sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sobre a USP e seus alunos "mimados"

Ok, demorou à beça pra eu comentar os últimos fatos ocorridos na USP.
Não tinha feito isso ainda porque até então estava tentando entender.
Na verdade, acho que não vai dar pra entender todo contexto, simplesmente porque não estou inteirada do assunto como gostaria, não participei de nenhuma assembléia, li poucos artigos da imprensa.
Mas, vamos a minha visão.

Desde a primeira vez que ouvi falar em "maconheiros invadindo a reitoria pra exigir a saída da polícia da USP", uma luzinha acendeu na minha cabeça. Certamente tinha mais nessa história do que estava sendo divulgado pela imprensa.
Primeiro: "maconheiros" (pelamordedeus o que significa esse rótulo???) não invadiriam o prédio da reitoria se denominando "movimento estudantil (ME)" (partindo da premissa que você, leitor inteligente, sabe que não existe relação direta entre o ME e a maconha), correndo o risco de serem presos por invasão, pelo direito de poder fumar nas ruas do Campus sem serem presos. Isso não faz sentido algum. Se eles não queriam ser presos, por que fariam algo que possivelmente os levaria à cadeia?
Segundo, conhecendo minimamente o movimento estudantil, eu sei como ele é articulado, como ocorrem as assembléias, como as pautas são discutidas e votadas. Pra se iniciar um movimento em prol de uma causa, não é um bando de malucos que resolve uma coisa e saem por aí tocando o terror de graça. Tudo tem que ter um motivo digno.
Existem malucos? Claro! Querendo fazer as mais variadas loucuras. Mas é pra isso que existe reunião, assembléia, discussão, votação. Pra evitar que cada maluco faça sua maluquice sem sentido. "Ah... mas a assembléia tinha decidido que os alunos deveriam desocupar o prédio da FFLCH, não que seria ocupada a reitoria". Não sei o que foi decidido e discutido nessa suposta assembléia porque eu não estava lá. O que sei é que o prédio foi invadido por muita gente do ME, não apenas meia-dúzia de malucos. Então, foi no mínimo articulada.
E, na verdade, todo o problema começou bem antes da invasão da FFLCH...

O que quero dizer é que eu sabia que existia um motivo maior por trás de tudo isso. E que esse motivo não era simplesmente a maconha.
Fui pesquisar, conversar com amigos, ler relatos. De fato, existem outros motivos legítimos, existem outras reivindicações.
- Esses estudantes são contra a presença da PM porque defendem capacitação, preparo, disponibilidade de materiais para a guarda da USP. Já existe pessoal contratado pra exercer a segurança dentro do campus. Porém, eles são mal preparados, não possuem equipamentos, ganham pouco. Com o passar dos anos se tornaram apenas "guardinhas" que não servem pra nada porque a Reitoria permitiu que isso acontecesse.
- Há diversas outras propostas dos estudantes pra melhorar a segurança no campus - como melhorar a iluminação, possibilitar maior circulação de pessoas, melhorar o policiamento nas regiões próximas etc... Mas nada disso é feito simplesmente porque custa dinheiro. Por mais que você levante a bandeira de que a PM é necessária para garantir a segurança dentro da Cidade Universitária, há de convir comigo de que outras melhorias deveriam ser feitas associadas. Não? Mas a reitoria não as faz e usa a presença da PM como resolução de todos os problemas de segurança da Univerisidade.
- Desde que entrou no campus, relatam-se diversos atos de truculência da PM contra os alunos. Não estou falando aqui de "maconheiros", nem de barbudos da FFLCH. Estou falando de estudantes, por exemplo, negros, que apenas por seu tom de pele, são "enquadrados", revistados, humilhados e liberados (claro, porque só estavam indo para suas aulas). Você pode estar com mochila, livros, pode até ter cara de nerd - mas se for negro a polícia considera bandido. Alguém pode argumentar "ah, mas o trabalho deles é garantir a segurança e às vezes vão precisar abordar suspeitos". É exatamente essa a questão. A polícia pode considerar suspeito quem ela quiser (não deveria ser racista mas não vou entrar nesse mérito), porém, não tem direito de maltratar nem humilhar ninguém, muito menos um estudante que está dentro de sua própria universidade (depois de toda a luta pra passar no vestibular) e que passa a ter medo de andar sozinho na sua segunda casa, por medo da polícia, por medo de sofrer mais humilhações, não por medo de bandidos.
Há outras reivindicações e discussões mas não vou dissertar mais sobre esse ponto. Se quiser saber mais, faça uma pesquisa na internet, procure pelo site do DCE, ou dos centros acadêmicos.

