Hoje aprendi que não se pode contar nem com a própria sombra.
E que no momento em que você se expõe para defender outra pessoa, o problema passa a ser só seu e não dá pra contar com aquela pessoa pra te ajudar quando ele se complicar ainda mais.
Ou seja, hoje aprendi a não tomar as dores de ninguém. Cada um com seus problemas....
Se fosse tão fácil na prática quanto é na teoria...
"O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino." Carl Gustav Jung
terça-feira, 14 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
As pessoas, principalmente as mais velhas, sempre me disseram que eu tenho dificuldade de pedir ajuda. Que ninguém pode fazer tudo sozinho e que um dia eu teria que aprender a pedir ajuda.
Sempre pensei nisso e tentei melhorar.
Achava que essa minha dificuldade vinha do meu passado, tinha a ver com a relação com meus pais e irmãos... coisa psicanalítica, sei lá.
Mas, hoje, tive um momento de epifania. Tenho dificuldade de pedir ajuda porque não consigo lidar com o fato de que a pessoa se disponibilizou a te ajudar e, no momento seguinte, ela já está em outro lugar (física ou mentalmente).
Assim:
- eu peço ajuda pra uma pessoa para determinada coisa
- ela responde "claro que posso te ajudar, com prazer"
- aí eu começo a fazer o negócio e chamo a atenção daquela pessoa para aquela coisa
- e percebo que a pessoa não está muito interessada, que a partir do momento que ela se dispôs a me ajudar, ela começou a fazer outra coisa e mesmo dizendo que ainda está disposta a me ajudar, percebo claramente que estou incomodando a pessoa, estou impedindo-a de cuidar de sua própria vida como ela gostaria.
Eu tenho dificuldade de pedir ajuda às pessoas, porque elas tem dificuldade de dizer não. Elas se comprometem a ajudar, mas na verdade estão mais preocupadas consigo mesmas.
Isso é muito complicado de lidar.
Sempre pensei nisso e tentei melhorar.
Achava que essa minha dificuldade vinha do meu passado, tinha a ver com a relação com meus pais e irmãos... coisa psicanalítica, sei lá.
Mas, hoje, tive um momento de epifania. Tenho dificuldade de pedir ajuda porque não consigo lidar com o fato de que a pessoa se disponibilizou a te ajudar e, no momento seguinte, ela já está em outro lugar (física ou mentalmente).
Assim:
- eu peço ajuda pra uma pessoa para determinada coisa
- ela responde "claro que posso te ajudar, com prazer"
- aí eu começo a fazer o negócio e chamo a atenção daquela pessoa para aquela coisa
- e percebo que a pessoa não está muito interessada, que a partir do momento que ela se dispôs a me ajudar, ela começou a fazer outra coisa e mesmo dizendo que ainda está disposta a me ajudar, percebo claramente que estou incomodando a pessoa, estou impedindo-a de cuidar de sua própria vida como ela gostaria.
Eu tenho dificuldade de pedir ajuda às pessoas, porque elas tem dificuldade de dizer não. Elas se comprometem a ajudar, mas na verdade estão mais preocupadas consigo mesmas.
Isso é muito complicado de lidar.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Demora, mas a gente aprende
Quando eu estava no primeiro ano de faculdade, o centro acadêmico (do qual eu participava ativamente) organizou um abaixo-assinado pra evitar que um professor fosse demitido.
A história era a seguinte: a faculdade exigia que qualquer professor fizesse um mínimo de pesquisas científicas e tivesse publicações. Esse tal professor não tinha e portanto seria afastado de suas atividades.
Os alunos mais velhos diziam que o cara era um ótimo professor, um dos melhores da faculdade e talvez um dos motivos dele ser tão bom é que ele se dedicava muito mais ao ensino do que às pesquisas.
Ajudei a organizar o abaixo-assinado e levei pra minha sala para que os alunos do 1º ano pudessem assinar. Nenhum de nós conhecia o tal professor (que dava aulas a partir do 3º ano) e, portanto, um aluno mais velho foi em nossa sala para explicar a polêmica e tudo mais.
Quase todas as pessoas da sala assinaram. Mas uma menina se recusou terminantemente. Perguntei por que ela não assinaria, expliquei novamente a questão. Ela me respondeu:
- Não vou assinar por um motivo muito simples: não conheço esse professor. Os alunos mais velhos podem falar o que eles quiserem, mas minha opinião só será formada depois que eu conhecer e tiver contato com o cara.
Argumentei com ela dizendo que talvez ela nunca teria contato com ele porque ele estava prestes a ser demitido e se não fizesse nada, ele iria embora, nós perderíamos.
Ela respondeu que não perderia nada justamente por não conhecê-lo e que se ele fosse realmente bom, haveria outras formas dele ficar sem que ela tivesse que ir contra seus princípios.
Na época, fiquei muito chateada. Eu gostava dela e não conseguia entender como uma pessoa como ela poderia ser tão egoísta.
Pois bem, no fim das contas obtivemos sucesso e o professor se manteve na faculdade.
Com o passar dos anos, fui entendendo o quanto a produção de pesquisas científicas era importante, inclusive para o ensino.
No 3º ano comecei a ter aulas com o cara. As primeiras foram boas, as seguintes, nem tanto... até que comecei a me irritar. Ele realmente é um professor didático (coisa rara na faculdade), explica bem e tal. Mas é extremamente arrogante! Chega a ser nojento de tão arrogante. Ele se acha o melhor, trata as pessoas mal...
Fiquei pensando que se ele tivesse saído naquela época anterior, talvez hoje poderíamos ter um professor melhor...
Na minha cabeça, ficou martelando por todos esses anos o ensinamento que aquela menina tinha me dado. Como pude defender tanto um cara como aquele? Como pude apoiar um cara que eu não conhecia, me guiando pela opinião dos outros (sem sequer entender de política, sem ter a menor noção do que estava por trás de tudo aquilo).
Pois bem. Os anos se passaram. Sempre me lembrei dessa história e tentei aplicá-la na minha vida.
Há alguns meses atrás, na UBS em que trabalho, estava tendo eleição para a CIPA. Havia vários candidatos, mas poucos que eu conhecia.
Votei nos que eu conhecia e ia entregar a cédula. No meio do caminho, encontrei minha enfermeira. Ela perguntou se eu tinha votado no número certo de nomes. Eu disse que não, que tinha votado em quem eu conhecia mas ainda faltava uns 3 nomes pra completar o número que eu podia votar.
Ela me sugeriu votar em um amigo dela. Disse que ele era muito bom, que é enfermeiro, que ela já tinha trabalhado com ele e tal. Pediu pra que eu votasse nele.
