segunda-feira, 12 de março de 2007

Pessoas vem e vão
E nosso coração? Como fica?

Acabei de encontrar a secretária de uma médica que cuidava de mim em 2003. Eu adoro elas duas! De paixão! Deixei de falar com a médica há muitos meses (pela falta de tempo, pelos problemas adicionais, pelas circunstâncias), mas continuei em contato com a secretária dela. Sempre. Se tornou uma amiga querida.
Encontrei-a no corredor agora a pouco e ela me disse que é seu último dia de trabalho. Ela pediu demissão. Fiquei tão tão tão triste. Essa mulher para mim é um exemplo de vida, alegria, perseverança, dignidade... E nunca imaginei que um dia ela pudesse ir embora. Nunca considerei essa possibilidade. Para mim, ela ficaria para sempre aqui por perto para me dizer o quanto eu mudei nesses anos, quantas besteiras eu ando fazendo, quanta vida eu ainda tenho pela frente; para eu dizer o quanto ela é elegante, cobrar dela a auto-escola que ela está enrolando para fazer há anos. Não consigo imaginar essa faculdade, a "sala do chefe", a "minha" médica sem ela. Não dá!!!
Mas ela me explicou os motivos de sua saída e eu aceitei. Mais uma vez ela me deu uma lição de vida, me explicando que está simplesmente seguindo seu coração. A eterna busca pela felicidade. Ela está mais do que certa e eu a apoiei inteiramente. Mesmo sabendo que não vou vê-la mais.
Não adianta dizer que a gente pode trocar telefones, marcar de se encontrar. Isso não vai acontecer e nós duas sabemos disso.
Agora, só restou o abraço apertado, a voz forte, os enormes sorrisos, os grandes ensinamentos e as lembranças das conversas no fim da tarde (com muita fofoca, muitos conselhos e gargalhadas sempre inevitáveis).

Para sempre no coração!

quinta-feira, 1 de março de 2007

Acabei de fazer minha prova. Fui muito mal mas tá valendo - não estudei muito, como poderia querer ir bem? Agora preciso começar a me matar de estudar para a grande última prova cumulativa que é daqui 15 dias. F...

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Finalmente tenho lugar para morar!!!!!! Mudei ontem e estou muitíssimo feliz com meu apartamento novo com vista para o pôr-do-sol entre os prédios. Nada como ter um teto adequado para viver e poder ter minhas coisas em armários (não em caixas de papelão, sacos de lixo e malas).

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Há tempos aprendi que coincidências não acontecem.
É bobeira mas eu estava aqui no computador ouvindo uma música na net. Eu a ouvia repetidamente desde que sentei aqui. Quando desliguei a música (porque ia começar a preencher um formulário importante e precisava de concentração), continuei escutando-a. Como? Será que de tanto ouvir, ela ficou incrustada na minha mente?
Não. Ela simplesmente tinha começado a tocar como "música ambiente" do lugar onde eu estava. Essa música me faz lembrar meu cantor (meu "bonezinho branco")...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Dor

Caraio como tá doendo!!!!!
Não sei nem dizer exatamente o que é que dói, mas dói, dói à beça... e não tem o que faça parar. Hm... Tem. Na verdade tem. Mas não é nada que eu possa ter agora. Nem daqui a pouco. Nem amanhã. Nem sei quando.

Fico pensando se isso não é mais uma das minhas terríveis crises de TPM que vai passar daqui a uma semana mais ou menos e vou voltar à lucidez... Mas faz diferença?
Tô assim hoje. (Na crise anterior, briguei feio com 4 pessoas, fiz uma burrada homérica e prejudiquei um dos meus melhores amigos, chorei, sofri, gritei, causei um furacão. E no fim, perdi um outro amigo, com quem eu não tinha brigado nem nada, mas que sabe-se-lá-deus-por-que, tomou as dores de outras pessoas, me xingou por motivos que eu não tinha culpa e agora não fala mais comigo. Faz diferença?)
Não consigo estudar. Não consigo parar de pensar, sentir, chorar. Perdi uma balada incrível hoje por burrice (fiquei em casa tentando estudar, mas foram horas de puros devaneios loucos). Minha prova é quinta-feira e se eu não me recuperar razoavelmente até lá... f... Corro o risco de perder o ano (essa prova é realmente importante!).

