"A couple of hundred years ago, Benjamin Franklin shared with the world the secret of his success. “Never leave that till tomorrow”, he said, “Which you could do today.” This is the man who discovered electricity. You’d think more of us would listen to what he had to say. I don’t know why we put things off, but if I had to guess, I’d say it had a lot to do with fear. Fear of failure. Fear of pain. Fear of rejection. Sometimes the fear is just of making a decision, because what if you’re wrong? What if you make a mistake you can’t undo? Whatever it is we're afraid of, one thing holds true: that by the time the pain of not doing the thing gets worse than the fear of doing it. It can feel like we're carrying around a giant tumor. And you thought I was speaking metaphorically.
[...]
The early bird catches the worm; a stitch in time saves nine. He who hesitates is lost. We can't pretend we haven't been told. We've all heard the proverbs, heard the philosophers, heard our grandparents warning us about wasted time, heard the damn poets urging us to ‘seize the day'. Still sometimes we have to see for ourselves. We have to make our own mistakes. We have to learn our own lessons. We have to sweep today's possibility under tomorrow's rug until we can't anymore, until we finally understand for ourselves like Benjamin Franklin meant. That knowing is better than wondering, that waking is better than sleeping. And that even the biggest failure, even the worst most intractable mistake beats the hell out of never trying."
(GA S1E06)
"O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino." Carl Gustav Jung
sábado, 10 de maio de 2008
Perdi um paciente hoje. Ele morreu nas minhas mãos. Literalmente.
Cheguei à enfermaria hoje cedo. Hoje sábado.
Não havia nenhum residente, nenhum médico, apenas as enfermeiras, eu e meu colega de panela.
Assim que entramos, a enfermeira nos chamou e disse que a paciente que veio da UTI ontem estava dispineica, que precisávamos avaliá-la logo porque ela não estava bem. Entramos no quarto, começamos a examiná-la e a enfermeira começou a gritar do corredor: "Doutores, doutores, ajuda aqui."
Saimos correndo, cena de filme mesmo.
Entramos no quarto de outro paciente, ele estava em parada. A enfermeira nos contou que ele estava em pé minutos antes, disse que não estava se sentindo bem, mas estava andando. Ela olhou para ele e viu que estava cianótico, pediu que ele se deitasse e alguns segundos depois ele estava vomitando, desacordado.
Chegamos nesse momento.
Eu simplesmente fiquei em choque, assustada, sem saber o que fazer. Tipo a Meredith no 1º episódio de Grey's. Meu colega, mais esperto e com mais experiência começou a fazer massagem cardíaca. Ele sabia o que fazer, já tinha visto e vivido situações semelhantes e simulações - ele fez curso de suporte avançado e já deu diversos plantões no PS da cirurgia durante a faculdade - simplesmente porque ele gosta dessas coisas de salvar vidas em situações de emergência).
Eu, com espírito de pediatra/puericultura, sempre fugi de coisas assim. Não gosto, não funciono.
Mas sou quase médica. Tenho que saber. E sei. Na teoria.
Quando ele começou a massagem cardíaca e passou a liderar a "equipe", eu acordei do meu choque e passei a ajudá-lo. Ambuzando, revezando na massagem, pedindo as drogas (que só poderíamos ministrar quando chegasse um médico formado).
Um residente apareceu, mandou aplicar as drogas que já estavam à mão, continuou a monitorização e depois ficou lá assistindo eu e meu colega tocando a parada, tentando salvar a vida do senhorzinho. Chegou um outro residente, os dois começaram a conversar sobre plantões e tal... e nós lá ambuzando fazendo massagem...
Foda. Foda. Foda.
Passados 40 minutos, não tinha mais o que fazer. Paramos e o senhorzinho se foi.
Sem nem ter tido tempo de respirar, corri para ver a senhora que estava com falta de ar. Eu não sabia o que fazer. Examinei, achei que podia ser edema pulmonar, mas chamei o residente para avaliar sem uma sugestão de conduta. Meu cérebro mal funcionava.
Poucos minutos depois, minha paciente me vendo no corredor (eu estava esperando o residente terminar a avaliação da outra para podermos discutir) veio perguntar se eu tinha novidades para ela. Eu, na maior inocência, disse que ainda não tínhamos visto o resultado de exame que ela fez porque no dia anterior ficamos o dia todo em cirurgia (saímos era 19h30 e fui direto para casa). Pra quê??? Como sou idiota!!!
Na hora, ela fez aquela cara de "essa criancinha vestida de médica é uma inútil mesmo" virou para mim e disse que ela já tinha visto o resultado de exame e que os médicos tinham dito que estava alterado sim. O que ela queria saber é o que eles iam fazer com ela. Eu tentei me desculpar, expliquei que eu tinha ficado em cirurgia e não sabia disso e que eu iria conversar com a residente em seguida.
Merda gigante. Essa cena aconteceu na frente de 4 outros pacientes que passaram a me tratar como criança.
Nessa altura do campeonato, já eram uma 8h30 (eu tinha chegado lá às 6h30), não tinha evoluído nenhum paciente nem prescrito (em geral tudo deve estar pronto até às 8h). Saí correndo, fui vendo os paciente, prescrevendo, resolvendo os pepinos. E, para continuar bem esse maravilhoso dia, a maioria dos pacientes tinha uma queixa nova importante (um tinha tido uma dor torácica de forte intensidade à noite, outro tinha começado a desenvolver uma lesão sacral que parecia uma escara, outro com falta de ar, a outra com dor abdominal e parada de eliminação de flatos...). Caraca! Eu nunca imaginei que ia passar por algo assim.
Os médicos mais velhos chegaram (nem vi quando porque estava tão ocupada)... discutimos os casos, passei os problemas... até que um deles virou e disse "ouvi dizer que você tocou uma parada hoje... você tá bem?". Ele pôs a mão no meu ombro, me olhou e respondi "não, não estou". Ele simplesmente virou e mudou de assunto. Disse que era assim mesmo e me mandou ir até a recuperação pós anestésica avaliar um paciente que não tinha voltado ontem após a cirurgia (aquele que ficamos até às 19h30).
Depois disso ainda fiz um milhão de coisas, vi exames, colhi, mudei prescrições, tomei broncas, respondi a um interrogatório de conhecimento (óbvio que eu errei 90%).
Umas 12h, eu louca para ir embora (num fim de semana normal a gente costuma sair umas 9h-10h), a residente me pediu ajuda para um procedimento. Fui lá, ajudei, demorou horrores. Quando terminou, todos saíram da sala de procedimentos e eu fiquei responsável por levar a paciente de volta para o quarto. Porém, ela estava nauseada e pediu que eu esperasse até ela melhorar um pouco. Enquanto isso, ela pediu que eu fosse até o quarto dela e retirasse seu almoço se ele já tivesse chegado porque ela não queria sentir o cheiro, se sentisse vomitaria. Fui lá, pedi para a enfermeira tirar a bandeja e, quando estava voltando para buscar a paciente, alguém veio me pedir ajuda para alguma coisa simples. Fui, ajudei e... simplesmente esqueci que tinha deixado a paciente na sala de procedimento. Esqueci.
Perguntei para a residente se eu podia ir embora porque ainda ia viajar em seguida, ela disse que já estava tudo mais ou menos encaminhado e que ela terminaria sem problemas. Fui lembrar da paciente quando estava no ônibus, quase chegando ao meu destino. Imperdoável. Vergonhoso. Certamente alguém passaria por lá e veria ela (fica num lugar exposto onde sempre passa gente). Mas eu era a responsável, eu tinha que ter voltado lá, não podia ter esquecido.
Enfim. Foi tudo horrível hoje.
Não posso dizer que não aprendi. Aprendi muito. Pra vida inteira.
Mas foi péssimo. Estou me sentindo um lixo, podre, estragada. Uma péssima aluna, uma médica desprezível, uma profissional medíocre. Vendo como meu colega atende os pacientes dele e todo seu interesse e conhecimento, me sinto pior ainda. Como posso querer ser médica se não tenho capacidade intelectual, nem manual e muito menos equilíbrio emocional para um dia desses??? Como pude escolher essa profissão e como sobrevivo a tanta pressão, cobrança, frustração, incapacidade???
Cheguei à enfermaria hoje cedo. Hoje sábado.
Não havia nenhum residente, nenhum médico, apenas as enfermeiras, eu e meu colega de panela.
Assim que entramos, a enfermeira nos chamou e disse que a paciente que veio da UTI ontem estava dispineica, que precisávamos avaliá-la logo porque ela não estava bem. Entramos no quarto, começamos a examiná-la e a enfermeira começou a gritar do corredor: "Doutores, doutores, ajuda aqui."
Saimos correndo, cena de filme mesmo.
Entramos no quarto de outro paciente, ele estava em parada. A enfermeira nos contou que ele estava em pé minutos antes, disse que não estava se sentindo bem, mas estava andando. Ela olhou para ele e viu que estava cianótico, pediu que ele se deitasse e alguns segundos depois ele estava vomitando, desacordado.
Chegamos nesse momento.
Eu simplesmente fiquei em choque, assustada, sem saber o que fazer. Tipo a Meredith no 1º episódio de Grey's. Meu colega, mais esperto e com mais experiência começou a fazer massagem cardíaca. Ele sabia o que fazer, já tinha visto e vivido situações semelhantes e simulações - ele fez curso de suporte avançado e já deu diversos plantões no PS da cirurgia durante a faculdade - simplesmente porque ele gosta dessas coisas de salvar vidas em situações de emergência).
Eu, com espírito de pediatra/puericultura, sempre fugi de coisas assim. Não gosto, não funciono.
Mas sou quase médica. Tenho que saber. E sei. Na teoria.
Quando ele começou a massagem cardíaca e passou a liderar a "equipe", eu acordei do meu choque e passei a ajudá-lo. Ambuzando, revezando na massagem, pedindo as drogas (que só poderíamos ministrar quando chegasse um médico formado).
Um residente apareceu, mandou aplicar as drogas que já estavam à mão, continuou a monitorização e depois ficou lá assistindo eu e meu colega tocando a parada, tentando salvar a vida do senhorzinho. Chegou um outro residente, os dois começaram a conversar sobre plantões e tal... e nós lá ambuzando fazendo massagem...
Foda. Foda. Foda.
Passados 40 minutos, não tinha mais o que fazer. Paramos e o senhorzinho se foi.
Sem nem ter tido tempo de respirar, corri para ver a senhora que estava com falta de ar. Eu não sabia o que fazer. Examinei, achei que podia ser edema pulmonar, mas chamei o residente para avaliar sem uma sugestão de conduta. Meu cérebro mal funcionava.
Poucos minutos depois, minha paciente me vendo no corredor (eu estava esperando o residente terminar a avaliação da outra para podermos discutir) veio perguntar se eu tinha novidades para ela. Eu, na maior inocência, disse que ainda não tínhamos visto o resultado de exame que ela fez porque no dia anterior ficamos o dia todo em cirurgia (saímos era 19h30 e fui direto para casa). Pra quê??? Como sou idiota!!!
Na hora, ela fez aquela cara de "essa criancinha vestida de médica é uma inútil mesmo" virou para mim e disse que ela já tinha visto o resultado de exame e que os médicos tinham dito que estava alterado sim. O que ela queria saber é o que eles iam fazer com ela. Eu tentei me desculpar, expliquei que eu tinha ficado em cirurgia e não sabia disso e que eu iria conversar com a residente em seguida.
Merda gigante. Essa cena aconteceu na frente de 4 outros pacientes que passaram a me tratar como criança.
Nessa altura do campeonato, já eram uma 8h30 (eu tinha chegado lá às 6h30), não tinha evoluído nenhum paciente nem prescrito (em geral tudo deve estar pronto até às 8h). Saí correndo, fui vendo os paciente, prescrevendo, resolvendo os pepinos. E, para continuar bem esse maravilhoso dia, a maioria dos pacientes tinha uma queixa nova importante (um tinha tido uma dor torácica de forte intensidade à noite, outro tinha começado a desenvolver uma lesão sacral que parecia uma escara, outro com falta de ar, a outra com dor abdominal e parada de eliminação de flatos...). Caraca! Eu nunca imaginei que ia passar por algo assim.
Os médicos mais velhos chegaram (nem vi quando porque estava tão ocupada)... discutimos os casos, passei os problemas... até que um deles virou e disse "ouvi dizer que você tocou uma parada hoje... você tá bem?". Ele pôs a mão no meu ombro, me olhou e respondi "não, não estou". Ele simplesmente virou e mudou de assunto. Disse que era assim mesmo e me mandou ir até a recuperação pós anestésica avaliar um paciente que não tinha voltado ontem após a cirurgia (aquele que ficamos até às 19h30).
Depois disso ainda fiz um milhão de coisas, vi exames, colhi, mudei prescrições, tomei broncas, respondi a um interrogatório de conhecimento (óbvio que eu errei 90%).
Umas 12h, eu louca para ir embora (num fim de semana normal a gente costuma sair umas 9h-10h), a residente me pediu ajuda para um procedimento. Fui lá, ajudei, demorou horrores. Quando terminou, todos saíram da sala de procedimentos e eu fiquei responsável por levar a paciente de volta para o quarto. Porém, ela estava nauseada e pediu que eu esperasse até ela melhorar um pouco. Enquanto isso, ela pediu que eu fosse até o quarto dela e retirasse seu almoço se ele já tivesse chegado porque ela não queria sentir o cheiro, se sentisse vomitaria. Fui lá, pedi para a enfermeira tirar a bandeja e, quando estava voltando para buscar a paciente, alguém veio me pedir ajuda para alguma coisa simples. Fui, ajudei e... simplesmente esqueci que tinha deixado a paciente na sala de procedimento. Esqueci.
