quinta-feira, 22 de janeiro de 2004

(Mais um post gigante)
"Nada como um dia após o outro!"

Essa frase nunca fez tanto sentido para mim quanto ontem...
Eu finalmente percebi porque eu não estava conseguindo postar, porque não estava conseguindo verbalizar o que eu sentia: eu simplesmente não estava admitindo para mim mesma meus sentimentos, estava tentando negá-los, ignorá-los, como se eles fossem desaparecer com isso. Mas, depois de uma tempestade, depois de muita água (muitas lágrimas) consegui acordar e assumir minhas dores.
Terça-feira foi um dia terrível. Começou mal, continuou ruim e acabou pior ainda. Ouvi muita coisa ruim (sem ter culpa), dei vários foras, várias mancadas, senti muuuuuita raiva.
Em certo momento, um amigo que estava comigo disse:
- Não vai chorar por causa disso, né?
- Chorar? Eu? Claro que não! Eu só estou é com muuuuita raiva!
- Sei... seus olhos estão cheios de lágrimas! Peraí... Fica calma.
De verdade, com a maior sinceridade do mundo, eu não menti para ele. Eu realmente não estava com vontade de chorar... Não estava conscientemente. Na verdade, eu estava mentindo para mim. Até ele percebeu minha chateação, minha mágoa com aquele história, com aquele cara idiota que aprendeu agora como pisar nas pessoas e está gostando da brincadeira... mas eu não percebi. Eu achei que estava com raiva simplesmente... Não consegui entrar em contato comigo naquele momento (que frase estranha, não?).
Enfim, muitas coisas aconteceram naquele dia, saí da faculdade eram quase 22h, entrei no ônibus e adivinhem...? Comecei a chorar. Admiti todos os sentimentos que venho negando: estou com muitas saudades da minha mãe; ainda estou sofrendo muito por tudo que aconteceu; ainda não estou preparada para voltar a estudar (muito menos nesse semestre tão abominável), sinto que não é isso que quero agora, meu coração clama por um pouco de liberdade; fiquei chateada com algumas amigas da faculdade por terem sumido, me senti abandonada por elas... e no momento que eu mais precisava (por mais que eu tente entender que elas não sabiam lidar com a minha dor, que elas não sabiam o que fazer comigo, que achavam que eu não queria falar com elas... eu não consigo, eu não entendo e fiquei chateada sim - é como se elas não se esforçassem para me ajudar, sabe? É difícil para elas? Sim! Mas concordam que é muito mais difícil para mim, principalmente se eu estiver sozinha - eu não estava mas poderia ter estado já que elas não estavam do meu lado). Foi um mar de lágrimas. Chorei no ônibus, cheguei em casa chorando, tomei banho chorando, fui (tentar) dormir chorando...
Na quarta-feira, acordei mal, obviamente. Eu não queria sair da cama, não queria ir a lugar algum. Mas tinha um monte de coisa para resolver na faculdade e acabei indo pra lá. Foi a melhor coisa que eu podia ter feito. "Nada como um dia após o outro!"
Quando eu estava no ônibus, a Amanda me ligou. De repente, ela acabou decidindo que iria me encontrar na faculdade, dali a algumas horas.
Cheguei na facul, entrei, já estava com minha cabeça lotada de idéias malucas e fiquei pensando "gostaria tanto de encontrar o Cacá e conversar com ele. Será que ele vai estar aqui hoje?" A primeira pessoa que encontrei foi ele. Eu disse que precisava de ajuda. Prontamente ele sentou e me ouviu. Foi ótimo. Ele tirou as dúvidas que eu tinha, me ajudou pra caramba mas eu ainda não estava certa da decisão que eu ia tomar. Resolvi subir para falar com a Patrícia. No meio do caminho encontrei a Camila, uma estudante de serviço social que trabalha na biblioteca. Conversamos bastante sobre nosso projeto de extensão e sobre algumas idéias que ela tinha para ajudar os meus calouros. Fiquei impressionada! A menina tem uma cabeça fantástica, pensa em coisas fora do comum e ainda sugere caminhos viáveis para realizá-las. Amei as idéias, amei a conversa. E, ali, naquele momento, comecei a ter certeza da minha decisão.
Fui falar com a Patrícia (um amor de pessoa):
- Patrícia... tá muito ocupada? (Eu entrei super tímida porque desde que ela voltou de férias eu estava indo lá todos os dias para resolver uns assuntos e no dia anterior eu havia ido umas 6 vezes pra apresentar outros alunos - imagino que ela está de saco cheio de mim)
- Oi, Paloma, entra. (Ela estava escrevendo algo muito importante no computador porque nem sequer virou para falar comigo)
- Queria conversar... não tô bem...
- Claro, puxa a cadeira e senta aqui. Eu estava... (ela me contou o que estava fazendo mas não posso publicar porque é confidencial), mas pode falar, por que você não está bem? - Pausa para uma careta dela mesma - Que pergunta, né? Bem, eu sei porque você não está bem mas...
- Meu dia ontem foi horrível. Aconteceram milhares de coisas ruins, chorei pra caramba... - contei para ela tudo que tinha acontecido...
Depois de conversarmos um pouco, ela disse:
- Pra você eu sei que posso dizer, concorda que tudo isso é muito pequeno se você comparar com outras coisas da vida?
- Claro! Concordo plenamente. Mas me afetou tanto. Acho que em outros tempos eu não teria ficado tão mal mas ontem juntou tudo e eu...
- É, eu sei! Não é momento para essas coisas agora, né? São coisas da vida, coisas que acontecem inevitavelmente no dia-a-dia, mas não é hora de você enfrentar isso. O momento é pra você ficar tranqüila, voltar aos poucos a suas atividades, conversar bastante com as pessoas, ficar com seus amigos, com as pessoas que gostam de você, falar da sua dor... Você tem pessoas para conversar?
- Tenho. Tenho bons amigos... mas tenho muita dificuldade de falar da minha mãe, da falta que ela me faz. Eu quero falar mas só consigo com algumas pessoas em poucos momentos. E é difícil conciliar essas duas coisas.
- Acho que você deve tentar falar mais, quando você sentir vontade. Não segure isso, não negue, fale. Eu também acho que algumas pessoas poderiam te polpar um pouco mais nesse momento. Elas não precisavam ficar entrando em confronto com você nem te colocar em situações difíceis, como aconteceu ontem. Tenta evitar esse tipo de coisa. Tenta conversar com esse menino de quem você está com raiva, para amenizar as coisas e vai tentando resolver os outros problemas aos poucos... Sobre suas amigas, acho que é bem difícil para elas saber o que fazer. Além do que, seus amigos não precisam ser todos para tudo. Tem coisas sobre as quais a gente conversa com um amigo e com outro você sabe que não dá. Tem filmes que você vai gostar de assistir com tal pessoa e com outra vai ser horrível. Tenta entender e tenta não exigir tanto delas...
- É... vou tentar. Acho que o fato de eu estar parecendo muito bem, faz com que as pessoas se sintam à vontade para me tratar normalmente. Tem gente que nunca passou por uma situação parecida e não tem noção do que é, né? Eu vou tentar não dar tanta atenção a essas coisas pequenas e vou tentar ser mais compreensiva com as pessoas.
Comecei a contar para ela sobre a tal decisão que eu tinha que tomar. Entrou a Raquel, nos interrompeu e começou a falar várias coisas. Meu celular tocou, saí para atender e quando levantei não sentei mais onde eu estava porque pretendia já ir embora, só queria saber o que ela achava da minha decisão... Mas acabei não contando porque uma coisa inacreditável aconteceu. Entrou na sala, o diretor da graduação, a pessoa que tem o poder e que sabe das coisas! É bem difícil encontrar esse homem, eu sabia que ele era a pessoa ideal para eu conversar mas nem pensei em falar porque sabia que não iria encontrá-lo e não queria incomodá-lo com meus problemas. Na hora, aproveitando a "sorte", pedi para falar um minuto com ele. Ele, muito gentilmente, sentou e se dispôs a me ouvir.
Foi maravilhoso. Ele falou que isso que eu estava pensando em fazer era algo que ele aconselhava para vários alunos mas eles não fazem. Por medo! Ele disse que o que eu tinha nas mãos não era um problema mas uma solução (ele sempre me fala isso quando vou falar alguma coisa com ele - dá até a impressão que sempre vou com a solução pronta, necessitando de aprovação, de segurança, sei lá...). Saí feliz e saltitante. Finalmente tinha tomado minha decisão e agora estava segura.
Não vou dizer que estou totalmente segura porque ainda quero consultar a Mi e a Iolanda. E, afinal, não preciso ter pressa, não é nada imediato.
Meu dia seguiu na companhia da Amanda. Foi ótimo, também, apesar de eu não ter podido dar toda atenção que eu gostaria a ela.

