sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

História de uma tragédia anunciada

Têm atitudes que a gente aprende muito rápido quando trabalha num pronto socorro.
Mas, pelo que tenho visto nos mais velhos, a gente esquece rápido também porque eles cometem erros primários ao lidar com os pacientes. Eles já passaram pelos mesmos estágios que estou passando agora, mas parece que ao se tornarem residentes, esquecem tudo que aprenderam.

Ao entrar no plantão ontem, às 19h, logo percebi que a noite seria o caos. Os 2 únicos residentes da Neurocirurgia (onde estou passando) ficaram a tarde toda em cirurgia, só sairiam às 21h e havia um milhão de pacientes esperando-os, milhares de casos para rever e resolver...
Quando entrei, já me chamaram direto para a sala de emergência. Um paciente que tinha sido atropelado estava piorando, precisava ir para cirurgia mas todas as salas cirúrgicas estavam ocupadas. Como era extrema urgência, numa atitude heróica e arriscada, resolveram abrir a cabeça do cara ali, no pronto socorro mesmo, em meio ao tumulto e com grande platéia. Demoramos um tempo considerável tentando salvar o rapaz, mas não teve jeito...

Voltamos à correria (até aí já eram umas 21h30) e vário, vários, vários, vários pacientes vieram para cima da minha residente dizendo que estavam lá desde de manhã e ainda não tinham sido atendidos, reclamando, chorando (minha maior função nesse momento era dar cobertura para ela e não deixar que eles se aproximassem para não atrapalhar enquanto ela resolvia os casos mais graves - pacientemente eu explicava que eles seriam vistos, que estava complicado mas que ela estava resolvendo um por um).

Um dos primeiros pacientes que vieram reclamar (na verdade, a mãe dele) era um rapazinho que tinha sofrido um acidente e estava desde às 16h esperando que nós da Neuro avaliássemos a tomografia dele para que ele pudesse ir para casa. A mãe dele estava surtada, gritando no corredor, dizendo que era um absurdo tanta demora. A tragédia nesse momento já estava anunciada.
Fui até o rapaz (meu azar era que a mãe dele tinha saído no momento em que me aproximei - estava apenas o pai) expliquei com toda calma que a residente estava vendo os casos e resolvendo o mais rápido que ela podia, mas que tinha muita gente, que estava muito complicado etc etc etc. Disse que já havíamos avaliado a tomografia dele e que, assim que possível iríamos conversar com eles (poucos minutos antes, eu tinha pegado a ficha dele, avaliado rapidamente o caso e mostrei a tomo para a residente - ela ficou de discutir com o assistente porque provavelmente o menino seria internado - só que ela não tinha olhado para a cara do paciente ainda, nem sabia onde ele estava... eu tinha feito isso).
Algumas vezes nos momentos que se seguiram, a mãe do rapaz tentou parar a residente no corredor, falando, bastante alterada, que ela queria ir embora e levar seu filho... mas em nenhuma das vezes a residente parou para olhar para cara da mulher - ela estava na maior correria e não parou...

O cenário estava montado para que a tragédia acontecesse.
E aconteceu.
Em um momento, fui ao 3º andar pegar uma tomografia e quando voltei havia um clima estranho, a residente estava extremamente nervosa e alterada e o paciente e sua família haviam sumido.
Perguntei o que tinha acontecido mas ninguém sabia explicar direito.
Fui juntando as informações cortadas que recebia e concluí que a mãe, no auge de sua fúria, partiu para cima da residente, tentando obrigar que ela avaliasse seu filho naquele segundo. A residente, correndo, disse que nem sequer sabia quem era o filho da mulher e que tinha um monte de gente para avaliar e que eles teriam que aguardar (se eu tivesse lá, isso não teria acontecido porque eu reconheceria o rapaz). A mãe surtou, tentou bater na residente, xingou todas as gerações dela e mais um pouco, pegou seu filho e foi embora.
Só muito tempo depois, quando eu já tinha voltado, é que a residente descobriu que o rapaz era aquele da tomografia que precisava ser internado...
E mandou que a enfermeira liga-se para a casa do menino para pedir que ele voltasse ao hospital porque precisava ficar em observação.

