesmente me mudar para um lugar distante diferente, sem muitos recursos, onde não conheço ninguém.
Mas, conversando com meus amigos, todos fora unânimes: a proposta era irrecusável. A cidade é muito boa, tem um hospital bem equipado, ambulância e possibilidade de transferência rápida quando necessário. Um colega meu trabalhou lá por um mês ano passado e gostou muito. As referências são muito positivas.
Enviei meu currículo no mesmo dia, acompanhado de diversas dúvidas sobre as condições de trabalhos.
Descobri que há 5 candidatos. Nenhum que eu conheça. E agora aguardo a resposta.
Conversei com minha irmã, no momento minha maior preocupação. Mas ela também concordou com a idéia e me incentivou com o argumento principal: posso voltar quando eu quiser. Não vou fechar um contrato estanque como seria se eu tivesse ido pro exército. Vou apenas com a promessa de ficar pelo menos um mês. Se não for bom (o que duvido muito), eu volto.
Isso fez com que todos os meus outros planos mudassem. Eu ia começar PSF agora em dezembro pra já ir juntando uma grana e ia dar uns plantões extras. Mas não vou aceitar enquanto eu não tiver resposta desse outro emprego. E os plantões, por hora, estão em aberto. Vou tentar dar alguns na semana que vem. Mas não quero dar sozinha e, a essa altura do campeonato, vai ser quase impossível conseguir 2 vagas p/ um mesmo dia. Enfim... não sei mais se vou trabalhar por enquanto.
Pelo menos no momento sei que posso contar com a ajuda do meu pai. Ele nunca foi de me dar força pra nada (nem sequer quando decidi fazer Medicina e passei numa faculdade pública), mas agora está mais manso.
Ele queria que eu fosse trabalhar no nordeste, disse que lá eu teria melhores condições de vida e tal e se propôs a me ajudar se eu precisar até eu conseguir me estabelecer.
Até o carro dele ele deixou eu usar se quisesse. Mudança total nas idéias dele de que sou uma vagal folgada irresponsável.
Vamos ver no que vai dar essa história.
Confesso que se eu não conseguir essa vaga, não vou ficar tão chateada. Porque a idéia de ter que enfrentar tantas mudanças de repente me assusta horrores.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
News
De repente me deu uma saudade do blog e resolvi passar por aqui e contar as novidades.
Ando usando muito o twitter e isso desagua boa parte das idéias que usaria nos posts, então acabo ficando meio distante desse meu cantinho.
Coisas da vida...
O que ando fazendo agora que a faculdade acabou?
Comendo muito e dormindo pra caramba!!!
Descobri por que durante a faculdade eu vivia com sono. Porque simplesmente preciso de 10h de sono por dia pra recuperar as energias. DEZ horas!!!! Isso é um absurdo tremendo. Passar quase metade da minha vida dormindo não tem o menor cabimento. Mas é verdade. Seria perfeito se eu pudesse dormir às 01 ou 02 da madrugada e acordar 11h ou meio-dia.
E é isso que faço atualmente. E é tão boooom!!
Minha família acha que eu tô doente por estar dormindo tanto e passando tanto tempo trancada no quarto (vivo na net o dia todo). Mas é o momento do meu relax, meu momento de glória, de aproveitar pra descansar antes de pegar firme no batente.
Falando em batente, tô procurando emprego.
Mas um médico procurando emprego é beeem diferente de qualquer outro profissional. Tem muito hospital precisando de médico nos diversos níveis de atenção e complexidade. É muitíssimo fácil achar um lugar pra trabalhar. O problema é achar um bom lugar.
Tem muita oferta mas as condições de trabalho nem sempre são boas e, valorizando minha formação, que foi a melhor do país, não vou me submeter a correr riscos em qualquer lugar.
Encontrei muitas propostas razoáveis e poucas realmente boas.
Marquei meus primeiros plantões num hospital onde trabalham vários dos meus colegas de faculdade e estou tentando marcar os próximos também por indicação em algum lugar que tenha alguém conhecido junto, pra garantir reforço caso aconteça qualquer merda.
Meu posto de saúde p/ ano que vem já está definido.
Pensei muito em sair da cidade, ir trabalhar no litoral, mas não consegui nenhuma indicação segura de onde ir. Preferi não correr o risco e optei por ficar por aqui mesmo, com todo o trânsito, violência, cultura e diversão.
Quanto a diversão pela cidade a fora, não tenho feito muita coisa, pra ser sincera. Vira e mexe vou pra Paulista pra resolver alguma pendência, acabo passeando por lá e aproveitando um pouco do tanto que ela tem a oferecer.
Estou programando de ir à exposição na Oca mas até agora não deu. Talvez amanhã.
Hoje, após dias de isolamento (porque meus amigos estavam prestando prova de residêncina), saí com um amigo. Ele precisava comprar uma bolsa para a mãe dele e fui acompanhar.
Aliás, esse amigo é aquele que comentei no post anterior (que estava envolvido com minha amiga louca). Pois é... Hoje foi o dia de conversarmos, o dia de descobrir o que realmente aconteceu na nossa história.
Coloquei o assunto em pauta, tentei aprofundar a questão mas ele é muito mais inteligente do que eu e acabou por me enganar e elegantemente sair pela tangente.
Ele simplesmente respondeu de forma clara todas as perguntas que fiz. Todas. Não evitou nenhuma, não mudou de assunto. Mas as respostas eram tão literais que acabavam não falando de sentimentos.
Fiquei mais confusa e não consegui tirar dele a informação que eu queria, nem sentir nada mais claro.
Só depois que nos despedimos é que eu consegui pensar com mais clareza. Só depois eu percebi que ele tinha me enganado e saído pela tangente brilhantemente.
O balanço final, minha conclusão foi que ele realmente estava afim. Mas era algo meio corriqueiro, um interesse desprovido de sentimentos mais profundos. Na festa, enquanto falávamos da tal amiga, ele realmente quis ficar comigo. Eu senti e ele confirmou hoje.
