segunda-feira, 27 de julho de 2009

Denúncia

Queria ter coragem para denunciar ao CRM um dos médicos com quem tive o desprazer de cruzar nesse fim de semana. Mas como não tenho o "culhão" necessário para bancar essa... me conformo com um desabafo no blog e, no máximo, uma reclamação para o chefe do cidadão.

Estou passando pela enfermaria da Clínica Médica e durante toda semana passei visita com um Assistente aparentemente bom. Discutia os casos novos com profundidade suficiente, cobrava alguns conhecimentos nossos, beleza. Nunca me pareceu um grande Assistente mas também nunca tive problemas com ele.

Até que sábado, fui à enfermaria evoluir pacientes de um outro grupo, que eu nem conhecia. Por coincidência (não acredito em coincidências!) o tal médico boa pinta apareceu para discutir os casos.
Eu tinha passado umas 4 horas revisando os casos dos 7 pacientes que ficaram sob minha responsabilidade, tentando entender o que estava acontecendo com eles, conversando com a família.
Aí, no fim da manhã, fui passar os casos para o Assistente para discutir as condutas.

O primeiro era o pior: uma senhorinha com Alzehmeir avançado com uma pneumonia, dessaturando, mal perfundida, com piora do leuco e PCR. Ele ouviu (ou fingiu, sei lá), carimbou a prescrição e passou para o próximo. Perguntei se não deveríamos pensar numa mudança do esquema terapêutico, investigar algum outro foco de infecção. Ele respondeu: "Ih... não... colhe outro exame de sangue amanhã e a gente vê como fica".
Beleza.
Nos pacientes seguintes, ele foi diminuindo progressivamente o quanto ele deixava eu contar da história.

Num deles, eu falei: "O paciente está ali na sala de tv, professor. É uma paciente de 43 anos...", ele me interrompeu e disse "Nada a fazer, né? Nada a fazer!", carimbou a prescrição e saiu andando.
Eu parei ele, disse que o paciente tinha chegado da UTI na noite anterior, que era um paciente com AIDS, ICC descompensada, aneurisma de VE... Ele me ignorou completamente e mandou que eu passasse o próximo.

O último paciente do dia ainda foi pior. Era um homem de 40 e poucos anos com uma pneumonia que tentou tratar em casa, mas teve piora do padrão respiratório. Estava no 5º dia de esquema antibiótico ampliado, na noite anterior estava necessitando de O2, saturando 90%. Mal consegui explicar essa breve história, o Assistente vira e diz: "Ele tá de alta, né?"
- Como assim tá de alta, professor?! Acho que ainda tá cedo pra ele ir pra casa.

Ele entrou no quarto do paciente, olhou pra cara dele:
- Sr. Fulano, você tá bem, né?! Quer ir pra casa, não quer?
O Sr. Fulano olhou com aqueles olhos arregalados, sem entender nada.

E o sabixão me obrigou a dar alta para o paciente, para tomar Claritro em casa. Um absurdo!

Essa história toda já seria o suficiente para eu querer denunciá-lo. Só por se dizer responsável por doentes que ele nem viu a cara, já seria o suficiente. Mas tem mais.

Na semana anterior, ele tinha dado alta para uma paciente HIV, que tinha internado por Pneumocistose. Ela tinha tomado 10 dias de ATB internada e apresentava um diarréia crônica (há 3 meses). O sabixão mandou que a gente suspendesse o ATB no 10º dia porque isso podia ser a causa da diarréia. Na hora, o Residente questionou e disse que o mínimo era de 14 dias de antibiótico. O sabixão disse que não, que eram só 10. Depois ele ficou na dúvida, abriu seu palm e viu que realmente o tratamento era de 14 a 21 dias.
Mesmo assim, suspendeu o medicamento e deu alta pra paciente assim que a diarréia melhorou um pouco.
3 dias depois a paciente voltou ao hospital. Em Insuficiência Respiratória. Foi direto pra UTI onde se mantém ainda com pulmão lixo.
Pode ser que a insuficiência respiratória dela não tenha nada a ver com a Pneumocistose anterior. Pode ser que ela tenha pego uma PNM hospitalar (que só se manifestou depois da alta) que a fez piorar do pulmão. Mas convenhamos... como você vai provar agora que o esquema antibiótico de 10 dias foi suficiente se a literatura evidencia 14 dias no mínimo e se a mulher piorou assim tão rápido depois da suspensão do medicamento???