Perguntei para a residente se eu podia ir embora porque ainda ia viajar em seguida, ela disse que já estava tudo mais ou menos encaminhado e que ela terminaria sem problemas. Fui lembrar da paciente quando estava no ônibus, quase chegando ao meu destino. Imperdoável. Vergonhoso. Certamente alguém passaria por lá e veria ela (fica num lugar exposto onde sempre passa gente). Mas eu era a responsável, eu tinha que ter voltado lá, não podia ter esquecido.
Enfim. Foi tudo horrível hoje.
Não posso dizer que não aprendi. Aprendi muito. Pra vida inteira.
Mas foi péssimo. Estou me sentindo um lixo, podre, estragada. Uma péssima aluna, uma médica desprezível, uma profissional medíocre. Vendo como meu colega atende os pacientes dele e todo seu interesse e conhecimento, me sinto pior ainda. Como posso querer ser médica se não tenho capacidade intelectual, nem manual e muito menos equilíbrio emocional para um dia desses??? Como pude escolher essa profissão e como sobrevivo a tanta pressão, cobrança, frustração, incapacidade???
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Hoje tive discussão de Bioética. Discussão orientada depois de uma reunião inesperada que também tratou do assunto. Assunto esse tão renegado, evitado, excluído...
Sempre que tenho essas discussões (pelo menos 1x por mês por determinação da Graduação), minha cabeça vai a mil. Ao mesmo tempo que me angustia falar nesses assuntos pesados, me alivia por saber que posso falar em algum lugar (ou pelo menos ouvir como geralmente faço - por opção, por falta de vivência).
Discutimos alguns casos de pacientes graves que não sabem do diagnóstico, o que fazer quando a família pede para não contar, o que fazer quando você tenta contar e o paciente não quer entender, ou mesmo quando o médico não quer contar ou pede para que escondamos ou, pior, para que a gente minta (nós, como internos, seguimos ordens - na medida do aceitável, claro - mentir para o paciente é algo que eu não aceitaria fazer).
O médico mais velho estava nos contando de experiências que ele teve com pacientes que estavam para morrerm e a dificuldade de lidar com o diagnóstico, mas a dificuldade maior de lidar com as dúvidas, angústias e medos do paciente e da família.
Falamos sobre um caso atual de uma paciente de um colega meu que não sabia que tinha câncer. Ela não sabia, os médicos não esclareceram, a família não tinha muita noção do que estava acontecendo e meu colega, interno como eu, novinho em folha, perdido... não sabia o que fazer.
A orientação desse professor mais velho foi: siga a instrução do serviço. Se você quer contar e os médicos assistentes do lugar onde o paciente está te autorizam a contar, você conta, conversa, tenta tirar as dúvidas. Mas, se os assistentes te orientam a não contar, ou não dão muita atenção, é melhor não se meter.
Fiquei pensando: mas o paciente tem o direito de saber o que está acontecendo com ele, nossa obrigação como médicos é contar. E o professor respondeu, sem que eu perguntasse: nós somos internos, a gente passa 10 dias, no máximo 1 mês, em cada serviço. Já pensou se meu colega vai lá e conta para a paciente que ela tem um câncer. Por mais que ele explique, tire as dúvidas dela no momento, no dia seguinte, quando outras dúvidas aparecerem, quando ela tiver feito um exame que veio uma coisa esquisita e ela não entendeu, quando a filha dela quiser conversar com o médico para saber melhor... meu colega já não vai mais estar lá. Se os assistentes não estão dispostos a fazer esse papel, a paciente vai ficar lá com suas dúvidas, isolada, angustiada, sem ter o que fazer. E meu colega, com sua consciência tranquila por ter cumprido sua obrigação, vai estar em outro andar do hospital, atendendo outro paciente sem sequer imaginar o que está acontecendo com o anterior. Se sairmos por aí, nós como internos rotativos, contando para todos os pacientes seus diagnósticos, poderemos estar causando mal àquelas pessoas. Poderemos, com a melhor das boas intenções, estar prejudicando aquele paciente, os familiares e até os médicos do serviço. Nós não temos condição de acompanhar o paciente, portanto, não temos condição de fazer algo de tamanha responsabilidade como contar um diagnóstico.
O melhor a se fazer nesses casos, é conversar com os médicos responsáveis pelo caso, explicar que o paciente não sabe, o que ele quer saber e tentar convencê-lo de contar, estando a gente junto ou não. Mas garantir que aquele paciente vai ter um suporte depois quando passar o choque e vierem todas as outras dúvidas e angústias.
Uma outra coisa que falamos e sobre a qual eu poucas vezes tinha pensado, é sobre a importância da esperança. O professor contou um caso de um tio dele que tinha câncer. Ele, médico, o levou no melhor especialista que ele conhecia, fizeram todos os exames e concluíram que não poderia ser curado, que só poderiam fazer tratamento paliativo e dar assistência ao paciente na evolução da doença. A tia desse meu professor, esposa do paciente, desesperada, resolveu que ia pedir outras opiniões. Consultou alguns médicos que disseram a mesma coisa. Até que um dia ela encontrou um que falou que poderia curá-lo. O charlatão disse que faria uma cirurgia para tirar o tumor e que o paciente ainda ia viver muitos anos.
Charlatão mesmo.
O tal fez a cirurgia, cobrou rios de dinheiro e, no final, disse que a doença tinha afetado o outro lado do cérebro e não dava para abrir de novo etc etc etc.
A viúva pobre, ao contar o caso anos depois disse que se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, igualzinho, e daria todo dinheiro dela para o tal charlatão de novo, mesmo sabendo que ele é charlatão. Por quê???
Porque ele foi o único médico que lhes deu esperança. O paciente morreu do mesmo jeito, em pouco tempo, mas morreu sabendo que lutou tudo que podia, morreu com esperança.
Não estou dizendo que enganar paciente é bom. De maneira nenhuma. Acho que um charlatão desse deve ir preso! Mas acho que essa história nos deve ensinar a, mesmo dando notícia de uma doença terminal, nunca acabar com a esperança do paciente. Nunca dizer "o senhor vai morrer daqui a 2 meses". A gente não tem como prever isso. As estatísticas mostram que os pacientes com a doença tal vivem em média 2 meses. E daí? Estatísticas não servem para nada quando se trata de individualidade, de uma pessoa. Aquele paciente pode tanto morrer dali a 2 horas atropelado por uma moto quanto viver 2 anos. Não dá pra prever.
Moral da história (só como registro para o dia em que eu for uma má médica, poder reler isso e repensar minhas atitudes): não se preocupar só com a notícia, com a informação a ser passada para o paciente, mas também com suas angústias, medos, expecativas que vão vir depois; saber que tipo de ajuda o paciente quer, o que ele espera da vida dele dali para frente e o que ele espera de nós; nunca acabar com a esperança (ela é algo de mais precioso que um paciente tem); nunca determinar o tempo de vida - só Deus sabe.
Sempre que tenho essas discussões (pelo menos 1x por mês por determinação da Graduação), minha cabeça vai a mil. Ao mesmo tempo que me angustia falar nesses assuntos pesados, me alivia por saber que posso falar em algum lugar (ou pelo menos ouvir como geralmente faço - por opção, por falta de vivência).
Discutimos alguns casos de pacientes graves que não sabem do diagnóstico, o que fazer quando a família pede para não contar, o que fazer quando você tenta contar e o paciente não quer entender, ou mesmo quando o médico não quer contar ou pede para que escondamos ou, pior, para que a gente minta (nós, como internos, seguimos ordens - na medida do aceitável, claro - mentir para o paciente é algo que eu não aceitaria fazer).
O médico mais velho estava nos contando de experiências que ele teve com pacientes que estavam para morrerm e a dificuldade de lidar com o diagnóstico, mas a dificuldade maior de lidar com as dúvidas, angústias e medos do paciente e da família.
Falamos sobre um caso atual de uma paciente de um colega meu que não sabia que tinha câncer. Ela não sabia, os médicos não esclareceram, a família não tinha muita noção do que estava acontecendo e meu colega, interno como eu, novinho em folha, perdido... não sabia o que fazer.
A orientação desse professor mais velho foi: siga a instrução do serviço. Se você quer contar e os médicos assistentes do lugar onde o paciente está te autorizam a contar, você conta, conversa, tenta tirar as dúvidas. Mas, se os assistentes te orientam a não contar, ou não dão muita atenção, é melhor não se meter.
Fiquei pensando: mas o paciente tem o direito de saber o que está acontecendo com ele, nossa obrigação como médicos é contar. E o professor respondeu, sem que eu perguntasse: nós somos internos, a gente passa 10 dias, no máximo 1 mês, em cada serviço. Já pensou se meu colega vai lá e conta para a paciente que ela tem um câncer. Por mais que ele explique, tire as dúvidas dela no momento, no dia seguinte, quando outras dúvidas aparecerem, quando ela tiver feito um exame que veio uma coisa esquisita e ela não entendeu, quando a filha dela quiser conversar com o médico para saber melhor... meu colega já não vai mais estar lá. Se os assistentes não estão dispostos a fazer esse papel, a paciente vai ficar lá com suas dúvidas, isolada, angustiada, sem ter o que fazer. E meu colega, com sua consciência tranquila por ter cumprido sua obrigação, vai estar em outro andar do hospital, atendendo outro paciente sem sequer imaginar o que está acontecendo com o anterior. Se sairmos por aí, nós como internos rotativos, contando para todos os pacientes seus diagnósticos, poderemos estar causando mal àquelas pessoas. Poderemos, com a melhor das boas intenções, estar prejudicando aquele paciente, os familiares e até os médicos do serviço. Nós não temos condição de acompanhar o paciente, portanto, não temos condição de fazer algo de tamanha responsabilidade como contar um diagnóstico.
O melhor a se fazer nesses casos, é conversar com os médicos responsáveis pelo caso, explicar que o paciente não sabe, o que ele quer saber e tentar convencê-lo de contar, estando a gente junto ou não. Mas garantir que aquele paciente vai ter um suporte depois quando passar o choque e vierem todas as outras dúvidas e angústias.
Uma outra coisa que falamos e sobre a qual eu poucas vezes tinha pensado, é sobre a importância da esperança. O professor contou um caso de um tio dele que tinha câncer. Ele, médico, o levou no melhor especialista que ele conhecia, fizeram todos os exames e concluíram que não poderia ser curado, que só poderiam fazer tratamento paliativo e dar assistência ao paciente na evolução da doença. A tia desse meu professor, esposa do paciente, desesperada, resolveu que ia pedir outras opiniões. Consultou alguns médicos que disseram a mesma coisa. Até que um dia ela encontrou um que falou que poderia curá-lo. O charlatão disse que faria uma cirurgia para tirar o tumor e que o paciente ainda ia viver muitos anos.
Charlatão mesmo.
O tal fez a cirurgia, cobrou rios de dinheiro e, no final, disse que a doença tinha afetado o outro lado do cérebro e não dava para abrir de novo etc etc etc.
A viúva pobre, ao contar o caso anos depois disse que se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, igualzinho, e daria todo dinheiro dela para o tal charlatão de novo, mesmo sabendo que ele é charlatão. Por quê???
Porque ele foi o único médico que lhes deu esperança. O paciente morreu do mesmo jeito, em pouco tempo, mas morreu sabendo que lutou tudo que podia, morreu com esperança.
Não estou dizendo que enganar paciente é bom. De maneira nenhuma. Acho que um charlatão desse deve ir preso! Mas acho que essa história nos deve ensinar a, mesmo dando notícia de uma doença terminal, nunca acabar com a esperança do paciente. Nunca dizer "o senhor vai morrer daqui a 2 meses". A gente não tem como prever isso. As estatísticas mostram que os pacientes com a doença tal vivem em média 2 meses. E daí? Estatísticas não servem para nada quando se trata de individualidade, de uma pessoa. Aquele paciente pode tanto morrer dali a 2 horas atropelado por uma moto quanto viver 2 anos. Não dá pra prever.
Moral da história (só como registro para o dia em que eu for uma má médica, poder reler isso e repensar minhas atitudes): não se preocupar só com a notícia, com a informação a ser passada para o paciente, mas também com suas angústias, medos, expecativas que vão vir depois; saber que tipo de ajuda o paciente quer, o que ele espera da vida dele dali para frente e o que ele espera de nós; nunca acabar com a esperança (ela é algo de mais precioso que um paciente tem); nunca determinar o tempo de vida - só Deus sabe.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
"The game, they say a person either has what it takes to play, or they don't. My mother was one of the greats. Me on the other hand, I'm kind of screwed.
[...]
I can't think of a single reason why I should be a surgeon, but I can think of a thousand reasons why I should quit. They make it hard on purpose. There are lives in our hands. There comes a moment when it's more than just a game, and you either take that step forward or turn around and walk away. I could quit but here's the thing, I love the playing field."
(Grey's Anatomy 01x01)
É incrível como sentimentos podem ser retratados tão fielmente numa série de tv. Isso é arte!
I'm kind of screwed too. Eu me sinto assim constantemente. Eu também não consigo pensar numa única razão pela qual eu deveria ser médica, que não exista em outras profissões. E consigo pensar em centenas de razões para desistir...