No passado, ele realmente quis ficar comigo em outras baladas. Ele citou um churrasco que ele diz não lembrar mas acha que pode ter tentado algo e eu posso ter dado um fora nele. Nesse churrasco em questão eu passei o dia todo total e completamente bêbada. Me lembro de pouca coisa, mas simplesmente não me lembro nem da presença dele lá. Naquele dia, eu estava totalmente focada em causar ciúme no meu ex-namorado ficando com o melhor amigo dele (coisa muito feia! adolescente maldosa!) e foi exatamente o que eu fiz. E tudo que me lembro é que meu plano deu certo, meu ex ficou mordido de ciúmes e acabou terminando o namoro dele da época (coitada da menina...)
Enfim, essa história ficou só como história vazia. Como ele disse, e até então eu não tinha me dado conta, sou uma pessoa difícil. É bem difícil mesmo pra um cara chegar em mim. Eu consigo perceber isso (um tanto também porque sou muito tímida e por todas as histórias que já contei neste blog - tenho medo de me machucar demais). E por essas e outras características e por outras questões do momento, eu não dei absolutamente nenhuma brecha pro garoto. Sem querer.
Ele lá, dizendo que quis ficar comigo, e eu aqui absorvendo a informação como se não fosse de mim que ele estava falando. Apesar de querer, não dei a menor esperança. Agi como se toda aquela conversa não passasse de curiosidade pra mim. E no fim, ele foi embora com uma cara meio que de decepção.
E disse: "a gente ainda vai ter outras histórias pra viver".
E a idiota aqui respondeu: "será? será que a gente vai se ver de novo? não acho que a gente vai ter muito contato daqui pra frente..."
Triste, né?! Mas foi sem querer. Juro.
Depois conto os próximos capítulos dessa novela mexicana. (Agora faço questão que tenha próximos capítulos)
Sobre livros, após muita resistência, acabei lendo Lua Nova. Terminei semana passada. Eu não tinha gostado muito de Crepúsculo e não iria ler os outros, mas o livro acabou caindo na minha mão... Confesso que gostei bastante. Me envolvi na história. Foi bom!
Agora comecei a ler "A Ilha". Um livro da década de 70 que conta as maravilhas que o socialismo trouxe à Cuba. É um livro bastante tendencioso e chega a me irritar às vezes. Mas peguei pra ler porque quero ler "A ilha roubada" depois e queria ter as duas versões na cabeça juntas. Enfim... acho que vou acabar desistindo dos dois e vou viajar pra Cuba pra tirar minhas próprias conclusões. Hehehe
Mais notícias em breve!
(É, Mário, acho que nem se eu quisesse conseguiria deixar esse cantinho! Obrigada pelo carinho de sempre!)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
É a vida... quando uma coisa vai bem...
(Depois de tanto tempo sem escrever direito no blog, um post sobre "futilidades")
Colei grau.
E não estava feliz. Pelo contrário...
Fui deitar de madrugada, com a cabeça cheia, dormi extremamente mal e fui pra colação com um humor do cão. Péssimo!
Não que faça muita diferença porque essa cerimônia nem é muito legal, mas queria estar mais animada.
E por que eu estava triste?
Claro que pelos dois maiores problemas de qualquer mulher bem sucedida profissionalmente: 1) Homens, 2) Família.
Vamos começar pelo número 2 que é mais simples nesse momento.
Minha família simplesmente não apareceu na minha colação. Ninguém! Absolutamente nenhum teve a mínima consideração p/ me dar um mísero parabéns.
Por todo lado via famílias completas e felizes, mãe chorando, pais orgulhosos, avós presenteando... e para mim, nem um abraço... nem sequer um telefone.
Sabendo disso, propositalmente, fui p/ o lugar atrasada. Não queria ver a felicidade dos outros me fazer sentir tão pequena, tão insignificante. Foi muito triste.
O pior foi no fim, na hora de tirar foto com todo meu grupo de internato e família. Aquele monte de gente... aquele monte de pais... eu me recusei. Não quis me juntar ao grupo. Me senti horrível, queria cavar um buraco no jardim e me enterrar.
Enfim... família desnaturada = problema sem solução. Não dá pra fazer nada. Apenas lamentar.
Problema 1.
Me meti numa grande enorme enrascada (mais uma vez).
Uma amiga minha está completamente apaixonada por um amigo meu. Ela está daquele jeito enloquecida, que não consegue pensar em outra coisa, que sofre e tal... O cara, gosta dela mas não tá apaixonado. Ele ficou com ela algumas vezes, trocaram uns carinhos, eles são muito amigos também e mantém uma amizade meio colorida. Mas ele deixou claro que não quer namorar com ela, disse que a vida dele tá meio complicada e blábláblá (aquela conversa mole que as pessoas falam quando não querem assumir um relacionamento mas estão dispostos a se "aproveitar" da situação se o outro permitir). Ele tenta afastá-la na maioria das vezes, mas ela é tão insistente e tão apaixonada que ele, carente, acaba ficando com ela (e tudo sempre termina no blábláblá).
Que que eu tenho a ver com isso?
Há um pouco mais de um ano atrás, eu e esse cara éramos muito próximos. Ficamos muito amigos mesmo, mas nunca rolou clima nem nada, era amizade mesmo (pelo menos eu achava assim). Mas de uma hora pra outra, naquela época, ele começou a me evitar. Sempre que eu me aproximava ele me afastava, às vezes me tratava com bastante frieza, apesar da educação impecável. Eu não sabia por que, não fazia idéia do que estava acontecendo.
Não sei como, não sei se alguém me falou isso ou se eu inventei da minha cabeça, mas comecei a ter certeza (certeza!) que ele estava me tratando assim porque ele achava que eu estava afim dele e ele não queria nada comigo. Para não ter um enfrentamento nem acabar com a amizade de vez, ele preferiu o caminho da frieza. No fim, acabei me afastando, sentindo muito (comecei a me questionar se eu não estava realmente afim dele, mas como eu sabia que ele não queria nada comigo, nem pensei muito no assunto).
Com o tempo, fomos superando isso e fomos nos reaproximando mais ou menos. Nunca mais foi a mesma coisa, mas voltamos a ser amigos normais.
Bem depois, ele começou a se envolver com essa menina e como eu sou amiga dos dois acabei sendo o meio de campo da história, acabei interferindo algumas vezes. Uma dessas vezes, foi numa balada. Eu bêbada, sentei com ele numa escada e ficamos conversando por quase 1h sobre a outra menina, mas muuuuito próximos, de rosto colado praticamente. Foi um momento muito íntimo e muito estranho. Na semana seguinte (a semana passada) fizemos juntos um curso na faculdade, na mesma sala, sentávamos juntos. E foi muito bom. Nos reaproximamos enormemente. Fiquei feliz!