Bom, bom, muito bom.
E agora?

Agora, é melhor eu ir dormir porque amanhã é um novo dia. Cheio. E tem balada de novo à noite, que provavelmente vou perder e só depois descobrir que minha turma inteira foi e só a "burrice materializada aqui" ficou estudando (ou fingindo)...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Meus comentários sumiram, não sei por que, não consigo arrumar, estou sem tempo para cuidar disso agora e não consigo ativar os comentários do blogspot...
Que fazer?????

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Os reflexos do capitalismo:

(Preço de antiretrovirais -para tratamento da AIDS- (verde) e número de pessoas em tratamento (cinza))



Como pode alguém cria um remédio que pode salvar muitas vidas e cobrar US$12.000 com o único objetivo de obter lucro??? Atentem para o ano: 1997

Os otimistas podem olhar o gráfico e dizer: "Ainda bem que isso mudou?". Ah, é? Mudou?

Talvez tenha mudado para os antiretrovirais, mas novas drogas tanto para AIDS quanto para outras doenças continuam sendo lançadas no mercado com preços absurdos. É assim que tem que ser? Essa é a única forma?

domingo, 28 de janeiro de 2007

Um dia antes de começarem minhas aulas e eu já estou 'estressadésima', um caco, só o pó...
Alguma dúvida de que esse lugar não tem me feito muito bem???

Eu fico impressionada com o egoísmo das pessoas. Elas simplesmente colocam seus umbigos como as coisas mais importantes do mundo e não estão nem aí para nada nem para ninguém.
Terrível.
Péssimo.
Agora tô eu aqui, em plena véspera de início de aulas, sem ter onde morar, com minhas coisas encaixotas divididas em vários quartos diferentes... sozinha, sem poder fazer nada a não ser esperar.
O pior. Eu tava mal, estressada, chateada e tudo mais. Ao invés de sentar no jardim e me desesperar, resolvi ajudar as pessoas na limpeza dos quartos recém reformados.

Um:
- Você vai morar aí?
- Não, só to ajudando a limpar.
- Nossa! Deixa isso aí que os donos limpam...

Dois:
- Menina, não precisa fazer isso não. Pode deixar que depois alguém faz.
- Não. Quero ajudar.
- Você que sabe, mas se eu fosse você, ia descansar, fazer outra coisa.

Três:
- Ei, ei, ei. Deixa isso aí que eu limpo depois...
- Não, eu quero ajudar, não tenho nada para fazer.
- Acho que você devia ir esfriar a cabeça. Limpar o quarto dos outros não vai resolver seu problema.
- E você quer que eu faça o que? Sente na grama e chore?

Ninguém quer me ajudar. Até aí, beleza. Normal. Mas as pessoas me encherem o saco porque estou ajudando outros, é mais que o cúmulo do absurdo!

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Acabei de ver uma mulher passando mal. Seria uma cena comum se ela não estivesse em pé no meio do corredor, segurando um bebezinho recém-nascido no colo e com um outro filho(?) desesperado ao lado.
Nunca tinha me deparado com o perigo de uma mãe, com bebezinho no colo, passar mal. Por muito pouco ela não caiu sobre o pequeno ser indefeso. Foi uma cena, por alguns segundos, assustadora.
Sorte dela (e minha) que estávamos dentro do hospital e rapidamente vieram socorrê-la...
- Esse ônibus passa no céu?
- Passa.

Já ouvi esse diálogo muitas vezes, mas continuo demorando alguns segundos para "entendê-lo" ou aceitá-lo. O "céu" se trata do Centro Educacional Unificado da prefeitura de São Paulo, mas até eu lembrar que ele existe...
Não consigo evitar de abrir um sorriso (e ver os sorrisos de pessoas ao meu lado também).

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Estava procurando um poema nos arquivos do meu blog hoje e encontrei o seguinte post:

"Essa noite sonhei que tinha um filho.
Estava grávida, fiz o parto e depois ele já estava andando. Era um menino lindo, com cabelo cheio de cachinhos... Minha mãe estava me ajudando a cuidar dele.
Em certo momento ele sumiu, fiquei desesperada procurando. Minha mãe também tinha sumido.
Fui achá-los no quarto da minha mãe, no antigo apartamento que morávamos, eles estavam dormindo como anjinhos. Lindo!"