Hoje recomecei a assistir Grey's. Tenho todas as temporadas guardadas em casa porque sabia que um dia (ou várias vezes) eu iria ver novamente e ia sentir diferente.
Agora que passei para o outro lado (saí da parte teórica e me tornei uma "quase médica", uma interna), todas as situações desse seriado tem um significado diferente. Antes eu via, imaginava se aquilo um dia aconteceria comigo e hoje... ah, hoje... sou eu quem tenta passar um acesso venoso, fura o paciente várias vezes e não consegue, sou eu que tenho que acordar o residente porque não sei passar um cateter central que o paciente precisa, sou eu que levo bronca de enfermeira por "comer bola" ou (não) fazer algo que para ela é tão óbvio (como jogar um frasco de vidro inutilizado no lixo comum, ao invés do lixo para pérfuro-cortantes - óbvio!), sou eu quem esquece de colocar na prescrição o remédio que o residente pediu e insitiu tantas vezes, que acaba fazendo procedimentos que meus colegas queriam (mesmo o paciente sendo meu) e eles ficam bravos (mas depois sempre entendem e aceitam)...
É tudo tão parecido... tantas situações que vivo e que saio me sentindo uma retardada, uma idiota, uma burra, uma malvada... e que estão retratadas num seriado de tv de forma tão parecida. Me faz sentir menos burra. Se está num seriado é porque todos passam por isso para aprender.
Todos aqueles médicos fodões que fazem pose de "sempre soube tudo e você é um idiota", que falam conosco como se tudo fosse tão óbvio, que nos exigem tanto... eles já passaram por isso, eles já foram internos idiotas que não sabiam a topografia do canal inguinal ou a anatomia do pescoço para passar um cateter central, ou mesmo como manter uma criança parada para fazer um exame especular em seu ouvido.
Pensar nisso me faz sentir melhor, tão mais tranquila, tão menos estúpida. Assistir a esse seriado me faz sentir parte do mundo e me dá forças para continuar. Me dá vontade de estudar, de prestar mais atenção, de conversar mais com os mais velhos sobre minhas dificuldades e angústias. Afinal, eles já passaram por isso.
Na faculdade de Medicina, o clima fake que tenta se manter é que todo mundo sabe muito, que nasceram sabendo, que ninguém nunca erra, que todo mundo tem muito talento para aquilo... que ninguém sofre, que ninguém dorme, faz cocô... que ninguém ama.
Com certeza, Meredith, há uma razão para eles fazerem tudo tão difícil de propósito. Estamos lidando com vidas, com pessoas cheia de histórias, angústias, medos, dores, vontades, sonhos. O paciente não é uma prova prática diária, na qual você precisa ser aprovado para passar para o próximo estágio. Às vezes, é assim que a gente os enxerga, inconscientemente. Exigem tanto da gente em conhecimento, em postura, em mostrar que sabe tudo, que esquecemos que estamos lidando com pessoas... pessoas exatamente iguais a nós.
A dificuldade da Medicina, o maior aprendizado que a gente tem que adquirir (que eu tenho que adquirir), apesar de todas as dificuldades, das angústias, da falta de tempo, da vontade de fazer xixi, do cansaço, da fome, da insegurança... é conseguir atender bem o paciente, entendê-lo e ajudá-lo, unindo nosso conhecimento com nossa percepção e nosso sentimento.
Meu maior desafio nesse internato, é aprender a evoluir um paciente bem, realmente cuidar dele, apesar de saber que daqui a pouco tem visita com o assistente fodão e que ele vai me perguntar detalhes que eu não vou saber responder, que ele vai me humilhar, que ele vai me massacrar. Entender que não adianta ficar com a cara no livro tentando prever quais serão as perguntas que eu vou errar, que é muito mais válido sentar ao lado do paciente e entender sua história e descobrir quais são seus medos e seus sonhos, saber o que o está incomodando mais e tentar ajudá-lo.
A matéria será aprendida de qualquer forma. Conhecimento é essencial, mas, se formos analisar profundamente, veremos que é o mais fácil de se adquirir.
[...]
I can't think of a single reason why I should be a surgeon, but I can think of a thousand reasons why I should quit. They make it hard on purpose. There are lives in our hands. There comes a moment when it's more than just a game, and you either take that step forward or turn around and walk away. I could quit but here's the thing, I love the playing field."
É incrível como sentimentos podem ser retratados tão fielmente numa série de tv. Isso é arte!
I'm kind of screwed too. Eu me sinto assim constantemente. Eu também não consigo pensar numa única razão pela qual eu deveria ser médica, que não exista em outras profissões. E consigo pensar em centenas de razões para desistir...
Hoje recomecei a assistir Grey's. Tenho todas as temporadas guardadas em casa porque sabia que um dia (ou várias vezes) eu iria ver novamente e ia sentir diferente.
Agora que passei para o outro lado (saí da parte teórica e me tornei uma "quase médica", uma interna), todas as situações desse seriado tem um significado diferente. Antes eu via, imaginava se aquilo um dia aconteceria comigo e hoje... ah, hoje... sou eu quem tenta passar um acesso venoso, fura o paciente várias vezes e não consegue, sou eu que tenho que acordar o residente porque não sei passar um cateter central que o paciente precisa, sou eu que levo bronca de enfermeira por "comer bola" ou (não) fazer algo que para ela é tão óbvio (como jogar um frasco de vidro inutilizado no lixo comum, ao invés do lixo para pérfuro-cortantes - óbvio!), sou eu quem esquece de colocar na prescrição o remédio que o residente pediu e insitiu tantas vezes, que acaba fazendo procedimentos que meus colegas queriam (mesmo o paciente sendo meu) e eles ficam bravos (mas depois sempre entendem e aceitam)...
É tudo tão parecido... tantas situações que vivo e que saio me sentindo uma retardada, uma idiota, uma burra, uma malvada... e que estão retratadas num seriado de tv de forma tão parecida. Me faz sentir menos burra. Se está num seriado é porque todos passam por isso para aprender.
Todos aqueles médicos fodões que fazem pose de "sempre soube tudo e você é um idiota", que falam conosco como se tudo fosse tão óbvio, que nos exigem tanto... eles já passaram por isso, eles já foram internos idiotas que não sabiam a topografia do canal inguinal ou a anatomia do pescoço para passar um cateter central, ou mesmo como manter uma criança parada para fazer um exame especular em seu ouvido.
Pensar nisso me faz sentir melhor, tão mais tranquila, tão menos estúpida. Assistir a esse seriado me faz sentir parte do mundo e me dá forças para continuar. Me dá vontade de estudar, de prestar mais atenção, de conversar mais com os mais velhos sobre minhas dificuldades e angústias. Afinal, eles já passaram por isso.
Na faculdade de Medicina, o clima fake que tenta se manter é que todo mundo sabe muito, que nasceram sabendo, que ninguém nunca erra, que todo mundo tem muito talento para aquilo... que ninguém sofre, que ninguém dorme, faz cocô... que ninguém ama.
Com certeza, Meredith, há uma razão para eles fazerem tudo tão difícil de propósito. Estamos lidando com vidas, com pessoas cheia de histórias, angústias, medos, dores, vontades, sonhos. O paciente não é uma prova prática diária, na qual você precisa ser aprovado para passar para o próximo estágio. Às vezes, é assim que a gente os enxerga, inconscientemente. Exigem tanto da gente em conhecimento, em postura, em mostrar que sabe tudo, que esquecemos que estamos lidando com pessoas... pessoas exatamente iguais a nós.
A dificuldade da Medicina, o maior aprendizado que a gente tem que adquirir (que eu tenho que adquirir), apesar de todas as dificuldades, das angústias, da falta de tempo, da vontade de fazer xixi, do cansaço, da fome, da insegurança... é conseguir atender bem o paciente, entendê-lo e ajudá-lo, unindo nosso conhecimento com nossa percepção e nosso sentimento.
Meu maior desafio nesse internato, é aprender a evoluir um paciente bem, realmente cuidar dele, apesar de saber que daqui a pouco tem visita com o assistente fodão e que ele vai me perguntar detalhes que eu não vou saber responder, que ele vai me humilhar, que ele vai me massacrar. Entender que não adianta ficar com a cara no livro tentando prever quais serão as perguntas que eu vou errar, que é muito mais válido sentar ao lado do paciente e entender sua história e descobrir quais são seus medos e seus sonhos, saber o que o está incomodando mais e tentar ajudá-lo.
A matéria será aprendida de qualquer forma. Conhecimento é essencial, mas, se formos analisar profundamente, veremos que é o mais fácil de se adquirir.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Dias de luta, dias de glória...
Hoje foi um dia de consagração e felicidades.
Há cerca de 2 anos, fiz um trabalho com alguns professores que, por acaso (simplesmente por eu estar no lugar certo na hora certa), me pediram ajuda para um único evento e acabei me envolvendo com o projeto deles e ajudei em muito mais. Trabalhei bastante, aprendi muito, vivi situações meio desagradáveis, mas formamos um grande time.
Hoje foi o dia de apresentar o trabalho final resultante do projeto. E... caraca!... ficou MARAVILHOSO!
A cada segundo que ia vendo a apresentação, um filme vinha passando na minha cabeça de tudo que fiz, de todos os momentos bons que vivi com aquelas pessoas. A minha professora que estava apresentando foi simplesmente sensacional. O queixo de todos os presentes caiu de uma forma... E foram muitos elogios, críticas muito construtivas, muita filosofia, muitas metáforas (ela é a mestre das metáforas inesperadas), muita história.
Eu, inserida num mundo de cirurgiões (que não é exatamente um ambiente estimulante), precisava muito de um momento de reflexão assim, precisava voltar a entrar em contato com pessoas que pensam parecido comigo, que acham que o mundo pode ser melhor e fazem acontecer. Exemplos de superação, perseverança.
"Se as coisas são inatingíveis... ora, não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas." (Mário Quintana)
Hoje foi um dia de consagração e felicidades.
Há cerca de 2 anos, fiz um trabalho com alguns professores que, por acaso (simplesmente por eu estar no lugar certo na hora certa), me pediram ajuda para um único evento e acabei me envolvendo com o projeto deles e ajudei em muito mais. Trabalhei bastante, aprendi muito, vivi situações meio desagradáveis, mas formamos um grande time.
Hoje foi o dia de apresentar o trabalho final resultante do projeto. E... caraca!... ficou MARAVILHOSO!
A cada segundo que ia vendo a apresentação, um filme vinha passando na minha cabeça de tudo que fiz, de todos os momentos bons que vivi com aquelas pessoas. A minha professora que estava apresentando foi simplesmente sensacional. O queixo de todos os presentes caiu de uma forma... E foram muitos elogios, críticas muito construtivas, muita filosofia, muitas metáforas (ela é a mestre das metáforas inesperadas), muita história.
Eu, inserida num mundo de cirurgiões (que não é exatamente um ambiente estimulante), precisava muito de um momento de reflexão assim, precisava voltar a entrar em contato com pessoas que pensam parecido comigo, que acham que o mundo pode ser melhor e fazem acontecer. Exemplos de superação, perseverança.
"Se as coisas são inatingíveis... ora, não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas." (Mário Quintana)
domingo, 27 de abril de 2008
(Post para análise pessoal)
Percebi algo muito feio em mim esses dias (não devia estar publicando isso, mas...).
Percebi que muito das minhas angústias, minhas fugas, meu cansaço, meu mau humor está relacionado com minha dificuldade de aceitar que não sou a melhor naquilo (ou uma das melhores). Quando fica estampado que tem gente que faz determinada coisa muito melhor que eu, eu não aguento a pressão que imponho sobre mim mesma e tento fugir, fico angustiada, às vezes até desesperada. E, o pior, mesmo percebendo isso agora, não consigo evitar, não consigo fazer diferente.
Passei para o estágio de cirurgia sexta passada. Na quinta (antes de perceber essas coisas), fiz toda uma "reflexão" sobre mim, sobre o estágio, sobre o que e como iriam exigir de mim. Passei a tarde descansando (graças a um professor de bom coração da gineco, tivemos o dia livre). Eu sabia que lá eles seriam exigentes, que iam me cobrar muito (tanto conhecimento como habilidades - que não tenho), sabia que minhas horas de trabalho aumentariam horrores. Como conclusão das minhas reflexões decidi que ia respeitar meus limites, que não ia me matar só para parecer interessada (quando estivesse cansada, simplesmente iria para casa e suportaria a bronca depois), que ia estudar o que achasse importante para minha formação (não o que me mandassem), que levaria as broncas numa boa, saberia que não é só comigo e não é pessoal (eles destribuem broncas em todo mundo mesmo - dos mais velhos para os mais novos, é uma cascata de humilhações) e sairia do estágio sabendo que dali há dois meses eles sequer lembrariam de mim (porque já teria outra panela lá com a qual eles iria se preocupar).
Estava tudo certo, eu estava bem comigo mesma e com minhas idéias.
Fui para o estágio na sexta, conversamos com nosso chefe direto. Ele nos deu informações totalmente desorganizadas e incompletas, ficamos perdidos, sem saber direito o que teríamos que fazer.
Beleza. Se o cara não consegue ser minimamente organizado, não teria como exigir tanto da gente. Fiquei o dia todo assistindo aulas (porque era um dia atípico do serviço) e à noite, resolvi passar no PS para acompanhar meu colega que estava de plantão.