Nesse mesmo curso, tinha um calouro que estava achando que ia ficar comigo. Sei lá porque cargas d'água o tal calouro achou que tinha alguma chance. O meu amigo ficou sabendo, virou pra ele e disse: "O que? Você, calouro, acha que vai pegar a Paloma? Tá viajando! Isso não vai acontecer. Ela é muito difícil!!!"
Como assim eu sou muito difícil? Que que ele quis dizer com isso? Por que raios ele diria isso se ele nunca tentou nada, se ele nunca esteve envolvido (até onde eu sei) em nenhum dos meus casos mal sucedidos??
Fiquei intrigada e fui investigar a história.
E acabaram me contando que ano passado rolou uma história na faculdade de que esse cara era muito afim de mim e que eu não quis nada com ele. Não sei de onde surgiu a história mas todo mundo "sabia" que a gente tinha se afastado porque eu dei um fora nele.
Como assim?
Como assim?
Como assim?
Fiquei sem entender absolutamente nada.
Ele era meu amigo, ele nunca se aproximou, nunca deu nenhuma indireta, nunca percebi nada!!! Não é possível que seja verdade.
Essa história me tirou do eixo completamente. Não sei o que sinto por ele, não sei se eu namoraria ele ou coisa parecida se ele quisesse, não sei mesmo mas acho que sim...
O problema é que agora isso não vai rolar de jeito nenhum por causa da minha outra amiga doida apaixonada por ele. Mesmo ele já tendo dito não pra ela, não dá pra eu simplesmente deixar essa história acontecer com a gente...
Mas eu também não consigo esquecer. Não consigo conviver com a dúvida, sem saber o que aconteceu de verdade, qual parte da história é verdadeira... não consigo conviver com a idéia de termos perdido a chance de sermos felizes juntos (o que acho bem provável que teria acontecido naquela época).
Preciso saber a verdade e minha luta agora é pra conseguir falar com ele.
Tô praticamente perseguindo o cara pra conseguir falar com ele, mas ele tá se esquivando. Ele não sabe nada a respeito desse meu conhecimento repentino do possível interesse dele em mim, mas ele tá desconfiando fortemente que alguma coisa está errada....
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Livre
Acabou!!!
Fim da faculdade, fim dos plantões gratuitos.
Nessa quase madrugada de segunda, eu assistindo CQC, aproveitando twitter, orkut e meu mais novo vício, o facebook (aqueles aplicativos e jogos são muito bons!).
Já consegui emprego. Muitos. Milhares. Mas ainda não tenho CRM, então estou basicamente de férias, aproveitando a vida com tudo que tenho direito (e condição).
O melhor de ter acabado é a sensação de liberdade. Eu posso simplesmente fazer o que eu quiser, a hora que quiser, do jeito que quiser, sem dar satisfação, sem cumprir horários, sem pressões ou responsabilidades. É uma sensação indescritível!
As pessoas falam "mas você escolheu fazer Medicina, podia ter saído da faculdade e aproveitado sua liberdade se quisesse". Mas não. Eu não escolhi fazer Medicina. Eu escolhi ser médica. O que eu queria era atender pacientes, cuidar, salvar, aliviar. Eu não queria ficar sentada num anfiteatro por 8 horas do meu dia, 5 dias da semana por 4 anos e depois dar plantões infernais, de graça, em locais muitas vezes insalubres por mais 2 anos até conseguir meu diploma. Eu não tinha saída, não tinha muita opção.
Agora é muito diferente! Agora eu sou médica. Agora eu escolho! E quando não quiser mais, eu posso parar sem enfrentar tão graves consequências assim. Isso é tão fantástico!!!
Eu escolhi não fazer residência por enquanto.
Eu escolhi não dar muitos plantões de PS esse ano.
Eu escolhi trabalhar com atenção primária.
E, se no meio do caminho eu mudar de idéia, eu paro. Eu posso começar a dar plantão, posso desencanar da atenção primária, posso prestar residência ano que vem. Eu posso mudar de cidade. Eu posso ficar um mês sem fazer absolutamente nada no meio do ano e ninguém tem nada com isso. E a única coisa que vai acontecer é minha conta no banco ficar menos cheia.
Enfim: LIVRE!
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Rito de passagem
O dia de hoje marca para mim um momento de transformação, minha "promoção", a passagem da classe baixa para a classe alta.
É estranho demais viver isso. Principalmente porque todas as pessoas que fizeram parte da maioria da minha vida continuam na classe baixa, falam aquela língua, frequentam aqueles lugares. Realidade que para mim apresentasse distante agora.
Me sinto mais diferente dos meus pares e mais iguais a meus ímpares. Me sinto meio que sem limites, vivendo um sonho, uma posição que eu nunca imaginei que poderia atingir.
Se você não está entendendo bem do que eu estou falando... a culpa é minha e não sua.
Explico:
Saí hoje para escolher um vestido para minha formatura. Eu tinha visto um vestido maravilhoso, perfeito num desfile na tv. Sabia que ele custava caro mas não tinha noção do que "caro" significava.
Lá de onde eu vim, não existe a possibilidade de comprar roupa por mais de R$100,00. É um absurdo! Inimaginável! Simplesmente não dá pra bancar e não fazemos isso.
Quando comecei a pensar no vestido de formatura que eu iria comprar, conversei com algumas meninas de uma classe social semelhante a minha. Elas me disseram que um vestido não sairia por menos de R$300,00 ou 400,00. Passado o susto, me acostumei com a idéia de gastar tal quantia.
Conversando com outras pessoas, investigando mais a fundo, descobri que a maioria (que obviamente pertence à classe alta) paga cerca de R$1.500,00. Fiquei chocada! De verdade! Nunca aventei a possibilidade de gastar tanto dinheiro numa roupa. Pior ainda, num vestido pra ser usado uma única vez, provavelmente. Óbvio que pensei "nunca que vou pagar tanto por um pedaço de tecido".