Agora, nesse momento, estou me sentindo bem melhor, bem mais tranqüila, com bem menos peso nas minhas costas. Não vou dizer que estou feliz... ainda não estou. Ainda sinto muita dor na minha alma. Mas dizem que o tempo e o amor são as melhores coisas para curar isso, né? Então, que venha muito trabalho e muito amor para que esse tempo passe rápido e seja bem aproveitado.

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

Livros que li nas férias (consegui!!!):

1) Harry Potter e o Cálice de Fogo - Muito empolgante, gostei bastante - linguagem simples, história com aventuras. É aproveitar uma viagem para outra realidade.

2) Senhora de José de Alencar - Simplesmente adorável. Estava enrolando para ler esse livro há 5 anos, quando a minha amiga Ierka comentou comigo sobre ele. Não sei porque não li antes (acho que por um pouco de preconceito com o autor por causa de O Guarani que não gostei). Adorei a trama, a maneira como ele tece a personalidade de cada personagem... até das longuíssimas descrições eu gostei.

3) Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva - Li agora pela segunda vez, com uma diferença incrível: agora eu conheço exatamente a realidade que ele descreve de UTI, hospitais, dificuldades envolvidas... Foi uma ótima releitura pois me permitiu fazer uma releitura da minha história também (algo que eu precisava muito). Chorei à beca, óbvio, mas ri bastante com ele também... me ajudou a digerir mais um pouco do que resta de tudo que vivi

4) O pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry - Também uma releitura. Não sei porque peguei esse livro. Eu estava arrumando a estante do meu pai, achei essa pequena doçura e peguei para reler (nem lembrava mais da história). Foi simplesmente... mágico. Chorei à beca também... por mais bobo que pareça, a historinha ainda faz muito sentido para mim.
Como esse foi o último que li, é o que ainda está mais presente na minha mente e foi o que escolhi para postar um pedacinho:

"- Quem és tu? - perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vêm brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
(...)
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
(...)
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! - disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? - perguntou o principezinho
- É uma coisa também muito esquecida, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! - disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
(...)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

Por que não estou mais postando com tanta freqüência?

1) Por falta de tempo, já que estou correndo tanto com a preparação das coisas para os calouros, além de ter que estudar para minha 3 provas (e não estou conseguindo) e tenho sentido muuuuuito sono

2) Porque não tenho mais conseguido expressar em palavras meus sentimentos, minhas idéias. Escrevo um post, depois leio e acho que está uma porcaria, que não foi nada daquilo que eu quis dizer, aí eu apago e não publico nada

3) Porque tenho me sentido extremamente diferente. Já não sou mais a mesma e ainda não descobri quem sou agora (haha)

4) Porque o texto que eu gostaria de publicar, o principal assunto que gostaria de tratar nesse momento, magoaria muita gente que sei que lê esse blog. Eu não gostaria que as pessoas me interpretassem de maneira errada e se sentissem feridas por isso e como sei que isso vai acontecer, prefiro evitar, por enquanto (até eu poder ter um pouco mais de controle sobre meus atos)

5) Porque ainda não estou bem. Eu gostaria de estar, gostaria de publicar textos alegres ou críticos... gostaria de publicar qualquer coisa que não fosse triste. Mas ainda não dá.

As pessoas perguntam: "Como é que você está? Você está bem?"
Na maioria das vezes digo que sim. Que não estou totalmente recuperada mas que estou bem.
Quando é alguém que me conhece muito, depois de alguns minutos de conversa acaba por dizer: "Não. Você não está bem. Que que tá acontecendo? O que eu posso fazer por você?" ou "Você está muito diferente."
De verdade, não sei dizer o que é. Se estou na faculdade, fico bem na maior parte do tempo, faço as coisas, falo com as pessoas, dou risada, passo vergonha por ser envergonhada (sempre!)... mas, de repente, se fico sozinha, ou quando vou tentar estudar, começo a sentir muito sono, começo a pensar várias besteiras e lembrar de muita coisa, sinto dores no corpo, minhas pernas tremem e acabo tendo que parar tudo que estou fazendo e indo dormir.
Eu estou bem, mas tenho, às vezes, essas crises de sono e choro, que não sei o que são. É tão ruim...

Quinta-feira, cheguei ao cúmulo (para mim) de sentar dentro do Centro Acadêmico, com o som ligado e com toda aquela bagunça, para estudar. Eu realmente precisava estudar mas sabia que se eu fosse para a biblioteca, ia dormir em cima do livro e ia acabar voltando cedo para casa. Então fiquei em meio ao semi-caos (não foi caos total porque a maioria dos diretores está num congresso em Recife).Consegui "estudar" uma boa parte. Óbvio que não prestei toda atenção que deveria mas pelo menos consegui ter uma noção daquilo que lia. De quebra, fiquei por dentro dos assuntos principais do CA (eu sou, ou era, a diretora mais desinformada), conheci velhos diretores, revi alguns amigos, trabalhei um pouco, conversei com a Ju... foi legal.

sábado, 10 de janeiro de 2004

RECADINHOS

"Menina": Obrigada por todas as suas palavras doces. É muito bom saber que o que eu escrevo faz diferença para alguém. Um grande beijo.

Fabricia: Obrigada por todos os recados que você escreveu. Que você tenha um ano maravilhoso e muito produtivo na faculdade.

Milene: Nunca vou esquecer a aquela carinha que você fez na última vez que nos vimos. Não precisa se preocupar tanto comigo. Eu vou ficar bem. Obrigada por todo apoio que você me deu, principalmente nas minhas "viajadas" de caloura. Te adoro muito.

Amanda: Minha irmãzinha do coração. Obrigada por tudo que você fez por mim sempre, mas, principalmente nesse último mês. Sem você me ligando todos os dias, me cuidando tão bem, controlando a minha alimentação, me mandando tomar leite (ergh!)... não sei o que teria sido de mim. Você é realmente muito especial, a melhor amiga que alguém poderia querer. Espero que você fique bem, que esse ano seja um dos melhores para você e que possamos continuar lado a lado, nos apoiando eternamente.

Daniel: Obrigada por cada palavras que você escreveu aqui no blog, obrigada por cada palavra e cada frase que você me disse durante esse ano, por toda força que me deu, pelos abraços, pelos ensinamentos... por tudo mesmo. Desculpe pelas coisas ruins, pelos momentos de "loucura". Prometo ser uma pupila melhor esse ano e nos próximos.