Ahhhh, e eu ainda fico me colocando pra baixo, pensando que sou ruim, que tenho pouco conhecimento, que não sou boa o suficiente para clinicar... Tem gente muito pior que eu!!!
O pior não é você não ter o conhecimento. O pior é você não se interessar pelos pacientes, querer se livrar deles... o pior, é achar que sabe tudo e fazer idiotices da sua cabeça, colocando a vida dos outros em risco.

Comecei a achar que enquanto eu sentir que não sei o suficiente, estou segura. O problema vai ser quando eu achar que sei muito e que não preciso mais dos livros ou das outras pessoas...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Num guento maisss!

Putz, ainda bem que estou fazendo o estágio de Clínica Médica agora e não no fim do ano.
Estou em profundo desespero.
Mais uma vez meu bloqueio em relação a essa especialidade se manifesta e eu tenho vontade de me matar. Detesto, não tem jeito.

Cada pergunta que o Assistente me faz, fico me segurando para não responder: "Não sei e não estou interessada".
Hoje no ambulatório, o chefe me perguntou se eu tinha testado os "trigger points" da paciente com suspeita de fibromialgia. A resposta foi, obviamente, "não".
Aí ele pediu para que a outra assistente, que é reumatologista, viesse me ensinar. Eu espremi meus lábios para não responder: "não precisa, não vou aprender mesmo, não tô interessada".

Na boa, eu sei que é importante. Eu sei que aprender Clínica Médica é essencial para qualquer médico. Mas eu não consigo. Eu simplesmente detesto atender adultos.

As pessoas me dizem que é perigoso dar plantão de Pediatria sem ter feito residência, que é muito mais seguro dar plantão de Clínica Médica. Mas tenho certeza que para mim é o contrário. Dando plantão de Clínica eu vou acabar colocando a vida das pessoas em risco porque simplesmente não consigo reter informações sobre essa especialidade.

Por exemplo, se eu atendesse uma paciente com hipertireoidismo, tomando metimazol e com gripe e febre há um dia, eu ia dizer que não é nada, que é a gripe e ia mandar pra casa com antitérmico com orientações de retorno se necessário.
Erro gravíssimo!!!
A mulher pode ter uma agranulocitose por causa da medicação e minha conduta de mandá-la pra casa sem colher hemograma pode colocar a vida dela em risco!
Nesse momento eu sei disso, porque atendi uma paciente assim hoje. O problema é que daqui há 6 meses, não vou lembrar dessa informação.
Não vou conseguir me lembrar de TODAS as coisas essenciais que preciso me lembrar sobre as principais doenças. Sei que não vou.

Com a Pediatria é diferente. As informações fazem sentido pra mim e acabo me lembrando das principais intercorrências. Os plantões são sempre mais pesados e a gente sempre corre o risco de atender uma criança grave. Mas consigo fazer meu cérebro funcionar, consigo no mínimo me lembrar que a doença tal tem alguma coisa de diferente em relação à conduta (posso não me lembrar exatamente o que e como, mas sei que preciso procurar - a luz vermelha acaba acendendo, entende?).

Enfim, não aguento mais me sentir uma "dumb" retardada. Não aguento mais ter que me segurar para não mandar meus chefes à merda. Tá difícil suportar esse estágio... Mas é a última semana.
Depois vem a cirurgia e eu vou poder fazer apendicectomias do começo ao fim e consertar hérnias. Não serei mais apenas uma instrumentadora inútil mas sim uma cirurgiã (de procedimentos simples, claro!)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Divagações sobre amizades

Consegui tirar esse fim de semana e mais alguns dias para descansar... depois de tanto trabalho nas duas semanas anteriores.
Descansando, fiquei assistindo às baboseiras atuais da televisão brasileira.

