sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

Como traduzir essa dor tão grande que tomou conta de mim?
Impossível. Ela não é verbalizável...
Eu nunca imaginei que pudesse existir um sentimento tão intenso, uma dor tão profunda. A gente vê as pessoas chorando, sofrendo e a gente acha que é capaz de entender, que a gente é capaz de pelo menos ter uma noção do que aquela pessoa está passando. Mas não, agora eu sei que não somos capazes de imaginar o quanto dói.

Meu consolo é que sei que agora ela parou de sofrer. Se foi melhor para ela assim, então, que seja assim. Eu vou sentir muito ainda, vou chorar muito mas vou acabar aceitando.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2003

Essa noite sonhei que tinha um filho.
Estava grávida, fiz o parto e depois ele já estava andando. Era um menino lindo, com cabelo cheio de cachinhos... Minha mãe estava me ajudando a cuidar dele.
Em certo momento ele sumiu, fiquei desesperada procurando. Minha mãe também tinha sumido.
Fui achá-los no quarto da minha mãe, no antigo apartamento que morávamos, eles estavam dormindo como anjinhos. Lindo!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

Três dias de intensas atividades, muito estresse e várias dificuldades...
Como estou? Impressionantemente bem. Não perfeitamente bem pois corri esses dias todos e estou bastante cansada mas não estou deprimida, chateada, triste ou afins, como ficava antes.

Hoje: passei para ver minha mãe de manhã - tive que ouvir uma bronca da amiga dela "o que está acontecendo é um absurdo! Sua mãe tem família, milhares de amigas e fica aqui sozinha, abandonada, ela está precisando de mais cuidados, sabia? A assistente social conversou comigo e me explicou a situação. Por que seu pai não vem? Por que seus irmãos não vêm? Por que as amigas não ajudam? Vamos ter que fazer alguma coisa!!" Beleza! Como se eu não estivesse atolada de coisas pra fazer e problemas pra resolver...
Fui pra Liga de ICC e lá fiquei até uma 11h30. Voltei para ver minha mãe e tentar conversar com o residente, que disse "agora não vai dar porque tenho que passar visita com o Preceptor. Espere aí, tá?" Como se eu não tivesse mais nada pra fazer...
Esperei o máximo que deu mas tinha hora marcada no médico e não podia me atrasar. Saí correndo, passei na consulta, depois fui tentar fazer uma pesquisa de campo na facul para os textos do Centro Acadêmico, que me comprometi a escrever. Ouvi um "volta daqui a meia hora?". Fui almoçar correndo, voltei em 40 minutos. Entrei na sala, a mulher estava desesperada, com problemas... conversamos, fiz minhas perguntas tentando não reparar em seu estresse, resolvi o problema e saí o mais rápido que consegui.
Voltei ao hospital para tentar falar com o médico. Achei a assistente social que quis conversar comigo para dar uma pressionada. Depois veio a psicóloga. Mas o médico, nem aí.
Esperei pra ver se ele se tocava e vinha falar comigo mas nada. Até que ele sumiu de seu posto. OK, resolvemos de outra forma: fui até o laboratório procurar o chefe da equipe (vantagens de ser mais amiga dos assistentes que dos residentes). Me fez esperar, óbvio. Mas conversamos. Ele me falou que o cat da minha mãe estava melhor do que eles esperavam e que ela entra na fila de transplante. Eu disse que estava preocupada pois ela está piorando muito: hoje, nem sequer conseguia ficar acordada de tão fraco que seu coração está (hipótese). Ele disse que havia alternativas como aumentar a medicação ou transferi-la para UTI, em último caso. Great! Pelo menos tem alternativa... Nessas alturas já eram 17h. Eu tinha reunião às 17h30. Advinha se fui? Claro que não. Tive que ficar lá porque ela estava realmente muito mal. Consegui sair às 19h, a reunião já havia acabado.
Em total desespero, pedi auxílio para a Prika. Por quê? Porque eu tenho prova amanhã de manhã, não assisti nenhuma aula da matéria, e, com toda essa correria, nem toquei em livro, xerox de caderno, nada. Ela me aconselhou a decorar os hormônios da digestão e o que cada um faz (ela já fez a prova). Só isso? haha, até parece que vou conseguir... Pelo menos vou tentar decorar os principais. Foi uma ótima dica mas não tenho tempo hábil.
Por que estou escrevendo aqui ao invés de estar estudando? Porque não estou com um bom pressentimento e preciso voltar ao hospital para ver como minha mãe ficou. Mas, não adianta eu voltar lá 20min depois que saí, porque se ela for ficar pior, vai demorar um pouco. Então, vim aqui na bibli, desabafar um pouquinho e dar uma enrolada. Já tô voltando para lá.
Depois vou pra casa, vou ligar pro meu pai porque ele está fugindo e eu não vou aguentar a barra sozinha, vou dormir, acordar às 3h30 para decorar meus hormônios, sair às 6h30 e voltar para correria. Tenho a prova, preciso escrever o texto, tenho reunião na hora do almoço, não posso deixar de ver minha mãe e preciso estudar muito para a prova cumulativa de sexta. Já cansei só de pensar...