Cheguei às 19h. Pretendia ficar até às 22h. Mas quando deu 20h eu saí correndo daquele lugar pois não aguentava mais. Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo, só estava atrapalhando, morrendo de dor nas costas e nas pernas, meu colega já estava super bem adaptado, fazendo as coisas dele numa boa. (A Pérola do dia - chegou um trauma, eles fizeram os primeiros atendimentos e quando estava tudo ok, alguém gritou "interno, vai lá chamar o Fast". Eu olhei para os lados, o interno mais velho correu, meu colega correu atrás e eu, como uma boa interna perdida fui atrás, pensando "quem será esse tal de Fast? será que é um assistente?". Perguntei para meu colega QUEM era o tal do Fast. Ele começou a dar muita risada da minha cara e continuou correndo. Até que percebi que estávamos correndo em direção à Radiologia... e descobri que Fast é um tipo de USG para ver líquido livre em cavidade. Desacreditei no que tinha acabado de fazer). Fui para casa dormir.
No dia seguinte, sábado, cheguei à enfermaria 6h30, encontramos o R+, que nos pediu para escolher pacientes que gostaríamos de acompanhar e ir vê-los. Ele explicou mais ou menos o que tinha cada um, escolhemos e fizemos nossa parte. Quando terminou, ele pediu para que colhêssemos exames. Eu nunca tinha feito isso na vida (mas já tinha visto fazer várias vezes). Fui lá com a cara e a coragem. Furei a coitada da paciente duas vezes e nada de conseguir sangue. Um desastre. O R+ foi lá em seguida e em poucos segundos os tubos estavam completos. Ok. Segundo desastre do estágio (o primeiro foi o do PS da noite anterior, claro!). Acompanhei meu colega para que ele colhesse de sua paciente. E, em poucos segundos, lá estavam os tubos cheios.
Fomos para as "aulas" da tarde. Eu me sentindo péssima. Comecei a ficar de profundo mau humor, que piorou quando percebi que minha outra colega tinha ganhado um livro por pura sorte e eu, que já tinha pedido o tal várias vezes, não consegui.
Foi por aí meu momento de epifania. Em meio a um tremendo mau humor que não tinha muita explicação lógica, vendo aquele livro na mão dela, lembrando do Fast, do sangue não colhido e de todos os pontos de interrogação que estavam rondando minha mente desde que pisei na enfermaria (até agora não entendi nada da história de nenhum dos dois pacientes que peguei)... percebi que todo meu mal-estar era decorrente do sentimento de inferioridade que estava tendo. Queria sair correndo e não voltar nunca mais, ficava pensando que realmente escolhi a profissão errada, que não sirvo para aquilo. Tudo simplesmente porque não sou boa o suficiente em cirurgia, nem em obstetrícia, nem em qualquer procedimento... Me sentia bem na Ped e na Gineco porque me sentia segura, porque tinha alguma idéia do que estava fazendo e na maioria das vezes fazia muito bem e era realmente boa (me sentia tão boa quanto a maioria dos meus colegas e melhor do que alguns).
Simplesmente queria parar com isso. Queria parar de sentir obrigação de ser uma das melhores, de me destacar. Certeza que esse sentimento vem do meu pai que vivia dizendo que eu tinha que tirar só 10 na escola, que olhava meu boletim com desdém e dizia "ah, filha, você tirou um 8,0? que vergonha!", para quem eu nunca fui boa o suficiente, bonita o suficiente, inteligente o suficiente. O sonho dele era que eu fosse miss brasil, mas só atingi 1,55m (a culpa foi dele que casou com uma mulher de 1,50m!). Quando entrei na faculdade ele ficou feliz e orgulhoso, mas o orgulho foi embora muito rápido. Quando ele descobriu que eu queria ser pediatra, ele me massacrou dizendo que era um desperdício, que eu tinha que aproveitar o potencial da minha faculdade e ser uma especialista de renome, a melhor na minha área, que era vergonhoso escolher ser pediatra, ter um consultoriozinho qualquer.
Claro que não posso ser uma pessoa muito sã... com alguém assim por perto (ainda bem que não tão perto assim)...
Mas vou me esforçar para entender, para enxergar, para tentar mudar. Quero passar por esse estágio bem, sem me jogar de um prédio no final e sem matar nenhum dos meus colegas, que, obviamente não tem culpa nenhuma de serem melhores do que eu naquilo.
Percebi algo muito feio em mim esses dias (não devia estar publicando isso, mas...).
Percebi que muito das minhas angústias, minhas fugas, meu cansaço, meu mau humor está relacionado com minha dificuldade de aceitar que não sou a melhor naquilo (ou uma das melhores). Quando fica estampado que tem gente que faz determinada coisa muito melhor que eu, eu não aguento a pressão que imponho sobre mim mesma e tento fugir, fico angustiada, às vezes até desesperada. E, o pior, mesmo percebendo isso agora, não consigo evitar, não consigo fazer diferente.
Passei para o estágio de cirurgia sexta passada. Na quinta (antes de perceber essas coisas), fiz toda uma "reflexão" sobre mim, sobre o estágio, sobre o que e como iriam exigir de mim. Passei a tarde descansando (graças a um professor de bom coração da gineco, tivemos o dia livre). Eu sabia que lá eles seriam exigentes, que iam me cobrar muito (tanto conhecimento como habilidades - que não tenho), sabia que minhas horas de trabalho aumentariam horrores. Como conclusão das minhas reflexões decidi que ia respeitar meus limites, que não ia me matar só para parecer interessada (quando estivesse cansada, simplesmente iria para casa e suportaria a bronca depois), que ia estudar o que achasse importante para minha formação (não o que me mandassem), que levaria as broncas numa boa, saberia que não é só comigo e não é pessoal (eles destribuem broncas em todo mundo mesmo - dos mais velhos para os mais novos, é uma cascata de humilhações) e sairia do estágio sabendo que dali há dois meses eles sequer lembrariam de mim (porque já teria outra panela lá com a qual eles iria se preocupar).
Estava tudo certo, eu estava bem comigo mesma e com minhas idéias.
Fui para o estágio na sexta, conversamos com nosso chefe direto. Ele nos deu informações totalmente desorganizadas e incompletas, ficamos perdidos, sem saber direito o que teríamos que fazer.
Beleza. Se o cara não consegue ser minimamente organizado, não teria como exigir tanto da gente. Fiquei o dia todo assistindo aulas (porque era um dia atípico do serviço) e à noite, resolvi passar no PS para acompanhar meu colega que estava de plantão.
Cheguei às 19h. Pretendia ficar até às 22h. Mas quando deu 20h eu saí correndo daquele lugar pois não aguentava mais. Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo, só estava atrapalhando, morrendo de dor nas costas e nas pernas, meu colega já estava super bem adaptado, fazendo as coisas dele numa boa. (A Pérola do dia - chegou um trauma, eles fizeram os primeiros atendimentos e quando estava tudo ok, alguém gritou "interno, vai lá chamar o Fast". Eu olhei para os lados, o interno mais velho correu, meu colega correu atrás e eu, como uma boa interna perdida fui atrás, pensando "quem será esse tal de Fast? será que é um assistente?". Perguntei para meu colega QUEM era o tal do Fast. Ele começou a dar muita risada da minha cara e continuou correndo. Até que percebi que estávamos correndo em direção à Radiologia... e descobri que Fast é um tipo de USG para ver líquido livre em cavidade. Desacreditei no que tinha acabado de fazer). Fui para casa dormir.
No dia seguinte, sábado, cheguei à enfermaria 6h30, encontramos o R+, que nos pediu para escolher pacientes que gostaríamos de acompanhar e ir vê-los. Ele explicou mais ou menos o que tinha cada um, escolhemos e fizemos nossa parte. Quando terminou, ele pediu para que colhêssemos exames. Eu nunca tinha feito isso na vida (mas já tinha visto fazer várias vezes). Fui lá com a cara e a coragem. Furei a coitada da paciente duas vezes e nada de conseguir sangue. Um desastre. O R+ foi lá em seguida e em poucos segundos os tubos estavam completos. Ok. Segundo desastre do estágio (o primeiro foi o do PS da noite anterior, claro!). Acompanhei meu colega para que ele colhesse de sua paciente. E, em poucos segundos, lá estavam os tubos cheios.
Fomos para as "aulas" da tarde. Eu me sentindo péssima. Comecei a ficar de profundo mau humor, que piorou quando percebi que minha outra colega tinha ganhado um livro por pura sorte e eu, que já tinha pedido o tal várias vezes, não consegui.
Foi por aí meu momento de epifania. Em meio a um tremendo mau humor que não tinha muita explicação lógica, vendo aquele livro na mão dela, lembrando do Fast, do sangue não colhido e de todos os pontos de interrogação que estavam rondando minha mente desde que pisei na enfermaria (até agora não entendi nada da história de nenhum dos dois pacientes que peguei)... percebi que todo meu mal-estar era decorrente do sentimento de inferioridade que estava tendo. Queria sair correndo e não voltar nunca mais, ficava pensando que realmente escolhi a profissão errada, que não sirvo para aquilo. Tudo simplesmente porque não sou boa o suficiente em cirurgia, nem em obstetrícia, nem em qualquer procedimento... Me sentia bem na Ped e na Gineco porque me sentia segura, porque tinha alguma idéia do que estava fazendo e na maioria das vezes fazia muito bem e era realmente boa (me sentia tão boa quanto a maioria dos meus colegas e melhor do que alguns).
Simplesmente queria parar com isso. Queria parar de sentir obrigação de ser uma das melhores, de me destacar. Certeza que esse sentimento vem do meu pai que vivia dizendo que eu tinha que tirar só 10 na escola, que olhava meu boletim com desdém e dizia "ah, filha, você tirou um 8,0? que vergonha!", para quem eu nunca fui boa o suficiente, bonita o suficiente, inteligente o suficiente. O sonho dele era que eu fosse miss brasil, mas só atingi 1,55m (a culpa foi dele que casou com uma mulher de 1,50m!). Quando entrei na faculdade ele ficou feliz e orgulhoso, mas o orgulho foi embora muito rápido. Quando ele descobriu que eu queria ser pediatra, ele me massacrou dizendo que era um desperdício, que eu tinha que aproveitar o potencial da minha faculdade e ser uma especialista de renome, a melhor na minha área, que era vergonhoso escolher ser pediatra, ter um consultoriozinho qualquer.
Claro que não posso ser uma pessoa muito sã... com alguém assim por perto (ainda bem que não tão perto assim)...
Mas vou me esforçar para entender, para enxergar, para tentar mudar. Quero passar por esse estágio bem, sem me jogar de um prédio no final e sem matar nenhum dos meus colegas, que, obviamente não tem culpa nenhuma de serem melhores do que eu naquilo.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Tive um dia perfeito hoje, maravilhoso como há muuuito tempo eu não conseguia.
Acordei tarde (às 6h15 - tarde comparado com a hora que eu sou obrigada a acordar normalmente), fui para o hospital, evolui minhas pacientes e desci para a cirurgia. Até aí, eu estava de muito mau humor porque odeio ter que instrumentar cirurgias e seria obrigada a fazer isso hoje. Mas a paciente que ia operar era uma das minhas preferidas e eu tinha prometido tentar estar presente no procedimento, então... fui sem reclamar.
Me lavei, comecei a arrumar as coisas na mesa, derrubei um instrumento, montei a mesa ao contrário, rasguei minha luva 2 vezes e contaminei mais uma vez (e a circulante obviamente estava puta da vida comigo porque eu estava fazendo ela trabalhar triplicado para dar conta das minhas atitudes desastradas).
No meio da cirurgia, do nada, a residente que estava assistindo (ela seria a cirurgiã da próxima) chega do meu lado e começa a conversar:
(Ela) - Você vai fazer residência em cirurgia?
(Eu, com aquela cara de "o que é que essa doida quer???") - Não!
- O que você pretende fazer de especialidade, então?
- Pediatria. Quase certeza.
- Ahhhhh, mas que desperdício!! Você instrumenta muito bem!! Devia fazer alguma especialidade cirúrgica.
Hahahahaha. Foi por pouco que não dei uma baita gargalhada na cara dela. Óbvio que ela não achava isso. Eu sou uma das pessoas mais desastradas do mundo (tudo bem que interno sempre é desastrado, mas eu venço qualquer competição)!!! Mas até que me animei com o elogio. Pelo menos, ele significava que eu não tinha feito nada de muito errado até então. Fiquei feliz.
Acabada a cirurgia, desci para a reunião clínica, que é uma reunião com diferentes especialidades para discutir um (ou alguns) caso mais complexo, que exija a opinião de outros profissionais. Em geral, nós internos ficamos lá boiando na discussão, sem entender nada. Mas a parte boa é que no final sempre tem um "coffe-break" delicioso. Foi exatamente nessa parte que cheguei hoje. Entrei na sala, a discussão estava acabando, nem sentei e já fomos comer.
Como não poderia deixar de ser, após uma reunião dessas, lá fora estavam os representantes dos laboratórios distribuindo amostras grátis de medicações boas. Saí com duas sacolas cheias (incluindo 11 meses de anticoncepcionais para minha irmã e para minha colega de quarto).
Fui para casa guardar minhas sacolas e, como tinha uns minutinhos, abri meu e-mail para ver se tinha algo importante. Para minha enorme surpresa e felicidade, havia acabado de receber uma mensagem de um amigo que considero muito, de quem gosto muito mesmo, mas que não falava comigo há alguns meses (sem que eu soubesse direito por que). Saí de casa radiante e voltei para o hospital para o Ambulatório da hora do almoço.