E não é que me identifiquei demais com uma pessoa inesperada.
Assisti à eliminação dessa semana em "A Fazenda" (nunca tinha assistido ao tal programa, mas nada como alguns minutos e alguns cliques para me fazer entender tudo). No dia seguinte, acabei assistindo a um outro programa na record que estava entrevistando a eliminada: Lucielle di Camargo.

E não é que me identifiquei demais com essa menina.
Personalidade forte, briguenta quando afetam seus valores, meio estourada, estressada, meio isolada... Me vi na história dela.

Agora pouco, assisti novamente o tal programa. E não é que a melhor amiga da coitada da Lucielle afirma em rede nacional que não escolheria ela para "Fazendeira".
Engraçado ver algo tão parecido com sua história retratado num programa de tv idiota.

Sou uma pessoa difícil. Todo mundo sabe disso. E muitas vezes acabo incompreendida.
Compro briga quando afetam meus valores, mesmo sabendo que no fim não vai dar em nada, mas prefiro lutar do que abaixar a cabeça e deixar pisarem em mim.
Não consigo ser imparcial. Nunca. Sempre assumo um lado do muro. Nem sempre o certo, mas quando é o errado, sei reconhecer e tento consertar os estragos.

Sou leal aos meus amigos. Mas isso não me impede de mostrar-lhes minha opinião e avisar quando acho que estão errado.
E espero o mesmo das pessoas.
Espero que elas fiquem do meu lado nas minhas brigas justas e espero que elas me dêem bronca quando estou errada.

O problema é que poucas pessoas são assim.
A maioria das pessoas é como a Fabiana. Ficam em cima do muro e não se metem em confusão (nem para defender um amigo). Às vezes elas dão bronca, mas se retiram se a coisa esquenta de qualquer forma.
Às vezes elas param para te escutar, mas só se isso não atrapalhar sua rotina ou sua política com as outras pessoas.

É triste.
Dá solidão perceber essas coisas.

Semana passada eu estava estressada. Muito estressada. Absurdamente estressada.
E briguei com deus e o mundo.
Até acho que eu tinha razão nas coisas que disse. Mas com certeza não deveria ter dito do jeito que disse.
Sabe o que meus amigos fizeram?
Ao invés de vir falar comigo, perguntar o que estava acontecendo, dizer que eu tinha exagerado, que eu não deveria ter falado daquele jeito... as pessoas simplesmente passaram a me tratar com extremo cuidado. Extremo! Quase não falavam comigo. Com medo de ser a próxima vítima.
Ridículo!
Amigos? Sério?

Sabe que cada dia mais eu acredito que nenhum deles é meu amigo.
Fico imaginando daqui a uns anos, se terei contato com alguém daquele grupo.
Gostaria de manter contato com pelo menos 2 deles. Dois que apesar de tantas discussões e brigas, continuam por perto. Dois que são tão diferente de mim e tão especiais. Mas não sei se isso vai acontecer.

Acho que vou me formar e seguir meu caminho (aliás, uma das meninas que mais considerava amiga e que me decepcionou absurdamente esse ano, veio pedir minha ajuda para conseguir emprego... ela quer seguir MEU caminho...).

Talvez eu continue assim pra sempre. Com amigos que só são amigos às vezes.
Talvez eu encontre pessoas parecidas comigo. E talvez, muito talvez, eu consiga supartá-las por tempo suficiente para se tornarem minhas amigas.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

MJ

Tenho dificuldade para entender quando as pessoas dizem "não acredito que MJ morreu, ele parecia imortal!". Juro que tento mas não compreendo o que esse "sentimento" quer dizer.
Entendo que as pessoas estão tristes, que foi uma grande perda para muitos. Entendo a perda e o sofrimento que ela trás. Mas essa descrença (que não é aquela fase de negação da Kubler-Ross), essa sensação de imortal deixa muito claro que as pessoas não viam MJ como uma pessoa normal, viva. Talvez só como uma imagem, algo que fazia parte da tv e dos palcos - imortal, portanto. Bizarro!

Ultimamente sempre que eu via uma notícia sobre ele, quando soube que ele ia fazer shows novamente, eu pensava "mas ele ainda está vivo mesmo?". Pra mim, MJ era uma pessoa. Não uma pessoa como qualquer outra, mas um mortal muito mais perto da morte do que eu ou você. Sempre o percebi como uma pessoa muito frágil, doente, um sofredor. E por vezes achei mesmo que ele já tinha morrido.