Eu o escrevi 4 dias antes da minha mãe morrer. Eu nunca tinha feito a "ligação".
Por essas e outras que gosto tanto do meu bloguinho!

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Dia difícil...
Sabe aquele dia em que as coisas simplesmente não dão certo?
Pois é. Acontece.

Acordei às 6h, saí cedo para ir resolver os problemas da minha pesquisa e... TUDO , absolutamente tudo, deu errado. Estou à beira da desistência. Só não fiz isso ainda por causa da grana. Mas tá complicado... e cada dia complica mais... Simplesmente perdi meu dia por causa disso e fiquei "P.." da vida. Ainda não decidi se quero que meu dia seguinte seja assim também, se quero correr atrás disso de novo. Quarta-feira eu vou ter q ir lá de qq jeito... então... melhor ficar em casa, descansar, cuidar de outras coisas... ou sair p/ passear, arejar a cabeça...
Eu gostaria de ser um pouco menos responsável, às vezes. Simplesmente não consigo relaxar e esquecer que têm coisas a serem feitas e problemas a serem resolvidos.

O bom do dia foi receber uma ligação que me fez lembrar do passado ruim e me ajudou a voltar a cair na real e ver o quanto estou melhor agora. Sozinha.

Pelo menos o fim do dia valeu a pena. Consegui exclusividade no meu quarto e, junto com ele, a internet. Passei algumas horas conversando com pessoas legais pelo MSN. Encontrei com uma (agora) amiga no MSN também. Engraçado como me aproximei dela pela internet. Estudamos na mesma sala, quase não nos falamos no dia-a-dia, mas desde que entramos de férias, conversamos muito mais (pela net), nos tornamos confidentes uma da outra. Esse mundo virtual é louco mesmo.

sábado, 13 de janeiro de 2007

Família?

Uma senhora viúva. 5 filhos. Quando seu marido morreu, seu filho mais novo tinha apenas 01 ano, o mais velho tinha cerca de 12. Ela se tornou alcoólatra.
Uma de suas filhas (eram duas) saiu de casa com 16 anos e nunca mais falou com ela. Nunca mais mesmo, porque ela já faleceu e nem mesmo em seu leito de morte quis ver ou falar c/ a mãe.
Um de seus filhos também se tornou alcoólatra. Desses que não ficam sóbrios nenhum minuto, não tomam banho, não vivem. Só bebem. Ele, seu filho já adulto, sua única irmã viva, também c/ um filho, e a viúva alcoólatra continuam "morando" num barraco, na favela que fica no morro de uma capital brasileira. Vidas precárias. "Sub-existência".
Os outros dois filhos se casaram com boas mulheres, têm casas boas, criam seus filhos com dignidade. Um deles está muito doente, quase morrendo... Este também saiu de casa jovem e nunca mais falou com a mãe. O outro, o caçula, é motorista de ônibus, vive hoje muito feliz com sua esposa e seus 04 filhos, na casinha que construiu com muito esforço num bairro próximo ao centro. É o que mais cuida da viúva alcoólatra, sua mãe.

É uma história muito confusa. Demorei 20 anos para juntar as peças de um quebra-cabeças que não fazia o menor sentido. Confesso que até hoje, muita coisa dessa história ainda não faz sentido para mim.
Esta é a família da minha mãe. Ela é a filha que saiu de casa com 16 anos. Uma história muito mal contada que já não importa mais... Mas que por muito tempo feriu muita gente, afeta gerações...

Mas por que correr atrás dessa história? Pra que saber essas coisas? Sei não...
Porque é minha família também, porque faz parte de mim, porque isso afeta minha vida, minha história. Não é fácil saber que tenho uma avó que nunca vi, alcoólatra, que mora num barraco na favela, tios, primos, pessoas que sofreram, sofrem e ainda vão sofrer muito mais do que qualquer um de nós possa imaginar... enquanto eu vivo essa vidinha hipócrita de classe média paulistana, restringindo meu mundo à faculdade, meus planos a juntar dinheiro p/ comprar (computador, carro, apartamento...), minha perspectiva de vida ao sucesso profissional e à construção de uma família mais alienada ainda...