E não é que meus atendimentos no ambulatório foram ótimos! Fizemos 2 procedimentos (nunca tinha dado a sorte de pegar nenhum) e atendemos alguns casos bem interessantes. A residente que estava conosco era muito boa também. Foi muito produtivo.
Saí de lá umas 13h30, fui para casa, assisti um capítulo do seriado que estou baixando na net (meu atual vício) e depois resolvi tirar um cochilo. Dormi até às 17h. Foi maravilhoso.
Levantei verde de fome porque não tinha almoçado - só tinha comido lá no coffe às 10h da manhã. Resolvi, então, ir ao Mc - estava há umas 3 semanas com vontade e nunca tinha tempo/dinheiro. Comi tudo que tinha direito e voltei para casa andando com meu sundae de chocolate.
No caminho, encontrei um amigo querido que não via há algum tempo. Ele olhou para mim de cima abaixo e soltou um "nossa! mas você é muito sensual andando, sabia?". Detalhe: ele é gay, mais que assumido e certo disso - não havia possibilidade de ele estar dando em cima de mim. Eu só consegui dar risada e responder um "como assim?? você bebeu, né?" e continuei minha caminhada, flutuando de alegria.
Agora, chegando em casa, vou tomar um banho (no meu super chuveiro recém consertado) e estudar um pouco depois, até minha colega de quarto voltar do hospital para nossa sessão diária de fofocas hiper atualizadas.
Dia tão bom assim, merece um post desse (tipo "querido diário"), não?!
Acordei tarde (às 6h15 - tarde comparado com a hora que eu sou obrigada a acordar normalmente), fui para o hospital, evolui minhas pacientes e desci para a cirurgia. Até aí, eu estava de muito mau humor porque odeio ter que instrumentar cirurgias e seria obrigada a fazer isso hoje. Mas a paciente que ia operar era uma das minhas preferidas e eu tinha prometido tentar estar presente no procedimento, então... fui sem reclamar.
Me lavei, comecei a arrumar as coisas na mesa, derrubei um instrumento, montei a mesa ao contrário, rasguei minha luva 2 vezes e contaminei mais uma vez (e a circulante obviamente estava puta da vida comigo porque eu estava fazendo ela trabalhar triplicado para dar conta das minhas atitudes desastradas).
No meio da cirurgia, do nada, a residente que estava assistindo (ela seria a cirurgiã da próxima) chega do meu lado e começa a conversar:
(Ela) - Você vai fazer residência em cirurgia?
(Eu, com aquela cara de "o que é que essa doida quer???") - Não!
- O que você pretende fazer de especialidade, então?
- Pediatria. Quase certeza.
- Ahhhhh, mas que desperdício!! Você instrumenta muito bem!! Devia fazer alguma especialidade cirúrgica.
Hahahahaha. Foi por pouco que não dei uma baita gargalhada na cara dela. Óbvio que ela não achava isso. Eu sou uma das pessoas mais desastradas do mundo (tudo bem que interno sempre é desastrado, mas eu venço qualquer competição)!!! Mas até que me animei com o elogio. Pelo menos, ele significava que eu não tinha feito nada de muito errado até então. Fiquei feliz.
Acabada a cirurgia, desci para a reunião clínica, que é uma reunião com diferentes especialidades para discutir um (ou alguns) caso mais complexo, que exija a opinião de outros profissionais. Em geral, nós internos ficamos lá boiando na discussão, sem entender nada. Mas a parte boa é que no final sempre tem um "coffe-break" delicioso. Foi exatamente nessa parte que cheguei hoje. Entrei na sala, a discussão estava acabando, nem sentei e já fomos comer.
Como não poderia deixar de ser, após uma reunião dessas, lá fora estavam os representantes dos laboratórios distribuindo amostras grátis de medicações boas. Saí com duas sacolas cheias (incluindo 11 meses de anticoncepcionais para minha irmã e para minha colega de quarto).
Fui para casa guardar minhas sacolas e, como tinha uns minutinhos, abri meu e-mail para ver se tinha algo importante. Para minha enorme surpresa e felicidade, havia acabado de receber uma mensagem de um amigo que considero muito, de quem gosto muito mesmo, mas que não falava comigo há alguns meses (sem que eu soubesse direito por que). Saí de casa radiante e voltei para o hospital para o Ambulatório da hora do almoço.
E não é que meus atendimentos no ambulatório foram ótimos! Fizemos 2 procedimentos (nunca tinha dado a sorte de pegar nenhum) e atendemos alguns casos bem interessantes. A residente que estava conosco era muito boa também. Foi muito produtivo.
Saí de lá umas 13h30, fui para casa, assisti um capítulo do seriado que estou baixando na net (meu atual vício) e depois resolvi tirar um cochilo. Dormi até às 17h. Foi maravilhoso.
Levantei verde de fome porque não tinha almoçado - só tinha comido lá no coffe às 10h da manhã. Resolvi, então, ir ao Mc - estava há umas 3 semanas com vontade e nunca tinha tempo/dinheiro. Comi tudo que tinha direito e voltei para casa andando com meu sundae de chocolate.
No caminho, encontrei um amigo querido que não via há algum tempo. Ele olhou para mim de cima abaixo e soltou um "nossa! mas você é muito sensual andando, sabia?". Detalhe: ele é gay, mais que assumido e certo disso - não havia possibilidade de ele estar dando em cima de mim. Eu só consegui dar risada e responder um "como assim?? você bebeu, né?" e continuei minha caminhada, flutuando de alegria.
Agora, chegando em casa, vou tomar um banho (no meu super chuveiro recém consertado) e estudar um pouco depois, até minha colega de quarto voltar do hospital para nossa sessão diária de fofocas hiper atualizadas.
Dia tão bom assim, merece um post desse (tipo "querido diário"), não?!
domingo, 30 de março de 2008
Esse fim de semana acabou servindo de momento de auto-reflexão, de propostas de mudanças, momento de reconhecer meus erros e tentar melhorar no que for possível. Apesar de saber que estou de TPM e, portanto, essa não é a melhor época para refletir, muito menos para propor mudanças, simplesmente aconteceu.
E me lembrei de um "causo" de alguns dias atrás...
Quando estava no PS da Obstetrícia, eu tinha o (péssimo?) hábito de atender à porta quando o segurança ou algum familiar batiam à procura da enfermeira. Eu não só ia lá para ver o que queriam, como muitas vezes resolvia suas dúvidas e lhes fazia favores (acho que adorava fazer isso porque era o único momento em que eu realmente me sentia útil naquele lugar). Em geral, eram familiares procurando informação sobre suas parentes ou querendo entrar para visitar. Então eu ia até o CO, colhia as informações necessárias, passava o caso para enfermeira e depois voltava lá com tudo resolvido.
Num desses dias, apareceu uma mulher perguntando pela Dra. Adriana. Eu perguntei se ela era paciente, se a Dra. sabia que ela viria naquele dia. Ela fez um gesto de cabeça que entendi como afirmativo e deu um passo para trás, esperando para ver se eu encontraria a tal doutora.
Até então, eu nunca tinha falado com essa médica. Eu sabia que ela existia, tinha ouvido falar (bem) dela algumas vezes mas só a tinha visto uma vez, naquele mesmo dia - pelo menos eu sabia que ela estava em algum lugar por ali por perto.
Procurei, procurei, procurei e nada da Dra. Adriana.
Até que apareceu outro médico, pediu que eu fosse atender uma gestante que já estava na sala. Fui lá, atendi ela, examinei, discuti o caso e acabei esquecendo que a tal "paciente" da Dra. Adriana estava esperando lá fora (quando lembrei, usei o raciocício de PS: se ela não tivesse achado a tal doutora, ela teria batido à porta novamente e pedido de novo para outra pessoa, ou teria feito um escândalo).
Algumas horas depois, a Dra. Adriana apareceu, assim, surgida do nada. Perguntei meio apreensiva (com medo de tomar mais uma bronca): "Dra., tinha uma paciente sua lá fora... você a encontrou?". E ela sorrindo, pegou no meu braço: "Que paciente que nada!!! Aquela lá é minha amiga. Eu tinha marcado de encontrar com ela, mas meu celular não pega aqui, sabe? Aí eu saí para tentar ligar para ela e nesse meio tempo ela chegou e o celular dela também não pega e a gente acabou se desencontrando... mas aí quando eu voltei... blá blá blá blá blá". E ficou uns 10 minutos tagarelando me contando sobre a tal amiga dela que achava que estava grávida...
Fiquei tão impressionada... Aquela mulher nunca tinha me visto na vida. Provavelmente ela sabia que eu era interna, mas ela nunca tinha me visto. E falou comigo como se eu fosse uma amiga íntima, pegando no meu braço, batendo no meu ombro, me contando da vida dela e da amiga sem o menor pudor. ADOREI!
É algo que simplesmente eu nunca faria. Mal consigo conversar com meus amigos tão abertamente daquele jeito... imagina com estranhos... Foi uma lição de vida pra mim. Porque simplesmente sempre acho que estou incomodando. Não faria isso com ninguém porque acharia invasivo, acharia que a pessoa não ia gostar, ia me achar uma louca. Mas aquela mulher fez isso comigo e eu adorei, achei o máximo. Achei que ela era louca sim (suposição confirmada com o passar dos dias), mas isso é o que mais admiro nela hoje.
Se um dia eu conseguir ter metade da loucura que ela tem... ah... meus dias serão muito mais divertidos!
E me lembrei de um "causo" de alguns dias atrás...
Quando estava no PS da Obstetrícia, eu tinha o (péssimo?) hábito de atender à porta quando o segurança ou algum familiar batiam à procura da enfermeira. Eu não só ia lá para ver o que queriam, como muitas vezes resolvia suas dúvidas e lhes fazia favores (acho que adorava fazer isso porque era o único momento em que eu realmente me sentia útil naquele lugar). Em geral, eram familiares procurando informação sobre suas parentes ou querendo entrar para visitar. Então eu ia até o CO, colhia as informações necessárias, passava o caso para enfermeira e depois voltava lá com tudo resolvido.
Num desses dias, apareceu uma mulher perguntando pela Dra. Adriana. Eu perguntei se ela era paciente, se a Dra. sabia que ela viria naquele dia. Ela fez um gesto de cabeça que entendi como afirmativo e deu um passo para trás, esperando para ver se eu encontraria a tal doutora.
Até então, eu nunca tinha falado com essa médica. Eu sabia que ela existia, tinha ouvido falar (bem) dela algumas vezes mas só a tinha visto uma vez, naquele mesmo dia - pelo menos eu sabia que ela estava em algum lugar por ali por perto.
Procurei, procurei, procurei e nada da Dra. Adriana.
Até que apareceu outro médico, pediu que eu fosse atender uma gestante que já estava na sala. Fui lá, atendi ela, examinei, discuti o caso e acabei esquecendo que a tal "paciente" da Dra. Adriana estava esperando lá fora (quando lembrei, usei o raciocício de PS: se ela não tivesse achado a tal doutora, ela teria batido à porta novamente e pedido de novo para outra pessoa, ou teria feito um escândalo).
Algumas horas depois, a Dra. Adriana apareceu, assim, surgida do nada. Perguntei meio apreensiva (com medo de tomar mais uma bronca): "Dra., tinha uma paciente sua lá fora... você a encontrou?". E ela sorrindo, pegou no meu braço: "Que paciente que nada!!! Aquela lá é minha amiga. Eu tinha marcado de encontrar com ela, mas meu celular não pega aqui, sabe? Aí eu saí para tentar ligar para ela e nesse meio tempo ela chegou e o celular dela também não pega e a gente acabou se desencontrando... mas aí quando eu voltei... blá blá blá blá blá". E ficou uns 10 minutos tagarelando me contando sobre a tal amiga dela que achava que estava grávida...
Fiquei tão impressionada... Aquela mulher nunca tinha me visto na vida. Provavelmente ela sabia que eu era interna, mas ela nunca tinha me visto. E falou comigo como se eu fosse uma amiga íntima, pegando no meu braço, batendo no meu ombro, me contando da vida dela e da amiga sem o menor pudor. ADOREI!
É algo que simplesmente eu nunca faria. Mal consigo conversar com meus amigos tão abertamente daquele jeito... imagina com estranhos... Foi uma lição de vida pra mim. Porque simplesmente sempre acho que estou incomodando. Não faria isso com ninguém porque acharia invasivo, acharia que a pessoa não ia gostar, ia me achar uma louca. Mas aquela mulher fez isso comigo e eu adorei, achei o máximo. Achei que ela era louca sim (suposição confirmada com o passar dos dias), mas isso é o que mais admiro nela hoje.
Se um dia eu conseguir ter metade da loucura que ela tem... ah... meus dias serão muito mais divertidos!
sábado, 29 de março de 2008
No meu último dia de estágio na Obstetrícia, tínhamos que ver os pacientes da enfermaria, depois passar visita com o médico assistente (que apesar de carregar esse título de "assistente" é, na verdade, o responsável por tudo - é o topo da cadeia alimentar com quem nós, simples internos, temos contato), depois estaríamos liberados (umas 10h da manhã).
Cumpridas as devidas obrigações, meus colegas desse grupo foram para suas respectivas casas para descansar e eu, sozinha, resolvi dar uma passada pelo Pronto-Socorro (PA) e pelo Centro Obstétrico (CO) (onde acontecem os partos) para ver como estavam as coisas por lá.