Julinha: Minha caloura predileta. Fiquei tão feliz por você ter ido tão bem nas provas. Acompanhei cada post seu durante esse tempo. Tentei te ligar várias vezes mas é quase impossível te encontrar. Desculpe por não ter estado mais perto de você nessas épocas difíceis e tão angustiantes... Mas certamente estaremos muito próximas ano que vem lá na facul. Vou te ajudar em tudo que você precisar e quero aprender muito com você também. (Pelo pouco que te conheço já deu pra notar que você vai ser uma das pessoas com quem terei aqueles enormes papos filosóficos sobre vida, amizades, decepções... Vamos nos divertir bastante)
Engraçado, a ferida que devia cicatrizar com o tempo dói mais a cada dia.
Até onde é que isso vai chegar, enh?

sábado, 3 de janeiro de 2004

Aprisionada pelas próprias lembranças

(copiado do meu outro blog Minha versão)

Um Domingo antes de minha mãe falecer, meus tio-avós vieram de Belo Horizonte para visitá-la no hospital. Eles estavam animados pois não a viam há alguns anos e estavam com muitas saudades. Eles chegaram na casa do meu pai, às 7h da manhã e combinamos de sair às 11h (a visita era a partir das 12h).
Cerca de 10h, o telefone tocou, eu atendi:
- Por favor, quem está falando?
- Com quem você gostaria de falar (Eu raramente falo meu nome antes de saber com quem estou falando)
- Você é parente da dona Cecy?
- Sim, sou filha dela. Por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Meu nome é D... sou aqui do hospital, estou ligando para informar que hoje, cerca de 9h da manhã, o quadro da Dona Cecy se agravou e os médicos pediram para que viesse algum parente dela aqui para eles conversarem...
- Hum - Pausa para eu me recuperar do choque - Já estamos indo

Fiquei desesperada. Corri atrás do meu pai, contei para ele, ele contou pros meus tios, nos arrumamos correndo...
Eu achei que tinha sido algo muito grave mesmo, que ela havia morrido, sei lá. Só conseguia me lembrar da moça falando "hoje, cerca de 9h da manhã, o quadro da dona Cecy se agravou". Por que ela deu o horário? Por que não falou o que tinha acontecido?
Eu pedi para que minha irmã fosse com a gente, queria que ela estivesse do meu lado, que ela me abraçasse quando eu precisasse - e eu disse isso a ela... Mas ela não quis. Ela falou que não gostava de ver minha mãe mal, que não queria vê-la daquele jeito. Nem se importou comigo, simplesmente bateu o pé e disse que não sairia de casa. OK.
Saímos eu, meu pai e meus tios. Ao chegar no hospital, não podíamos subir todos, apenas eu (que tenho crachá) e mais 2 acompanhantes - meu pai e meu tio (deixamos minhas 2 tias lá em baixo esperando).
Subimos, passamos em frente ao posto de enfermagem:
- Oi Eliane (a enfermeira chefe)
- Ah... oi, que bom que vocês chegaram... ela está lá no quarto. Estamos esperando a maca para levá-la para UTI. Já vou chamar o médico para vir conversar com vocês.
Entramos no quarto. Ela não estava tão mal quanto fizeram parecer. Estava tranqüila, falando normalmente, só estava com um pouco de mal estar. Ao ver meu tio, ela ficou muito emocionada, perguntou o que é que ele estava fazendo aqui em São Paulo...
Vendo que já iam levá-la, meu pai resolveu descer com meu tio para que minhas tias pudessem subir. Mas eu não queria ficar lá sozinha, eu não queria conversar com o médico sozinha porque eu sabia que não faria todas as perguntas que meu pai gostaria e não saberia passar as informações para todos depois. Pedi para meu pai ficar comigo, mas não tinha jeito. Ele pediu para que eu o chamasse assim que o médico chegasse e desceu.
Trouxeram a maca, os enfermeiros começaram a arrumá-la para levá-la. Pedi para que esperassem pois minhas tias já estavam subindo. O médico chegou. Não tinha como eu chamar meu pai, se eu descesse, eles levariam minha mãe e o médico sumiria novamente. Conversei com ele sozinha. Minhas tias chegaram, minha mãe chorou ao vê-las e eu não pude ficar perto, acalmá-la pois estava ainda conversando com o médico. Eu disse a ele que meu pai estava lá embaixo e que queria falar com ele. Ele pegou o telefone, ligou lá e autorizou meu pai subir para UTI. Agradeci e voltei para ver minha mãe. Eles já estavam levando-a. A Eliane, muito gentilmente, permitiu que nós 3 a acompanhássemos até a UTI. Fomos conversando, acalmando minha mãe...
Ao chegar lá, a enfermeira pediu para que eu voltasse à enfermaria para pegar as coisas dela. Eu disse que faria isso depois.
- Tá bom. Então, enquanto isso, eu subo lá e ajunto tudo para você trazer, OK?
- Ótimo, obrigada.
Meu pai chegou. Entrei na UTI, avisei o médico que meu pai já estava lá e fui procurar minha mãe. Ela já estava em seu cantinho, bem acomodada e tranqüila. Conversamos um pouco, ela pediu que eu conversasse com a enfermeira da UTI para saber o que eu poderia levar para ela (xampu, cremes, sabonete...). (O médico ainda não havia saído para falar com meu pai.)
Subi para pegar as coisas na enfermaria. Ao abrir o armário dela, senti um cheiro muito forte de xixi. Comecei a procurar de onde ele estava vindo... era de uma camisola dela que estava enrolada lá dentro, toda molhada. Fiquei assustada porque isso significava que ela realmente passara muito mal... Conversei com a paciente da cama ao lado. Ela me contou o que havia acontecido. A coisa foi realmente feia, foi grave. Quando chegamos ela já havia melhorado bem. Ouvi aquela história, bastante preocupada mas não podia pensar muito. Corri à UTI porque ainda queria ouvir a conversa do meu pai com o médico. Mas, quando cheguei lá, eles já estavam terminando.
Entrei, guardei as coisas da mamãe, conversei com ela, consegui uma autorização especial para que meus tios se despedissem dela. Uma das minhas tias não quis entrar. Ela estava chorando muito, estava desesperada.
- Eu sabia que ela estava mal mas nunca pensei que estava desse jeito. Por que não vim antes, meu Deus? Ela está precisando muito da gente e eu nem sabia disso. Queria tanto ajudá-la.
Pois é...
Desci com ela para que se acalmasse, deixei-a lá no saguão e fui até o balcão para tentar encontrar o Dr. Richard, meu professor, meu anjo da guarda número 4. Eu precisava muito falar com ele, eu estava muito angustiada, precisava de algumas respostas, precisava de um pouco de atenção. Demorou até a mocinha localizá-lo pelo telefone. Nisso, meu pai já havia descido com meus tios e foi ver o que eu estava fazendo lá.
- Algum problema aí?
- Não. Só estou tentando localizar meu professor porque preciso falar com ele e sei que ele está aqui de plantão hoje. Você está com pressa de ir embora?
- Não. Faz o que você precisar fazer e depois vamos. Não tem problema nenhum.
Subi à UTI Cirúrgica onde ele estava (mais um lugar para conhecer). Timidamente entrei naquele lugar estranho e o vi, falando com um paciente. Esperei. Ele se virou, me viu.
- Oi, Paloma. Eu preciso muito falar com você. Você tem tempo? É que estou com um paciente infartando aqui e não posso falar agora. Você espera um pouquinho?
- Claro. Sem problemas.
- Tá vendo aquele corredorzinho ali? Então, entra lá, vira a esquerda, anda até o fundo e fica me esperando lá que já falo com você. Tem uma mala em cima da cama, abre ela e pega uns brigadeiros que estão num potinho... estão deliciosos.
Segui no tal corredor. No fundo havia um dormitório pequenininho mas confortável. Não entrei lá. Fiquei andando, esperando... Mas ele estava demorando muito. Desci para avisar meu pai e voltei para o tal corredor.
O Dr. estava correndo de um lado para outro, assinando papéis, fazendo pedidos às enfermeiras, tomando decisões...
Sentei em frente a uma janela e fiquei observando o movimento da rua e ouvindo a correria da UTI por um longo tempo. Até que o doutor apareceu.
Ele me levou até o dormitório, sentamos.
- Merece um prêmio por ter esperado tanto. Vou pegar um brigadeiro aqui na minha mala para você.
- Não, Richard. Obrigada mas eu não como doce.
- Como não come doce? Não sabe o que está perdendo... (Pausa). Como é que você está, Paloma? Como é que estão as coisas?
- Estou meio atordoada com tudo que está acontecendo. Não sei explicar. É desesperador...
- É... eu sei como é, já passei por situação muito semelhante...
E continuamos a conversar por quase uma hora. Foi maravilhoso. Ele me explicou tudo que eu queria saber, me deu detalhes sobre o caso, disse quais eram as possibilidades a partir daquele momento, me preparou para que se algo desse errado... Fiquei muito mais tranqüila. Um exemplo para eu guardar para o resto da vida: um médico bastante ocupado, dando plantão em pleno domingo de sol, pára todo serviço dele para gastar uma hora com uma garotinha, filha de uma paciente que nem é dele, só para tranqüilizá-la.
Ele ficou satisfeito de me ver melhor. Pediu para que eu descansasse o resto do dia porque no dia seguinte ele estaria no Barracão para me ajudar a estudar para a prova de terça.
Agradeci a atenção e o apoio. Desci para encontrar meu pai e meus tios e fomos embora. No caminho de volta para casa, vim contando para eles tudo que o Richard me falou para ver se eles se tranqüilizavam um pouco também.
À noite, liguei para Tina, amiga da minha mãe que estava indo todos os dias no hospital para me ajudar a cuidar dela. Ela ficou muito chateada de saber que minha mãe havia piorado e que não poderia mais passar tanto tempo com ela (na UTI, a visita só é das 16h às 17h).