Qualquer interno que já tenha passado pelo menos uma semana no pronto socorro sabe reconhecer anúncio desse tipo de confusão.
A mulher estava alterada desde o começo, a situação começou mal e não teria como terminar bem a não ser que a residente interfirisse - e ela teve diversas oportunidades.
Eu entendo que ela estava sobrecarregada, que um milhão de pessoas estava em cima dela. Mas se ela tivesse parado 10segundos para olhar para a cara do rapaz, teria evitado todo o estresse da confusão. Se ela tivesse dito à mãe, na hora que esta partiu para cima, que ela já tinha visto o caso e que a tomografia estava alterada, teria sido o suficiente para a mãe abaixar as armas dela, afinal a vida do filho dela estava em risco... e ela entenderia que precisava aguardar e que ele ficaria internado.
Mas, a residente dizer para mãe que ela nem sabia quem era o rapaz... foi o pior erro. Ela realmente não tinha ligado o caso à pessoa... mas isso não se faz. A primeira coisa quando a gente pega um caso é no mínimo olhar para cara do paciente. No momento em que ela me deu a ficha e pediu para que eu pegasse a tomografia (lá no começo da noite) a primeira coisa que fiz foi saber quem era o paciente (e na hora vi que sua mãe era barraqueira). Não demorei nem 10 segundos entre pegar a ficha e achar o paciente porque ele estava simplesmente ao lado do balcão onde atendemos. Ele estava ao nosso lado a noite inteira e a residente foi incapaz de sequer olhar para a cara dele...

Enfim, fiquei chocada com o erro primário que ela cometeu. Ao mesmo tempo, me identifiquei com ela e me vi nessa situação daqui há 2 ou 3 anos. Espero não esquecer desses pequenos mas tão importantes aprendizados que adquirimos no dia-a-dia do PS porque isso faz uma enorme diferença no nosso trabalho.
Só que... existe uma grande chance de eu, assim como a maioria do residentes, esquecer tudo isso... porque no momento em que estamos tão sobrecarregados, sob tamanha pressão, com tantas pessoas tentando puxar nossos braços para reclamar da demora, com tantos problemas e pacientes graves... fica difícil parar para olhar, ouvir... a gente se foca em resolver o que é grave e acaba ignorando os detalhes (e só depois descobrimos que não eram apenas detalhes)...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Bons tempos

A melhor parte de trabalhar com plantão no pronto socorro é ter dias livres, em horário comercial, para passear, fazer compras... como uma pessoa normal.
Hoje tive aula às 7h, depois, só tinha ambulatório às 13h. Tinha uma manhã inteira para aproveitar o lindo dia de sol e resolvi passear com um amigo na Paulista (claro!). Compramos acessórios para nossos celulares, almoçamos no Giraffa's (comida boa, mas a carne estava péssima, toda engordurada, nojenta), depois ele foi comprar uma camiseta e eu fui à loja da Nokia na Oscar Freire (eu utilizando dos serviços da Oscar Freire hahahahaha) para entender um pouco melhor sobre o funcionamento do meu celular.
Algumas centenas de reais mais pobre, voltamos ao ambulatório, felizes e saltitantes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