Quando cheguei, fiquei impressionada com a zona. No CO tinha apenas uma médica Assistente, no PA tinham 2, estava "bombando" de pacientes nos dois lugares e os internos escalados para estarem lá (em número de 4) estavam correndo de um lado para outro tentando atender e ajudar no que podiam. Para minha surpresa, uma das Assistentes de plantão no PA naquele horário era a minha preferida, alguém que adoro. Resolvi ficar lá, até a hora do almoço pelo menos, tentando ajudar no que podia e aprendendo um pouco mais com aquela médica tão "crazy".
Em meio à confusão, ia acontecer 2 curetagens e 1 parto normal. Eu nunca tinha conseguido fazer curetagem (sempre meus colegas iam na frente) e eu até queria fazer o parto... Conversei com os internos que estavam lá, apenas um estava disposto a entrar na curetagem mas ele já tinha feito 4, então... Troquei de roupa, fiquei lá por perto e na hora... amarelei... caguei nas calças... dei pra trás... saí correndo e pedi que o outro interno entrasse - disse que eu ficaria apenas assistindo.
Fiquei lá, de idiota, assistindo a curetagem, sem poder fazer nada, vendo a Assistente ensinar tudo para meu colega que já sabia e eu, idiota, sem saber nada daquilo.
Fiquei puta comigo mesma, não me conformava, não podia acreditar no que tinha acabado de deixar de fazer... Acabada essa curetagem, entrou a segunda em seguida, e desta, nenhum interno estava disposto a participar... Fiquei lá rondando, mas... também não tive coragem de entrar... Fugi.
Não sei o que eu estava sentindo. Não sabia o que era aquele medo paralizante. Senti isso muitas vezes durante esses 3 meses de internato e fiquei sem aprender muita coisa por causa disso. Idiota. Estúpida. Fiquei pensando no assunto, conversei com uma amiga do 6º ano que também tem uns repentes de medo assim... decidi que tentaria fazer diferente nas próximas vezes, que tentaria enfrentar... Enfim... as oportunidades na Obstetrícia haviam acabado mas a Gineco estava ali, prestes a começar.
Beleza. Sexta-feira, primeiro dia de estágio na Gineco, fui sorteada junto com uma amiga para começar no Centro Cirúrgico. As outras opções eram o Pronto-socorro e o Ambulatório... se tivesse que escolher, teria mesmo ficado no CC porque é bem mais legal. Entramos numa cirurgia que já estava no meio, pediram para que uma de nós entrasse para instrumentar. Na hora, sem pensar, apontei para minha amiga e disse "pode ir você". Ela entrou, ficou lá, sendo humilhada pelos cirurgiões escrotos presentes (alguns deles, tratam a gente muuuito mal, principalmente quando cometemos qualquer errinho - e sempre cometemos porque simplesmente não entendemos nada daquelas cirurgias, não conhecemos direito os instrumentos, seus nomes, quando usa qual, que tipo de fio vai precisar etc etc etc).
Quando acabou, fomos avisadas que outra cirurgia iria começar em seguida. Só que já eram 16h50, a previsão é que durasse até às 19h e eu tinha planejado de ir viajar para casa do meu pai naquela noite. Se eu saísse depois das 18h, não conseguiria viajar. Falei com minha amiga, ela se dispos a entrar nessa segunda cirurgia também e eu só ficaria olhando e "fugiria" no meio.
Óbvio que meu medo influenciou nessa decisão de ir embora. Eu podia muito bem viajar no sábado pela manhã. Não seria a mesma coisa, não era o que eu tinha programado, não era o que eu queria, mas aquele aprendizado valia o sacrifício (principalmente nesse estágio que será tranquilo, sem plantões, nem atividades em fins de semana / feriados). Mas... fugi... mais uma vez.
No caminho até a casa do meu pai, vim pensando no que podia ser esse sentimento tão ruim, que me paraliza, que me faz evitar de fazer as coisas, que me impede de arriscar.
Cheguei à conclusão de que isso não é exatamente medo. O problema de fazer essas atividades (como um parto por exemplo) é estar me expondo aos erros. Se fico de fora, apenas assistindo, o risco de eu cometer algum erro, fazer alguma besteira é obviamente muito menor (mas ele continua existindo) do que seria se eu estivesse "com a mão na massa".
E o problema do errar, do fazer besteira, não é necessariamenteo medo da bronca do professor (que sempre vai vir e VAI SER horrível). O grande, enorme problema, é que depois não consigo lidar com minha cobrança, com meu sentimento de frustração, com essa sensação de ter falhado, de ser uma interna ruim, de não ser perfeita...
Quando chego em casa, depois de um dia em que essas coisas aconteceram, desabo, não consigo dormir, me sinto sozinha, chamo pela minha mãe (ah, como eu gostaria de ouvi-la dizer mais uma vez "deixa de ser ridícula menina! qual problema de ter errado, qual problema de não ter conseguido dessa vez? Agora você já aprendeu! da próxima vez talvez vai errar de novo, mas um dia você vai saber tanto quanto seus professores e vai ensinar menininhas mais novas como você - aí você vai perceber que o erro dos mais novos e, consequentemente os seus atuais, não é nem um pouco grave, não causa mal a ninguém e vai perceber que no dia seguinte, ninguém mais vai lembrar do que aconteceu - mesmo porque, vem outro tonto como você e comete outros erros estúpidos assim. Não adianta nada você ficar aí sofrendo, se auto-mutilando, se fazendo de coitada. Levanta e vai fazer alguma coisa útil da sua vida, vai!).
E aí, em dias assim, ao invés de estudar, me dedicar mais para errar menos, deito na cama bem cedo, sem ter comido nada, fico jogando joguinhos que não exigem neurônios e ouvindo músicas até conseguir pegar no sono...
Cumpridas as devidas obrigações, meus colegas desse grupo foram para suas respectivas casas para descansar e eu, sozinha, resolvi dar uma passada pelo Pronto-Socorro (PA) e pelo Centro Obstétrico (CO) (onde acontecem os partos) para ver como estavam as coisas por lá.
Quando cheguei, fiquei impressionada com a zona. No CO tinha apenas uma médica Assistente, no PA tinham 2, estava "bombando" de pacientes nos dois lugares e os internos escalados para estarem lá (em número de 4) estavam correndo de um lado para outro tentando atender e ajudar no que podiam. Para minha surpresa, uma das Assistentes de plantão no PA naquele horário era a minha preferida, alguém que adoro. Resolvi ficar lá, até a hora do almoço pelo menos, tentando ajudar no que podia e aprendendo um pouco mais com aquela médica tão "crazy".
Em meio à confusão, ia acontecer 2 curetagens e 1 parto normal. Eu nunca tinha conseguido fazer curetagem (sempre meus colegas iam na frente) e eu até queria fazer o parto... Conversei com os internos que estavam lá, apenas um estava disposto a entrar na curetagem mas ele já tinha feito 4, então... Troquei de roupa, fiquei lá por perto e na hora... amarelei... caguei nas calças... dei pra trás... saí correndo e pedi que o outro interno entrasse - disse que eu ficaria apenas assistindo.
Fiquei lá, de idiota, assistindo a curetagem, sem poder fazer nada, vendo a Assistente ensinar tudo para meu colega que já sabia e eu, idiota, sem saber nada daquilo.
Fiquei puta comigo mesma, não me conformava, não podia acreditar no que tinha acabado de deixar de fazer... Acabada essa curetagem, entrou a segunda em seguida, e desta, nenhum interno estava disposto a participar... Fiquei lá rondando, mas... também não tive coragem de entrar... Fugi.
Não sei o que eu estava sentindo. Não sabia o que era aquele medo paralizante. Senti isso muitas vezes durante esses 3 meses de internato e fiquei sem aprender muita coisa por causa disso. Idiota. Estúpida. Fiquei pensando no assunto, conversei com uma amiga do 6º ano que também tem uns repentes de medo assim... decidi que tentaria fazer diferente nas próximas vezes, que tentaria enfrentar... Enfim... as oportunidades na Obstetrícia haviam acabado mas a Gineco estava ali, prestes a começar.
Beleza. Sexta-feira, primeiro dia de estágio na Gineco, fui sorteada junto com uma amiga para começar no Centro Cirúrgico. As outras opções eram o Pronto-socorro e o Ambulatório... se tivesse que escolher, teria mesmo ficado no CC porque é bem mais legal. Entramos numa cirurgia que já estava no meio, pediram para que uma de nós entrasse para instrumentar. Na hora, sem pensar, apontei para minha amiga e disse "pode ir você". Ela entrou, ficou lá, sendo humilhada pelos cirurgiões escrotos presentes (alguns deles, tratam a gente muuuito mal, principalmente quando cometemos qualquer errinho - e sempre cometemos porque simplesmente não entendemos nada daquelas cirurgias, não conhecemos direito os instrumentos, seus nomes, quando usa qual, que tipo de fio vai precisar etc etc etc).
Quando acabou, fomos avisadas que outra cirurgia iria começar em seguida. Só que já eram 16h50, a previsão é que durasse até às 19h e eu tinha planejado de ir viajar para casa do meu pai naquela noite. Se eu saísse depois das 18h, não conseguiria viajar. Falei com minha amiga, ela se dispos a entrar nessa segunda cirurgia também e eu só ficaria olhando e "fugiria" no meio.
Óbvio que meu medo influenciou nessa decisão de ir embora. Eu podia muito bem viajar no sábado pela manhã. Não seria a mesma coisa, não era o que eu tinha programado, não era o que eu queria, mas aquele aprendizado valia o sacrifício (principalmente nesse estágio que será tranquilo, sem plantões, nem atividades em fins de semana / feriados). Mas... fugi... mais uma vez.
No caminho até a casa do meu pai, vim pensando no que podia ser esse sentimento tão ruim, que me paraliza, que me faz evitar de fazer as coisas, que me impede de arriscar.
Cheguei à conclusão de que isso não é exatamente medo. O problema de fazer essas atividades (como um parto por exemplo) é estar me expondo aos erros. Se fico de fora, apenas assistindo, o risco de eu cometer algum erro, fazer alguma besteira é obviamente muito menor (mas ele continua existindo) do que seria se eu estivesse "com a mão na massa".
E o problema do errar, do fazer besteira, não é necessariamenteo medo da bronca do professor (que sempre vai vir e VAI SER horrível). O grande, enorme problema, é que depois não consigo lidar com minha cobrança, com meu sentimento de frustração, com essa sensação de ter falhado, de ser uma interna ruim, de não ser perfeita...
Quando chego em casa, depois de um dia em que essas coisas aconteceram, desabo, não consigo dormir, me sinto sozinha, chamo pela minha mãe (ah, como eu gostaria de ouvi-la dizer mais uma vez "deixa de ser ridícula menina! qual problema de ter errado, qual problema de não ter conseguido dessa vez? Agora você já aprendeu! da próxima vez talvez vai errar de novo, mas um dia você vai saber tanto quanto seus professores e vai ensinar menininhas mais novas como você - aí você vai perceber que o erro dos mais novos e, consequentemente os seus atuais, não é nem um pouco grave, não causa mal a ninguém e vai perceber que no dia seguinte, ninguém mais vai lembrar do que aconteceu - mesmo porque, vem outro tonto como você e comete outros erros estúpidos assim. Não adianta nada você ficar aí sofrendo, se auto-mutilando, se fazendo de coitada. Levanta e vai fazer alguma coisa útil da sua vida, vai!).
E aí, em dias assim, ao invés de estudar, me dedicar mais para errar menos, deito na cama bem cedo, sem ter comido nada, fico jogando joguinhos que não exigem neurônios e ouvindo músicas até conseguir pegar no sono...
sábado, 22 de março de 2008
Cheguei em casa hoje com uma sensação estranha de dever cumprido... Uma sensação muito boa...
Dei plantão noturno. Um plantão muito cansativo para mim e muito tranquilo para minha colega. Como sempre, eu, muito boazinha, deixei ela ir dormir primeiro (geralmente a gente divide a noite), apesar de eu já estar bastante cansada também e morrendo de dor de cabeça. Ela tinha dado plantão na noite anterior sem dormir quase nada... não me custava tanto aguentar meu mal-estar e deixá-la dormir primeiro. Ela foi dormir e eu fui atender as fichas do Pronto socorro.
Às 3h45, como combinado, ela acordou para que eu fosse dormir. Só que tinha acabado de entrar uma paciente na sala de cirurgia que a gente não sabia se ia conseguir fazer parto normal ou se teria que ser cesárea (se fosse normal, independente da hora, eu que deveria fazer; se fosse cesárea, ela). E, claro, como são raras as pessoas no mundo que retribuem um favor, ao invés de ela dizer "Vai dormir um pouco, se eles decidirem que vai ser parto normal, eu te chamo", ela simplesmente me deixou lá, responsável por monitorar a tal paciente até que eles decidissem o que fazer (algo que poderia demorar 1 hora), foi para o PS, onde não tinha mais nenhuma ficha porque eu já tinha atendido todas, deitou no sofazinho que tem lá e simplesmente dormiu. Eu desacreditei naquilo. A pessoa não teve o menor bom senso de perceber que se ela dormisse eu continuaria trabalhando e isso seria totalmente injusto, porque afinal de contas enquanto ela dormia suas 4 horinhas merecidas, eu trabalhava para deixar tudo ok para quando trocássemos.
Mas beleza. Fiquei lá acompanhando a mulher, monitorizando... e nada.
Uns 40 minutos depois ouço uns gritos na ala de observação. Fui lá ver e tinha outra paciente quase expulsando o bebê da barriga sozinha, no meio do corredor. Me lavei, entrei no parto correndo. Eu estava tão cansada que não tinha coordenação nem para enfiar a agulha na pele da moça para costurar. Nem com a ajuda do residente lindo (Que residente! Benzadeus!)...