Confiando na opinião dela, eu votei.
E ele foi um dos que ganhou a votação.
Dois meses depois, me informaram que o gerente da nossa unidade seria trocado. A tal enfermeira veio me contar que viria aquele amigo dela. Aquele em quem eu votei. Ela estava muito feliz por poder trabalhar com ele e ficamos todos animados com a chegada daquele homem que parecia tão correto, bom, honesto, trabalhador.
No começo foram flores. Tudo muito bom, tudo muito bem.
Com o passar do tempo, a verdade apareceu. O cara é um tremendo de um mau caráter, desonesto, FDP mesmo, grosso, grita com todo mundo. Já tive diversas brigas com ele.
Ontem, fui à administração reclamar desse gerente para meu chefe direto. Ele me informou que a administração está de olho nele e que haverá mudanças. Eles querem tirá-lo mesmo.
Fiquei feliz pra caramba, achando que o cara ia ser finalmente demitido!
Mas...
Mas...
Minha felicidade não durou nem 24h. Me lembrei que o cara foi eleito pra CIPA. Eu fui uma das idiotas que votou nele. E agora ele tem ESTABILIDADE NO EMPREGO. Ele só pode ser demitido um ano depois que terminar o mandato dele.
Drama!
Talvez ele seja transferido, mudado de cargo, sei lá...
Vamos ver se dessa vez eu aprendo!
A história era a seguinte: a faculdade exigia que qualquer professor fizesse um mínimo de pesquisas científicas e tivesse publicações. Esse tal professor não tinha e portanto seria afastado de suas atividades.
Os alunos mais velhos diziam que o cara era um ótimo professor, um dos melhores da faculdade e talvez um dos motivos dele ser tão bom é que ele se dedicava muito mais ao ensino do que às pesquisas.
Ajudei a organizar o abaixo-assinado e levei pra minha sala para que os alunos do 1º ano pudessem assinar. Nenhum de nós conhecia o tal professor (que dava aulas a partir do 3º ano) e, portanto, um aluno mais velho foi em nossa sala para explicar a polêmica e tudo mais.
Quase todas as pessoas da sala assinaram. Mas uma menina se recusou terminantemente. Perguntei por que ela não assinaria, expliquei novamente a questão. Ela me respondeu:
- Não vou assinar por um motivo muito simples: não conheço esse professor. Os alunos mais velhos podem falar o que eles quiserem, mas minha opinião só será formada depois que eu conhecer e tiver contato com o cara.
Argumentei com ela dizendo que talvez ela nunca teria contato com ele porque ele estava prestes a ser demitido e se não fizesse nada, ele iria embora, nós perderíamos.
Ela respondeu que não perderia nada justamente por não conhecê-lo e que se ele fosse realmente bom, haveria outras formas dele ficar sem que ela tivesse que ir contra seus princípios.
Na época, fiquei muito chateada. Eu gostava dela e não conseguia entender como uma pessoa como ela poderia ser tão egoísta.
Pois bem, no fim das contas obtivemos sucesso e o professor se manteve na faculdade.
Com o passar dos anos, fui entendendo o quanto a produção de pesquisas científicas era importante, inclusive para o ensino.
No 3º ano comecei a ter aulas com o cara. As primeiras foram boas, as seguintes, nem tanto... até que comecei a me irritar. Ele realmente é um professor didático (coisa rara na faculdade), explica bem e tal. Mas é extremamente arrogante! Chega a ser nojento de tão arrogante. Ele se acha o melhor, trata as pessoas mal...
Fiquei pensando que se ele tivesse saído naquela época anterior, talvez hoje poderíamos ter um professor melhor...
Na minha cabeça, ficou martelando por todos esses anos o ensinamento que aquela menina tinha me dado. Como pude defender tanto um cara como aquele? Como pude apoiar um cara que eu não conhecia, me guiando pela opinião dos outros (sem sequer entender de política, sem ter a menor noção do que estava por trás de tudo aquilo).
Pois bem. Os anos se passaram. Sempre me lembrei dessa história e tentei aplicá-la na minha vida.
Há alguns meses atrás, na UBS em que trabalho, estava tendo eleição para a CIPA. Havia vários candidatos, mas poucos que eu conhecia.
Votei nos que eu conhecia e ia entregar a cédula. No meio do caminho, encontrei minha enfermeira. Ela perguntou se eu tinha votado no número certo de nomes. Eu disse que não, que tinha votado em quem eu conhecia mas ainda faltava uns 3 nomes pra completar o número que eu podia votar.
Ela me sugeriu votar em um amigo dela. Disse que ele era muito bom, que é enfermeiro, que ela já tinha trabalhado com ele e tal. Pediu pra que eu votasse nele.
Confiando na opinião dela, eu votei.
E ele foi um dos que ganhou a votação.
Dois meses depois, me informaram que o gerente da nossa unidade seria trocado. A tal enfermeira veio me contar que viria aquele amigo dela. Aquele em quem eu votei. Ela estava muito feliz por poder trabalhar com ele e ficamos todos animados com a chegada daquele homem que parecia tão correto, bom, honesto, trabalhador.
No começo foram flores. Tudo muito bom, tudo muito bem.
Com o passar do tempo, a verdade apareceu. O cara é um tremendo de um mau caráter, desonesto, FDP mesmo, grosso, grita com todo mundo. Já tive diversas brigas com ele.
Ontem, fui à administração reclamar desse gerente para meu chefe direto. Ele me informou que a administração está de olho nele e que haverá mudanças. Eles querem tirá-lo mesmo.
Fiquei feliz pra caramba, achando que o cara ia ser finalmente demitido!
Mas...
Mas...
Minha felicidade não durou nem 24h. Me lembrei que o cara foi eleito pra CIPA. Eu fui uma das idiotas que votou nele. E agora ele tem ESTABILIDADE NO EMPREGO. Ele só pode ser demitido um ano depois que terminar o mandato dele.
Drama!
Talvez ele seja transferido, mudado de cargo, sei lá...
Vamos ver se dessa vez eu aprendo!
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Trash
Tô me sentindo um lixo. Como há muito tempo não sentia.
As pessoas me olham, me ouvem reclamar e falam “não entendo como você pode não dar valor a tudo que tem, você tem um bom emprego, uma carreira, ganha bem, tem um marido maravilhoso, mas só sabe reclamar”. Elas me criticam, me chamam de louca.
Talvez seja isso mesmo. Talvez eu seja simplesmente uma louca, que distorce a realidade.