"Se é bom ou se é mau..." - Rubem Alves

      Quando eu contava estórias para a minha filha – ela era bem pequena ainda – tinha uma pergunta que ela sempre me fazia: “Esta estória aconteceu de verdade?” Eu não tinha jeito de responder.
      Se fosse o Peter Pan adulto, tal como aparece no Hook – A volta do Capitão Gancho, eu diria logo que era só uma mentirinha sem importância que eu estava inventando para que ela dormisse logo e eu pudesse voltar a me ocupar das coisas importantes do mundo real do dinheiro, da política, do trabalho, das rotinas da casa. Diria a ela que o livro que me importava, aquele que eu realmente lia, livro de cabeceira, era a agenda de capa verde. Nas suas páginas se escrevia a realidade. Mas ela era ainda muito criança - com o tempo cresceria e aprenderia a ler a literatura do real que só pode ser lida nas agendas. Por enquanto, ela podia se entregar as palavras mentirosas das estórias, só para que o sono viesse mais depressa....
      Mas eu não era o Peter Pan adulto e o que eu tinha para dizer eu não dizia, pois achava complicado demais para a cabecinha dela. O que eu gostaria de dizer a ela e não disse é que as estórias que eu contava não aconteceram nunca para que acontecessem sempre. A TERRA DO NUNCA é a TERRA DO SEMPRE, que existe eternamente dentro da gente. Já o que aconteceu de fato, documentado, fotografado, comprovado pela ciência e escrito com o nome de História – isso aconteceu do lado de fora da gente e, por isso, não acontece nunca mais. Está morto e enterrado no passado, e não há feitiço que faça ressuscitar. Mas aquilo que não aconteceu nunca, aquilo que só foi sonhado, é aquilo que sempre existiu e que sempre existirá, que nem nasceu e nem morrerá, e a cada vez que se conta acontece de novo....
      Se ela me tivesse feito a pergunta de um jeito diferente, se me tivesse perguntado se acreditava na estória, ah!, eu teria respondido fácil: “Mas é claro que acredito!” Pois eu só acredito no que não aconteceu nunca, no que é sonho, pois de sonhos, é disto que somos feitos.
      A estória da Branca de neve não aconteceu nunca – mas todos nós somos sempre, uma madrasta que se vê triste diante do espelho e manda a menina, nós também, para ser morta na floresta. A estória de João e Maria não aconteceu nunca, mas em toda a criança existe a fantasia terrível do abandono. A estória de Romeu e Julieta não aconteceu nunca, mas queremos ouvi-la de novo, pois dentro de nós existe o sonho do amor puro, belo e imortal. E é por isso que sou incuravelmente religioso, porque nas estórias da religião, que não aconteceram nunca, os sonhos e pesadelos da alma se acham refletidos. Acredito porque sei que são mentiras. Se fossem verdades, não me interessariam.
      As estórias são contadas como espelhos, para que a gente se descubra nelas. Os orientais são os grandes mestres nesta arte, esquecida dos ocidentais porque cresceram, como o Peter Pan do filme Hook, e passaram a acreditar somente naquilo que a agenda conta, sem perceber que, porque ela diz a verdade, mente.
      Quero contar para vocês a estória que mais tenho contado – não aconteceu nunca, acontece sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com a exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” Passados dez dias o cavalo voltou trazendo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar esta nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: “ Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No dia seguinte, o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem, O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”, o pai repetiu. Passados poucos dias vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: “ Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá...”
      Assim termina a estória, sem um fim, com reticências.....Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la é como se contasse a estória de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. “SE É BOM OU SE É MAU, SÓ O FUTURO DIRÁ”

Ser Antissocial

Uma das coisas que mais odeio na vida é depender de alguém para manter meu corpo saudável/apresentável.
Não sei por que. É totalmente irracional, inexplicável, mas desde adolescente comecei a aprender a fazer unha, depilação, conserto de roupas... sozinha, para não ter que depender de ninguém para essas coisas tão necessárias na vida de uma mulher. Para se ter uma idéia, nem de experimentar roupa em loja eu gosto. Evito ao máximo (apesar da necessidade).

O meu grande problema na vida, sempre foi meu cabelo.
Até tentei aprender a cortá-lo sozinha mas é algo meio impossível de se fazer e obter um resultado aceitável.
A solução "meio termo" que encontrei para evitar a desagradável visita ao cabeleireiro foi: corto meu cabelo uma vez por ano, curto (na altura do ombro mais ou menos) e deixo ele crescer durante o ano até chegar próximo à cintura. Só então visito o cabeleireiro novamente. E sempre vou em salões diferentes. Não consigo ir ao mesmo. Nunca encontrei um que realmente gostasse.
Sei lá. Meio doentio.

Fato é que precisei ir ao cabeleireiro hoje. Cortei meu cabelo em setembro pela última vez, mas a idiota da mulher praticamente raspou minha cabeça. Meu cabelo ficou extremamente curto e, agora que cresceu, ficou desforme, um horror.
Juro que tentei evitar a desagradável visita ao salão... até pedi para minha irmã cortar meu cabelo para mim (mas ela ficou com medo de deixar pior do que estava).
Então, já que teria que passar pela tortura mesmo, decidi que seria completa. Cortei, alisei e hidratei. Serviço completo para só ter que voltar lá daqui a um ano se possível (e sim, acho que dessa vez vou voltar ao mesmo porque adorei a cabeleireira - ela parece uma modelo internacional,jovem, linda, maquiada, feliz, que ama o que faz... e o salão é grande, impessoal e razoavelmente barato).