Enfim, hoje, saí com minha madrinha, minha irmã e duas amigas (ricas) da faculdade e fomos a procura do dito cujo.
A primeira loja que visitamos foi aquela em que tinha o vestido que eu tinha amado, aquele que eu sabia que seria caro mas que não tinha idéia do preço (achei que era uns R$1.000,00 e estava decidida que só iria experimentar porque procuraria em outras lojas algo mais de acordo com minha realidade).
Só que, quando coloquei o dito cujo (ainda sem saber o preço), ficou simplesmente divino, perfeito, maravilhoso. Sem necessidades de ajustes nem nada. Parecia que tinha sido feito para mim, sob medida (
Repare no discurso patricinha).
Perguntei o preço e quase cai dura. Era muito muito muito caro. Muito mais caro do que eu podia imaginar. Eu nunca pensei em sequer segurar na minha mão uma roupa com tal valor. Era uma facada! Um absurdo major!
Fiquei em estado de choque, enquanto minha madrinha passou a negociar o preço e em quantas mil vezes ela poderia pagar aquele troço. Eu não conseguia conceber a ideia de pagar tanto por qualquer coisa que fosse, muito menos por um vestido. Eu dizia e repetia "eu nunca paguei nem R$100,00 num tênis, eu nunca usei um tênis que custasse R$100,00, como posso pagar tanto por um vestido".
Bom... no fim... acabei comprando (com a pressão da madrinha, da irmã e das amigas). Gastei todo o dinheiro que tinha, mais o dinheiro que minha madrinha tinha, parcelei o resto em 10 vezes e agora preciso arrumar um empréstimo ou um "presente" da minha vó pra bancar tudo.
A grande questão dessa história é que não estou preocupada. Eu nunca na minha vida tinha feito uma compra parcelada. Detesto cartão de crédito, não acho interessante fazer dívidas pro futuro sem saber se sequer estarei viva.
Hoje fiz minha primeira.
Mas não estou preocupada mesmo.
E minha falta de preocupação vem do fato que sei que esse montante de dinheiro que hoje pra mim parece infinito, ano que vem não será nem cócegas.
Se eu der plantão no Natal e Ano Novo (dias de maior valor) já dá pra quitar essa dívida e ainda sobra.
Não estou preocupada porque a partir de dezembro, passo a poder dar plantões e por cada um deles (por 12h de trabalho) ganharei mais do que eu ganhava num mês inteiro de "camelação" quando eu era auditora de shopping.
Vou ganhar uma quantidade de dinheiro que não sei o que exatamente significa, que não tenho idéia de como alguém pode gastar tanto num único mês. Vou conseguir comprar meu carro zero, viajar pra NY, passar um mês na Europa. Vou poder fazer tudo e mais um pouco e ainda vai sobrar. Vai sobrar pra caramba.
As pessoas dizem que médico ganha pouco. Mas isso depende muito do referencial.
Se você considerar o tanto que a gente estudou e estuda para nos mantermos bons, se considerar o envestimento que fizemos e todo sofrimento pelo que passamos... ganhamos sim, muito pouco.
Mas eu, com as referências de salário que tenho, tendo vivido o que vivi, tendo passado as dificuldades que passei... para mim, é bastante dinheiro. É dinheiro suficiente pra eu me tornar a pessoa mais rica entre todos os meus familiares/parentes, pra me tornar a aluna mais bem sucedida de qualquer dos colégios que estudei...
É dinheiro suficiente pra realizar todas as minhas vontades, as da minha irmã, da madrinha e mais algumas...
É simplesmente uma nova vida. Totalmente outra.
O problema vai ser quando eu me acostumar com essa "riqueza" e começar a me comparar com meus, então, pares. Quando eu começar a sonhar mais alto - ex.: um apartamento no Jardins...
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Sensações de fim
A proximidade do fim, trás algumas sensações estranhas, notórias.
Dever cumpridoSentir que consegui. Vim, lutei e venci. Que nem tudo foi em vão. Sentir que valeu o suor, que agora sou alguém. Alguém que sabe alguma coisa, que faz alguma coisa e, melhor ainda, que pode fazer muito mais.
CansaçoO sentimento de "não aguento mais" em relação àquilo que nunca gostei, a tudo que tentava suportar e que agora transborda em desgosto e reprovação.
SonhoPensar no futuro próximo, na realização de antigos sonhos e de novos também. Um novo livro se abre, com as páginas branquinhas para serem preenchidas.
RevisãoRefletir sobre o que não foi e como poderia ter sido. O que fiz que não deveria ter feito. Ou, pior, o que não fiz que deveria ter feito. São tantos arrependimentos que se tornaram aprendizados...
SaudadeJá começa a bater aquela sensação de distância. De querer aproveitar os últimos minutos. De olhar para o prédio e pensar "Nossa! Como ele é bonito! Vou sentir falta dessa vista!" ou olhar para minha república e pensar "talvez eu seja feliz aqui e não perceba, talvez ano que vem eu vou pensar nesse lugar como o melhor do mundo". Olhar para os supostos amigos e pensar "será que a gente vai se ver de novo depois? será que ele vai sentir falta das nossas conversas tanto quanto eu?"
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Aconteceu
Parece que parei no tempo. Como se tudo estivesse em câmera lenta, num vale entre montanhas bem altas.
Vivo pensando no pico da próxima montanha. Vivo programando o que vai acontecer ano que vem, vivo lá e não mas aqui.
Não consigo me conscientizar do presente. Tá tudo meio embaçado.
Estranho.
O pior é saber que pode aparecer um abismo a qualquer momento. Um abismo que pode me jogar mais pra baixo e me distanciar ainda mais do topo daquela montanha que tanto quero alcançar.
Tento estudar. Consigo pouco. Bem menos do que precisava.
Meu aniversário passou batido. Não fiz nada, não vi ninguém, não ganhei presentes. Nenhum.
Sabe o que é mais grave? Que não quero fazer diferente.
Sei que estou perdendo tempo, que minha vida está passando, que vou sentir falta dessa época, desse fim de faculdade que deveria ser mais aproveitado.
Mas não consigo mais, não quero mais viver essa vida. Cansei.