Por outro lado...
Sou totalmente contra os alunos esconderem os rostos pra invadir a Reitoria. Se acreditavam que o que estavam fazendo era legítimo, não deveriam se esconder. Quem se esconde, assume que o que está fazendo é errado. Eles podem dizer "mas se as câmeras nos filmassem, poderíamos sofrer punições".
Meus caros, se vocês se propõem a fazer uma invasão, por melhor que seja sua reivindicação, vocês tem que estar preparados pra enfrentar as consequências. Existem diversas formas de evitar as punições, se for uma causa legítima - discutir propostas, no momento de negociar o fim da invasão é uma delas, por exemplo. Só consigo pensar que quem se esconde está de antemão mal intencionado.
Sou contra depredar qualquer coisa, principalmente patrimônio público. Há quem diga que quem quebrou cadeiras e outros equipamentos da reitoria foi a PM. No facebook está circulando um relato de uma menina do Jornal do Campus que afirma isso, mas ela é bastante contraditória em seu depoimento (primeiro fala que ficou no portão da reitoria, depois fala que antes da polícia não havia nada quebrado - mas se ela não entrou... como pode saber?). E, pelo que conheço do ME, não sei não... a PM pode ter até quebrado algumas coisas, mas não tem como alguém controlar 60 estudantes, alguns alcoolizados (sempre tem sem-noção que bebe pra caramba). Eu já participei de encontros estudantis de 3-5 dias e, mesmo sendo momentos pacíficos, dentro de nossos centros acadêmicos, sempre saem móveis quebrados, sempre sai desordem, assim sem querer. Por que numa manifestação não sairia?
Sem comentar que pichação também é depredação e com certeza não foi a PM que entrou lá e pichou aquilo tudo!

Qual a minha opinão afinal?
Sou a favor de medidas de segurança na USP.
Sou a favor que a reitoria passe a olhar esse assunto com mais cuidado.
Sou a favor da polícia na USP. Mas não essa polícia truculenta, racista, preconceituosa. Mas sim uma polícia melhor preparada, articulada com a guarda da USP (e que essa receba treinamento e equipamentos). Uma polícia preparada pra lidar com estudantes, aceitar que ali é um espaço de ensino e manifestações pacíficas e não a rua. Dentro do campus os estudantes e funcionários expressam suas opiniões das mais diversas formas, legítimas, que não exigem nenhuma interferência policial.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Assim sou eu...

É... definitivamente, o grande problema é que não gosto de pessoas.
Pessoas em geral.
Elas estão tão presas ao seu mundinho louco que não conseguem perceber o outro, os limites e as dificuldades do mundo do outro.
As pessoas não estão preparadas pra viver em sociedade. Elas estão preparadas pra viver num mundo onde todos a sirvam, sejam gentis e alegres com elas, sem que elas precisem ser com os outros.

É claro que isso vale pra mim também. Não sempre, mas algumas vezes.
Talvez se as pessoas se expressassem melhor, com mais sinceridade, o mundo seria melhor.
Considerando, é claro, que sinceridade não é grosseria (porque tem aquelas pessoas que dizem "não gostam de mim porque sou sincera" - mas na verdade são grosseiras).

Se um dia você me vir de mau humor, pode ter certeza: ou é porque tive que fazer faxina ou porque tive que entrar em contato com alguém que eu não queria entrar (o que, em geral, inclui todos os desconhecidos, muitos  conhecidos e alguns amigos). O que te leva a deduzir que estou de mau humor com muita frequência, considerando que não se pode viver num casulo sem interação com a sociedade.
Fato: estou quase sempre de mau humor.
Coitado do namorido que convive comigo e tem que aguentar essas agruras da minha vida.