Na segunda-feira, acordei cedo e fui para o barracão estudar. Encontrei meus amigos, nos esforçamos para descobrir as coisas sozinhos, até que cansamos... o Richard ligou, disse que tinha tido um problema mas que já estava indo nos encontrar, pediu para que esperássemos por ele.
Estudamos juntos até cansar. Aprendi algumas coisas mas sabia que eu precisaria estudar a teoria se quisesse tirar o 5,0 de que necessito para passar.
À tarde, lá para as 15:30h fui ao hospital ver minha mãe. Conversamos um pouco até que chegou um bando de enfermeiros dizendo que necessitavam fazer um exame nela e me pedindo para esperar lá fora. Saí. Esperei um pouco. Encontrei a Sandra, a psicóloga que acompanhava minha mãe e com quem eu sempre conversava.
- Como é que você está, Paloma?
- Estou bem, na medida do possível.
- Assustada com tudo isso, né?
- Muito!
- É... eu sei. Mas fica tranqüila. Eu conversei com sua mãe hoje, ela me pareceu bem mais consciente do que está acontecendo, ela sabe porque veio para cá e até brincou... disse "Pelo menos estou num lugar mais bonito.". Ela disse que gosta mais de ficar aqui na UTI, que dão mais atenção a ela, que a atendem prontamente quando ela chama.
- É, aqui eles se esforçam para fazer todas as vontades dela. E ela pegou um leito bem em frente ao corredor. Aposto que fica o dia todo acompanhando o corre-corre desse povo... Ela gosta dessa agitação.
- Bom, agora eu tenho que ir. Você vai vir amanhã? Gostaria de te ver, para conversarmos com mais calma.
- Eu estarei aqui em torno das 15h30.
- Ótimo. Então a gente se encontra nesse horário, amanhã, lá no balcão de enfermagem do 5º andar.
Ela foi embora. Eu fiquei em frente a porta da UTI mas o segurança começou a encrencar comigo dizendo que eu não poderia ficar ali onde estava, que eu deveria aguardar numa sala de espera no final do corredor. Disse a ele que eu não queria ir à tal sala de espera e que já que eu não podia ficar ali, esperaria lá dentro da UTI. Ele deu de ombros.
Quando entrei novamente, os enfermeiros já haviam se afastado, havia apenas a enfermeira responsável pelo leito que estava conversando baixinho com minha mãe e passando a mão em sua cabeça. Perguntei o que tinha acontecido, se já tinham feito o exame. Ela saiu, pediu para que minha mãe se acalmasse... Minha mãe, um tanto brava, me contou que não era nela que eles tinham que fazer o exame. Eles erraram o leito. Começaram a mexer nela e prepará-la mas chegou o médico e disse que eles estavam fazendo com a pessoa errada.
Fiquei um tempo conversando com ela, ela parecia estar com um pouco de falta de ar mas estava bem. Em determinado momento, ela disse que queria mudar de posição, que estava sentindo muita dor nas costas. Eu chamei a enfermeira... ela veio e muito cuidadosamente colocou minha mãe de lado. Mas, assim que ela saiu, minha mãe disse que não estava se sentindo bem. Perguntei o que ela tinha, se queria voltar para a outra posição, ela disse que não mas que estava mal. Fui atrás da enfermeira:
- Olha, ela está passando mal.
Ela saiu correndo e foi ver minha mãe. Voltou ela para a posição de antes levantou um pouco a cama, de modo que ela ficasse sentada e disse para ela ficar calma e respirar tranqüila que iria melhorar. Ela saiu. Minha mãe começou a reclamar dizendo que estava com muita dor nas costas e que ainda estava passando muito mal, eu disse para ela ficar quietinha, para não se mexer muito.
A Tina chegou, tentou conversar com minha mãe, tentou animá-la mas ela ainda estava mal. Fui atrás da enfermeira:
- Ela ainda está mal. Parece que está piorando.
A enfermeira foi atrás do médico e depois voltou para ver minha mãe. Tentou conversar com ela, acalmá-la até o médico chegar. Ele apareceu, ela falou que estava se sentindo muito mal mas que não sabia o que era, além disso estava com muitas dores. Ele a examinou, tentou conversar mas ela só ficou mais agitada. Ele pediu para que eu e a Tina saíssemos e o aguardássemos na sala de espera.
Saímos. Nessas alturas do campeonato, eu já estava desesperada também. A Tina pegou um copo de água para mim, conversamos, choramos, até que resolvemos voltar para a porta da UTI. Na mesma hora, o médico estava saindo para nos procurar. Conversamos bastante. Ele disse que ela estava com sinais de uma infecção que eles não sabiam exatamente onde e que isso estava causando a descompensação. Ele tentou explicar o máximo de coisas que conseguiu. E eu perguntei:
- Ela corre risco de morrer?
- Olha, o estado dela é bastante grave. Ela corre riscos sim. Mas faremos de tudo para combater a infecção e melhorar o estado dela.
Fiquei mais assustada. Voltei para vê-la. Ela já estava um pouco melhor. Já havia passado das 17h e a Tina não poderia mais ficar lá dentro da UTI. Eu disse a minha mãe que voltaria à noite para vê-la e saí com a Tina.
Saímos da UTI, o segurança chato já não estava mais lá. Paramos na frente para conversar. Ela disse que nunca havia visto minha mãe tão mal.
- Por que é que seu pai e seus irmãos não vieram visitá-la hoje?
- E eu que sei? Meu pai está em casa. Não sei porque ele não veio. Minha irmã e meu irmão estão trabalhando.
- Trabalhando? Mas eles podiam tirar uma folga para vir vê-la. A situação é grave, será que eles não percebem isso?
- Não sei. Eles dizem que não gostam de ver a mamãe mal
- Ah... e por acaso você gosta? Por acaso você acha que eu gosto? Claro que não. Mas estamos aqui. Precisamos dar apoio a ela.
- É... eu vou ligar para meu pai hoje e pedir para que ele venha amanhã. - Não consegui mais segurar e comecei a chorar.
- E pede para ele trazer sua irmã. Independente de qualquer outra coisa. Pode ser a última vez que ela vai ver sua mãe.
- Tá.
Ela me abraçou, ficamos ali chorando, esperando o elevador.
Descemos e fomos conversando até a porta da faculdade, onde eu entrei.
Guardei algumas coisas no armário e saí andando sem rumo pelo porão. Até que encontrei minha amigas, a Priscila e a Felicia, que estavam indo para Liga da Sífilis. Fui andando em direção a elas, abracei a Fê e disse que minha mãe estava mal, que ela ia morrer. Recomecei a chorar. Elas tentaram conversar comigo, sentamos, fiquei chorando um tempão, elas do meu lado, tentando me acalmar. Desencanaram de ir para a Liga.
Quando me acalmei um pouco, decidi ir ao orelhão telefonar para meu pai.
-Alô. Pai?
- Oi filha. Foi ver a mamãe? Como é que ela está?
- Ela tá mal, pai. Acho bom você vir vê-la e trazer a Jéssica.
Expliquei para ele o que o médico disse e meu choro voltou descontroladamente.
- Você está chorando, filha?
- TÔ!
- Calma. Tudo bem. Amanhã eu passo aí com sua irmã, tá? Agora fica calma e vai pra casa descansar.
(Depois descobri que meu choro assustou muito meu pai. Ele disse aos meus irmãos que se eu estava chorando é porque a coisa era grave mesmo... "porque ela já está acostumada a ver sua mãe mal" - como se desse pra acostumar com uma coisa dessas.)
Eu não queria ir pra casa. Voltei para onde as meninas estavam, continuei chorando por um tempo, tentei convencê-las de ir para Liga porque sabia que aquele dia era realmente importante. Elas não quiseram me deixar sozinha daquele jeito. Então, resolvi ir com elas para o PAMB, para a Liga. Eu não queria continuar lá chorando mesmo e seria legal ver outras pessoas. Fomos.
Entrei num consultório onde eles costumam guardar as mochilas, encontrei um pessoal da minha turma, deitei na maca e fiquei lá jogada, ouvindo as conversas que eu não entendia. Todos saíram para atender e para resolver outros problemas, fiquei deitada sozinha por um tempo mas já não estava mais chorando.
Resolvi voltar sozinha para faculdade, estava com muita fome. Mas, no caminho, encontrei a Iolanda conversando com outra pessoa, falei oi, dei um beijo nela e continuei andando. Eu queria falar com ela, queria que ela me consolasse com aquele seu abraço tão bom. Sentei na escada em frente à faculdade e fiquei lá esperando para ver se ela passaria. Até que ela apareceu.
- E aí, mocinha? Tá esperando alguém ou tá fazendo nada?
- Tô fazendo nada.
- Então vem cá comigo - ela fez um gesto para que eu desse a mão para ela.
Fomos até a sala, sentei numa cadeira e fiquei com uma amiga dela conversando sobre seus filhinhos. Depois, elas ficaram fofocando, falando várias coisas interessantes e confidenciais (que nem eu poderia saber...). Rimos bastante e logo saímos. Fui com ela até o carro.
No caminho, contei como estava minha mãe, tudo que tinha acontecido. Paramos em baixo de uma árvore e continuamos a conversa. Ela começou a chorar e me contou de uma situação semelhante que ela viveu há poucos anos. Me disse que nada nessa vida acontecia por acaso e que em algum momento eu teria que pensar porque é que tudo isso está acontecendo comigo.
- A maturidade que você tem hoje como estudante de Medicina não é comparável com nenhum aluno da sua turma, nem do 2º, nem do 3º, nem do 4º ano. Talvez se compare com um aluno de 6º ano, mas acho que nem isso. Tudo que você viu e viveu no hospital te trouxe uma visão muito mais real do que é a Medicina e como podemos usá-la para melhorar a vida dos nossos pacientes e de seus familiares. Com certeza, por tudo isso, você será uma médica muito melhor.
Ela me convidou para jantar na casa dela, disse que eu iria adorar conhecer seus filhinhos... Eu não podia, precisava voltar ao hospital para ver minha mãe.