Nota - para quem não me conhece direito vou explicar por que detesto ir a esse tipo de prestadores de serviço: porque preciso conversar!!! Na boa, não sou uma pessoa simpática, demoro muito para me sentir à vontade com uma pessoa e não gosto de ficar jogando conversa fora com desconhecidos. Hoje, por exemplo, fiquei mais de 3h com a modelo. Só nós duas. Nunca tinha visto a mulher na vida. E fui obrigada a ficar respondendo perguntinhas do tipo "o que você faz?", "onde mora?", "o que usa no cabelo?" ou ouvindo comentários "você parece bem mais nova", "não acredito que antes de se formar você já atende pacientes", "você deveria cuidar melhor do seu cabelo, ele é tão lindo". Ah... pelamordedeus... dai-me paciência...
Enfim, pelo menos essa cabeleireira se tocou que estava sendo inadequada e ficou quieta depois. Ficamos umas 2h sem trocar uma palavra sequer. Clima ruim que eu gostaria muito de ter evitado. Mas não consigo. Não dá.

De qualquer forma, agora pelo menos meu cabelo está maravilhoso!!! Vou continuar não cuidando dele e vivendo a vida evitando cabeleireiros e serviços afins.

Livros

Mais uma vez estou lendo 3 livros ao mesmo tempo. E agora percebi por que.

Estou lendo "Comer, Rezar, Amar" no palm. Leio só um pouco antes de dormir e por isso vou demorar alguns meses para acabar. Na verdade, não estou gostando muito. Se chegar na parte da India e estiver tão chato quanto agora, largo ele e vou ler "New Moon" (em inglês se eu conseguir).
Aliás, esse é um novo hábito para mim. Antes, eu me via na obrigação de ler o livro até o fim, me torturava... Agora aprendi que se o livro não é bom, não merece ser lido até o fim (o que seria no mínimo uma perda de tempo), então, pulo umas páginas, vou dando uma olhada em algumas partes apenas e jogo o livro de lado.

Um segundo livro que estou lendo (desde novembro) é "Soluções de Palhaços". Adorável! Traz histórias sobre os atendimentos dos Doutores da Alegria. Emocionante. Esclarecedor. Tocante.
Estou demorando para lê-lo porque ele foi meu escolhido para ser lido nas viagens de ônibus a caminho ou na volta da casa do meu pai. Ele me tira de e me traz de volta para o mundo do hospital e para a humanidade. Leio uma historinha de cada vez, com toda atenção e reflexão que ela merece.

O terceiro livro do momento é "As melhores crônicas de Rubem Alves". Peguei ontem com um amigo meu.
Há alguns anos esse meu amigo tinha comentado sobre uma crônica que ele leu nesse livro. E por algum motivo inexplicável esse comentário dele tem me martelado a cabeça (tenho uma péssima memória, não teria por que lembrar de um comentário sobre uma crônica que eu nem sequer tinha lido - mas não só lembrava como pensava nela o tempo todo ultimamente). Enfim, peguei o livro, li a crônica e estou aproveitando para me deliciar com as outras pérolas de Rubem Alves.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Magia do portal

O Mundo do Ballet parece para mim uma outra dimensão.
Eu entro num mágico portal de luz e saio numa outra realidade, onde as pessoas andam diferente, falam outra língua, se expressam de forma diferente, se estressam diferente...

Tomei coragem e fui ao Teatro São Pedro assistir ao Cuballet. Lindo!
Fui de metrô mesmo, sozinha mesmo e maltrapilha (para manter um mínimo de segurança, não chamando atenção)...

Quando entro nesse mundo da dança, tudo se transforma. Os cheiros são diferentes, os gestos, as cores, as sensações, as lembranças.
Um filme se passa em minha cabeça.
Uma vontade louca de fazer um pas de deux...

Assisto maravilhada a cada passo, a cada bailarina, a cada sorriso, mexendo minha cabeça nos passos que reconheço, criticando as mãos mal colocadas, as pontas não tão esticadas, as pernas baixas... E sorrindo. O tempo todo, um sorriso toma conta de minha alma, me transforma, me faz sentir tão viva... como há muitos anos...

Ah, se eu pudesse voltar... refazer os pliés, os jetés... usar uma ponta...

Mas... chego em casa, me olho no espelho e só enxergo uma sombra. Uma sombra que aos poucos vai se tornando mais nítida enquanto se veste de branco. Não mais a meia-calça rosa, o colant preto, a sapatilha suja... não mais a postura altiva, os braços longos, as pernas altas...

Agora são apenas roupas brancas, jalecos, esteto, fichas... apenas um corpo mal usado, dores lombares, braços cansados e pernas inchadas...