Sei lá.
Tô cansada desse mundo injusto, de lutar e não ver resultado, de ver as pessoas com seus enormes umbigos simplesmente passando por cima de outras pessoas. Tô cansada de assistir reportagens na tv sobre a grande porcaria que é o ensino no Brasil. Tô exausta de viver num sistema de saúde, tão cruel e injusto, onde as pessoas doentes morrem na fila esperando por um atendimento, um exame, uma cirurgia. Você tem ideia de quantos pacientes passam pela minha mão diariamente e eu sei que o destino dele vai ser cruel sem que exista absolutamente nada que eu possa fazer???
Tem uma senhorinha lá na unidade que a gente descobriu recentemente que ela está com câncer de colo do útero. Está bem feio mas não sabemos o quanto avançado. Mandamo-na para o hospital de referência porque ela estava com uma infecção urinária multirresistente e precisava de internação para tratar EV. Eles a mandaram de volta dizendo que não havia vaga no hospital e que ela teria que acompanhar o tratamento no ambulatório mesmo. Tentamos vagas pra ela em outros lugares e nada. Tentamos tratar a infecção de urina do jeito que deu.
Mas ainda tínhamos um desafio muito maior, conseguir um oncologista e os exames necessários para saber em que estágio seu câncer se encontra.
“- Oncologista com urgência???”. A funcionária da administração quase rolou de rir no chão. “Temos vários pacientes na fila para essa especialidade. Todos são com urgência. Mas não há vagas no sistema há meses. É impossível."
Achei que a funcionária não estava entendendo a gravidade da situação e fui falar com o gerente da unidade, um enfermeiro.
Sabe o que ele respondeu? Exatamente a mesma coisa que a funcionária. Apenas com um adendo: “o máximo que a gente pode fazer é garantir que essa senhora tenha uma morte confortável. Ela já é idosa mesmo.”
Como assim????
Como assim?????
Como assim???????
Primeiro tive vontade de pular no pescoço dele. Depois tive vontade de denunciá-lo para o conselho, sei lá, denunciar de alguma forma um absurdo desses. Mas, refletindo melhor, percebi que não adiantava, porque é o sistema de saúde brasileiro que pensa assim. Não é esse ou aquele enfermeiro.
Imagina só a situação. Existe uma fila de várias pessoas (sei lá quantas são mas pelo menos umas 20, chutando baixo) com suspeita forte ou até mesmo confirmação de câncer, que não conseguem atendimento há MESES.
Como isso pode acontecer? Como pode ser possível???
Essas pessoas vão morrer na fila e ninguém vai fazer nada por elas? Que sistema universal e de equidade é esse? Como a gente pode ficar assistindo as pessoas morrerem sem atendimento e não fazer nada. Como esse gerente consegue dormir à noite? Como eu posso conseguir dormir à noite?
E se fosse sua mãe? Sua avó? Seu irmão? Seu filho?
Eu fico indignada! Eu me sinto de mãos amarradas. Eu me sinto burra, passiva, incompetente por não fazer nada.
Eu me sinto uma hipócrita, que diz lutar por um mundo mais justo, mas fica sentada atrás de sua mesa se lamentando.
E esse é apenas um dos exemplos que vivo.
Um, entre os tantos que vejo e revejo todo santo dia.
Eu me pergunto: por onde começar a lutar? O que fazer pra mudar? Com quem eu posso falar? Onde procurar ajuda?
E as pessoas me respondem: isso não é problema seu, você tem seu salário e paga seu plano de saúde. Se as pessoas quisessem elas mesmas iriam atrás de seus direitos.
Não consigo concordar. Não consigo aceitar. Não consigo conviver com isso tão de perto, sofrer sozinha sem compreensão, não ter ninguém pra lutar comigo... Simplesmente não consigo fingir que não tenho nada a ver com isso.
Acho que na verdade, eu sou mesmo um lixo e por isso me sinto como um. Se não fosse, não estaria aqui simplesmente “desabafando”. Estaria lutando.
Lixo.
As pessoas me olham, me ouvem reclamar e falam “não entendo como você pode não dar valor a tudo que tem, você tem um bom emprego, uma carreira, ganha bem, tem um marido maravilhoso, mas só sabe reclamar”. Elas me criticam, me chamam de louca.
Talvez seja isso mesmo. Talvez eu seja simplesmente uma louca, que distorce a realidade.
Sei lá.
Tô cansada desse mundo injusto, de lutar e não ver resultado, de ver as pessoas com seus enormes umbigos simplesmente passando por cima de outras pessoas. Tô cansada de assistir reportagens na tv sobre a grande porcaria que é o ensino no Brasil. Tô exausta de viver num sistema de saúde, tão cruel e injusto, onde as pessoas doentes morrem na fila esperando por um atendimento, um exame, uma cirurgia. Você tem ideia de quantos pacientes passam pela minha mão diariamente e eu sei que o destino dele vai ser cruel sem que exista absolutamente nada que eu possa fazer???
Tem uma senhorinha lá na unidade que a gente descobriu recentemente que ela está com câncer de colo do útero. Está bem feio mas não sabemos o quanto avançado. Mandamo-na para o hospital de referência porque ela estava com uma infecção urinária multirresistente e precisava de internação para tratar EV. Eles a mandaram de volta dizendo que não havia vaga no hospital e que ela teria que acompanhar o tratamento no ambulatório mesmo. Tentamos vagas pra ela em outros lugares e nada. Tentamos tratar a infecção de urina do jeito que deu.
Mas ainda tínhamos um desafio muito maior, conseguir um oncologista e os exames necessários para saber em que estágio seu câncer se encontra.
“- Oncologista com urgência???”. A funcionária da administração quase rolou de rir no chão. “Temos vários pacientes na fila para essa especialidade. Todos são com urgência. Mas não há vagas no sistema há meses. É impossível."
Achei que a funcionária não estava entendendo a gravidade da situação e fui falar com o gerente da unidade, um enfermeiro.
Sabe o que ele respondeu? Exatamente a mesma coisa que a funcionária. Apenas com um adendo: “o máximo que a gente pode fazer é garantir que essa senhora tenha uma morte confortável. Ela já é idosa mesmo.”
Como assim????
Como assim?????
Como assim???????
Primeiro tive vontade de pular no pescoço dele. Depois tive vontade de denunciá-lo para o conselho, sei lá, denunciar de alguma forma um absurdo desses. Mas, refletindo melhor, percebi que não adiantava, porque é o sistema de saúde brasileiro que pensa assim. Não é esse ou aquele enfermeiro.