Ao chegar de volta à UTI, minha mãe estava mal. A enfermeira estava com ela tentando explicar por que ela não poderia mudar de posição. Ela ainda estava com dores e com o mal-estar. A enfermeira saiu, conversei com minha mãe e ela disse que estava piorando. Fui atrás da enfermeira novamente:
- Ela está piorando. Acho melhor já chamar o médico.
Ela foi procurá-lo. Depois, veio ver minha mãe e disse que uma outra médica viria vê-la porque o médico dela tinha saído por um tempo. A médica veio, examinou, deu a conduta... ela não melhorou, a médica saiu, minha mãe falou para eu chamá-la de volta. Fiz isso, ela voltou, apareceu outro residente, os dois a examinaram novamente, prescreveram mais alguma coisa, tentaram sair e minha mãe os chamou novamente. Aí a médica sentou-se ao lado da cama e tentou acalmá-la, tínhamos que esperar um pouco para ver se as drogas seriam suficientes. Não foram.
Minha mãe ficou muito agitada, disse que ela nunca tinha sentido nada parecido com aquilo (que ela ainda não conseguia explicar o que era):
- Eu sei que não vou passar dessa noite. Vou morrer.
- Calma, dona Cecy. A senhora vai ficar bem. Não fala isso. Fica calma. - disse o residente.
- Paloma, você dá minhas coisas para Liu e...
- Pára mãe, não fala isso. Você vai ficar bem.
- Tá bom, mas promete que se eu for você vai dar minhas coisas para ela?
- Prometo. Agora fica quietinha, descansa, não fica falando.
Eu não a deixei continuar. Eu achei que ela não ia morrer. Sabia que ela estava mal mas não achei que fosse morrer. Ela queria me pedir outras coisas e eu não a deixei falar. Se arrependimento matasse... eu teria ido com ela.
Fiquei mais uma hora lá. Ela não melhorava. Ouvi a médica dizendo que achava que precisaria entubá-la. Já era tarde. Eu não queria continuar ali vendo aquilo. Foi demais para mim. Eu precisava descansar. Saí de lá cerca de 21h30, com a esperanças de que ela melhoraria, de que no dia seguinte ela estaria lá ainda.
Às 22h, ligaram para meu pai. Disseram que ela tinha piorado e que precisavam de um familiar lá. (Só fiquei sabendo dessa parte da história no dia seguinte.) Ele foi com meu irmão. Quando chegaram, ela já estava inconsciente, entubada... Não sei o que os médicos falaram, não sei o que houve... Eles voltaram para casa, meu irmão ficou chorando muito. Às 2h30 da manhã, ligaram novamente, ela havia falecido. Meu pai retornou ao hospital, para cuidar de tudo.