Quero acabar, arrumar um emprego, me empenhar nos meus projetos... Não quero mais ter que fazer só o que me mandam ou o que esperam de mim. Quero tomar as rédias da minha vida. E isso não dá pra fazer dentro de um hospital, dando tantos plantões, aulas, provas, cobranças, visitas, pessoas te passando a perna todo tempo.
Tenho muitos planos e não vejo a hora de poder colocá-los em prática.
No meio dessas elucubrações descubro que o avô de uma das minhas melhores amigas morreu. E ela não me contou. Era o alicerce da vida dela, o único que a apoiava, que seria seu padrinho de formatura. E ela não me contou porque era meu aniversário e eu fiquei distante. Nos vemos todos os dias, sempre, moramos juntas. Mas nesses dias eu estava muito auto-centrada, egocêntrica, fechada em mim mesma e ela não conseguiu se aproximar, não me encontrou. Sofreu muito. E eu não estava aqui para ajudá-la.
Porque eu simplesmente não estou conseguindo enxergar o meu redor. Só consigo ver o pico da montanha. Só consigo me ver, amanhã.
Me tornei igual àqueles que tanto critico.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Você tem orgulho de ser brasileiro?
Hoje saí de casa às 5h30 da madrugada.
A lua brilhava altiva. Nem sinal de sol.
Pelas ruas, parecia 18h. Muita gente de lá pra cá, de cá pra lá, ônibus barulhentos subindo as ruas, buzinas, motoristas xingando. Tudo funcionando como se fosse horário comercial.
Quando passei em frente ao hospital fiquei chocada com o tamanho da fila. Dos dois lados da rua: fila, fila, fila. "Será que estão distribuindo algum prêmio?".
Claro que não.
Era uma fila de pessoas doentes. Idosos, grávidas, pessoas com câncer, AVC, infarto, ICC, doenças auto-imune... todo tipo de doença grave (porque é um hospital terciário que só atende doenças graves/terminais). Todas em pé, na fila, esperando o ambulatório do hospital abrir.
Se aquelas pessoas estavam na fila às 5h30, devem ter saído das casas delas em torno das 4h ou antes (a maioria vem de muito longe, algumas de outras cidades).
E essas pessoas se consideram sortudas por ter uma consulta marcada. Muitas pessoas sofrem das mesmas doenças e não conseguem consulta antes de morrer. Aqueles na fila são os felizardos que estão tendo uma chance.
Como pode um sistema de saúde em que as pessoas doentes ficam felizes de ficar 2h numa fila, de madrugada, em frente ao hospital para passar numa consulta que conseguiram depois de muita luta e com muita sorte?
Fui p/ o ponto de ônibus pensando naquelas pessoas e fiquei observando o mundo a minha volta.
A maioria dos ônibus que passavam estavam lotados. Às 5h30 da manhã!
As pessoas que desciam do ônibus tentavam atravessar a avenida no meio dos carros que passavam em alta velocidade. Detalhe: há uma passarela a menos de 10 metros (grudado no ponto).
Fiquei imaginando o momento em que alguém seria atropelado e eu teria que ir lá tentar evitar que ninguém mexesse na pessoa até chegar o resgate, brigando com as pessoas para não tirar a vítima do local onde ela caiu...
Que país é esse em que as pessoas se conformam em não ter saúde, não ter educação, não respeitar regras simples que existem para própria proteção???
Cada vez eu tenho mais vergonha de ser brasileira.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Cansaço
De repente, senti um cansaço profundo, uma vontade de dormir pelos próximos 3 dias seguidos, como se minhas forças tivessem sido sugadas por um buraco negro muito próximo.
Olhei pro relógio, eram 8h30 da manhã.
Não, eu não tinha dado plantão na noite anterior. Eu tinha chegado ao plantão às 7h30... e às 8h30 eu já não aguentava mais.
Percebi (mais uma vez...) que o que me cansa são as pessoas ao meu redor. São elas que sugam a minha energia e me fazem querer parar tudo e descer.
É impressionante o egocentrismo, a falta de companheirismo, a indiferença, "te ferro pra não me ferrar" all the time ever.
São sucessivas situações em que as pessoas demonstram o quanto são mesquinhas. Pessoas de quem eu gostava, pessoas nas quais eu confiava... Tudo bem.
Na hora do almoço, depois de mais uma jogada de mestre da mesquinha mor do momento (que se livrou da pior cirurgia do dia com manipulação baixa), acabei ficando apenas com um colega no centro cirúrgico.
Apareceu uma apendicectomia para instrumentar, a equipe já estava toda montada, mas me interessei pelo caso porque era uma criancinha. Pedi para instrumentar no lugar do residente.
Coitado do meu colega... ele já tá tão traumatizado com as puxadas de tapete que na hora que eu disse que ia entrar ele respondeu: "Ah, muito espertinha você, né senhorita?! Vai entrar na apendicectomia que é tranquilo e quando a laparo do fecaloma chegar eu é que serei obrigado a entrar, né?!".
Tranquilizei o garoto, disse que a laparotomia não ia chegar tão cedo mas que se chegasse, era só ele me chamar que eu trocava de cirurgia.
É muito triste ter que viver nesse ambiente de selvagens. E cansa demais!
Quero fugir! Quero que acabe logo! Não quero nunca mais encontrar com essas pessoas depois que acabar. Elas que vivam a vida delas bem longe de mim e que sofram com as puxadas de tapete que ainda vão tomar (porque vão tomar muuuuitas para pagar todo sofrimento que elas estão causando hoje).
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Cirurgia Rocks
Acabei de sair de uma retossigmoidectomia.
Muito bom!!!
Claro que errei os instrumentos, derrubei o aspirador, contaminei minha luva, contaminei o avental do residente... enfim, todos lá sabiam que eu quero ser pediatra e me perdoaram.
Eu adorei ver o cólon mais uma vez, ver o grampeamento, fechar parede (ficou horrível, mas estou aprimoranodo minha técnica).
Melhor ainda: a cirurgia foi metade video, metade aberta. Um primor com colonoscopia intraop e tudo mais.
Estou animada de novo!!! (
Tá vendo, foi só sair da clínica que melhorei imediatamente).
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Querido diário
Meus dias ruins se acumulam.
A impressão que tenho é que meu inferno astral já começou... esse ano, um pouco mais cedo do que deveria.