Não sei se porque estou sempre muito próxima da morte dos outros. Não sei se porque trabalho com fragilidade e doença... Não sei.

Sinto muito por ele ter ido. Sinto mais pelos filhos que ele deixa do que propriamente pela arte que ele ainda poderia produzir.
Sinto muito mesmo.
Mas acho que agora ele pode parar de sofrer e descansar.
Em paz.

domingo, 28 de junho de 2009

Elucubrações

Engraçado como amizades terminam.
Aí a gente pensa: "mas era meu amigo mesmo?".

Engraçado como algumas pessoas são incapazes de manter amizades.

Talvez eu seja uma delas.

Tenho amigos. Alguns fantásticos, outros nem tanto, mas um número considerável de pessoas ao meu redor que pode contar comigo any time e com quem sei que também posso contar (em caso de necessidade extrema, porque pra necessidades meia-boca, tipo uma conversa-desabafo, talvez só um ou dois).

O problema é que não posso passar muito tempo com eles.
A convivência próxima simplesmente detona minhas relações. Eu me irrito, me canso. Sei lá.

Uma das minhas maiores dificuldades na vida é perdoar.
Quando a pessoaa reconhece seu erro, tenta mudar, eu até que consigo perdoar. Ou quando a pessoas demonstra (depois que minha raiva passou) que sou importante para ela, que ela gosta de mim, quando ela se esforça para uma reaproximação, também acabo esquecendo o ruim.

Agora, quando a pessoa pisa na bola e depois age como se eu estivesse errada (por ficar brava, ou por qualquer outro motivo) ou quando a pessoa simplesmente se afasta, eu não consigo mais nem olhar pra cara dela. Não suporto estar no mesmo ambiente.

Depois de 1ano e meio de internato, já tive diversas brigas com as pessoas com quem convivo, já passei meses sem falar com algumas pessoas de lá. Mas a maioria acabou voltando.

Porém, algumas pessoas se foram. Continuo sendo obrigada a conviver com elas mas não faço a menor questão de sequer cumprimentar.
O mais estranho é que sempre tive um pé atrás com essas pessoas, sempre achei que tinha algum desvio de caráter que eu não estava enxergando.

É estranho como meu "sexto-sentido" me domina. É estranho como e o quanto sinto...

Fico pensando se estou perdendo em não manter certas amizades. Fico pensando se esses rompimentos que eu causo não são piores do que uma convivência mínima pacífica... sei lá.
Talvez eu simplesmente tenha nascido para ser sozinha mesmo...

Desperdício de vida

Juro que eu queria parar de reclamar.
Queria mesmo.
Mas não dá.

Eu realmente não gosto de clínica. Não gosto de atender paciente adulto, f... na vida, que não quer viver se for pra ter restrições.
Não me conformo com essas pessoas. Elas passam a vida inteira fazendo merda, não se cuidam, não tomam remédio que precisam e quando chegam no fim da linha, elas vem nos procurar pedindo para salvarmos a vida acabada delas.

Não consigo lidar com isso. Não consigo ajudar pessoas que não se ajudam. Não consigo acompanhar num ambulatório pacientes que não tomam remédio, que não fazem dieta, que não limpam suas feridas, que perdem o pé, as pernas, a visão, os rins por uma doença que poderia ser boba como diabetes.

Pior é que não consigo nem me interessar por essas coisas.
Sou médica, preciso aprender a tratar dos pacientes, mas não gosto, não quero, não consigo. Cada minuto que passo com clínico, é um minuto a menos da vida que eu poderia estar aproveitando. Não tô afim de aprender como desmamar uma ventilação mecânica (porque não quero trabalhar em UTI), não tô afim de ver todas as fases de uma ICC (porque já vivi isso e dói demais), não quero mais estudar essas coisas, já não tenho mais idade pra me submeter a certos sofrimentos e imposições de professores ridículos, que maltratam seus pacientes mas sabem tudo de tudo da fisiopatologia das doenças.

Que saco!