Na manhã de terça-feira, dia 9/12, acordei mais tranqüila porque ninguém tinha me ligado, ninguém me avisou nada. Eu achava que se acontecesse alguma coisa, me avisariam imediatamente. Me arrumei para ir à faculdade fazer minha prova - para a qual eu não havia estudado. Quando estava saindo, meu celular tocou.
- Paloma, onde é que você está. - era meu irmão.
- Estou na casa da vó. Estava saindo para ir para faculdade.
- Então, eu acho melhor você não ir não.
- Por quê? O que aconteceu?
Silêncio.
- Me fala. O que houve?
- Você já sabe... não sabe?
- Ah, não... ela morreu...
- É.
Comecei a chorar, ele me disse para esperar ele ligar porque iria me buscar para irmos para o velório, mais tarde.
Joguei minhas coisas no chão da sala, sentei no sofá, peguei o telefone e liguei para a Pri e para o Richard.
Depois, avisei a minha vó e fui para meu quarto. Fiquei lá deitada, chorando no escuro, um tempão. Minha vó veio, pediu que eu levantasse, disse que eu tinha que me conformar que eu não podia ficar daquele jeito. Eu briguei com ela, pedi para que ela me deixasse sozinha.
Quando consegui me recuperar, peguei no telefone, liguei para meu pai, depois para meu irmão. Eu não queria ficar em casa, queria ficar com meu pai.
Pela primeira vez na minha vida, deixei meu orgulho e minha vergonha de lado e comecei a ligar para várias amigas da minha mãe para pedir que viessem me buscar.
Consegui ajuda, sem muitas dificuldades.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

Minha irmã conseguiu arrumar o computador. Aeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!
Agora já dá pra eu voltar a escrever minhas besteiras. Vamos recomeçar:

Aprisionada pelas próprias lembranças

Preciso muito contar algumas coisas para alguém mas não pode ser qualquer pessoa (não me desfazendo dos meus amigos que não são qualquer pessoa, mas...), preciso de alguém que realmente me entenda, que conheça a situação, que já tenha passado por algo parecido. Sinto que carrego um peso muito grande e que se eu não contar isso para ninguém, vou acabar explodindo... Não é nada demais, nenhuma revelação surpreendente, são apenas algumas experiências que vivi no hospital, que são realmente muito fortes mas que não posso dividir com meus irmãos porque eles não entenderiam, eles não passaram por aquilo, eles não tem a menor noção, eles sofreriam se soubessem...
Então, escrevi no blog, pra ver se amenizo o peso e paro de lembrar tanto disso, de sofrer tanto por isso... e na esperança que alguém realmente me entenda e saiba o que me dizer para diminuir essa profunda angústia que essas lembranças me trazem.
Como o texto ficou muuuuuiiito grande decidi publicá-lo no Minha Versão. Quem quiser... senta que lá vem história...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2003

Tenho tido problemas com meu computador ultimamente (pra variar) e por isso não tenho postado.
Hoje consegui entrar no blogger usando o computador do meu pai...

Pois bem, ao contrário dos meus planos, não vou poder trocar o template, nem terminar de catalogar os arquivos, nem fazer a faxina dos blogs, nem criar o template que prometi para o blog das minhas amigas... e o pior é que vou ter que ficar um tempão sem postar. Vou morrer de saudades...
Mas, aguardem, assim que eu voltar para facul, provavelmente dia 6, passo a publicar com mais frequencia e, se der, faço essa lista de coisas até fevereiro.


FELIZ ANO NOVO A TODOS OS AMIGOS!!!

E TORÇAM PELOS MEUS PROJETOS!!!
Sexta-feira tive um dia muuuuuiiittto bom, como há muuuuuuuiiiitttto tempo eu não tinha.
Acordei, me arrumei para ir para faculdade. Quando estava saindo, recebi um telefonema especial da minha irmãzinha de coração, a Amanda (ela tem me ligado todos os dias para cuidar de mim).
Cheguei na faculdade, depois de 2 horas de viagem, almocei correndo pois às 12h, eu tinha um compromisso importantíssimo.
Às 12:15, estava no meu compromisso: uma reunião com o super hiper poderoso da graduação. No dia anterior, eu tinha ficado sabendo que ele estava propondo aos alunos um projeto que é muito parecido com uma idéia que eu e um colega tivemos. Ele me contou que tinha apresentado esse projeto para um grupo de alunos mas eles não aceitaram, acharam que não era viável. Pois bem, eu e esse meu colega já tínhamos começado a estruturar o nosso projeto com o apoio da nossa turma, na tentativa de colocar nossa idéia em prática, só que acabou não indo muito pra frente por causa dos meus problemas durante o semestre. Nossa! Fiquei animadíssima com nossa conversa. Ele adorou a idéia, disse que vai dar todo suporte que precisarmos para a realização do projeto. Perfeito! Ficamos de montar juntos tudo melhor em janeiro, com a ajuda de mais gente da minha turma. O máximo! Adorei!
Saindo de lá, fui para sala pró-aluno, para dar um rápida checada nos meus e-mails (eu só tinha 15 minutos). Quando abri meu e-mail do blog, quase não acreditei no que li... Um amigo muito especial, um dos mais admiráveis, tinha me escrito um poema lindo. Ele fez um poema só para mim. Até chorei de emoção. Foi um dos presentes mais lindos que já recebi. Fiquei todos os 15 minutos, babando no computador e nem li os outros mails.
Às 13h eu estava em frente à biblioteca encontrando alguns veteranos. Tínhamos marcado para ir a uma fundação, para sabermos informações de uma comunidade carente com a qual pretendemos fazer um (ambicioso?) projeto de extensão (realmente de extensão). A visita foi muito legal! Relato mais detalhado no Blog Cidadania.
Voltei para casa, ainda correndo pois já era tarde e eu precisava me arrumar para um evento especial: uma viagem ao passado – a formatura da Amanda. Ela estudou no mesmo colégio que eu estudei da 5ª à 8ª série, o União Brasileira.
Antes de sairmos, minha irmã me deu a tão feliz notícia: a Amanda será a solista da Academia da Márcia no ano que vem. UAU! Ela merece muito! Ela é uma das melhores bailarinas que já vi dançar. Na academia da Márcia, da qual minha irmã também faz parte, as solistas são escolhidas de acordo com as notas: quem obtém a melhor nota do exame final, se torna solista no ano seguinte. Fiquei tão feliz por ela. Imagino que ela deve estar muito feliz, apesar de nervosa (ela sempre fica nervosa mas sempre faz tudo de maneira genial).
Bom, na formatura, encontrei meus professores queridos, a Márcia e o Geraldinho, várias pessoas da direção, da secretaria, a Terê... Foi tão bom, tão legal. O Geraldinho é uma das pessoas mais fofas que já conheci, outro dos meus 4 anjos da guarda. Foi ele que me deu muita força na época que eu quase pirei na 7ª série (com 13 anos eu já era bem maluquinha), ele que mais me cuidava e me exigia em todas as outras séries. Ele é lindo, é o máximo. Estávamos morrendo de saudade um do outro. Não nos víamos há mais de um ano. Aproveitei para abraçá-lo bastante e causar inveja em todas aquelas menininhas atuais alunas dele. Conversamos um pouco, ele já sabia de tudo que tinha acontecido com minha mãe (está sempre cuidando de mim, mesmo de longe), me deu muita força. Foi um momento mágico.
A formatura em geral foi muito legal. A minha irmãzinha de coração deu um show como oradora da turma. Meu orgulho!
Voltei para casa com os pés destruídos mas tão feliz... Foi um dia realmente muito especial. Como há muuuuiiitto eu não tinha.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

É incrível como me sinto mais em casa na faculdade do que na casa do meu pai ou na casa da minha vó. Quer dizer, sinto como se meu verdadeiro lar fosse a faculdade. Aqui me sinto totalmente plena, tenho minha família postiça (vários irmão, dois pai e duas mães). Tenho minha “cama”, minha sala, meu quarto de estudos, livros e computadores disponíveis, vizinhos chatos... É tudo tão especial.
Tem gente que não entende como eu consigo passar tanto tempo na facul. Acho que nem eu sei mas me sinto tão bem aqui que não faz a menor diferença se é uma faculdade ou uma casa. Para mim é o meu lar.
Vou passar as férias vindo aqui pois além de ter que estudar para as provas que não fiz (considerando que fiquei o semestre inteiro sem pegar em livros), estou fazendo alguns projetos com pessoas muito legais e tudo precisa estar pronto antes do recomeço das aulas. Mãos à obra.