A busca agora não é mais por informações.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007


Além da imaginação
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação.


Ulisses Tavares.
Viva a Poesia Viva.
São Paulo, Saraiva, 1997.

O mundo gira.
Gira muito rápido.
As coisas mudam pra caramba, de um dia para o outro, assim de repente. E, quando a gente se dá conta, somos outra pessoa... Quem diria que aquela garotinha nerd de óculos e aparelho, baixinha invocada, se tornaria uma mulher atraente, bem menos insegura, apaixonada pela vida e pelas pessoas (estranhas, diferentes, parecidas, iguais). Quem diria que ela um dia se abriria para conhecer pessoas que apareceram do nada e, assim como chegaram, se foram sem deixar nem levar muita coisa. Quem diria que um dia, ela encararia a vida com alegria...

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Cada dia fico mais impressionada com a diferença social...
Todo mundo sabe que existe, todo mundo acha que sabe o que é, mas na realidade acho que muitos poucos têm real noção do que é isso realmente.
Eu não posso afirmar que sei o que é desigualdade. Posso dizer que tenho alguma idéia, provavelmente melhor do que da maioria dos estudantes universitários da Universidade pública onde estudo.

Já tratei desse tema algumas vezes aqui nesse blog e a cada vez que escrevo, percebo o quanto minha visão sobre isso fica mais reforçada.
Eu vivo na fronteira entre uma classe média baixa e a classe alta. Nasci numa família de poucas posses mas meu pai sempre trabalhou muito para conquistar tudo que tem e poder subir os degraus da desigualdade. Na minha infância, morava num apartamento razoável, mas estudava numa escola pobre (nunca vou me esquecer quando eu tinha 09 anos e fui impedida de continuar a estudar num colégio porque meus pais não podiam mais pagar e o diretor se recusou a dar qualquer tipo de ajuda - acho que foi a primeira humilhação da minha vida). Eu tinha amigos que moravam na favela, apesar de ser um lugar meio sujo, eu adorava ir brincar lá porque tinha mais liberdade, as pessoas se expressavam mais, gritavam sem cerimônia e se ajudavam mais também. Era como se todos os vizinhos fossem donos de todas as casas. Todos entravam e saiam livremente uns das casas dos outros. Por outro lado, eu também tinha amigos "burgueses" (meus amigos mais pobres chamavam assim os mais ricos, mas a gente não tinha noção do que essa palavra significava). Famílias que tinham casas lindas, chiques, onde não podia entrar de sapatos (na favela a gente nem precisava usar sapatos! mas nessas casas a gente tinha que chegar de sapato e depois tirar senão a madame fazia cara feia e contava para minha mãe). Lembro de uma amiga minha que tinha um aparelho de CD. Nossa! Eu achava o máximo aquele disquinho pequeno e brilhante. Eu só conhecia ela que tinha e confesso que às vezes eu ia na casa dela só para ouvir música porque ela era meio chata e metida.
Conforme o tempo foi passando, meus amigos mais pobres foram ficando para trás. Aos 12 anos me mudei para um bairro mais rico, onde as casas tem grandes e lindos jardins e a gente nem conhece os vizinhos. Meus únicos amigos eram os da escola, mas eu não ia mais nas casas deles.
Carreguei da infância a imagem de que ser pobre era bem mais divertido. Era muito melhor ser livre, poder andar descalso em qualquer lugar, gritar à vontade, comer com as mãos, conhecer todos os vizinhos e poder ir à casa deles quando eu quisesse. Mas esse meu sentimento era contrastado com a vontade de meu pai de enriquecer, "subir na vida".

Quando entrei na faculdade, foi um choque. Uma universidade pública, o lugar onde conheci pessoas tão ricas como eu jamais pude imaginar que existisse. No começo foi muito difícil para mim. Não conseguia entender como um adolescente de 18 anos que tem um Peugeot, podia estudar numa universidade pública com ambição de ser um cirurgião famoso e tratar as pessoas mais ricas do país e do mundo. A cabeça dessas pessoas para mim, era algo totalmente fora da realidade. Falar de baladas e viagens internacionais como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. E, o pior, carregar um discurso de que "temos que ter empatia pelos pacientes pobres, entender que a vida deles é difícil, considerar todas as suas necessidades..."