Mas por que estou dizendo tudo isso?
Porque essa semana fui à faculdade. Ao chegar, 15min antes da aula, simplesmente não havia ninguém. O anfiteatro estava ocupado por outras pessoas. Não sabia onde ia ser a tal aula, nem sequer sabia se ia mesmo haver.
Aí, encontrei 2 conhecidos. Pessoas até que legais. Dei um tchauzinho de longe mas ficou aquela situação estranha: eles lá parados de um lado do corredor, eu do outro lado. Resolvi, educadamente, ir até lá. Cumprimentei ambos, comecei a puxar assunto... e simplesmente não rendeu. Ficou aquele clima esquisito. Chegaram outras pessoas que não conheço, resolvi sair à francesa.
Foi um esforço pra mim ir até lá puxar assunto só por educação. Mas fiz porque percebo que é isso que os outros esperam de mim - o mínimo cumprimento e simpatia. Só que pra mim, no meu mundo, isso não é educação, mas sim, esforço mesmo.

Em seguida, encontrei um amigo. Comecei a conversar com ele mas também ficou meio esquisito. Depois veio outro conhecido e mais outro. E tudo estava muito esquisito. Sentia que simplesmente não tinha mais nada em comum com aquelas pessoas. De fato, eu nem sequer gosto muito de algumas delas...

Descobri onde ia ser a aula, encontrei mais um conhecido - mas aí eu já estava muito cansada de me esforçar tanto pra ser educada e acabar mal, que nem tentei muito. Claro que mais uma vez foi uma conversa furada e vazia. Entrei no anfiteatro, sentei sozinha entre desconhecidos que não queriam falar comigo nem puxar papinho, me senti finalmente confortável e a aula começou.
No fim, saí, exausta, com a sensação de que ninguém gosta muito de mim. O que deve ser verdade considerando a provável reciprocidade. Mas me senti rejeitada. Meio triste.
Não sou simpática por natureza, mas tento ser por educação. Só que daí me esforço tanto que acabo transparecendo que na verdade não queria mesmo falar com ninguém.

Sei lá.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Identidade

Hoje tive uma crise das brabas.
Na verdade, a crise começou há alguns dias - estava me sentindo mal, tive uma enxaqueca monstra de 2 dias sem melhora com analgésico - sinal que algo estava errado.

Enfim... ontem fui à aula na faculdade. Ao sentir os ares do local, tive um momento de epifania e percebi que eu não queria (nunca quis) voltar para aquele mundo de egos.
Onde eu estava com a cabeça quando decidi prestar residência de Radiologia? Justo Radiologia onde há tantas "plataformas" e egos insuflados...

Mas tudo tem um contexto.
Algumas pessoas reclamam que mudo muito de idéia. De fato. Mudo mesmo. Mas mudo porque a realidade muda, porque os fatos que me são apresentados mudam. E, principalmente, mudo muito de idéia porque ainda não me encontrei.

Quando estava trabalhando no posto, cheguei a pensar em fazer aquilo por 3 anos, fazer um curso de especialização, tirar título de especialista e seguir a carreira. Eu até que gostava daquela vida, dos atendimentos. Eu não gostava muito das pessoas incompetentes, das dificuldades do sistema, de ver pacientes esperando um exame ou uma consulta de especialista há meses... Mas o dia-a-dia da profissão, me era recompensador
.
Há  11 anos, após alguns meses de cursinho, eu não fazia idéia de que faculdade fazer. Minha psicóloga um dia me pergunto: "imagina daqui há 10 anos, o que vc se imagina fazendo?". A primeira imagem que veio na minha cabeça foi a da minha Pediatra. Atender pacientes num consultório. Eu queria ser médica. Essa idéia caiu como uma luva quando considerei que era um vestibular difícil e, portanto, eu iria demorar um pouco pra conseguir passar (o que naquele momento seria bom pra mim por não ter certeza do que queria), além do desafio enorme - coisa que sempre me atraiu.
Mas, fundamentalmente, fui ser médica pensando em ter um consultório.
Durante a faculdade, descobri, a duras penas que não seria possível ter um consultório, muito menos como Pediatra. Consultórios particulares só são possíveis hoje para médicos com muitos anos de carreira, muito conceituados ou para filhos desses médicos.
A mais duras penas ainda, trabalhando com PSF, descobri que não gostaria de ter um consultório de Pediatria. Puericultura cansa por causa das mães (que ou são muito cuidadosas e se tornam chatas ou são muito descuidadas e tenho vontade de acionar o conselhor tutelar).
De qualquer forma, o PSF foi o lugar que me proporcionou chegar mais perto daquela minha idéia inicial de ser médica. Aos trancos e barrancos, eu gostava daquela vida (apesar de eu sempre dizer que nunca gostei de ser médica, na verdade, algumas vezes gostei sim - foram poucas mas gostei).