Imagina só a situação. Existe uma fila de várias pessoas (sei lá quantas são mas pelo menos umas 20, chutando baixo) com suspeita forte ou até mesmo confirmação de câncer, que não conseguem atendimento há MESES.
Como isso pode acontecer? Como pode ser possível???
Essas pessoas vão morrer na fila e ninguém vai fazer nada por elas? Que sistema universal e de equidade é esse? Como a gente pode ficar assistindo as pessoas morrerem sem atendimento e não fazer nada. Como esse gerente consegue dormir à noite? Como eu posso conseguir dormir à noite?
E se fosse sua mãe? Sua avó? Seu irmão? Seu filho?
Eu fico indignada! Eu me sinto de mãos amarradas. Eu me sinto burra, passiva, incompetente por não fazer nada.
Eu me sinto uma hipócrita, que diz lutar por um mundo mais justo, mas fica sentada atrás de sua mesa se lamentando.
E esse é apenas um dos exemplos que vivo.
Um, entre os tantos que vejo e revejo todo santo dia.
Eu me pergunto: por onde começar a lutar? O que fazer pra mudar? Com quem eu posso falar? Onde procurar ajuda?
E as pessoas me respondem: isso não é problema seu, você tem seu salário e paga seu plano de saúde. Se as pessoas quisessem elas mesmas iriam atrás de seus direitos.
Não consigo concordar. Não consigo aceitar. Não consigo conviver com isso tão de perto, sofrer sozinha sem compreensão, não ter ninguém pra lutar comigo... Simplesmente não consigo fingir que não tenho nada a ver com isso.
Acho que na verdade, eu sou mesmo um lixo e por isso me sinto como um. Se não fosse, não estaria aqui simplesmente “desabafando”. Estaria lutando.
Lixo.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
Ciclo
Agora sim podem dizer que sou uma funcionária problemática.
Toquei o terror na UBS.
Eu não queria, ia ficar quieta. Mas a enfermeira sismou que queria passar a história a limpo e eu acabei fazendo tudo feder ainda mais.
Não foi intensional, mas aconteceu.
O chefe mal caráter não consegue assumir suas palavras, muito menos suas atitudes... então, tá. Então todo mundo vai saber o que ele fez e falou. Se quiserem acreditar nele e eu ficar como mentirosa, ótimo. Arrumo outro emprego no dia seguinte.
Mas no mínimo algumas pessoas vão ver a outra face dele.
Não vou tentar prejudicá-lo nem nada. Primeiro porque mesmo que eu conseguisse, viria outro no lugar dele que seria igual ou pior. Segundo porque naquela empresa minha moral tá tão baixa que não consigo mudar sequer uma mesa de lugar, que dirá um gerente...
E assim a vida segue, em mais um ciclo de confusões e desavenças.
Toquei o terror na UBS.
Eu não queria, ia ficar quieta. Mas a enfermeira sismou que queria passar a história a limpo e eu acabei fazendo tudo feder ainda mais.
Não foi intensional, mas aconteceu.
O chefe mal caráter não consegue assumir suas palavras, muito menos suas atitudes... então, tá. Então todo mundo vai saber o que ele fez e falou. Se quiserem acreditar nele e eu ficar como mentirosa, ótimo. Arrumo outro emprego no dia seguinte.
Mas no mínimo algumas pessoas vão ver a outra face dele.
Não vou tentar prejudicá-lo nem nada. Primeiro porque mesmo que eu conseguisse, viria outro no lugar dele que seria igual ou pior. Segundo porque naquela empresa minha moral tá tão baixa que não consigo mudar sequer uma mesa de lugar, que dirá um gerente...
E assim a vida segue, em mais um ciclo de confusões e desavenças.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Cada um tem o que merece
Fui chamada na sala do chefe hoje. Por quê?
- desde que entrei nessa equipe há 8 meses, venho criticando determinada funcionária que não trabalha, só me causa problema e põe meus pacientes em risco;
- ele chamou a funcionária e ela me acusou de assédio moral, disse que a persigo e humilho;
- a empresa me considera uma funcionária problemática; muito crítica, que tem dificuldade e trabalhar com pessoas (isso por causa dos problemas que tive com o bundão do meu chefe anterior e com a enfermeira com quem não quis mais trabalhar);
- a empresa, os funcionários e o mundo acham um absurdo um médica namorar um auxiliar de enfermagem - acham que eu devo ter algum problema mental ou coisa assim (o chefe teve coragem de dizer que não entende, não aceita mas que ele não tem nada a ver com isso e então não interfere)
- os pacientes acham que eu sou muito nova e por isso incompetente (não importa o fato de eu ter me formado na melhor faculdade do país)
- os outros membros da equipe me acham intransigente (porque não faço favores pessoais para eles, não dou receitas ou atestados e não atendo seus parentes que não querem ficar na fila do AMA e porque trabalho do jeito certo, exijo que se faça do jeito certo)
Realmente namoro um auxiliar e estou disposta a brigar com quem quer que seja por isso, sou exigente sim, sou crítica sim. Não concordo e não fico quieta dizendo amém para tudo. Nunca fui assim e nunca vou ser.
Quer saber, eu vou é parar de tentar consertar o mundo. Tenho que aprender a aceitar o que é errado. Porque determinadas coisas são imutávei e isso eu nunca consegui reconhecer anter. Achava que estávamos nesse mundo pra melhorá-lo. Ledo engando! Estamos nesse mundo pra nos ferrarmos mesmo. O mundo está torto? Quem se importa??? Desde que cada um continue tendo seus próprios benefícios de passar a perna nos outroas, tá tudo certo.
Eu vou é fazer meditação e tentar aprender a ficar na minha. Porque desse jeito que sou hoje, vou acabar é me jogando de uma ponte por não concordar!
- desde que entrei nessa equipe há 8 meses, venho criticando determinada funcionária que não trabalha, só me causa problema e põe meus pacientes em risco;
- ele chamou a funcionária e ela me acusou de assédio moral, disse que a persigo e humilho;
- a empresa me considera uma funcionária problemática; muito crítica, que tem dificuldade e trabalhar com pessoas (isso por causa dos problemas que tive com o bundão do meu chefe anterior e com a enfermeira com quem não quis mais trabalhar);
- a empresa, os funcionários e o mundo acham um absurdo um médica namorar um auxiliar de enfermagem - acham que eu devo ter algum problema mental ou coisa assim (o chefe teve coragem de dizer que não entende, não aceita mas que ele não tem nada a ver com isso e então não interfere)
- os pacientes acham que eu sou muito nova e por isso incompetente (não importa o fato de eu ter me formado na melhor faculdade do país)
- os outros membros da equipe me acham intransigente (porque não faço favores pessoais para eles, não dou receitas ou atestados e não atendo seus parentes que não querem ficar na fila do AMA e porque trabalho do jeito certo, exijo que se faça do jeito certo)
Realmente namoro um auxiliar e estou disposta a brigar com quem quer que seja por isso, sou exigente sim, sou crítica sim. Não concordo e não fico quieta dizendo amém para tudo. Nunca fui assim e nunca vou ser.