Aí, ao invés de viver, de aproveitar minha folga para algo útil ou estudar para cuidar das minhas criancinhas, fico tão cansada, fico tão de saco cheio do meu dia-a-dia que passo o fim de semana inteiro assistindo filmes para esquecer a realidade e brincando com estúpidos joguinhos na internet pra não sentir o tempo passar.

Falta tão pouco, mas agora parece uma eternidade.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

UTI

Momento de UTI.
Estranho estar nos últimos meses de faculdade e descobrir que não tenho noção de como tocar uma UTI. Comecei o estágio completamente cru. Não sabia nem ligar um ventilador – mexer nele, então...
Aprendi na marra (porque nessa altura do campeonato ninguém mais vai pegar na minha mão pra ensinar nada. Claro!)
Estou agora com uma paciente bastante grave.
Para as pessoas leigas dizer que tenho um paciente grave na UTI pode parecer redundância. Mas não é bem assim. Os pacientes em geral estão mal, mas a maioria ou está melhorando ou está “desenganado”.
Minha paciente tinha plenas condições de ficar bem.
Se... ela tivesse controlado sua Diabetes e tivesse cuidado direito das feridas em seus pés (não teria tido que amputar as duas pernas).
Se... ela não deixasse a obesidade dela avançar tanto tanto tanto.
Se... ela tivesse controlado melhor seu colesterol.
Se... ela tomasse direito os remédios para a pressão.
Se ela tivesse feito alguma coisa direito com a saúde dela.

Agora ela tá lá. Sem as duas pernas, com coração nas últimas, um pulmão fraco, intubada. Pegou uma infecção que eu não consigo descobrir de onde vem. A ferida operatória (da segunda amputação) está com uma secreção purulenta, horrível, toda hiperemiada (já fizemos até tomografia – mas não há coleções). Na ponta do cateter, recém trocado de sítio, está crescendo um Staphylo (Oxa R mas Vanco S). Ela já está recebendo 5 dias de Vanco e Tazocin. E continua fazendo febre.
Vira e mexe ela fica hipotensa.
Seu rim está piorando a cada dia. Ontem foram apenas 250ml de diurese com função renal piorando progressivamente.
O Rx tórax, pedido diário ultimamente, é péssimo (em técnica) – pela quantidade de gordura, pela dificuldade de posicionamento, pelo pulmão coitado...
O Hb dela cai progressivamente – acabei de pedir concentrado de hemácias. Mas não sei onde ela está sangrando (pedi uma endoscopia e estou aguardando).

De verdade, olho para ela e me dá desespero. Não sei mais o que fazer. Não sei como ajudar.
E a assistente ainda me pergunta: “por que você anda tão ansiosa, por que essa agitação, menina?”. E quando eu respondo que a culpa é da paciente, ela dá risada da minha cara e diz: “mas achei ela melhorzinho hoje; ela tá melhorando. Calma que já discuto o caso dela e você vai ficar tranqüila”.
Aí a gente discute o caso dela e eu fico mais confusa e desesperada ainda.

Acho que daqui a pouco quem vai precisar de sedação sou eu.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

03-06-09

Dia 03 do mês 06 do ano 09 do século 21.
Tem alguma coisa de especial no dia de hoje, mas não consigo saber o que é.

Talvez o excesso de múltiplos de 3.

Talvez seja por estar um dia tão lindo: sol forte, nenhuma nuvem no céu e muito muito frio.

Talvez por estar no meio da primeira semana de minhas curtas férias.

Talvez porque hoje terminei de assistir a última temporada de Gilmore Girls. Assisti à formatura da Rory e pensei bastante na minha, tão próxima... e senti falta de minha mãe que gostava tanto de assistir esse seriado comigo... queria tanto que ela estivesse aqui para me ver colando grau.

Talvez porque hoje fui ao CRM levar meus documentos. Foi um momento meio mágico, sei lá. Eu? Doutora? A ficha tá começando a cair...

Talvez porque só hoje percebi que tenho a cara torta. Fui tirar foto 3x4 e reparei que estava muito torta. Aí peguei umas fotos antigas para comparar e... sempre fui assim. Nunca tinha reparado, mas tenho o lado direito mais para "baixo" que o esquerdo. Freak!