Acabei saindo por problemas sérios de relacionamento com o gerente e com as enfermeiras.
Ao me ver novamente no mundo dos médicos "desempregados", tive que arrumar uma forma de me sustentar. E aí veio a idéia de voltar a estudar, fazer residência.
No início, dei plantões - e, desesperadamente, descobri que isso não é vida pra mim. Sofria tanto e só conseguia enxergar a residência como saída dessa vida de médica mal preparada.
Mas, aí, numa reviravolta muito esperada, consegui alguns plantões em ambulatórios de shopping.
E me adaptei totalmente a esse trabalho. Baixa complexidade, tranquilo. Paga pouco mas também não traz estresse. Colocando na balança, começou a valer muuuuito a pena pra mim.

Ao me sentir adaptada a esse novo trabalho, comecei a me questionar quanto a residência. Não sobre não mais prestar, mas sim sobre o que prestar.
Tinha decidido a Radio porque não tem muito contato com pacientes, ganha bem, não tem muita encheção de saco com equipe e acompanhantes. Parecia uma boa opção lógica, considerando minha necessidade de um emprego mais adequado do que plantões.
Mas agora que estou adaptada com um trabalho (que é temporário mas pode, sem problema, ser meu trabalho por mais algum tempo), comecei a repensar no que eu quero para minha vida, nos meus sonhos, em quem eu sou.

Eu não nasci pra ficar à margem da sociedade, numa sala escura mexendo num computador o dia todo. Eu não nasci pra ser passiva. Eu gosto de ter ideais, de dar meu sangue por eles, de fazer diferença. Eu não seria feliz sendo radiologista, eu acho...

Por outro lado, de repente me dei conta que se eu fizesse residência em Medicina de Família, estaria mais próxima do que eu sou, dos meus ideais. Trabalhar com Saúde Pública, atuar no SUS, no meio dos que pensam saúde no país. Poderia ser alguém mais atuante, poderia manter minhas utopias e continuar lutando para que algo melhorasse no SUS. É isso que quero pra minha vida. Fazer a diferença. Foi pra isso que trabalhei anos no Centro Acadêmico, que estudei todas aquelas histórias da Medicina no Brasil, que participei de tantas reuniões. E acho que sim, ajudei a melhorar o ensino de Medicina na minha faculdade. Talvez muito pouco, mas ajudei. E adorava sonhar isso, tentar, ter idéias, pô-las em prática. E nessa área não há tantos egos, há muito mais gente utópica como eu, inclusive muito dos meus amigos e pessoas que eu admirava na faculdade, seguiram essa área.

Pois é... agora já não dá mais pra mudar a opção pra prova desse ano. Se eu passar, vou começar a fazer e ver no que dá. Talvez a imagem que eu tenha da Radio esteja errada.
Se eu não passar, terei mais um ano inteiro pra pensar nessas coisas, nesses ideais.

Quem sabe...







sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Algo errado


Tem alguma coisa errada comigo. Ou será que é com o mundo?