Meu dia de ontem:
- Pela manhã, tinha prova. Fui fazer a bendita, crente que tinha estudado os temas mais "quentes". Óbvio que não. Caiu umas coisas de hepatopata (que eu até sabia mas na hora, como não tinha estudado isso ultimamente, não lembrei de várias coisas), uma questão super específica de ventilação mecânica (eu não tinha estudado nada dessa porcaria... simplesmente não consigo entender). Ah... também caiu H1N1. Sim!!!! Essa porcaria de doença que fez os atendimentos no PS quadruplicarem caiu na maldita prova. E, pior, o que ele perguntava eram coisas tipo "o que quer dizer nível 6 de transmissão". Quando a gente questionou o professor que nunca ninguém tinha discutido isso conosco, ele disse que era nossa obrigação ler jornal.
Quase morri de tanto rir. Gargalhada e mais gargalhadas por todo canto da sala. A gente trabalha umas 60 horas por semana (às vezes chega a 90h), quase não vemos nossas famílias, nunca vemos nossos amigos (que não forem da faculdade), precisamos estudar quase sempre por muitas horas, mal temos tempo de comer e dormir e o cara ainda quer que a gente leia jornal. Na boa, também acho importante, mas entre poder dormir 1h a mais (das 6h diárias em média) e ler jornal, óbvio que prefiro dormir (se eu acordasse mais cedo para ler jornal de manhã seriam apenas 5h de sono...)!
Enfim, acabada a prova (na qual fui muito mal, obviamente), uma menina idiota me parou e disse que queria conversar comigo. A gente tinha se desentendido umas semanas atrás e ela queria tirar a história a limpo. Não preciso dizer que eu não estava nem minimamente interessada, né? Eu falei pra ela que não era uma boa hora, eu já não estava muito bem por medo de reprovar nessa prova... mas ela insistiu fortemente. Acabamos brigando. Primeiro foi na frente do professor. Xingamentos ao alto e bom tom. Depois, foi no corredor do hospital. Uma cena ridícula!
Fui almoçar, tentando me tranquilizar e decidi que passaria a tarde no cinema para desestressar. Antes do cinema passei no caixa eletrônico e... surpresa!!! Meu cartão do banco foi recusado. Fui a outros caixas... nada! Acabei desisitindo (mesmo porque eu não tinha um centavo sequer no bolso) e fui embora. A essas horas, já estava de noite. E eu não tinha o que comer... não tinha o que jantar. Morrendo de fome, acabei indo ao restaurante do hospital. Um horror!!
Durante a janta, acabei encontrando um amigo meu. Contei para ele sobre o cartão e ele resolveu que me levaria ao cinema e me emprestaria dinheiro. Pelo menos uma coisa boa nesse dia ruim. Fomos assistir a um filme francês. Legalzinho mas nada emocionante.
Meu dia hoje:
Ah... hoje acordei animada. Achava que não tinha como ser um dia pior que o anterior...
Ledo engano.
Fui para enfermaria evoluir os pacientes da clínica pela última vez na minha vida e não é que meu chefe chega com vontade de fazer perguntinhas tipo "chamada oral". PQP! Eu queria ir embora cedo e o cara ficou enrolando, perguntando coisas bestas e enchendo nosso saco. Óbvio que errei 80% das perguntas que ele fez... mesmo porque eu mal estava prestando atenção na pergunta...
Acabou a visita umas 11h15 (geralmente termina às 9h30). Resolvi descer para almoçar, quando aparece meu professor dizendo que teria ambulatório à tarde e que 5 pessoas das 10 do meu grupo precisariam ficar. Eu precisava desesperadamente ir ao banco resolver o problema com meu cartão. Não ia ficar no ambulatório de jeito nenhum.
Dear God!
Foi a maior confusão! E no fim, acabei discutindo feio com uma colega do meu grupo. No meio da enfermaria, com todos os pacientes e enfermeiras como platéia, eu entrei em surto! Não consegui me controlar... nem sequer percebi o que estava fazendo... eu estava tão puta da vida com a folgada da menina que não percebi o volume da minha voz.
Saí soltando fogo da enfermaria (no final, consegui que a folgada percebesse que ela estava errada e ela aceitou ir pro ambulatório). Que raiva! Almocei sozinha, correndo e saí o mais rápido que pude do local para não ter que encontrar ninguém.
Fui pra casa chorando de desespero.
Não aguento mais conviver com esse tipo de gente. Tá muuuito foda. As pessoas são muito egoístas, não conseguem estender a mão pra ninguém, falam mal de todo mundo o tempo todo, espalham historinhas inventadas só para elas parecerem legais (foi por isso que briguei com a idiota ontem)... Fora toda a pressão que a Medicina já impõe ainda tenho que ficar aguentando essas porcarias.
Nossa! Fiquei muito alterada.
Mas como eu tinha o problema do meu cartão para resolver. Me concentrei e fui ao banco.
Olha que interessante: eles me informaram que meu cartão foi bloqueado porque ele tinha sido clonado na semana passada quando fui ao Outback no aniversário de uma amiga. Dá pra acreditar?
Num estabelecimento da classe alta, frequentado por um bando de mauricinhos e patricinhas, é justo meu cartão que eles clonam. Na mesa em que eu sentei tinha umas 20 pessoas... e clonaram apenas o meu cartão (e depois descobri que de um amigo meu também - coitado, o cara é tão pobre quanto eu... no meio de um monte de rico, a gente que se ferrou). No fim, resolvi a questão e espalhei para Deus e o mundo que se alguém for ao Outback do shopping Eldorado PAGUE COM DINHEIRO!!!
Vou ter que esperar uns 10 dias para receber um novo cartão...
Fui pra casa, finalmente. Ainda tive alguns probleminhas pequenos com a máquina de lavar roupa, com uns cadernos que eu precisava comprar e com um ônibus... mas deixa essas histórias pra lá porque esse post já tá grande demais!
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Denúncia
Queria ter coragem para denunciar ao CRM um dos médicos com quem tive o desprazer de cruzar nesse fim de semana. Mas como não tenho o "culhão" necessário para bancar essa... me conformo com um desabafo no blog e, no máximo, uma reclamação para o chefe do cidadão.