Às vezes ainda penso que vou voltar a fazer aulas de Ballet, voltar a ter um corpo bem cuidado, uma "bundinha dura" (como dizia minha mãe). Mas não sei se o Ballet ainda cabe na minha vida.
Amo tudo o que está relacionado a ele. Amo minhas lembranças, tudo que vivi.
Mas também amo minha vida na Medicina e ela já exige de mim muito mais do que posso dar-lhe.

Acho que o caminho para felicidade, é seguir meu caminho atual... e atravessar o portal de vez em quando apenas para visitar esse mundinho tão especial... que me faz sentir tão viva... tão completa... tão feliz!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um plantão na Neurocirurgia

Bizarríssimo! No pronto socorro da cirurgia, a gente trabalhava mais que burro de carga, não tinha tempo nem pra respirar. Agora, na Neuro, simplesmente passo horas sentada, de boa, olhando as pessoas trabalharem, eventualmente colho um exame, marco uma tomografia... e volto a sentar na paz do meu canto no PS.
Por incrível que pareça, estou achando péssimo esse marasmo. Adoro a correria. Adoro trabalhar feito louca, correr o dia todo, chegar em casa e não ter forças nem para comer...

Desejando trabalho, acabei tendo que entrar numa cirurgia. Laminectomia. Durou a tarde toda (o que significa que fiquei a tarde toda em pé, sem poder me mexer direito, sem fazer nada, assistindo dois residentes operarem). Foi uma chatice.
No começo, levei várias broncas dos estúpidos dos residentes (Dear God, nunca vi gente tão estúpida quanto aqueles Neurologistas - entre eles, se tratam como animais) porque eles queriam que fosse tudo absolutamente estéril e estavam encrencando com as manias que peguei da cirurgia geral. Numa boa, sou uma pessoa extremamente cuidadosa com a esterelidade das cirurgias, mas aquilo que eles fizeram foi completamente absurdo, excessivo e desnecessário. E depois ainda veio o assistente, nada estéril, se meteu entre os residentes, ficou colocando o dedo (sem luva) bem próximo à coluna vertebral do paciente, ali, toda exposta... e eu que levo bronca, acusada injustamente de contaminar tudo.

Enfim, a cirurgia acabou depois de quase 7h seguidas de tortura (...). Já eram quase 20h (meu plantão acaba às 19h) e me lembrei que antes de entrar na cirurgia, logo após o almoço, tinha atendido um paciente mas não consegui fazer nada porque a cirurgia ia começar e o residente já tinha subido.
Fato é que o paciente ainda estava esperando no PS e eu tinha que ir lá passar o caso.

Foi muitíssimo interessante. Uns dias atrás, assistindo Grey's Anatomy, mostraram um caso de um paciente que fez craniectomia (retirou um pedaço do crânio) e o osso foi colocado na barriga dele (porque o crânio não podia ser fechado de volta devido à pressão alta no cérebro - o osso é colocado no subcutâneo do abdômen para mantê-lo vivo e poderem reimplantá-lo depois, quando possível para o cérebro).
O paciente que atendi tinha sido submetido exatamente a essa cirurgia (tinha um pedaço do crânio na barriga e um pedaço do cérebro sem sua proteção). Procurou pela gente para "retamparem" o buraco da cabeça (fazer a cranioplastia).
Muito legal!


Ah, esqueci de contar um fato ocorrido enquanto estávamos em cirurgia. Entrou uma enfermeira na sala cirúrgia (umas 18h):
- Doutor, vai demorar muito aí pra acabar?
- Mais ou menos 1h. Por quê?
- É que... o "Fwrifsfskld"
(não entendi o nome e não sei quem é mas me pareceu chefe de alguma coisa no hospital) estava assistindo televisão e viu que aconteceram 2 acidentes graves agora a pouco. Aí ele pediu para liberarem a sala para se precisar operar algum desses traumas, se vier para cá.

Putz! Coitada da mensageira dessa mensagem absurda... A única coisa que fizemos foi rir da cara dela e falar "tá bom", sem dar qualquer crédito para as palavras que ela acabara de emitir.
Como assim o cara estava assistindo televisão e por causa de algo que ele viu lá quer liberar as salas cirúrgicas???
Só pode ser piada...

De fato, um pouco mais tarde uma das pessoas de um desses acidentes veio para o nosso hospital. Mas ela era a menos grave e acho que nem precisou de cirurgia. Mesmo que precisasse, ela chegou bastante tempo depois de termos liberado a sala. Não tinha por que tanto alarde.