Ontem, o planeta recebeu a notícia da morte de Muamar Khadafi, ex-ditador da Libia. Diversos canais mostrando fotos e vídeos do corpo (vivo?) sendo arrastado pelas ruas, ensanguentado, como um troféu.
Os comentários vinham no sentido de “agora a Líbia está livre”. Dirigentes da ONU, presidente dos EUA, secretária de segurança, todos comemorando a morte do ditador.

De verdade, não consigo entender.
O cara era um ditador. Ok. Os chamados “rebeldes” já haviam derrubado ele do governo há algumas semanas. Mas, isso não bastava, queriam que ele morresse.
Num mundo que eu chamaria de civilizado, o cara seria preso junto com os seus pares (que também mataram e mandaram matar), seriam julgados, condenados, teriam que devolver tudo que roubaram (que não deve ser pouco, baseando-se no palácio onde ele morava) e assim seguiria a história.
Mas não. Matam o cara e mais dois homens de sua corja. Levantaram o troféu em praça pública. E todos comemoram. Comemoram a morte dele. 
Mas tudo que ele fez e tudo que roubou continua por aí.
No fim das contas, ele saiu no lucro. Morreu. Acabou.

Isso está certo? É assim mesmo que deve acontecer? É nesse mundo de carnificina que queremos viver?

Achei que eu estava ficando louca, que eu era uma ignorante, que não estava entendendo nada do que estava acontecendo por falta de conhecimento mesmo.
Até que ouvi um pronunciamento da Presidente Dilma, dizendo que apoia a transição democrática da Libia mas não comemora a morte do ditador. 
Ufa!

Não sou petista (tenho diversas restrições a esse partido, pra dizer a verdade), nunca fui a favor da Dilma como presidente. Mas me sinto aliviada de ouvir que nossa dirigente compartilha da minha opinião. 
Mesmo sendo poucas vozes, ainda acredito que somos as mais sensatas.

Só pra deixar claro, não critico os tais "rebeldes", os Líbios, que sofreram por 40 anos nas mãos de Khadafi. Que queriam vingança, que necessitavam se ver livre da imagem daquele que os fez tanto mal. 
Critico sim a postura ridícula dos chefes de estado, principalmente desse que dizem ser o homem mais poderoso do mundo. Mais poderoso??? Com essa visão simplista de que com a morte de um cara tudo está resolvido, todo mal está acabado??? 
Algo está errado no mundo...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Acabei de fazer a prova do ano passado (pra testar como vão as coisas após esses meses de estudo).
Fiz 5,9 pontos.
5,9...
Com essa pontuação não consigo passar nem na porta do hospital....

Aliás, até consigo... passar pra dentro do PS, como paciente, com diagnóstico de demência!!!
Frequentemente vejo críticas a médicos (da imprensa, de pacientes, de acompanhantes), dizendo que eles não dão a devida atenção aos pacientes, que não atendem casos graves com a rapidez necessária, que deixam a pessoa agonizando numa sala de espera, sem dó, entre outras.

Como em qualquer lugar e qualquer área profissional, há bons profissionais e maus profissionais. Claro!
Vamos aqui considerar apenas os bons.

Muitas vezes, o que as pessoas consideram grave ou "urgente" não é nem de perto grave e urgente para a Medicina. Condutas médicas são criticadas muitas vezes porque não se conhecem os fundamentos da questão.

Atualmente dou plantões em shopping. Simples, tranquilo, pré-hopitalar.
A maioria dos atendimentos é de funcionário que não tá afim de trabalhar ou de clientes querendo chamar atenção (geralmente do ex-marido - elas ligam desesperadas pra eles virem buscá-las com a desculpa que o filho deles está sozinho e ela "está morrendo").
Agora a pouco atendi uma gestante, queixando de falta de ar intensa e dor nas costas. Sua colega mega preocupada, achando que a gestante estava muito mal, que era urgente, que eu precisava fazer alguma coisa.
Fui examinar a criatura. Estava tremendo, forçando respiração rápida, mexendo as mãos como se estivesse em desespero. Exame pulmonar e cardíaco totalmente normal. Saturação ótima, pressão ótima. Tudo perfeito. Mas a mulher tava lá balançando as mãos e hiperventilando.