Quer saber, eu vou é parar de tentar consertar o mundo. Tenho que aprender a aceitar o que é errado. Porque determinadas coisas são imutávei e isso eu nunca consegui reconhecer anter. Achava que estávamos nesse mundo pra melhorá-lo. Ledo engando! Estamos nesse mundo pra nos ferrarmos mesmo. O mundo está torto? Quem se importa??? Desde que cada um continue tendo seus próprios benefícios de passar a perna nos outroas, tá tudo certo.
Eu vou é fazer meditação e tentar aprender a ficar na minha. Porque desse jeito que sou hoje, vou acabar é me jogando de uma ponte por não concordar!
sexta-feira, 15 de abril de 2011
A vida é uma novela?!
Quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que adoro seriados como Grey's Anatomy e Private Practice. Simplemente adoro!
Mas sempre achei exagerado, fora da realidade. Bomba no centro cirúrgico, morte de um, câncer de outro, atirador querendo matar o chef e atirando em todos os médicos, entre outras bizarrices exageradas.
Só que... pensando bem... olhando de fora, minha vida é assim também. Em uma escala menor, é claro. Mas é assim!
Quando acho que as coisas vão se assentar, vai vir uma calmaria, chega um furacão e bagunça tudo. É um problema atrás do outro, uma bizarrice atrás da outra.
Tenho um colega de trabalho (que foi meu colega de faculdade também, ou seja, me conhece há uns 10 anos) que sempre diz que nunca viu alguém atrair tanta confusão quanto eu. Ele diz que onde eu estou a confusão está também.
Fiquei por um tempão obeservando, porque simplesmente tinha certeza de que era eu que causava as confusões. Não podia ser coincidência, claro.
Observei, observei, tentei mudar... até que... percebi que não sou eu que causo nada. E ele confirmou isso pra mim. Os tetos simplesmente caem na minha cabeça, sem que eu faça nada. Causo problemas na mesma frequência de outras pessoas, não mais.
Enfim...
Minha vida parece uma novela, um seriado.
E isso me cansa um pouco. Às vezes, queria que tudo ficasse simplesmente em maré baixa por uns dias. Sempre que um problemas está pra se resolver, fico esperando por aquele dia da calmaria. E nunca acontece porque antes aparece uma outra confusão e, quando percebo, já estou envolvida até o último fio de cabelo.
Atualmente, me envolvi num problema com uma agente de saúde. Ninguém da equipe suporta mais ela. E eu como médica da equipe fiquei responsável por pedir sua demissão. Já fiz isso mais de 5 vezes, mas a política da empresa é sempre dar uma nova chance. Então, eles a chamam, conversam, fazem ela prometer que vai melhorar dizendo que é sua última chance e quando ela comete mais um erro, começa tudo outra vez e eles dão mais uma última chance. Estou tão cansada disso. Tentei resolver pelos métodos corretos, reportando para o chefe direto dela, um enfermeiro, e simplesmente não deu certo. Estou pensando seriamente em me reportar para meu chefe direto, médico, que com certeza vai entender melhor os riscos que os pacientes estão correndo sob responsabilidade dela. Mas se eu fizer isso posso colocar o enfermeiro em risco e não quero fazê-lo porque apesar desse problema específico não ter sido resolvido, ele me ajuda muito e temos uma ótima relação (o que não acontecia com o enfermeiro anterior, que só me causava problemas).
Enfim, se eu fizer o que considero certo e tentar forçar a demissão da idiota, corro o risco de ferrar o enfermeiro e arrumarem um chefe infinitamente pior do que ele. Ou seja, de qualquer forma eu perco.
O que fazer???
Mas sempre achei exagerado, fora da realidade. Bomba no centro cirúrgico, morte de um, câncer de outro, atirador querendo matar o chef e atirando em todos os médicos, entre outras bizarrices exageradas.
Só que... pensando bem... olhando de fora, minha vida é assim também. Em uma escala menor, é claro. Mas é assim!
Quando acho que as coisas vão se assentar, vai vir uma calmaria, chega um furacão e bagunça tudo. É um problema atrás do outro, uma bizarrice atrás da outra.
Tenho um colega de trabalho (que foi meu colega de faculdade também, ou seja, me conhece há uns 10 anos) que sempre diz que nunca viu alguém atrair tanta confusão quanto eu. Ele diz que onde eu estou a confusão está também.
Fiquei por um tempão obeservando, porque simplesmente tinha certeza de que era eu que causava as confusões. Não podia ser coincidência, claro.
Observei, observei, tentei mudar... até que... percebi que não sou eu que causo nada. E ele confirmou isso pra mim. Os tetos simplesmente caem na minha cabeça, sem que eu faça nada. Causo problemas na mesma frequência de outras pessoas, não mais.
Enfim...
Minha vida parece uma novela, um seriado.
E isso me cansa um pouco. Às vezes, queria que tudo ficasse simplesmente em maré baixa por uns dias. Sempre que um problemas está pra se resolver, fico esperando por aquele dia da calmaria. E nunca acontece porque antes aparece uma outra confusão e, quando percebo, já estou envolvida até o último fio de cabelo.
Atualmente, me envolvi num problema com uma agente de saúde. Ninguém da equipe suporta mais ela. E eu como médica da equipe fiquei responsável por pedir sua demissão. Já fiz isso mais de 5 vezes, mas a política da empresa é sempre dar uma nova chance. Então, eles a chamam, conversam, fazem ela prometer que vai melhorar dizendo que é sua última chance e quando ela comete mais um erro, começa tudo outra vez e eles dão mais uma última chance. Estou tão cansada disso. Tentei resolver pelos métodos corretos, reportando para o chefe direto dela, um enfermeiro, e simplesmente não deu certo. Estou pensando seriamente em me reportar para meu chefe direto, médico, que com certeza vai entender melhor os riscos que os pacientes estão correndo sob responsabilidade dela. Mas se eu fizer isso posso colocar o enfermeiro em risco e não quero fazê-lo porque apesar desse problema específico não ter sido resolvido, ele me ajuda muito e temos uma ótima relação (o que não acontecia com o enfermeiro anterior, que só me causava problemas).