O medo da cidade

Amo São Paulo! Nasci aqui, sempre vivi aqui.
Mas não sei se vou continuar aqui por muito tempo.

É muito complicado viver numa cidade onde não se pode ir à lugar algum sem medo de assalto, estupro, acidente de automóvel...

Hoje fui ao Teatro São Pedro comprar ingresso para assistir ao espetáculo de Ballet Clássico La Bayadere apresentado pelo Cuballet nesse fim de semana. Desci do metrô e fui caminhando. Eram 2 quarteirões apenas. Mas no caminho fui pensando se devia mesmo comprar esse ingresso, se não estaria me arriscando demais indo à noite, sozinha, num bairro que não conheço, supostamente perigoso - como qualquer bairro dessa cidade... (Detalhe: já tinha deixado meu celular em casa com medo de ser assaltada)

Decidi que ia comprar o ingresso e depois resolvia como faria para ficar mais segura. Infelizmente, ou felizmente, não sei, o sistema da bilheteria não estava funcionando e não consegui comprar. A moça foi muito gentil comigo (afinal, tinha ficado lá esperando uns 45 minutos enquanto o técnico tentava arrumar a internet), deixei um ingresso supostamente reservado e fui embora.

Agora estou me sentindo péssima por ter medo de ir ao Ballet. PQP! Estou presa em casa por causa de malditos bandidos que andam me assaltando por aí e me fazendo ter medo.
Queria poder ir, sozinha ou não, de metrô ou não, do jeito que eu quisesse, do jeito que desse, sem ter que deixar meu celular em casa, sem ter que vestir roupas maltrapilhas...
Sem ter que desistir de ir por medo de bandidos desgraçados.

Estou chateada e quero me mudar dessa cidade.

Mas será que consigo viver sem ela?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sugestão

Encontrei mais um blog muitíssimo interessante: http://contardocalligaris.blogspot.com.

Conheci os livro de Contardo quando estava no 3º ano de faculdade, estudando um pouco de psicanálise. Achei fantástico.

Alguém que tem muito para nos ensinar sobre a vida, as pessoas e nossas relações.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Foi no primeiro mês do 6º ano...

Aconteceu...

Hoje à tarde, no meio do plantão mais caótico que já tive, chegou um trauma (alguém que se acidentou).
Eu estava muito ocupada, mas fui à sala de emergência ajudar. Logo que cheguei, alguém entrou atrás de mim dizendo que uma das minhas pacientes estava passando muito mal, que eu precisava ir lá ver.
Como tinha gente suficiente para atender a pessoa acidentada, fui ajudar minha paciente.
Fiquei cuidando dela e acabei nem sabendo o que tinha acontecido com a acidentada.

Algum tempo depois, quando estava com um pouco menos de trabalho (já havia acabado meu horário de plantão há mais de 30min e eu não conseguia resolver todos os meus casos para poder ir embora), voltei à sala de emergência e fui saber do caso da paciente acidentada.

Logo que entrei percebi que era muitíssimo grave. E ainda precisavam de ajuda para atendê-la. A paciente tinha sido atropelada por um ônibus numa avenida muito movimentada e realmente estava mal.
Ficamos lá um tempão tentando mantê-la viva... tentamos de tudo...

Mas não foi possível salvá-la.
Declaramos óbito (muito cena de Grey's Anatomy "time of death..."). Saí da sala toda suja de sangue, nojentona. Reclamei com um residente e ele fez uma brincadeira, demos risada, zuaram um pouco mais, e eu subi para trocar de roupa e ir embora (afinal, meu plantão tinha acabado há mais de 2h e eu ainda estava trabalhando).

Enquanto eu e meu colega andávamos até o vestiário, percebi que eu estava pensando o que eu faria quando chegasse em casa, o que iria jantar, se aceitaria o convite para sair com meus amigos...

Foi no primeiro mês do 6º ano que me acostumei com a morte.
Eu simplesmente não me abalei muito com a morte daquela senhora. Lamentei sim, achei péssimo, trágico. Mas assim que saí da sala de emergência, relevei, esqueci, "let it go".

Comentei com meu colega:
- Acho que a morte está se tornando meio banal para mim...
- É... para mim também. A primeira pessoa que vi morrer foi um tremendo choque, pensei nela durante dias... e agora...
- É ruim, né?!
- Não sei se é ruim. Acho que é normal, ou pelo menos aceitável. A gente vive com isso tão de perto, que não tem como não encarar como um desfecho possível e concreto. Só hoje foram dois nossos. E se a gente fosse ficar sofrendo com isso, não conseguiríamos atender os outros tantos que estão lá precisando da nossa ajuda...