Comecei a conversar com ela, dei um analgésico, um pouco de atenção, pedi pra colega chamar o marido para buscá-la, deixei ela sentada no consultório e... assim milagrosamente... a mulher melhorou 100%.
Quando ia reavaliá-la, perguntar se ela estava melhor, ela dizia que sim, dava umas hiperventiladas, tremia um pouco as mãos e só.
Ela só queria mesmo que o marido (coitado) saisse do trabalho e viesse buscá-la.

Ok.Ok. Não posso julgá-la.
Mas, de boa, fala se isso não é muito complicado de aceitar. A babaca da colega queria que eu saisse correndo, enfiasse a menina na ambulância pra levá-la pro hospital, falando comigo como se eu fosse a pessoa mais fria e maldosa do mundo por deixar a gestante deitada na maca descansando quando o que ela precisava mesmo era de "um exame de hospital".
Ahhh, faça-me o favor.

Agora, com um pouco mais de sangue frio e paciência (adquiridos depois de muito apanhar da vida médica), consigo simplesmente ignorar os pitis de acompanhantes. Respiro fundo, tento explicar. Se a pessoa não quer ouvir, simplesmente viro as costas e saio. 
Aí a pessoa começa a me xingar, fala pra todo mundo perto que eu sou a pior médica que ela já viu, que "vai ver" eu não sou nem médica e estou na verdade usando registro de outra pessoa... entre outras babaquices.
C'est la vie!
Falta pouco para prova.
E só consigo pensar em outras coisas.

É cada vez mais difícil estudar. Sei que falta muita matéria, mas estou de saco cheio.
Sei que preciso passar pra continuar minha vida, mas... ah... é muito chato.
Mais chato ainda ter que estudar pra passar numa prova de uma carreira que nem sei se quero... que nem sei se vou gostar....

Tá complicado.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Acordar, limpar a casa, arrumar, sentar pra checar emails e depois começar a estudar. Passar o dia estudando e/ou vendo tv. Assistir novela à noite, limpar a cozinha, tomar banho e dormir.
Não era bem essa a rotina que imaginava pra mim...

Hoje vou até uma academia de Ballet pra Adultos tentar me matricular. O problema é que ela fica muuuito longe da minha casa e no horário em que posso fazer aula, vai ter um mega trânsito.
Não sei se vou sobreviver ao trânsito. Mas essa nova rotina parece bem melhor que a anterior.





domingo, 4 de setembro de 2011

Essa nova interface do blog tá bem esquisita. Vou demorar um pouco pra me acostumar, mas enfim... Eles sempre mudam sem nem querer saber nossa opinião mesmo, então, não há nada que a gente possa fazer a não ser aceitar e continuar. Boa tarde!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Na verdade...

Acho que tudo não passa de covardia.
Medo.
De errar, de ser criticada, de não ser querida.
Medo bobo e sem sentido.

Ok.
Agora estou simplesmente me sentindo ridícula.
Hora de encarar a vida de frente e enfrentar os medos de infância. Talvez seja o único jeito de eles irem embora.

E agora vou voltar a estudar, porque se eu não passar nessa m... de prova de residência, vou ter que enfrentar meus medos por muito mais tempo.

Urgh

As coisas estão se complicando.

Primeiro, estava tentando achar outro emprego, mas refiz minhas contas e descobri que poderia ficar sem trabalhar por alguns meses pra estudar melhor pra prova de residência.

Aí, começaram a me oferecer plantões. Algumas propostas muito boas. Refiz minhas contas e vi que se eu trabalhasse um pouco esses meses, poderia não trabalhar em algum tempo do ano que vem (poderia só fazer residência e ficar tranquila).

Comecei a dar plantão e foi simplesmente horrível. Horrível!
Não me sinto preparada (apesar de saber que a maioria dos outros médicos são bem menos preparados que eu). Sinto o peso da responsabilidade de ter vidas em minhas mãos.

Agora, estou pensando em voltar pro PSF.
Pensei até em não prestar mais residência por enquanto. Não vou conseguir me sustentar fazendo residência sem dar plantão. Vou ter que continuar dando plantão pelo menos no primeiro ano da residência.