Estou passando pela enfermaria da Clínica Médica e durante toda semana passei visita com um Assistente aparentemente bom. Discutia os casos novos com profundidade suficiente, cobrava alguns conhecimentos nossos, beleza. Nunca me pareceu um grande Assistente mas também nunca tive problemas com ele.
Até que sábado, fui à enfermaria evoluir pacientes de um outro grupo, que eu nem conhecia. Por coincidência (não acredito em coincidências!) o tal médico boa pinta apareceu para discutir os casos.
Eu tinha passado umas 4 horas revisando os casos dos 7 pacientes que ficaram sob minha responsabilidade, tentando entender o que estava acontecendo com eles, conversando com a família.
Aí, no fim da manhã, fui passar os casos para o Assistente para discutir as condutas.
O primeiro era o pior: uma senhorinha com Alzehmeir avançado com uma pneumonia, dessaturando, mal perfundida, com piora do leuco e PCR. Ele ouviu (ou fingiu, sei lá), carimbou a prescrição e passou para o próximo. Perguntei se não deveríamos pensar numa mudança do esquema terapêutico, investigar algum outro foco de infecção. Ele respondeu: "Ih... não... colhe outro exame de sangue amanhã e a gente vê como fica".
Beleza.
Nos pacientes seguintes, ele foi diminuindo progressivamente o quanto ele deixava eu contar da história.
Num deles, eu falei: "O paciente está ali na sala de tv, professor. É uma paciente de 43 anos...", ele me interrompeu e disse "Nada a fazer, né? Nada a fazer!", carimbou a prescrição e saiu andando.
Eu parei ele, disse que o paciente tinha chegado da UTI na noite anterior, que era um paciente com AIDS, ICC descompensada, aneurisma de VE... Ele me ignorou completamente e mandou que eu passasse o próximo.
O último paciente do dia ainda foi pior. Era um homem de 40 e poucos anos com uma pneumonia que tentou tratar em casa, mas teve piora do padrão respiratório. Estava no 5º dia de esquema antibiótico ampliado, na noite anterior estava necessitando de O2, saturando 90%. Mal consegui explicar essa breve história, o Assistente vira e diz: "Ele tá de alta, né?"
- Como assim tá de alta, professor?! Acho que ainda tá cedo pra ele ir pra casa.
Ele entrou no quarto do paciente, olhou pra cara dele:
- Sr. Fulano, você tá bem, né?! Quer ir pra casa, não quer?
O Sr. Fulano olhou com aqueles olhos arregalados, sem entender nada.
E o sabixão me obrigou a dar alta para o paciente, para tomar Claritro em casa. Um absurdo!
Essa história toda já seria o suficiente para eu querer denunciá-lo. Só por se dizer responsável por doentes que ele nem viu a cara, já seria o suficiente. Mas tem mais.
Na semana anterior, ele tinha dado alta para uma paciente HIV, que tinha internado por Pneumocistose. Ela tinha tomado 10 dias de ATB internada e apresentava um diarréia crônica (há 3 meses). O sabixão mandou que a gente suspendesse o ATB no 10º dia porque isso podia ser a causa da diarréia. Na hora, o Residente questionou e disse que o mínimo era de 14 dias de antibiótico. O sabixão disse que não, que eram só 10. Depois ele ficou na dúvida, abriu seu palm e viu que realmente o tratamento era de 14 a 21 dias.
Mesmo assim, suspendeu o medicamento e deu alta pra paciente assim que a diarréia melhorou um pouco.
3 dias depois a paciente voltou ao hospital. Em Insuficiência Respiratória. Foi direto pra UTI onde se mantém ainda com pulmão lixo.
Pode ser que a insuficiência respiratória dela não tenha nada a ver com a Pneumocistose anterior. Pode ser que ela tenha pego uma PNM hospitalar (que só se manifestou depois da alta) que a fez piorar do pulmão. Mas convenhamos... como você vai provar agora que o esquema antibiótico de 10 dias foi suficiente se a literatura evidencia 14 dias no mínimo e se a mulher piorou assim tão rápido depois da suspensão do medicamento???
Ahhhh, e eu ainda fico me colocando pra baixo, pensando que sou ruim, que tenho pouco conhecimento, que não sou boa o suficiente para clinicar... Tem gente muito pior que eu!!!
O pior não é você não ter o conhecimento. O pior é você não se interessar pelos pacientes, querer se livrar deles... o pior, é achar que sabe tudo e fazer idiotices da sua cabeça, colocando a vida dos outros em risco.
Comecei a achar que enquanto eu sentir que não sei o suficiente, estou segura. O problema vai ser quando eu achar que sei muito e que não preciso mais dos livros ou das outras pessoas...
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Num guento maisss!
Putz, ainda bem que estou fazendo o estágio de Clínica Médica agora e não no fim do ano.
Estou em profundo desespero.
Mais uma vez meu bloqueio em relação a essa especialidade se manifesta e eu tenho vontade de me matar. Detesto, não tem jeito.
Cada pergunta que o Assistente me faz, fico me segurando para não responder: "Não sei e não estou interessada".
Hoje no ambulatório, o chefe me perguntou se eu tinha testado os "trigger points" da paciente com suspeita de fibromialgia. A resposta foi, obviamente, "não".
Aí ele pediu para que a outra assistente, que é reumatologista, viesse me ensinar. Eu espremi meus lábios para não responder: "não precisa, não vou aprender mesmo, não tô interessada".
Na boa, eu sei que é importante. Eu sei que aprender Clínica Médica é essencial para qualquer médico. Mas eu não consigo. Eu simplesmente detesto atender adultos.
As pessoas me dizem que é perigoso dar plantão de Pediatria sem ter feito residência, que é muito mais seguro dar plantão de Clínica Médica. Mas tenho certeza que para mim é o contrário. Dando plantão de Clínica eu vou acabar colocando a vida das pessoas em risco porque simplesmente não consigo reter informações sobre essa especialidade.
Por exemplo, se eu atendesse uma paciente com hipertireoidismo, tomando metimazol e com gripe e febre há um dia, eu ia dizer que não é nada, que é a gripe e ia mandar pra casa com antitérmico com orientações de retorno se necessário.
Erro gravíssimo!!!
A mulher pode ter uma agranulocitose por causa da medicação e minha conduta de mandá-la pra casa sem colher hemograma pode colocar a vida dela em risco!