Talvez seja só minha alma de menina, tomando consciência da mulher.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Planos

Se tem uma coisa que aprendi na vida foi não fazer planos.
E, quando fizer, estar ciente de que eles podem ser mudados a qualquer momento, por qualquer pessoa ou nova realidade inesperada que se apresente.

Eu tinha decidido que ia embora ano que vem. Eu ia me alistar na Aeronáutica, para trabalhar em Boa Vista como médica militar. Já estava tudo certo, já estava totalmente preparada psicologicamente e estava começando a preparar minha família.

Foi quando descobri que a Aeronáutica não está mais mandando médicos daqui para Roraima porque eles estão conseguindo voluntários lá suficiente.

Meus planos foram ralo abaixo e após o momento de crise de "e agora?" decidi que vou ficar por aqui mesmo.
As pessoas me dizem que posso ir para outros lugares na Amazônia ou me alistar para ficar por perto, ou até ir para Boa Vista mesmo, mas pelo Exército.
Não quero. Sei lá. Não é a mesma coisa.

A pressão de ter que fazer a prova das Forças Armadas e, pior, prestar Residência já esse ano, estava me deixando louca.
Eu estava em desespero de pensar quanto ainda falta para eu estudar, para aprender sobre Medicina geral antes de me especializar em conhecimentos necessários para passar na prova de Residência (sim, existe uma enorme diferença).

Agora estou mais tranquila. Pelo menos um pouco. Tenho um monte de coisas para organizar, reorganizar meus estudos agora focando em Atenção Primária (que é no que pretendo trabalhar ano que vem), refazer meus planos, tranquilizar minha irmã (que eu não vou mais embora e ela não será mais a única pessoa sã para cuidar da minha vó e/ou do meu pai caso aconteça algo).

Duas semanas para parar, pensar, realinhar.
E depois, recomeçar.
Sabendo que meus planos podem ser mudados novamente a qualquer momento.

De qualquer forma, é um enorme alívio saber que estou me formando e que tenho emprego garantido, com bom salário, possibilidade de escolha e mudança a qualquer momento.
Mamãe ficaria orgulhosa!

domingo, 24 de maio de 2009

Carente de livro

Estou carente de livro.
Desde que terminei a biografia de Elizabeth Kubler-Ross, não consegui mais ler nada.
Talvez tenha sido o choque que aquele livro causou em mim, talvez a decepção, sei lá...

Talvez seja só pela pressão da formatura em breve e toda a responsabilidade que a acompanha.
Talvez seja a quantidade de estudo que ainda falta para eu ser uma médica suficiente.
Talvez seja a proximidade das férias.
Talvez seja pela quantidade de joguinhos que andei colocando no meu celular.

Fato é que já peguei diversos livros para tentar ler e não consegui passar das primeiras páginas de nenhum deles.
Hoje pensei em mais algumas possibilidades. Vamos ver se alguma delas me conquista.
Acho que vou tentar Kafka. Faz tempo desde a Metamorfose.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Oportunidade perdida

Putz... ontem perdi uma oportunidade incrível.
Atendi um paciente institucionalizado e conversei um pouco com a funcionária da Casa de Apoio sobre o funcionamento da instituição.
Fiquei encantada com o trabalho deles e com o amor que aquela pessoa demostrava em relação ao lugar e às crianças de quem ela cuidava.
Queria conhecer a instituição. Queria ser voluntária num lugar assim.
Mas não tive coragem de perguntar como chamava, onde era. Eu estava na posição de médica daquela criança, não queria me aproveitar da situação e tirar proveito propróprio.
Bobagem!
Tenho certeza que a mulher teria ficado felicíssima em me dar o endereço e ainda me convidaria para um chá.

Ped

Como eu decide fazer Pediatria como especialidade?
Quando percebi que ao chegar às 19h de qualquer plantão de qualquer especialidade, eu simplesmente queria sair correndo, me jogar de uma ponte... e ao chegar 19h do plantão no PS da Pediatria, eu queria continuar lá mais 12h. Eu fico curiosa para saber o que vai acontecer com os pacientes que atendi e que aguardam exame. Eu fico com vontade de conversar mais com as pessoas de lá, de ver mais pacientes, de aprender mais.