Enfim, se eu fizer o que considero certo e tentar forçar a demissão da idiota, corro o risco de ferrar o enfermeiro e arrumarem um chefe infinitamente pior do que ele. Ou seja, de qualquer forma eu perco.
O que fazer???
sábado, 19 de março de 2011
Time to go
Acordar cedo no sábado sempre foi problema pra mim - um dos motivos porque larguei meu amado curso de francês.
Sábado é dia de descanso ou dia de faxina. Qualquer um dos dois. Mas é dia de acordar tarde, não dia de estudar (foi-se o tempo em que eu acordava cedo, ia pra aula no cursinho e ainda tinha simulado aos domingos...).
Mas uma vez por mês talvez seja aceitável.
Até breve.
Sábado é dia de descanso ou dia de faxina. Qualquer um dos dois. Mas é dia de acordar tarde, não dia de estudar (foi-se o tempo em que eu acordava cedo, ia pra aula no cursinho e ainda tinha simulado aos domingos...).
Mas uma vez por mês talvez seja aceitável.
Até breve.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Volta ao trabalho
Depois de duas semanas de viagem mais duas semanas de "fazer nada" no sofá, hoje retornei ao trabalho.
Esperava mudanças, considerando que o novo chefe chegou cheio de vontade de mudar.
Decepção.
Realmente ocorreram mudanças, mas muito pequenas e muito leves. Nada muito substancial. E na reunião geral, o mesmo papo de sempre - nem parecia que fiquei um mês fora. Mal sinal.
Pelo menos os dois piores funcionários foram embora e entraram outras no lugar. Três. Mulheres. Por enquanto a fofoca e briguinhas ainda não acontecem, mas espera só daqui a pouco...
Minha enfermeira continua desmiolada, mas agora não está mais protegendo os maus agentes de saúde - porque ela tomou uma advertência por não ter preenchido papéis que eles deveriam ter passado a ela.
O clima está meio estranho. Dois dos agentes simplesmente não falaram comigo (entraram na sala mudos, sairam calados - mesmo eu tendo milagrosamente falado "bom dia" - não houve sequer resposta e o silêncio pairou no ar pela falta de educação percebida por todos os presentes na hora). Me senti mal. Eu me dava tão bem com as ACS da equipe rosa... e agora sou tão mal vista... Nada me tira da cabeça que a postura protetora da enfermeira tem tudo a ver com isso.
Enfim...
Mais do mesmo. Nada novo de novo.
Vamos em frente.
Amanhã começa meu curso de especialização em Homeopatia. Estou animada. Espero gostar.
Esperava mudanças, considerando que o novo chefe chegou cheio de vontade de mudar.
Decepção.
Realmente ocorreram mudanças, mas muito pequenas e muito leves. Nada muito substancial. E na reunião geral, o mesmo papo de sempre - nem parecia que fiquei um mês fora. Mal sinal.
Pelo menos os dois piores funcionários foram embora e entraram outras no lugar. Três. Mulheres. Por enquanto a fofoca e briguinhas ainda não acontecem, mas espera só daqui a pouco...
Minha enfermeira continua desmiolada, mas agora não está mais protegendo os maus agentes de saúde - porque ela tomou uma advertência por não ter preenchido papéis que eles deveriam ter passado a ela.
O clima está meio estranho. Dois dos agentes simplesmente não falaram comigo (entraram na sala mudos, sairam calados - mesmo eu tendo milagrosamente falado "bom dia" - não houve sequer resposta e o silêncio pairou no ar pela falta de educação percebida por todos os presentes na hora). Me senti mal. Eu me dava tão bem com as ACS da equipe rosa... e agora sou tão mal vista... Nada me tira da cabeça que a postura protetora da enfermeira tem tudo a ver com isso.
Enfim...
Mais do mesmo. Nada novo de novo.
Vamos em frente.
Amanhã começa meu curso de especialização em Homeopatia. Estou animada. Espero gostar.
terça-feira, 15 de março de 2011
Pensando na vida
Estou sozinha em casa, algo comum daqui pra frente e comecei a pensar...
Tenho me sentindo muito sozinha desde a semana passada quando meu namorido começou a fazer cursinho. Cursinho pra prestar vestibular, porque ele quer cursar Medicina.
Nunca imaginei que depois de formada, tantos anos depois de ter passado pelo doloroso processo do vestibular, eu estaria novamente envolvida nesse pesar. É uma situação muito complicada porque eu já sou médica, querendo aproveitar a vida, viajar, preocupada com minha carreira, como melhorar o dia-a-dia do trabalho e, de repente, aparecem Gil Vicente, Newton, Kepler... again and again.
Eu admiro o esforço dele e até acho muito bom que ele tenha essa ambição e força de estudar porque também eu não gostaria de ser arrimo de família para o resto da vida.
Mas é errado eu estar meio chateada por estar tendo que passar por essa angústia de novo?
Não tenho problema em ajudá-lo com a matéria, em resolver exercícios, em quebrar minha cabeça pra lembrar de assuntos que há tanto tempo não vejo - na maioria das vezes até acho enriquecedor pra mim também... Não teria problema nenhum se ele decidisse parar de trabalhar pra só estudar, se eu tivesse que sustentar a casa por anos sozinha.
O que me incomoda, e incomoda muito, é a angústia que vem acoplada. É ter que passar por todo processo de construção da segurança, por toda dor de não saber o mínimo, por toda dificuldade de estar tão desnivelado dos outros por ter feito um colegial muito inferior ao que os concorrentes... o que dói é a dor que o processo causa dia-a-dia, que já começou a afetá-lo em cada aula.
Hoje vi aquele filme "Lixo Extraordinário". Muito bom (achei o começo muito mal dirigido e me incomodou profundamente os diálogos artificiais em inglês, mas isso não estragou a magia das histórias contadas)! Comecei a pensar em todas as pessoas que não tem oportunidades na vida, em toda dificuldade que algumas pessoas precisam enfrentar, em toda a dificuldade que eu tive que enfrentar pra chegar aqui...
O Vik fala no filme sobre sua origem pobre e a necessidade que ele teve de comprar muita porcaria quando começou a prosperar. Entendo bem o que ele quer dizer. Numa proporção menor porque não tenho nem 1/10 da grana que ele tem. Mas passei por isso. Esse ano que passou comprei muita coisa inútil que achei que precisava e na verdade não passava de um capricho que passou. Podia ter guardado esse dinheiro e hoje poderia quitar meu carro, mas não. Simplesmente gastei muito por aí.