Saí do parto me arrastando de tão exausta. A outra paciente tinha evoluído para cesárea e minha colega estava lá, ajudando. Às 5h30, quando achei que ia conseguir dormir pelo menos 1h30 (eu estava preocupada de ficar sem dormir porque às 7h, quando acabasse meu plantão, eu tinha metade da enfermaria para evoluir - cerca de 30 pacientes para eu atender sozinha - qual a chance de eu conseguir fazer isso direito, zuada do jeito que eu estava?) chega a enfermeira desesperada: "Interna, interna, tem uma paciente lá no PS com sangramento e não tem ninguém para atendê-la, você pode ir ver?".
Claaaaaaro que posso, né?!
Atendi essa paciente. Nada grave, mas precisava ser examinada e eu não sou autorizada a fazer isso sozinha - eu só posso ir lá e diagnosticar se é urgência ou não (caso fosse, arranjariam um médico sei lá de onde para atendê-la). Ela teria que esperar. Chegou outra paciente, atendi também. Nada urgente. Deixei as duas lá deitadas aguardando um médico para terminar o exame e voltei para onde acontecem as cirurgias.
Quando entro, tinha surgido uma paciente não sei de onde, que já estava na sala de parto, quase com metade do bebê pra fora. Um médico extra chamado às pressas já estava paramentado, com a mesa pronta. Olhei de longe, perguntei se ele queria que eu auxiliasse. Ele fez uma cara de "não precisa, interna, com você aqui só vou demorar mais para terminar", dei graças a deus e saí para ver as duas que tinha deixado lá esperando. Obviamente que enquanto as paciente estivessem lá, eu não poderia deixá-las sozinhas para ir dormir. Fiquei esperando, esperando, esperando... e nada de médicos disponíveis.
Esse segundo parto acabou (a cesárea com a médica responsável por atender os casos do PS ainda rolando), fui atrás do tal doutor extra. Ele olhou para minha cara "é urgência? não? então espera a doutora sair da cesárea porque já tá no meu horário de ir embora". Depois dessa, claro, me conformei que não haveria um minuto de sono e relaxei.
Até que um anjo caiu na terra e veio me salvar. Um médica linda, educada, atenciosa, compreensiva, que pegaria o plantão do dia (que começa às 7h, mas ela milagrosamente chegou às 6h50). Ela olhou pra minha cara, eu com aquele olhar de "me salva que vou morrer" e se dispôs a liberar minhas pacientes.
Passei os casos superficialmente, ela examinou, viu que realmente não era nada demais e mandou as duas de volta para casa rapidamente. Aí ela perguntou o que tinha acontecido comigo e ficamos conversando até meus colegas que pegariam o plantão do dia chegassem e assumissem o pronto socorro.
Desci com aquela minha colega dorminhoca para tomar café, depois voltamos para enfermaria para evoluir nossas paciente.
Enquanto eu estava atendendo a 5ª paciente, para minha felicidade, apareceu aquele anjo novamente, tocou no meu ombro e disse que era ela a médica responsável por passar visita (depois que a gente atende esses paciente, vem um médico e discute todos os casos para definirmos a conduta de cada um - trabalho que pode demorar horas, dependendo do médico que vem). Meu coração pulou de alegria ao ver aquele ser angelical sorrindo pra mim. Enquanto eu ia atendendo os paciente da direita e checando exames, ela e a enfermeira foram atendendo os da esquerda, já dando condutas, prescrições e altas. Terminamos em pouco mais de 2h. Trabalho massante, sem graça, que fiz com prazer por saber que era ela que estava me "supervisionando". Ao terminar a última paciente, a médica falou: "tenho um último pedido pra você por hoje: vai logo embora dormir, vai!".
E eu, feliz e contente, fui para o ponto de ônibus (sim, depois de tudo isso, ainda tinha que pegar ônibus para chegar em casa e encontrar a faxineira dentro do meu quarto, impedindo que eu dormisse). E me senti muito bem por ter cumprido minhas tarefas de maneira minimamente satisfatória, com ajuda de um anjo daqueles!
Dei plantão noturno. Um plantão muito cansativo para mim e muito tranquilo para minha colega. Como sempre, eu, muito boazinha, deixei ela ir dormir primeiro (geralmente a gente divide a noite), apesar de eu já estar bastante cansada também e morrendo de dor de cabeça. Ela tinha dado plantão na noite anterior sem dormir quase nada... não me custava tanto aguentar meu mal-estar e deixá-la dormir primeiro. Ela foi dormir e eu fui atender as fichas do Pronto socorro.
Às 3h45, como combinado, ela acordou para que eu fosse dormir. Só que tinha acabado de entrar uma paciente na sala de cirurgia que a gente não sabia se ia conseguir fazer parto normal ou se teria que ser cesárea (se fosse normal, independente da hora, eu que deveria fazer; se fosse cesárea, ela). E, claro, como são raras as pessoas no mundo que retribuem um favor, ao invés de ela dizer "Vai dormir um pouco, se eles decidirem que vai ser parto normal, eu te chamo", ela simplesmente me deixou lá, responsável por monitorar a tal paciente até que eles decidissem o que fazer (algo que poderia demorar 1 hora), foi para o PS, onde não tinha mais nenhuma ficha porque eu já tinha atendido todas, deitou no sofazinho que tem lá e simplesmente dormiu. Eu desacreditei naquilo. A pessoa não teve o menor bom senso de perceber que se ela dormisse eu continuaria trabalhando e isso seria totalmente injusto, porque afinal de contas enquanto ela dormia suas 4 horinhas merecidas, eu trabalhava para deixar tudo ok para quando trocássemos.
Mas beleza. Fiquei lá acompanhando a mulher, monitorizando... e nada.
Uns 40 minutos depois ouço uns gritos na ala de observação. Fui lá ver e tinha outra paciente quase expulsando o bebê da barriga sozinha, no meio do corredor. Me lavei, entrei no parto correndo. Eu estava tão cansada que não tinha coordenação nem para enfiar a agulha na pele da moça para costurar. Nem com a ajuda do residente lindo (Que residente! Benzadeus!)...
Saí do parto me arrastando de tão exausta. A outra paciente tinha evoluído para cesárea e minha colega estava lá, ajudando. Às 5h30, quando achei que ia conseguir dormir pelo menos 1h30 (eu estava preocupada de ficar sem dormir porque às 7h, quando acabasse meu plantão, eu tinha metade da enfermaria para evoluir - cerca de 30 pacientes para eu atender sozinha - qual a chance de eu conseguir fazer isso direito, zuada do jeito que eu estava?) chega a enfermeira desesperada: "Interna, interna, tem uma paciente lá no PS com sangramento e não tem ninguém para atendê-la, você pode ir ver?".
Claaaaaaro que posso, né?!
Atendi essa paciente. Nada grave, mas precisava ser examinada e eu não sou autorizada a fazer isso sozinha - eu só posso ir lá e diagnosticar se é urgência ou não (caso fosse, arranjariam um médico sei lá de onde para atendê-la). Ela teria que esperar. Chegou outra paciente, atendi também. Nada urgente. Deixei as duas lá deitadas aguardando um médico para terminar o exame e voltei para onde acontecem as cirurgias.
Quando entro, tinha surgido uma paciente não sei de onde, que já estava na sala de parto, quase com metade do bebê pra fora. Um médico extra chamado às pressas já estava paramentado, com a mesa pronta. Olhei de longe, perguntei se ele queria que eu auxiliasse. Ele fez uma cara de "não precisa, interna, com você aqui só vou demorar mais para terminar", dei graças a deus e saí para ver as duas que tinha deixado lá esperando. Obviamente que enquanto as paciente estivessem lá, eu não poderia deixá-las sozinhas para ir dormir. Fiquei esperando, esperando, esperando... e nada de médicos disponíveis.
Esse segundo parto acabou (a cesárea com a médica responsável por atender os casos do PS ainda rolando), fui atrás do tal doutor extra. Ele olhou para minha cara "é urgência? não? então espera a doutora sair da cesárea porque já tá no meu horário de ir embora". Depois dessa, claro, me conformei que não haveria um minuto de sono e relaxei.
Até que um anjo caiu na terra e veio me salvar. Um médica linda, educada, atenciosa, compreensiva, que pegaria o plantão do dia (que começa às 7h, mas ela milagrosamente chegou às 6h50). Ela olhou pra minha cara, eu com aquele olhar de "me salva que vou morrer" e se dispôs a liberar minhas pacientes.
Passei os casos superficialmente, ela examinou, viu que realmente não era nada demais e mandou as duas de volta para casa rapidamente. Aí ela perguntou o que tinha acontecido comigo e ficamos conversando até meus colegas que pegariam o plantão do dia chegassem e assumissem o pronto socorro.
Desci com aquela minha colega dorminhoca para tomar café, depois voltamos para enfermaria para evoluir nossas paciente.
Enquanto eu estava atendendo a 5ª paciente, para minha felicidade, apareceu aquele anjo novamente, tocou no meu ombro e disse que era ela a médica responsável por passar visita (depois que a gente atende esses paciente, vem um médico e discute todos os casos para definirmos a conduta de cada um - trabalho que pode demorar horas, dependendo do médico que vem). Meu coração pulou de alegria ao ver aquele ser angelical sorrindo pra mim. Enquanto eu ia atendendo os paciente da direita e checando exames, ela e a enfermeira foram atendendo os da esquerda, já dando condutas, prescrições e altas. Terminamos em pouco mais de 2h. Trabalho massante, sem graça, que fiz com prazer por saber que era ela que estava me "supervisionando". Ao terminar a última paciente, a médica falou: "tenho um último pedido pra você por hoje: vai logo embora dormir, vai!".
E eu, feliz e contente, fui para o ponto de ônibus (sim, depois de tudo isso, ainda tinha que pegar ônibus para chegar em casa e encontrar a faxineira dentro do meu quarto, impedindo que eu dormisse). E me senti muito bem por ter cumprido minhas tarefas de maneira minimamente satisfatória, com ajuda de um anjo daqueles!
sexta-feira, 21 de março de 2008
Texto retirado do blog da Rosana. Simples e muito esclarecedor, como sempre são os textos dela.
"Um certo tipo de personalidade
Existe um certo tipo de pessoa que quando vê você com um parente no ambiente de trabalho, já vem logo dizendo:
- Olha o nepotismo aí!
Quando ela você com uma roupa nova, aponta na hora:
- Tá podendo, hein!?
Se for na hora do almoço ela olha seu prato e diz:
- Desse jeito vai acabar engordando...
Caso você ganhe um presente de alguém, o comentário será:
- Hum...! Tá fazendo sucesso!
E no dia em que você disser que viu algum filme que ainda não está em cartaz nos cinemas ela certamente dirá?
- O quê?? Não vai me dizer que você está vendo cópia pirata!!!
E assim por diante.
Tudo tem um aroma de cinismo, temperado com um toque de desprezo, embebido em um suposto tom humorístico. O álibi primeiro é de que 'é só uma brincadeirinha'. Mas a intenção é outra, a de encher um pouquinho o seu saquinho. É só para lembrar você que você é legal mas não muito. Que você está bem, mas sua alegria pode acabar. Que você tem saúde, mas a qualquer hora pode chegar a doença. Que apesar de bonito, seu prato pode engordar. Que sua roupa é nova mas quem sabe tenha uma origem ilícita.
Não é que a pessoa seja totalmente má, cruel ou deseje seu mal. Ela apenas não tem muito prazer em ver o seu bem. E, porque se sente levemente incomodada faz questão de provocar um leve incômodo em você também.
Este tipo de pessoa não quer destruir você, devorar você, matar você. Ela só quer dar uma picada, como um inseto. Causar uma coceirinha. Atrapalhar um pouquinho. Ela quer, de uma forma inconsciente e preventiva, impedir que você se sinta mais feliz do que ela imagina que seja o tanto que você merece. Talvez porque ela própria, de forma inconsciente, intua que ela se sente um pouquino abaixo do que ela gostaria.
Em resumo, ela está sempre ali, perto de você, só para impedir que você esqueça que para morrer basta estar vivo. Talvez porque a morte seja a solução inexorável que enfim, colocará todos nós no mesmo patamar de igualdade.
Conhece alguém assim?"
"Um certo tipo de personalidade
Existe um certo tipo de pessoa que quando vê você com um parente no ambiente de trabalho, já vem logo dizendo:
- Olha o nepotismo aí!
Quando ela você com uma roupa nova, aponta na hora:
- Tá podendo, hein!?
Se for na hora do almoço ela olha seu prato e diz:
- Desse jeito vai acabar engordando...
Caso você ganhe um presente de alguém, o comentário será:
- Hum...! Tá fazendo sucesso!
E no dia em que você disser que viu algum filme que ainda não está em cartaz nos cinemas ela certamente dirá?
- O quê?? Não vai me dizer que você está vendo cópia pirata!!!
E assim por diante.
Tudo tem um aroma de cinismo, temperado com um toque de desprezo, embebido em um suposto tom humorístico. O álibi primeiro é de que 'é só uma brincadeirinha'. Mas a intenção é outra, a de encher um pouquinho o seu saquinho. É só para lembrar você que você é legal mas não muito. Que você está bem, mas sua alegria pode acabar. Que você tem saúde, mas a qualquer hora pode chegar a doença. Que apesar de bonito, seu prato pode engordar. Que sua roupa é nova mas quem sabe tenha uma origem ilícita.