Diálogo de ontem
- Mas, Paloma, é férias. Fica em casa, descansa, assisti TV... sei lá. Esquece a faculdade, faz qualquer outra coisa.
- É melhor ficar fazendo essas coisas do que ficar fazendo nada em casa. Assistir TV? Não tenho a menor paciência mais. Agora que me livrei desse vício, mal consigo passar perto de uma. Livros? Estou lendo Harry Potter. Achei que eu ia odiar, mas até que estou gostando. Já é uma diversão, viu? Além do mais, só estou fazendo coisas que eu gosto. Finalmente estou podendo fazer as coisas que eu gosto... Férias são para isso não são?
- Tá, mas eu ainda acho que você deveria ficar em casa dormindo porque quando a gente voltar para as aulas, você vai estar super cansada e não vai agüentar o tenebroso terceiro semestre.
- Um... projeções, planos... isso é futuro, é irreal. Depois a gente vê se vou estar cansada ou não, se vou agüentar ou não. Se eu estiver cansada e não agüentar, sempre têm alternativas. Dô um jeito.
- Beleza, então. Faz o que você achar melhor... você é quem sabe.
Cenas Inéditas:

Cena 1
Eu: -Pai, você vai sair?
- Vou.
Óbvio que ia. Ele estava se arrumando. Minha idéia era perguntar para onde, a que horas e quando ia voltar... igualzinho como eu fazia com minha mãe. Mas na hora me toquei do absurdo e não continuei.
Em vinte e um anos de convivência, eu nunca tive interesse em saber se meu pai ia sair, para onde, nem nada do tipo. Por que agora teria?

Cena 2
Meu pai andando de um lado para outro da casa:
- Onde estão meus óculos???
- Sei lá, pai. Nem vi.
- Que droga. Não sei onde deixei meus óculos.
- Xiiiii. Tá igualzinho a mamãe, perdendo os óculos pela casa...
- É mas eu só tenho um e sua mãe tinha um monte.
Pior ainda, né? Perdeu o único que tinha, ficou sem nenhum. Depois ele acabou achando não sei onde. Mas foi engraçado. A vida toda ele ficava zuando minha mãe porque dizia que não entendia como uma pessoa podia perder os óculos dentro de casa...

Cena 3
Eu arrumando o armário que era da minha mãe e ficou para mim e para minha irmã. Meu pai passou perto:
- Ah, arrumando, é?
- Finalmente, pode dizer.
- Finalmente...
Ele havia ficado indignado porque eu fico dormindo até uma 11h, não ajudo em nada na casa, não o ajudei com as coisas da mamãe, meu quarto está uma zona desde que cheguei há uma semana e não arrumei nada do que precisava, apesar de seus pedidos.
Engraçado é que sempre fui preguiçosa assim e ele nunca havia notado. Lógico, antes era minha mãe que ficava responsável por me cobrar as coisas ou por me pedir ajuda e ele achava que quando eu não fazia era porque ela não cobrava o suficiente, porque não tinha pulso firme... agora ele tá vendo.

Cena 4
Eu escrevendo no meu blog para falar do meu pai.
(haha Essa é a melhor!)

terça-feira, 16 de dezembro de 2003

Professor com cara de bonzinho, inicia seu curso com uma gentileza admirável e uma incrível boa vontade. Aos poucos, vai mostrando suas garras, sua falta de ética, seu autoritarismo.
Dois alunos, querendo ajudar uma amiga, vão ao professor pedir um auxílio por ela. Ele, consciente de toda fraqueza de alunos desunidos, imaginando-os bobinhos e "politicamente vulneráveis", responde:
- Impossível! Não posso fazer isso. Eu sinto muito mas não poderei ajudá-la. Eu até entendo que o problema é grave e sinto muito mas não posso fazer nada. O que vocês estão pedindo é totalmente inviável.
OK, OK. Os aluninhos ingênuos, voltam com o rabinho entre as pernas dizendo "sentimos muito mas não teve jeito. Ele disse que não dá. Acho que você está ferrada."
A pequena garotinha, baixinha e magrinha, no auge de sua sensibilidade, mas já com plenos conhecimentos de politicagem, vai em busca de uma outra ajuda - digamos, mais poderosa.
Com um simples telefonema e falando-se em nome de deus, do "deus da graduação", consegue-se ouvir gentilmente daquele mesmo professor das garras:
- Ah, ela está precisando disso. Claro, claro. Podemos fazer quando ela quiser. Não se preocupe. Pode dizer para ela ficar tranqüila e vir me procurar, depois, que resolvemos tudo facilmente.

É o cúmulo! O cúmulo do absurdo! O cúmulo da politicagem barata! Como alguém com uma respeitável imagem de professor de uma das universidades mais conceituadas do país, se submete a tal coisa?

Mais um aprendizado: não importa o problema que você tenha na faculdade, é só falar com a pessoa certa, que tá tudo resolvido facilmente, sem o menor esforço. "Se era só esse seu problema, você não tem mais problemas. Está tudo resolvido, deixa por minha conta que vai dar tudo certo. E, se você tiver qualquer outro problema, pode vir me procurar que resolvemos rapidamente". Ser bem relacionado é o que há. Infelizmente.

domingo, 14 de dezembro de 2003

Acabo de montar a árvore de Natal.
Quando minha mãe estava doente, internada no hospital, ninguém na minha casa queria saber de árvore, nem de decoração - muito menos eu. Mas, agora que ela não está mais, acho que ela gostaria que montássemos tudo e fizéssemos uma festa bonita, com muita comida japonesa e cerejas com cabinho...
A árvore, ficou por minha conta e dos meus irmãos. Mas no fim eles deixaram tudo nas minhas mãos e só quiseram saber dos piscas e fios.
A festa, vai ficar por conta da minha tia, que mora atrás da casa do meu pai. É o melhor lugar para se fazer esse Natal, pois eu e meus irmãos que nunca gostamos muito, podemos ficar em casa, no sossego e descer só perto da meia-noite.

Às vezes ficamos nos perguntando se ela está por aqui, se ela está vendo o que estamos fazendo... Hoje, pela primeira vez, sentamos todos juntos na mesa para almoçar. Meus irmãos queriam que eu sentasse no lugar da minha vó e ela sentasse no lugar da minha mãe. Eu disse que não, que achava que o lugar da minha mãe deveria ficar sem ninguém. É o lugar dela. Mas eles disseram que não deveria ficar um buraco na mesa, que se a mamãe estiver aqui, de nenhum jeito ela vai estar comendo. "Pode até ser que ela sente na mesa com a gente mas comer ela não vai, você pode ter certeza."
Então tá. Acho que eles estão certos. Não temos porque deixar vago o lugar dela. Sempre que faltava alguém na mesa (meu pai, eu ou meu irmão), o lugar era ocupado por outra pessoa, por que agora seria diferente?