Mas... se seu ficasse mais um ano no PSF, poderia juntar dinheiro suficiente pra não ter que trabalhar durante a residência e estaria tudo certo.

Não sei... não sei mesmo...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Falando em expectativas

Quando eu fazia cursinho, estudava umas 6h por dia, além das aulas (+6h), incluindo sábados e domingos. Era razoavelmente disciplinada, tinha metas pra cumprir e deu tudo certo.

Quando estava na faculdade, simplesmente não conseguia estudar. Só estudava de véspera, tentando passar nas matérias, mas era muito sofrido pegar aqueles livros gigantes e passar horas tentando aprender fisiologia ou anatomia.

Saí da faculdade, sem estudar pra prova de residência, não prestei e assumi o risco de não conseguir mais passar.
Eu tinha aquele sentimento de dificuldade de estudar muito mais forte. Eu simplesmente não conseguia sentar a bunda na cadeira e ficar.

Enquanto tudo estava bem no posto, pensei em nunca mais prestar prova de residência. Só pra não ter que passar pelo sofrimento de ter que estudar tanto de novo.

Depois, quando tudo ficou ruim no PSF, pensei em prestar alguma coisa fácil que eu gostasse pelo menos um pouco. Ou prestar em outros hospitais.

Evoluindo meus pensamentos e inseguranças quanto minha vida futura, percebi que não adiantaria prestar uma coisa fácil se fosse pra eu continuar infeliz atendendo paciente.

Assim, decidi estudar firme e decidi prestar a área que eu gostava e que me daria uma vida confortável: Radio (uma das áreas mais difíceis). Complicado? Complicadíssimo.
Eu pensava: "como vou fazer pra estudar sozinha, sem exercícios, sem ninguém me cobrando?". Pensei em fazer cursinho mas todos que fizeram me disseram que não valia a pena. Ok.
Fiz um plano de estudo sozinha mesmo e fui.

Fui aos trancos e barrancos mas até que está dando certo. Tem dias que estudo bem, tem outros que não estudo nada. Tem dias que fico num extremo mal humor por ter que estudar mas acabo estudando do mesmo jeito.
E agora, quando penso no ano que vem, mal considero a probabilidade de não passar. Eu sei que existe essa chance, mas não acho que vai acontecer. Acho que vou passar sim, com uma nota razoável, sem muitas dificuldades.

Mas da mesma forma que antes colocava tantas expectativas difíceis pra isso (que agora nem mais é um sofrimento), existem outras: "Como vou me sustentar? Vou ter que voltar a dar plantão? Mas não tenho mais mão, não sei mais atender emergência. Como vai ser ano que vem? Vou fazer residência e ter que trabalhar ao mesmo tempo? Não vou ter mais tempo pra nada?"
No fundo, sei que nada disso vai ser tão difícil, mas a expectativa causa um certo sofrimento...

E pra que ter essas expectativas bestas?
Não sei.
Simplesmente não consigo evitar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Desempregada

Nossa! Eu não sabia que seria tão difícil arrumar outro emprego quando pedi demissão.

Não por falta de ofertas.
Ao contrário: pelo excesso.

Tem tanta gente precisando de médico em tantos lugares que passo a colocar um monte de empecilho para esse ou aquele trabalho: um é longe demais, o outro é perto mas numa região ruim, o outro é PS e eu acho que perdi a mão, o outro dizem que não é bom.

Por um lado, isso é bom porque me dá chance de avaliar bem as propostas. Mas por outro lado, isso me causa uma angústia... Aquela coisa do começo de não saber pra onde ir, pra que lado correr.
Se eu pudesse ficava em casa sem trabalhar...

Tem isso também.
Agora que terminei de pagar meu carro, não tenho mais dívidas (a não ser as mensais de aluguel, telefone... essas coisas) e tenho um pouquinho de dinheiro guardado (o que ganhei na recisão), então, não tenho muita pressa pra arrumar outro emprego.
E para arrumar outro, considero muito o quanto de salário preciso nesse momento.