Não é que a pessoa seja totalmente má, cruel ou deseje seu mal. Ela apenas não tem muito prazer em ver o seu bem. E, porque se sente levemente incomodada faz questão de provocar um leve incômodo em você também.
Este tipo de pessoa não quer destruir você, devorar você, matar você. Ela só quer dar uma picada, como um inseto. Causar uma coceirinha. Atrapalhar um pouquinho. Ela quer, de uma forma inconsciente e preventiva, impedir que você se sinta mais feliz do que ela imagina que seja o tanto que você merece. Talvez porque ela própria, de forma inconsciente, intua que ela se sente um pouquino abaixo do que ela gostaria.
Em resumo, ela está sempre ali, perto de você, só para impedir que você esqueça que para morrer basta estar vivo. Talvez porque a morte seja a solução inexorável que enfim, colocará todos nós no mesmo patamar de igualdade.
Conhece alguém assim?"
sexta-feira, 14 de março de 2008
Essa eu preciso deixar registrada:
Estava eu ontem, entrando na faculdade, quando avistei uma professora no saguão. Não era uma professora qualquer, mas simplesmente a que eu mais admiro, a que acho mais bonita, mais inteligente, mais simpática, mais tudo! Ela estava virada de frente pra mim, parada no corredor, e eu estava entrando pelo portão, andando em direção a ela.
Na minha frente, também entrando, estava um outro professor. Alguém que eu também admiro muito. O professor avistou a professora, foi em direção a ela, a abraçou e saiu com a mão no ombro dela, carregando-a para dentro, seguindo no corredor. Eu continuei andando atrás dos dois, simplesmente seguindo meu caminho.
Alguns passos a frente, a professora simplesmente pára e diz: "Peraí, peraí! Não posso deixar de cumprimentar minha aluna preferida. Sabe professor, essa menina aqui tem futuro, viu?! Você vai ver, daqui há poucos anos é ela que estará brilhando!". Nossaaaaaaa!!!! Delirei!!!!!
Ela simplesmente estava falando de mim. Ela parou unicamente para me cumprimentar! Como pode??? E pior, o professor, ouvindo isso, respondeu: "É, eu sei. Eu conheço ela também." Quase infartei... e saí de lá flutuando entre as nuvens.
Ganhei meu dia, minha semana, meu ano!
Estava eu ontem, entrando na faculdade, quando avistei uma professora no saguão. Não era uma professora qualquer, mas simplesmente a que eu mais admiro, a que acho mais bonita, mais inteligente, mais simpática, mais tudo! Ela estava virada de frente pra mim, parada no corredor, e eu estava entrando pelo portão, andando em direção a ela.
Na minha frente, também entrando, estava um outro professor. Alguém que eu também admiro muito. O professor avistou a professora, foi em direção a ela, a abraçou e saiu com a mão no ombro dela, carregando-a para dentro, seguindo no corredor. Eu continuei andando atrás dos dois, simplesmente seguindo meu caminho.
Alguns passos a frente, a professora simplesmente pára e diz: "Peraí, peraí! Não posso deixar de cumprimentar minha aluna preferida. Sabe professor, essa menina aqui tem futuro, viu?! Você vai ver, daqui há poucos anos é ela que estará brilhando!". Nossaaaaaaa!!!! Delirei!!!!!
Ela simplesmente estava falando de mim. Ela parou unicamente para me cumprimentar! Como pode??? E pior, o professor, ouvindo isso, respondeu: "É, eu sei. Eu conheço ela também." Quase infartei... e saí de lá flutuando entre as nuvens.
Ganhei meu dia, minha semana, meu ano!
quarta-feira, 12 de março de 2008
Hoje aprendi...
Passei duas semanas no centro obstétrico e não tinha aprendido muita coisa. Passamos muito tempo ocioso, os médicos mais velhos não dão a mínima atenção pra gente, ficamos largados à própria sorte (ou falta dela, como no meu caso).
Na verdade, eu estava lá "desaprendendo" Medicina. Ontem, por exemplo, atendi uma gestante com gripe e simplesmente esqueci de examinar a garganta dela. Básico do básico do básico. E eu "comi bola", deixei passar porque tudo que faço ultimamente é examinar a barriga e o bebê que está dentro – os obstetras de lá simplesmente ignoram que as gestantes têm outras partes no corpo além do barrigão. Sem falar nas inúmeras vezes que fui obrigada pelo médico assistente a encaminhar paciente com otite para a clínica médica ou para a otorrino. Como eles podem não saber diagnosticar e tratar uma simples otite???
Mas hoje, último dia lá, aprendi algo que nunca vou esquecer; aprendizado para a vida toda. Estávamos com uma única paciente em trabalho de parto. Um único possível parto para acontecer num dia inteiro (12 horas) de trabalho. Avaliamos a tal mulher, estava com 6 cm de dilatação (geralmente aumenta 1cm a cada hora e a criança nasce quando atinge os 10cm). Orientamos para que ela tomasse um banho (para ajudar no relaxamento e na descida do bebê) e a levaríamos para anestesiar em seguida. Aí, resolvi dar um passeio no Pronto Atendimento (que fica do lado). Passei pelo quarto da parturiente ela estava urrando de dor (todas elas gritam muito nesses momentos que antecedem o parto). Olhei, ela estava lá deitada... paciência... íamos anestesiar em seguida, mas no momento não havia nada que eu pudesse fazer por ela. Saí.
10 minutos depois aparece uma colega minha com uma cara de assustada: "Vocês perderam o parto, a criança já nasceu... assim de repente... na cama mesmo...". Saí correndo. E descobri que aquele grito de dor que ouvi, era a criança saindo. Exatamente naquele momento em que passei em frente ao quarto.
Putz... eu não tinha como advinhar... A criança estava "programada" para dali a 3 ou 4 horas. E simplesmente decidiu que ia rasgar a mãe dela e sair assim mesmo, de repente. Mas eu tinha que ter parado para conversar com ela. Era minha obrigação ir ver de perto o que estava acontecendo... ninguém vê uma pessoa gritando assim e ignora, em lugar nenhum do planeta, em situação nenhuma.
Me senti péssima. Como pude ignorar o grito de dor da mulher, como pude deixar ela lá sozinha naquele momento??? Todo mundo ao redor disse que eu não tive culpa, que eu não tinha como advinhar, que não dá para dar atenção a cada grito de cada mulher (pela manhã tinha uma outra gritando exatamente na mesma intensidade e era pela dor das contrações, não tinha nenhum bebê saindo de lá). Mas não me conformo... não acredito que fiz isso. Tudo bem que tinha pelo menos 2 médicos lá por perto, mais um milhão de enfermeira... e se eu estivesse lá, a criança teria nascido do mesmo jeito, teria rasgado a mãe exatamente da mesma forma... eu não teria evitado... mas eu poderia ter chamado alguém, poderia ter segurado a mão dela... sei lá... eu DEVERIA ter feito alguma coisa...
No fim das contas, o bebê nasceu bem, gritando tanto quanto a mãe. E eu saí mal, me sentindo a pior pessoa do mundo...
Passei duas semanas no centro obstétrico e não tinha aprendido muita coisa. Passamos muito tempo ocioso, os médicos mais velhos não dão a mínima atenção pra gente, ficamos largados à própria sorte (ou falta dela, como no meu caso).
Na verdade, eu estava lá "desaprendendo" Medicina. Ontem, por exemplo, atendi uma gestante com gripe e simplesmente esqueci de examinar a garganta dela. Básico do básico do básico. E eu "comi bola", deixei passar porque tudo que faço ultimamente é examinar a barriga e o bebê que está dentro – os obstetras de lá simplesmente ignoram que as gestantes têm outras partes no corpo além do barrigão. Sem falar nas inúmeras vezes que fui obrigada pelo médico assistente a encaminhar paciente com otite para a clínica médica ou para a otorrino. Como eles podem não saber diagnosticar e tratar uma simples otite???
Mas hoje, último dia lá, aprendi algo que nunca vou esquecer; aprendizado para a vida toda. Estávamos com uma única paciente em trabalho de parto. Um único possível parto para acontecer num dia inteiro (12 horas) de trabalho. Avaliamos a tal mulher, estava com 6 cm de dilatação (geralmente aumenta 1cm a cada hora e a criança nasce quando atinge os 10cm). Orientamos para que ela tomasse um banho (para ajudar no relaxamento e na descida do bebê) e a levaríamos para anestesiar em seguida. Aí, resolvi dar um passeio no Pronto Atendimento (que fica do lado). Passei pelo quarto da parturiente ela estava urrando de dor (todas elas gritam muito nesses momentos que antecedem o parto). Olhei, ela estava lá deitada... paciência... íamos anestesiar em seguida, mas no momento não havia nada que eu pudesse fazer por ela. Saí.
10 minutos depois aparece uma colega minha com uma cara de assustada: "Vocês perderam o parto, a criança já nasceu... assim de repente... na cama mesmo...". Saí correndo. E descobri que aquele grito de dor que ouvi, era a criança saindo. Exatamente naquele momento em que passei em frente ao quarto.
Putz... eu não tinha como advinhar... A criança estava "programada" para dali a 3 ou 4 horas. E simplesmente decidiu que ia rasgar a mãe dela e sair assim mesmo, de repente. Mas eu tinha que ter parado para conversar com ela. Era minha obrigação ir ver de perto o que estava acontecendo... ninguém vê uma pessoa gritando assim e ignora, em lugar nenhum do planeta, em situação nenhuma.
Me senti péssima. Como pude ignorar o grito de dor da mulher, como pude deixar ela lá sozinha naquele momento??? Todo mundo ao redor disse que eu não tive culpa, que eu não tinha como advinhar, que não dá para dar atenção a cada grito de cada mulher (pela manhã tinha uma outra gritando exatamente na mesma intensidade e era pela dor das contrações, não tinha nenhum bebê saindo de lá). Mas não me conformo... não acredito que fiz isso. Tudo bem que tinha pelo menos 2 médicos lá por perto, mais um milhão de enfermeira... e se eu estivesse lá, a criança teria nascido do mesmo jeito, teria rasgado a mãe exatamente da mesma forma... eu não teria evitado... mas eu poderia ter chamado alguém, poderia ter segurado a mão dela... sei lá... eu DEVERIA ter feito alguma coisa...
No fim das contas, o bebê nasceu bem, gritando tanto quanto a mãe. E eu saí mal, me sentindo a pior pessoa do mundo...
sábado, 1 de março de 2008
Tive que fazer uma escolha na minha vida:
X 
E optei pelo equilíbrio.
É claro que agora estou repensando essa decisão.
O desequilíbrio vem acompanhado de brigas, estresse, preocupações, chateações... mas também inclui festas, diversões, risos, amizade, desabafos...
O equilíbrio é sempre assim... equilibrado. Sem grandes problemas, sem estresse, sem bons momentos, sem diversão. Ele é assim. Sempre igual. Estático.
Sinto muita falta dos bons momentos, das baladinhas, das conversas insanas, das madrugadas de cinema, de falar mal de homens, de contar minhas histórias toscas e ser xingada por todas...
Estou simplesmente estudando, aprendendo, tentando sobreviver a cada estágio, a cada paciente, a cada besteira que faço. Não estou vivendo. Não estou feliz. Isso vai ser bom para meu futuro??? Sem dúvida o aprendizado vai ser ótimo. A quantidade e a qualidade estão muito bem. Mas será que daqui há alguns anos não vou olhar para trás e me arrepender do tempo em que fiquei em casa dormindo, me preparando para o plantão do dia seguinte, ao invés de ir me divertir com minhas amigas e ir cansada mesmo para o plantão? Será que não vou me arrepender de cada jantar, cada balada, cada cinema para os quais não fui mais convidada por ter escolhido outro caminho?
Enfim, agora não tem mais volta. Decisão tomada, consequências reconhecidas e aceitas. O que me resta fazer é tornar a realidade de agora mais agradável, achar uma alternativa para a solidão atual.

E optei pelo equilíbrio.
É claro que agora estou repensando essa decisão.
O desequilíbrio vem acompanhado de brigas, estresse, preocupações, chateações... mas também inclui festas, diversões, risos, amizade, desabafos...
O equilíbrio é sempre assim... equilibrado. Sem grandes problemas, sem estresse, sem bons momentos, sem diversão. Ele é assim. Sempre igual. Estático.
Sinto muita falta dos bons momentos, das baladinhas, das conversas insanas, das madrugadas de cinema, de falar mal de homens, de contar minhas histórias toscas e ser xingada por todas...
Estou simplesmente estudando, aprendendo, tentando sobreviver a cada estágio, a cada paciente, a cada besteira que faço. Não estou vivendo. Não estou feliz. Isso vai ser bom para meu futuro??? Sem dúvida o aprendizado vai ser ótimo. A quantidade e a qualidade estão muito bem. Mas será que daqui há alguns anos não vou olhar para trás e me arrepender do tempo em que fiquei em casa dormindo, me preparando para o plantão do dia seguinte, ao invés de ir me divertir com minhas amigas e ir cansada mesmo para o plantão? Será que não vou me arrepender de cada jantar, cada balada, cada cinema para os quais não fui mais convidada por ter escolhido outro caminho?
Enfim, agora não tem mais volta. Decisão tomada, consequências reconhecidas e aceitas. O que me resta fazer é tornar a realidade de agora mais agradável, achar uma alternativa para a solidão atual.
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