Nesse momento eu sei disso, porque atendi uma paciente assim hoje. O problema é que daqui há 6 meses, não vou lembrar dessa informação.
Não vou conseguir me lembrar de TODAS as coisas essenciais que preciso me lembrar sobre as principais doenças. Sei que não vou.
Com a Pediatria é diferente. As informações fazem sentido pra mim e acabo me lembrando das principais intercorrências. Os plantões são sempre mais pesados e a gente sempre corre o risco de atender uma criança grave. Mas consigo fazer meu cérebro funcionar, consigo no mínimo me lembrar que a doença tal tem alguma coisa de diferente em relação à conduta (posso não me lembrar exatamente o que e como, mas sei que preciso procurar - a luz vermelha acaba acendendo, entende?).
Enfim, não aguento mais me sentir uma "dumb" retardada. Não aguento mais ter que me segurar para não mandar meus chefes à merda. Tá difícil suportar esse estágio... Mas é a última semana.
Depois vem a cirurgia e eu vou poder fazer apendicectomias do começo ao fim e consertar hérnias. Não serei mais apenas uma instrumentadora inútil mas sim uma cirurgiã (de procedimentos simples, claro!)
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Divagações sobre amizades
Consegui tirar esse fim de semana e mais alguns dias para descansar... depois de tanto trabalho nas duas semanas anteriores.
Descansando, fiquei assistindo às baboseiras atuais da televisão brasileira.
E não é que me identifiquei demais com uma pessoa inesperada.
Assisti à eliminação dessa semana em "A Fazenda" (nunca tinha assistido ao tal programa, mas nada como alguns minutos e alguns cliques para me fazer entender tudo). No dia seguinte, acabei assistindo a um outro programa na record que estava entrevistando a eliminada: Lucielle di Camargo.
E não é que me identifiquei demais com essa menina.
Personalidade forte, briguenta quando afetam seus valores, meio estourada, estressada, meio isolada... Me vi na história dela.
Agora pouco, assisti novamente o tal programa. E não é que a melhor amiga da coitada da Lucielle afirma em rede nacional que não escolheria ela para "Fazendeira".
Engraçado ver algo tão parecido com sua história retratado num programa de tv idiota.
Sou uma pessoa difícil. Todo mundo sabe disso. E muitas vezes acabo incompreendida.
Compro briga quando afetam meus valores, mesmo sabendo que no fim não vai dar em nada, mas prefiro lutar do que abaixar a cabeça e deixar pisarem em mim.
Não consigo ser imparcial. Nunca. Sempre assumo um lado do muro. Nem sempre o certo, mas quando é o errado, sei reconhecer e tento consertar os estragos.
Sou leal aos meus amigos. Mas isso não me impede de mostrar-lhes minha opinião e avisar quando acho que estão errado.
E espero o mesmo das pessoas.
Espero que elas fiquem do meu lado nas minhas brigas justas e espero que elas me dêem bronca quando estou errada.
O problema é que poucas pessoas são assim.
A maioria das pessoas é como a Fabiana. Ficam em cima do muro e não se metem em confusão (nem para defender um amigo). Às vezes elas dão bronca, mas se retiram se a coisa esquenta de qualquer forma.
Às vezes elas param para te escutar, mas só se isso não atrapalhar sua rotina ou sua política com as outras pessoas.
É triste.
Dá solidão perceber essas coisas.
Semana passada eu estava estressada. Muito estressada. Absurdamente estressada.
E briguei com deus e o mundo.
Até acho que eu tinha razão nas coisas que disse. Mas com certeza não deveria ter dito do jeito que disse.
Sabe o que meus amigos fizeram?
Ao invés de vir falar comigo, perguntar o que estava acontecendo, dizer que eu tinha exagerado, que eu não deveria ter falado daquele jeito... as pessoas simplesmente passaram a me tratar com extremo cuidado. Extremo! Quase não falavam comigo. Com medo de ser a próxima vítima.
Ridículo!
Amigos? Sério?
Sabe que cada dia mais eu acredito que nenhum deles é meu amigo.
Fico imaginando daqui a uns anos, se terei contato com alguém daquele grupo.
Gostaria de manter contato com pelo menos 2 deles. Dois que apesar de tantas discussões e brigas, continuam por perto. Dois que são tão diferente de mim e tão especiais. Mas não sei se isso vai acontecer.
Acho que vou me formar e seguir meu caminho (aliás, uma das meninas que mais considerava amiga e que me decepcionou absurdamente esse ano, veio pedir minha ajuda para conseguir emprego... ela quer seguir MEU caminho...).
Talvez eu continue assim pra sempre. Com amigos que só são amigos às vezes.
Talvez eu encontre pessoas parecidas comigo. E talvez, muito talvez, eu consiga supartá-las por tempo suficiente para se tornarem minhas amigas.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
MJ
Tenho dificuldade para entender quando as pessoas dizem "não acredito que MJ morreu, ele parecia imortal!". Juro que tento mas não compreendo o que esse "sentimento" quer dizer.
Entendo que as pessoas estão tristes, que foi uma grande perda para muitos. Entendo a perda e o sofrimento que ela trás. Mas essa descrença (que não é aquela fase de negação da Kubler-Ross), essa sensação de imortal deixa muito claro que as pessoas não viam MJ como uma pessoa normal, viva. Talvez só como uma imagem, algo que fazia parte da tv e dos palcos - imortal, portanto. Bizarro!
Ultimamente sempre que eu via uma notícia sobre ele, quando soube que ele ia fazer shows novamente, eu pensava "mas ele ainda está vivo mesmo?". Pra mim, MJ era uma pessoa. Não uma pessoa como qualquer outra, mas um mortal muito mais perto da morte do que eu ou você. Sempre o percebi como uma pessoa muito frágil, doente, um sofredor. E por vezes achei mesmo que ele já tinha morrido.
Não sei se porque estou sempre muito próxima da morte dos outros. Não sei se porque trabalho com fragilidade e doença... Não sei.
Sinto muito por ele ter ido. Sinto mais pelos filhos que ele deixa do que propriamente pela arte que ele ainda poderia produzir.
Sinto muito mesmo.
Mas acho que agora ele pode parar de sofrer e descansar.
Em paz.