Eu poderia trabalhar muito, ganhar muito. Mas pra que?
Prefiro trabalhar pouco, ganhar pouco e descansar bastante pra estudar mais.
Considerando que ano que vem na residência meu salário vai ser mísero, é até bom eu diminuir ele agora pra já ir me reacostumando com a contenção de gastos.

Penso também: mas se eu ganhar mais agora, posso guardar e viver melhor durante a residência. Mas essa é uma lógica falha. Não daria certo. Simplesmente porque sabendo que ganho bem, eu passo a gastar bem também e acaba sobrando pouco.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Esconderijo

"Nesse quarto escuro, existe um menino assustado
Ele é sozinho e teme que o mundo encontre o seu cantinho
Me entrega ele pra cuidar, eu sei guardar segredo, eu sei amar
Não conto pra ninguém que esse menino é alguém
De barba e gravata e que esse quarto escuro é sua alma"
(Esconderijo - Sandy Leah)

No poço

Ando descobrindo que meu "quarto escuro" na verdade é um poço.

De vez em quando caio nele, assim... sem aviso prévio nem data de retorno à superfície.

No momento estou nele. Sem motivo algum. Simplesmente caí.
Minha vida está ótima, terminei de pagar minhas dívidas, larguei o emprego que me atormentava, meu maridinho continua maravilhoso como sempre (agora depois de 1 ano).
Mas mesmo assim... não consigo sair do poço.
Tento não demonstrar muito (justamente por não ter um motivo claro), porque as pessoas não entendem, não assimilam, me criticam e só piora as coisas... Tento me controlar na frente do marido porque também deve ser insuportável conviver com alguém assim tão instável. Mas isso às vezes só piora as coisas porque uma hora ou outra acabo explodindo...

Uma das minhas teorias é a TPM.
Mas acho que não é possível uma pessoa ter tantas TPMs assim, tão difíceis e achar normal.

Então, resolvi pensar em outras teorias.

Uma bem interessante é justamente o fato de não ter problemas. Sabe essa coisa de mente vazia? Pois é... fica vazia e aí começo a preencher. Só que como tenho tendência à depressão o preenchimento acaba sendo com coisa ruim.

Uma outra teoria é minha dificuldade de lidar com frustrações e minha falta de ânimo para desafios.
Não sei o que aconteceu. Quando eu era adolescente adorava desafios. Adorava ganhar!
Agora, simplesmente não vejo mais graça. Me dá uma preguiça...
Já tá tudo tão bem. Por que cargas d'água eu iria me meter num desafio, gastar minhas energias???
Mas a vida é repleta de desafios.
No momento preciso loucamente vencer um deles: a temida prova de residência médica. Praticamente um outro vestibular.
Fico pensando: "caraio, já me matei de estudar pra entrar na melhor faculdade do país, por que agora tenho que me matar de estudar de novo pra fazer residência?" Já não tenho mais idade pra isso. Não sei nem por onde começar...
Aí é que vem a frustração. Diária.
Coloco um objetivo. Por exemplo: estudar 50 páginas por dia enquanto não estiver trabalhando. No primeiro dia faço 48. No segundo 24. No terceiro 18. No quarto não faço. No quinto faço 5. E depois paro de fazer...
Me cobro. Penso o dia inteiro nisso. Mas continuo sentada na frente da televisão jogando tetris no iphone.
Ridículo!!!!
Como sou capaz de algo tão ridículo??? Passo o dia sem fazer absolutamente nada de útil. Não limpo a casa (também não tenho empregada - então imagina a sujeira), não faço comida, não trabalho e não estudo.
Isso se chama: VAGABUNDAGEM!!!

Tá, ok?! Isto posto, como fazer pra mudar a realidade?
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima?
Queria que fosse tão fácil...

Vou tentar um dia de cada vez. Tentar um programação menos pesada, mas com horários mais definidos. Tentar não ser tão preguiçosa, tentar achar prazer no que tenho que fazer... Tentar...
Sei lá... vou tentando uma coisa ali, outra aqui... na esperança de um dia conseguir sair do poço e colocar uma tampa pra ver se paro de cair nele.