Não sei se é normal, não sei se é bom. Sinceramente, achei que eu nunca ia me acostumar com a morte. Achei que sempre seria tão doído como na primeira vez.
Me sinto um ser insensível, sem coração. Me sinto uma pessoa ruim por ter me acostumado.
Me sinto culpada por não estar triste, por não pensar no sofrimento que aquela família está tendo por essa morte tão trágica e inesperada para eles...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Já era

Meu celular já era.
Procurei por todo hospital, revirei meu quarto completamente e nem sinal do meu amado aparelho eletrônico.
O pior é que tenho a sensação de que trouxe ele pra casa. Tenho a sensação de que ele está perdido no meio da bagunça do meu quarto.
Já revirei tudo. Juro. Já procurei em todos os lugares possíveis e impossíveis.
E hoje minha faxineira veio e também não encontrou.
Estou começando a me conformar.

Meu celular já era e meu cérebro também.
Tenho mais 12h de plantão amanhã, duas provas e não consegui estudar porque estou em restrição de sono.
Sensação de morte iminente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Hoje não é meu dia...

Definitivamente, hoje não é meu dia...

Ontem, saí do plantão às 19h e fui para enfermaria para estudar um pouco (lá tem uma salinha tranquila, com computador ligado à internet - é um ótimo lugar para estudar).
Abri meu caderno, comecei a estudar e fui procurar sobre uma doença específica num site na internet.
Eu simplesmente dormi lendo o site. Dormi e quase cai da cadeira. Meu cansaço era tanto que eu mal consegui voltar para casa (vim me arrastando).
Aproveitei tamanha podridão, desisti de estudar e fui dormir. Às 21h30 já estava roncando.

Ainda bem que dormi bem porque se tivesse dormido mal, com o dia que tive hoje... Não ia aguentar.

1) Chegou um paciente grave, imundo, todo zoado - foi encontrado dentro do rio tiete. Fui lá atendê-lo. Peguei um bisturi, cortei parte da roupa dele (para examiná-lo direito) até que... bifei um pedaço do meu dedo. E a porcaria do corte começou a jorrar sangue sem parar. Tive que sair da equipe de atendimento e fiquei só assistindo de longe, tentando fazer meu sangue ficar dentro do meu corpo (após lavar intensamente com todos os tipos de degermantes que tinham por perto - imagina o quanto de porcaria não tinha no rio tiete que agora entra no meu dedo!)

2) Fui para uma aula à tarde. Quando levantei para voltar ao Pronto socorro estava cheio de algo vermelho por toda minha mão e perna. Achei que era o corte que tinha voltado a sangrar sem que eu percebesse, mas não: era uma caneta vermelha que tinha estourado dentro do meu bolso, manchando toda a roupa, minha perna (sim, ultrapassou a roupa), minha mão e meu celular.
Fiquei um tempão tentando limpar toda aquela sujeira.

3) Quando finalmente consegui ficar apresentável, desci para o pronto socorro e descobri que os residentes tinham acabado de passar um dreno de tórax. E como não tinha nenhum interno do 6º ano (vulgo eu e meus colegas que estavam na aula), ele chamou um interno da Neurologia. Isso já seria suficiente para entrar para o rol de coisas ruins do meu dia (afinal, nunca passei um dreno de tórax e gostaria muito de fazer isso mas meu estágio está nos últimos dias...). Mas, para piorar, fui fazer uma brincadeira com um interno da neuro perguntando se tinha sido ele que tinha roubado meu dreno de tórax. Ele disse que não e ficou por isso mesmo. Mais tarde, aparece um amigo meu muito puto da vida, dizendo que precisava me contar a outra versão da história, que a gente tinha que conversar, que isso não era justo... Demorei para acalmá-lo e tentar entender do que é que ele estava falando.
Descobri que o interno da neuro com quem fiz a brincadeira falou com esse meu amigo e disse que eu estava puta porque ele tinha roubado minha drenagem. Nada a ver. Tinha sido esse meu amigo que tinha passado o dreno e achou (por causa da fofoca do outro) que eu estava brava. Expliquei com toda calma do mundo (que eu já não tenho normalmente) que eu não estava brava e acho que no fim ficou mais ou menos esclarecido... sei lá. História bizarra.