Necessidades? Como é que um cara alienado como a maioria deles lá são pode tentar entender aqueles que eles chamam de "pobres". Acho louvável a posição do tentar. Mas, na hora do "vamo-ver" fica uma cena que beira o ridículo. Não dá! Simplesmente não dá! Eu, tendo convivido com algumas pessoas "pobres", tendo passado minha infância numa favela, tenho enorme dificuldade de entender essas pessoas... Como alguém que sempre teve tudo na mão, que sempre usou sapato para tirá-los na entrada de casa, que come carpaccio e massas refinadas desde pequeno, pode entender alguma coisa?

Uma vez, eu estava com alguns colegas numa favela onde fazemos atendimento uma vez por semana. Apareceram algumas crianças para conversar com a gente. Elas estavam brincando na rua, com roupas rasgadas, descalças, mexendo com a água suja que corria por ali. Uma das minhas colegas virou para uma das crianças e perguntou por que ela estava descalça, fez um discurso de que ela tinha que usar pelo menos um chinelinho (ela entende que talvez a menina não tenha um tênis, sendo pobre), mas era melhor um calçado fechado e surtou por completo com um dos meninos que estava mexendo com a água porque "você vai pegar uma doença séria, ter que ficar no hospital internado". E as crianças deram risada daquela "tia" esquisita.
Acho realmente louvável a preocupação dessa minha colega, mas me pergunto o quanto isso é realmente válido. Pior ainda, me pergunto quantas vezes não faço coisas parecidas no meu dia-a-dia sem nem conseguir chegar próxima do entendimento da realidade da pessoa que está na minha frente. Sem nem perceber o que está acontecendo.

Nossa! Acabei me desviando do foco que eu queria nesse texto.
Tem um programa no SBT chamado "Casos de Família" onde as pessoas vão para falar de problemas que estão tendo tipo "minha mulher não me deixa sair com meus amigos" ou "meu filho só pensa em balada e não quer trabalhar". Sempre que eu posso, assisto esse programa e todas TODAS as pessoas que já me viram assistindo torceram o nariz dizendo "credo! vc assiste essa porcaria". Dependendo da pessoa nem perco meu tempo tentando explicar, simplesmente digo "Assisto e adoro" e pronto. Mas para outras pessoas... tento dizer que "essa porcaria" é o que, no momento, mais me aproxima do mundo dos pacientes que atendo, é o que melhor me faz entender a convivência deles, a dinâmica da vida de pessoas que recebem R$300,00 por mês para sustentar 8 filhos e conseguem... Eu, vivendo numa redoma de vida bem abastada, convivendo com pessoas que acham que passar fome é aquela dorzinha que sentem quando ficam mais de 5 horas sem comer, também perco a noção do mundo lá fora. Tipo o mito da caverna, sabe?
Mas esse programa me faz sentir um pouco mais próxima da realidade. Entender por exemplo porque uma mulher se submete a um machismo absurdo do tipo ter que servir o marido e fillhos e não poder ter vida própria, amigos. Entender por que uma mãe expulsa uma filha de 12 anos de casa. Entender por que um pai abandona mulher e filhos. As questões são sempre muito mais complexas. Relações são complexas e ninguém é perfeito. Assistindo esse programa eu consigo entender que nunca há a pessoa certa e a pessoa errada. Em geral ambas estão certas e erradas e ambas são vítimas de pressões sociais e emocionais com as quais têm dificuldade de lidar. Quando uma mulher apanha do marido, não adianta dizer para ela "você tem que denunciá-lo" tudo é muito mais complicado do que isso e, depois que você entender um pouco da situação, alguém vai ter que oferecer o mínimo de apoio (essa palavra também tem um significado muito mais amplo do que se imagina, principalmente para o necessitado) para que as coisas aconteçam do jeito que se considera mais correto.

Não existem situação estanque. Não existe bem nem mal. Não existe pessoa boa e pessoa má. Existe sim diferenças, desigualdades, pressões... e, para entender tudo isso, talvez levaria muito mais do que uma vida inteira.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006