É estranho ficar pensando nessas coisas de "onde a pessoa está depois que morreu?". Eu nunca dei muita atenção para essa história de espíritos, mas agora faz diferença. Eu acho que ela está por aqui às vezes.
Quando eu era menor e ela falava de seu pai (que morreu quando ela tinha 9 anos), ela dizia que sentia a presença dele, que sentia que ele estava ajudando-a em alguns momentos.
Eu ainda não senti isso - mesmo porque ainda está muito recente - mas acho que gostaria muito de sentir. Aliás, quando conversei com o Dr. Victor sobre o falecimento da minha mãe, ele disse que a partir desse momento eu ia passar a senti-la muito mais próxima, muito mais presente do que quando ela estava no hospital. Ele disse que eu ia passar a sentir a presença dela, o cuidado dela. Na hora, eu não entendi direito o que ele quis dizer com isso mas pensando melhor, acho que tem a ver com essas dúvidas que pairam na minha cabeça e dos meus irmãos.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

Ontem, eu comecei a sentir uma profunda tristeza. Eu não estava suportando a dor. Comecei a chorar, chamei minha irmã para me dar um abraço. Ela veio, eu me acalmei, ela levantou e entrou no banheiro (ia tomar banho). Eu deitei. Passados 2 minutos, ela voltou chorando muito, soluçando, me abraçou e ficamos lá chorando um tempão. De repente, ela levantou e saiu do nosso quarto, entrou no quarto do meu irmão ainda chorando e soluçando. Ele ficou assustado, perguntou o que tinha acontecido, meu pai apareceu lá. Ela falou: “a Paloma tá lá no quarto chorando também”. Eu levantei, saí do quarto e dei de cara com meu pai. Ele me abraçou e me levou até meus irmãos. Ficamos os quatro sentados na cama do meu irmão, eu e a Jé chorando, meu pai e meu irmão tentando nos acalmar.
Meu pai falou que tinham dito pra ele que agora ele teria que ser mãe e pai mas ele acha que não vai conseguir “Mal consigo ser pai direito e agora vou ter que ser mãe? Não vou conseguir, mas eu quero que vocês saibam que sempre estou aqui pra vocês, sempre que vocês precisarem, quero que venham me procurar. Eu não tenho toda a sensibilidade da sua mãe, aquele jeitinho de falar, provavelmente vou falar da maneira rude como os homens falam, mas vou tentar ajudá-los, aconselhá-los.”
Foi um momento único, especial. Nunca tínhamos passado por nada parecido. Eu nunca tinha ouvido meu pai falar daquela forma, eu nunca tinha ouvido meu pai falar nada de nos ajudar. Nós nunca tínhamos nos apoiado tanto. Pelo menos uma coisa boa, toda essa desgraça trouxe: a união.
Quarta-feira fui até o hospital, com algumas rosas na mão. Precisava muito agradecer algumas pessoas que foram extremamente importantes nesses últimos dias.
Primeiro, levei ao meu anjo da guarda, o Dr. Victor. Ele não sabia do que tinha acontecido. Perguntou: “e a dona Cecy, como vai?”. Quando eu contei que ela havia falecido, ele ficou muito sem graça, me levou até o consultório, ficamos conversando. Ele foi muito fofo, como sempre. Ele disse que eu e minha mãe tínhamos ensinado muito a ele também (não entendi muito bem).
Depois, subi ao quinto andar, agradeci a Alívio (auxiliar de enfermagem) e a Eliane (chefe de enfermagem), elas estavam muito tristes. A Eliane disse que havia passado na UTI pela manhã para visitar minha mãe, quando ela ficou sabendo do que tinha acontecido. Elas ficaram sem graça com a rosa, não sabiam o que fazer com ela. Foi estranho.
Fui para faculdade, procurei a Patricia (uma das mães postiças que arrumei). Dei a rosa para ela, ela ficou muito lisonjeada: “É bom saber que minha presença faz diferença para alguém nessa faculdade”. Eu contei o que tinha acontecido, ela me abraçou forte, disse coisas muito bonitas, me deu muita força. Ela disse que agora ia cuidar de mim e como uma primeira ordem era para eu ir comer porque “você está muito magrinha, menina!”. Aliás, essa foi a frase que mais ouvi esses dias.
Fui almoçar com minhas amigas (Nati e a Juju da Paulista).
À tarde, continuei a entrega das flores. Primeiro foi a Sandra, psicóloga da equipe. Nossa! Essa sim foi uma pessoa essencial na minha vida, nesse último mês. O que essa moça fez por mim foi tão grande, tão importante, tão especial. Foi ela que me ajudou a entender tudo que estava acontecendo, que eu não conseguia digerir, ela me fez entender os acessos de raiva da minha mãe, que tanto me machucavam. Ela foi realmente muito importante. Quando entreguei a flor, ela olhou, se assustou (ela nunca esperava essa reação de mim). Começamos a conversar, ela viu que eu estava bem, que estava aceitando, disse que ficou arrepiada com as coisas que falei, com minha postura.
Depois, entreguei à Lúcia (auxiliar de enfermagem). Ela é uma das pessoas mais fofas que já conheci. Ela era a pessoa que melhor cuidava da minha mãe, era de quem minha mãe mais gostava. Os olhinhos dela encheram de lágrimas, ela não sabia o que fazer.
Apareceu a Kelly (chefe de enfermagem da tarde), dei a rosa a ela. Ela olhou com uma cara de espanto, sem saber o que dizer. Nós não nos dávamos muito bem. Eu briguei com ela uma vez (ela não tinha culpa), ela agiu de maneira arrogante, mas depois disso ela continuou tratando minha mãe com muita atenção, apesar de achar que eu a odiava. Para ela eu não disse nada, não agradeci nem nada, apenas entreguei a rosa como demonstração de carinho que minha mãe tinha por ela.
Desci à sala do Dr. Alfredo. Ele que havia conseguido a vaga para minha mãe lá no hospital. Se não fosse por ele, ela não teria tido todo aporte que teve. Além disso, na época que descobri que ela estava sendo mal tratada, ele foi quem mais me deu força, conversou com o pessoal da equipe, me ajudou a resolver o problema. Ele foi muito legal.
E, por último, mas não menos importante, fiquei correndo atrás da Ioio (ou melhor, Dra. Iolanda), minha outra mãe postiça. Quando a encontrei, ela estava no ambulatório. Entreguei a flor, ela me abraçou muito forte. Sem me soltar, ela perguntou como estava minha mãe. Eu disse. Ela me abraçou mais forte ainda, chorou, me levou para o consultório. Ficamos conversando, ela me dando força, me abraçando muito. Ela tem um dos melhores abraços! A Iolanda é a pessoa que mais sabe da minha família naquela faculdade, apesar de ser a pessoa que conheço a menos tempo. Acho que só a conheci mês passado. Mas, desde o primeiro momento, ela quis saber tudo, quis ajudar em tudo, quis me levar para casa dela para jantar com sua família, chorou comigo na Segunda-feira quando eu estava muito mal, me fez entender melhor o que estava acontecendo, me deu muito apoio. Ela é o máximo. Agradeci por tudo, ela me fez prometer que iria jantar na casa dela algum dia. E ficou de resolver meu problema com o idiota do Giovanetti (um dos professores mais cruéis que já conheci).
Quando voltei para minha casa, eu estava bastante cansada, mas estava mais feliz. Me fez muito bem agradecer essas pessoas. Mesmo eu achando que algumas delas não gostaram muito. Recebi muito apoio de todos, ganhei papéis com números de telefones para “ligar quando precisar, quando estiver tristinha, quando estiver feliz, quando quiser”. Foi muito bom mesmo.