Não me arrependo porque no momento aquilo parecia o certo a fazer, mas fico me perguntando: será que já saí dessa fase?
Na minha última viagem - fui para Los Roques e recomendo muito! - minha máquina fotográfica digital morreu afogada. Meu namorido derrubou ela dentro da água do mar do caribe (pelo menos foi uma morte em grande estilo). Comecei a pensar em comprar outra máquina, talvez uma melhor, com maior possibilidade de zoom, talvez fazer um curso de fotografia, aprender a mexer em câmera reflex e tal...
Entrei em crise por causa disso.
Parece uma besteirinha (e talvez realmente seja) mas a questão era mais profunda e envolvia uma decisão que poderia me guiar nas próximas compras. Por um lado, tenho grana pra fazer o curso, comprar uma ótima máquina e tal. Por outro lado: preciso disso??? Ou é apenas mais um capricho?
Eu gostaria de ter uma boa câmera e saber mexer direito mas... uso muito pouco. Na verdade, só a utilizo nas férias (considerando o cursinho do senhorito atualmente, talvez nem isso nos próximos anos). Na maior parte do tempo, as fotografias do meu iphone satisfazem minhas necessidades do cotidianos. Então, pra que uma máquina melhor???
Talvez apenas para o prazer de consumir. E essa é a grande questão que me assombra. Nunca pude ter, agora posso. Nunca precisei ter continuo não precisando. Mas quero ter.
No fim das contas, acabei me enamorando de uma digital Sony que vi numa vitrine por um preço razoavelmente acessível e uma tecnologia mediana em relação ao que estava procurando. Amanhã vou vê-la mas acho que não vou comprar.
Depois conto.
Em meio a todos esses pensamentos um tanto fúteis, passam pela minha cabeça questões mais profundas que estou tentando esconder de mim mesma. Questões em relação à qualidade do meu trabalho (que não acho satisfatória), minha relação com a equipe (juntando os pontos, acho que os agentes de saúde dessa minha equipe atual não gostam nem um pouco de mim, apenas me aturam), minha relação com minha enfermeira atual, que é uma folgada mor com quem não posso contar pra me ajudar...
Penso muito nos meus pacientes que vivem precisando de consultas e nunca tem o suficiente, o quanto disso é responsabilidade minha...
Sei lá...
Sei lá...
Tenho me sentindo muito sozinha desde a semana passada quando meu namorido começou a fazer cursinho. Cursinho pra prestar vestibular, porque ele quer cursar Medicina.
Nunca imaginei que depois de formada, tantos anos depois de ter passado pelo doloroso processo do vestibular, eu estaria novamente envolvida nesse pesar. É uma situação muito complicada porque eu já sou médica, querendo aproveitar a vida, viajar, preocupada com minha carreira, como melhorar o dia-a-dia do trabalho e, de repente, aparecem Gil Vicente, Newton, Kepler... again and again.
Eu admiro o esforço dele e até acho muito bom que ele tenha essa ambição e força de estudar porque também eu não gostaria de ser arrimo de família para o resto da vida.
Mas é errado eu estar meio chateada por estar tendo que passar por essa angústia de novo?
Não tenho problema em ajudá-lo com a matéria, em resolver exercícios, em quebrar minha cabeça pra lembrar de assuntos que há tanto tempo não vejo - na maioria das vezes até acho enriquecedor pra mim também... Não teria problema nenhum se ele decidisse parar de trabalhar pra só estudar, se eu tivesse que sustentar a casa por anos sozinha.
O que me incomoda, e incomoda muito, é a angústia que vem acoplada. É ter que passar por todo processo de construção da segurança, por toda dor de não saber o mínimo, por toda dificuldade de estar tão desnivelado dos outros por ter feito um colegial muito inferior ao que os concorrentes... o que dói é a dor que o processo causa dia-a-dia, que já começou a afetá-lo em cada aula.
Hoje vi aquele filme "Lixo Extraordinário". Muito bom (achei o começo muito mal dirigido e me incomodou profundamente os diálogos artificiais em inglês, mas isso não estragou a magia das histórias contadas)! Comecei a pensar em todas as pessoas que não tem oportunidades na vida, em toda dificuldade que algumas pessoas precisam enfrentar, em toda a dificuldade que eu tive que enfrentar pra chegar aqui...
O Vik fala no filme sobre sua origem pobre e a necessidade que ele teve de comprar muita porcaria quando começou a prosperar. Entendo bem o que ele quer dizer. Numa proporção menor porque não tenho nem 1/10 da grana que ele tem. Mas passei por isso. Esse ano que passou comprei muita coisa inútil que achei que precisava e na verdade não passava de um capricho que passou. Podia ter guardado esse dinheiro e hoje poderia quitar meu carro, mas não. Simplesmente gastei muito por aí.
Não me arrependo porque no momento aquilo parecia o certo a fazer, mas fico me perguntando: será que já saí dessa fase?
Na minha última viagem - fui para Los Roques e recomendo muito! - minha máquina fotográfica digital morreu afogada. Meu namorido derrubou ela dentro da água do mar do caribe (pelo menos foi uma morte em grande estilo). Comecei a pensar em comprar outra máquina, talvez uma melhor, com maior possibilidade de zoom, talvez fazer um curso de fotografia, aprender a mexer em câmera reflex e tal...
Entrei em crise por causa disso.
Parece uma besteirinha (e talvez realmente seja) mas a questão era mais profunda e envolvia uma decisão que poderia me guiar nas próximas compras. Por um lado, tenho grana pra fazer o curso, comprar uma ótima máquina e tal. Por outro lado: preciso disso??? Ou é apenas mais um capricho?
Eu gostaria de ter uma boa câmera e saber mexer direito mas... uso muito pouco. Na verdade, só a utilizo nas férias (considerando o cursinho do senhorito atualmente, talvez nem isso nos próximos anos). Na maior parte do tempo, as fotografias do meu iphone satisfazem minhas necessidades do cotidianos. Então, pra que uma máquina melhor???
Talvez apenas para o prazer de consumir. E essa é a grande questão que me assombra. Nunca pude ter, agora posso. Nunca precisei ter continuo não precisando. Mas quero ter.
No fim das contas, acabei me enamorando de uma digital Sony que vi numa vitrine por um preço razoavelmente acessível e uma tecnologia mediana em relação ao que estava procurando. Amanhã vou vê-la mas acho que não vou comprar.
Depois conto.