Tudo bem que depois de anos de ódio à Clínica Médica descubro que Pediatria é sim quase uma clínica em miniatura. Eu achei que não ia precisar aprender reumato, por exemplo. Mas não. A grande maioria das patologias dos adultos também atinge as crianças (já peguei nesse pronto socorro vários hipertensos, câncer, IRC dialítica, doença reumatológia a esclarecer, DM, Munchausen... entre outras tantas).
Assim, tem esse lado ruim de ter que abaixar minha guarda e estudar a fundo clínica. Mas sabe que dessa forma, em miniatura, eu até que estou gostando das elucubrações excessivas dos clínicos.

sábado, 16 de maio de 2009

Novelas

Definitivamente não posso mais assistir novelas.
Sim, isto é uma confissão meio que vergonhosa: adoro novelas.
Não todas elas, mas algumas em especial, prncipalmente quando têm alguns atores/atrizes que admiro.
Ultimamente tenho assistido "Caras e Bocas". Às 19h, paro tudo o que estiver fazendo e vou para a tv (quando não estou de plantão, claro).
Mas não vou mais poder fazer isso. Porque percebi que quando acompanho uma novela, fico extremamente sensível e muito romântica.
Ficar vendo aqueles casaizinhos se apaixonando na tv, me faz querer me apaixonar de novo, e aí... não dá certo.
"Poxa, se até a tia velha e chata consegue namorar o advogado velho, gordo e bobão, porque eu estou aqui sozinha?"
É meio triste.

E conforme vou pensando vou percebendo que não é por falta de gordos bobões na minha vida que estou sozinha. Estou sozinha, de certa forma, por uma escolha. Porque sou exigente, porque não aceito certas características numa pessoa (como caráter duvidoso ou quando a inteligência deixa a desejar), porque escolhi só me envolver com alguém que demostre que goste realmente de mim, desde que seja um bom partido. E esse alguém ainda não apareceu (é muito difícil alguém demonstrar que gosta assim).
E não tenho pressa pois ano que vem vou me mudar para longe e, se tiver um namorado, talvez a coisa fique um pouco complicada.

Mas eu fico vendo a novela e aquilo me afeta de uma forma...
Por isso que a partir de agora só vou me manter nos seriados. É bem melhor. Posso assistir a hora que quiser (porque baixo da internet) e é muito mais parecido com a vida real. Os casais se desencantam por nada, brigam com frequência, se separam por traições (a novela também tem um pouco dessas coisas mas a dose de romantismo e utopia é infinitamente maior).

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sentir

Depois de um fim de semana inteirinho de plantão...
- meu quarto está completamente revirado, com coisas espalhadas para todo lado
- no meu armário não se encontra nada do que se procura e se encontram várias coisas que não deveriam estar lá (encontrei meu cartão do banco lá no meio das roupas - já estava me programando de cancelar esse cartão porque não o encontrava em lugar nenhum)
- estou 900 gramas mais gorda. Sério! Quando cheguei no plantão sábado de manhã, me pesei. Ontem à noite quando estava saindo, me pesei de novo. E tinha ganhado 900g. Como??? Passei os dois dias correndo de um lado para outro, trabalhando, passando visita em pé durante 2h, fiz apenas as 3 refeições normais, não comi nada nos intervalos...

Seria um desastre de fim de semana se não tivesse sido na Pediatria.
Amei aquele PS. Todo mundo falava que eu não ia gostar, porque as crianças são muito graves e dá muita dó. Mas adorei!
As crianças são graves sim e é muito triste sim. Mas mesmo graves, a gente consegue tirar um sorriso, uma brincadeira, a gente consegue ajudar.
Quando cheguei no sábado, tinha um menininho lindo, carequinha pela quimio, uns 3-4 anos, com leucemia. Estava deitado no berço, prostrado. Dava muita dó.
No domingo à tarde, parecia outra criança. Ele estava correndo pelos corredores, aloprando as enfermeiras. Quase fiquei louca com medo de ele cair e rachar a cabeça. Ele caiu na minha frente 2 vezes (imagina as vezes em que eu não estava lá perto). Mas não rachou a cabeça. O pior é que ele levou para as brincadeiras perigosas dele uma menininha menor que ele, que tem um tumor e estava com neutropenia febril. Os dois quase se machucaram feio várias vezes.