4) Mas o pior do dia foi que perdi meu celular. Simplesmente não sei onde ele está. Acho que o deixei no bolso da calça do centro cirúrgico. E se realmente deixei lá, já era, porque a calça vai para uma lavanderia de uma empresa terceirizada...
PQP! Tenho esse celular há uns dois meses só. Amo ele. Tem todas as minhas fotinhas, minhas músicas... era o melhor celular que já tive na vida... e perdi... e não tenho grana para comprar outro igual...

5) E, como desgraça pouca é bobagem, agora à noite fui jantar com uma amiga minha (que eu não via há algumas semanas e que não verei nas próximas) e voltei com uma baita diarréia. Minha barriga está simplesmente virada do avesso.
Nem sei como vou conseguir trabalhar amanhã...
E já são quase meia-noite e meu cabelo ainda está molhado e ainda não estudei nada e tenho prova depois de amanhã... e tô f...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Quando realmente precisa...

Assim que soubemos da notícia da tragédia na Igreja Renascer, em poucos minutos o PS estava lotado de médicos e os corredores se esvaziaram.
Simplesmente havia muito mais médicos do que pacientes.
Recebemos pouquíssimas vítimas do acidente (afinal, nosso hospital não é tão perto assim do local), mas estávamos preparados para receber boa parte do desastre - o que tornaria a nossa noite um desastre porque não temos espaço para tanta gente (apesar de, naquele momento, termos médicos e enfermeiras suficientes para muita muita muita gente).
Não sei exatamente como funciona o recrutamento de pessoal para trabalhar quando acontece uma tragédia assim... só sei que em poucos minutos o cenário está montado e preparado ao máximo, na medida do impossível mesmo.

Até os chefes dos chefes apareceram no PS, domingão à noite, e estavam prontos para colocar a mão na massa.
Não foi preciso tanta gente, mas fiquei bem feliz em saber que se algo de grave acontecer por perto, teremos pessoas qualificadas para trabalhar pelo bem da sociedade, para ajudar as vítimas da desgraça.

Aprendizado para todos

De repente surge no PS, andando, um cara praticamente degolado. Ele tinha uma marca de enforcamento no pescoço e muito sangue jorrando pelo ferimento.
Ele é um motoqueiro. Estava descendo uma rua e cruzou com uma linha de pipa. E a linha quase arranca o pescoço dele fora.
Mais um argumento (para se juntar aos milhares nas entrelinhas desse blog) para meu maior aprendizado no PS: nunca, nunca mesmo, sob hipótese alguma, ande de moto. Andar de moto é se aproximar do inferno. Pode perguntar para qualquer pessoa que trabalha em pronto socorro. Você pode ser um motoqueiro bom, que não bebe, não corre, não fecha caminhão no trânsito... Mas, do mesmo jeito, essa que você chama de sua "amiga moto" vai te aproximar do inferno, do fim de sua vida ou do fim de sua saúde.

Indo

Tinha acabado de chegar ao plantão e vi uma maca sendo empurrada vigorosamente e numa velocidade muito maior do que o comum. Pessoas correndo atrás.
Aparece uma enfermeira: "doutora, precisamos de ajuda, o paciente está sangrando muito". Era um paciente de enfermaria e, quando chegamos para ver, ele não tinha sangrado muito, ele tinha sangrado quase todo o sangue que tinha. Tinha sangue pra todo lado, inclusive em seu pulmão e dentro do tubo de IOT. Nunca vi nada igual.

Conseguimos estabilizá-lo mais ou menos, conseguimos que ele não morresse naquele momento pelo menos.

Ele continuou na sala de emergência o dia todo.
Cada vez que eu entrava lá para fazer qualquer coisa, eu dava uma olhadinha nele.
No fim da tarde, ele estava com uma pressão de 5x2 (normal é 12x8). Isso é realmente muito grave. Olhei para meu colega. Ele levantou os ombros. Fiquei olhando o monitor... olhando...
Meu colega colocou a mão no meu ombro "não tem nada que a gente possa fazer mais".
Saí da sala para atender outro paciente.
Quando voltei, o monitor já não marcava mais a pressão... e no lugar, havia apenas a linha verde. Reta. Totalmente reta. Saí.
5 minutos depois, voltei lá e não havia mais monitor. Apenas um lençol cobrindo o rosto do senhorzinho.