Em meio a todos esses pensamentos um tanto fúteis, passam pela minha cabeça questões mais profundas que estou tentando esconder de mim mesma. Questões em relação à qualidade do meu trabalho (que não acho satisfatória), minha relação com a equipe (juntando os pontos, acho que os agentes de saúde dessa minha equipe atual não gostam nem um pouco de mim, apenas me aturam), minha relação com minha enfermeira atual, que é uma folgada mor com quem não posso contar pra me ajudar...
Penso muito nos meus pacientes que vivem precisando de consultas e nunca tem o suficiente, o quanto disso é responsabilidade minha...
Sei lá...
Sei lá...
quinta-feira, 10 de março de 2011
Viver é correr riscos

Ontem, uma tarde comum, de um dia comum, no meio das minhas primeiras férias do trabalho, recebo um telefonema aterrorizador.
Minha irmã, chorando compulsivamente, me disse que tinha acabado de se queimar gravemente - o rosto e o braço.
Enquanto tentava acalmá-la pra tentar entender melhor o que havia acontecido, passavam em minha mente imagens de pessoas queimadas à la Freddy Krueger. Cicatrizes grandes e horríveis, com deformações permanentes.
Minha irmãzinha, aquela que eu sempre disse a todos que era muito mais bonita do que eu, de repente, queimada e marcada pra sempre.
Claro que a imagem da minha mente estava muito exagerada - tanto pelo desespero dela no telefone quanto por meu medo.
Fui pra casa dela o mais rápido que consegui (demoraria cerca de 1h30), tremendo dos pés à cabeça e ligando a cada dois minutos.
Ela estava sozinha em casa (quer dizer, ela estava com minha avó velhinha que tem parkinson avançado e consequentemente é acamada), o carro dela havia quebrado no dia anterior, meu pai estava vaiajando há mais de um mês sem dar satisfação de onde estava.
Como eu não sabia a gravidade da situação e não conseguia entender pelas coisas que ela resmungava e choramingava no telefone, pedi que ela ligasse para o SAMU para que eles a buscassem o mais rápido possível.
Conforme passaram-se as "meia-horas", percebi que o SAMU não ia chegar mas ela foi se acalmando.
Ela conseguiu me contar que estava cozinhando leite condensado na panela de pressão e quando foi abrir a lata, explodiu na cara dela. Queimou a testa e embaixo dos olhos. Por sorte (MUITA SORTE) não atingiu os olhos. Perguntei se havia bolhas, ela disse que sim.
Como o SAMU estava demorando muuuuito, pedi para ela ligar lá e cancelar, pois eu certamente conseguiria chegar mais rápido e entendendo agora que a situação não era tão grave (não havia risco iminente), não necessitava de atendimento especializado rápido.
No caminho fui ligando para todos meus melhores amigos médicos (são muuuuitos). É incrível como, mesmo sendo médica, no momento em que minha irmãzinha estava envolvida, esqueci absolutamente tudo de medicina... Lembrava dos cuidados básicos tipo manter em água corrente e não passar nenhuma pomada, mas não consegui nem classificar a queimadura porque não conseguia lembrar cada uma.
Meus amigos de ouro! Me ajudaram enormemente, me acalmaram... Sem mencionar meu namorido que mais uma vez ficou do meu lado o tempo todo e fez absolutamente tudo que precisei (inclusive dirigir, porque obviamente eu não estava em condições).
Peguei minha irmã, várias garrafas de água e um bande gigante (para ela ir molhando o ferimento no caminho e aliviasse a dor), levei-a para o hospital, fiz tudo que pude (que na verdade não era muito) e a levei de volta pra casa.
De fato, a queimadura foi pequena, a maior parte de 1º grau, nada que vá deixar grande cicatriz (talvez não fique cicatriz alguma), mas fiquei mega traumatizada.
De repente, mais uma vez, me deparei com os riscos de viver, com a finitude, a fragilidade, a impotência...
Fiquei muito assustada de pensar novamente, que de um minuto para outro nossa vida pode mudar completamente ou mesmo acabar, sem que a gente tenha o menor controle.
Sou uma pessoa muito insegura por natureza. Fico sempre pensando em coisas idiotas como: e se eu ficar paraplégica ou cega?, e se meu filho nascer com deficiência?, e se meu marido me deixar? Mas por mais que considere essas possibilidades diariamente quando algo assim acontece perco completamente o chão, me desestruturo, me assusto de forma tão intensa que nem sequer consigo pensar no amanhã.
Tantas coisas podem dar errado todos os dias mas é impossível viver considerando isso. O problema é que não consigo parar de considerar, principalmente quando algo assim acontece.
Acabo entrando num ciclo de medo e renascimento meio maluco. Em alguns momentos parto pra aproveitar a vida sem pensar no amanhã (acelero o carro, gasto todo meu dinheiro em pequenos sonhos e confortos, dou presentes, me divirto) e logo depois me deprimido, me fecho, sento na frente da tv com meu amor do lado e faço de tudo pra me manter o mais segura possível ali.
Ainda não sei o equilíbrio entre esses dois modos de vida. Viver de forma minimamente segura mas aproveitando a vida e sendo feliz.
Tento fortemente me equilibrar e vou continuar tentando mas parece impossível.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Como simplesmente muda?
Mudança de vida.
Mudança de domícilio.
Mudança de estado civil.
Mudança de chefe.
Mudanças (várias) de humor.
Mudança de corpo.
Mudança de sonhos.
Mudança de perspectiva de vida.
Quero engravidar. Pra hoje. Pra ontem.
Não sei por que nem como isso mudou. Simplesmente mudou.
Antes eu não podia nem ver aquelas barrigudas que sentia repulsa.
Agora, continuo achando feio e desagradável. Mas estou disposta a passar por esses nove meses se for pra ter mais um par daqueles lindos olhos verdes ou quem sabe uma menininha de olhinhos escuros, meio puxados e cílios grandes.
Um menino ou uma meninca. Ou quem sabe os dois...
Mudança de domícilio.
Mudança de estado civil.
Mudança de chefe.
Mudanças (várias) de humor.
Mudança de corpo.
Mudança de sonhos.
Mudança de perspectiva de vida.
Quero engravidar. Pra hoje. Pra ontem.
Não sei por que nem como isso mudou. Simplesmente mudou.
Antes eu não podia nem ver aquelas barrigudas que sentia repulsa.
Agora, continuo achando feio e desagradável. Mas estou disposta a passar por esses nove meses se for pra ter mais um par daqueles lindos olhos verdes ou quem sabe uma menininha de olhinhos escuros, meio puxados e cílios grandes.
Um menino ou uma meninca. Ou quem sabe os dois...
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