Foi tão mágico vê-lo recuperado assim. A gente sabe que a doença dele é grave e que talvez ele não sobreviva muito tempo. Mas a gente está tentando ajudá-lo tanto a longo prazo, quanto a curto prazo. A gente fez com que ele se sentisse melhor, e ele teve alta no domingo mesmo.

Trabalhar com Pediatria é uma das experiências mais compensadoras da minha vida.
Não sei porque mas sinto que tenho dom para isso.
Olho pra criança, sinto que alguma coisa está errada e sei me direcionar para saber o que é. Mesmo ela não falando, ela não apresentando sintomas. (Por exemplo, ontem vi minha colega atendendo um garotinho e fui perto. Achei muito estranho o garotinho dormindo, achei que ele podia estar rebaixado. Não sei dizer porque mas tinha alguma coisa errada com o sono daquele menino. Falei com minha colega, falei com os residentes. Todos disseram que não era nada, que o menino tinha acabado de tomar um anticonvulsivante e por isso estava daquele jeito. Quando a chefe chegou, ela foi ver o garotinho e disse exatamente a mesma coisa que eu. Que o sono daquele menino estava estranho. Mandou ele para a sala de emergência, para ser monitorizado e tal. Me senti!)

Diferente com adultos. Por diversas vezes vi adultos piorarem na minha frente, ficarem em estado grave e eu simplesmente não consegui reconhecer, saber o que estava acontecendo. E nunca sei o que fazer direito. Não entendo a fisiologia de um adulto, não entendo a história dos adultos. Não consigo tirar história direito porque sempre acho que eles estão mentindo em alguma coisa (e na maioria das vezes eles estão mesmo).
Quando passei pelo PS da clínica, o chefe disse para mim que eu era a campeã em evasões. Ele disse que nunca tinha visto alguém (nem interno, nem residente) com tantos pacientes que abandonaram o PS no meio do atendimento. E eu era mesmo a campeã.
Não fico tentando segurar paciente adulto. Falo claramente que vai demorar no mínimo 4h para sair o resultado de exame e que não posso liberá-lo enquanto não sair, mas que se ele quiser "fugir" a porta está aberta. Paciente que está realmente mal, não vai embora. E muitos dos meus iam.

Enfim, acho que me encontrei mesmo.
Já decidi o que vou fazer esse ano e planejei mais ou menos minha carreira para os próximos 10 anos. Vamos ver se dá certo.
Sinceramente, sinto que fiz as escolhas certas!
Mas sempre posso mudar de idéia...

domingo, 3 de maio de 2009

Fase: Clássicos

Fim de semana prolongado muito bem aproveitado!

Assisti:
- Moulin Rouge (2001)
- Casablanca (1942)
- E o Vento Levou (1939)
- Chicago (2002)

Já estão nas minhas mãos:
- Tempos Modernos (1936)
- Forrest Gump (1994)
- A Noviça Rebelde (1965)
- Philadelphia (1993)
- 8 1/2 (Fellini - 1963)
- O Exorcista (1973)

Quero arrumar:
- O Mágico de Oz (1939)
e alguns outros musicais clássicos com Fred Astaire

(Não deveria ser permitido a alguém morrer sem antes assistir a esses clássicos...
Talvez por isso que existem outras vidas. Já imaginou, você chega no paraíso achando que alcançou a paz eterna, São Pedro vira pra você e diz: "Você ainda não assistiu 'Singing in the rain' nem 'Volver'; descerá novamente à terra e terá outra oportunidade para cumprir sua missão!".)

Essa semana estou me programando para assistir no cinema "Divã" e "Sinédoque, Nova Iorque".
Não vejo a hora de chegar ao brasil "Los Abrazos Rotos" (Almodóvar e Penelope juntos de novo). Não vejo a hora de terminarem de filmar "Nine" (um musical baseado no "8 1/2" de Fellini).
Acho que estou me tornando cinéfila
"Isn't that great?"