A pérola do dia: a psicóloga dizendo "será mesmo que existe essa super-mulher aí dentro de você, será que você vai aguentar segurar tudo isso sozinha? Não tá na hora de seus irmãos, que já são bem grandinhos, assumirem responsabilidade também?"
Isso tudo só porque eu disse que não estava sabendo de quem eu ficava mais do lado: se da minha mãe que está precisando de cuidados ou se do meu pai que não está conseguindo lidar com a situação. Eu quis dizer: não sei se pressiono meu pai para vir aqui porque minha mãe está precisando, mesmo sabendo que ele está mal. Acho melhor deixar isso pra lá, por enquanto. "Encaminha! Encaminha!"

Nossa! Acabo de lembrar que ainda não comi nada, desde o almoço... Quando vou comer? Provavelmente só amanhã depois que eu acordar. Desse jeito, definharei mais e mais na minha magreza!

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

FOTOS!!! FOTOS!!!!
Ultimamente tenho pensado se seria muito ruim publicar algumas fotos aqui no blog. Talvez não seja das melhores coisas e eu nunca gostei desse tipo de exposição (ó a tímida falando!). Mas, como a Pri e a Robis disponibilizaram várias fotos nossas na faculdade e na casa da Pri, resolvi aproveitar algumas para colocar aqui no blog, para vocês me conhecerem um pouquinho mais.
Gostaria de dedicá-las especialmente ao Mauro e ao Martin (meu e-amigo do Uruguai), que me pediram fotos e eu não mandei ainda.
A qualidade não está muito boa mas acho que quebra um galho.

Bom, essa primeira, mais "light", somos a Felicia (de verde), a Pri (a outra japa), eu (com a almofada de flor e a cara de sono) e a Robis (com a linda manta colorida da Pri), na casa da Pri, numa linda tarde de divertimento, comida boa (feita pela Robis e pela Fê) e um filme lindinho. Ah, quem tirou a foto foi a Larissa.




Essa foto horrorosa, tiramos no laboratório do ICB, numa aula prática de Fisio Cardio. Sou eu (horrorosíssima), deitada na bancada. A Larissa estava tentando me matar e eu gritei! Brincadeirinha!! Na verdade, ela estava medindo minha pressão para um experimento, quando os meninos resolveram me zuar. A Pri veio tirar a foto, eu reclamei; o Tiago, sem que eu percebesse, veio do outro lado e apertou minha barriga. Eu levei um puta susto com ele e gritei. A Pri bateu a foto.
O pior dessa história é que eu dei um berro muito alto e a sala inteira (inclusive os professores) olharam para a palhaça, mas ninguém percebeu o que o Tiago tinha feito. Todo mundo, inclusive a Pri, acho que eu gritei por causa do flash da máquina. Que kingkong!!




Essa última, bonitinha, é da festa do Havaí, na Atlética da facul. Da esquerda para direita: o João (amigo da Pri), a Pri, a Fernanda com o namorado, eu, a Lu, a prima da Lu, o Gabriel e a Larissa. Dá pra perceber que está no começo da festa... todo mundo ainda limpinho e sóbrio. hehe





segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

Acabo de ir ao hospital visitar minha mãe.
No elevador, encontrei meu anjo da guarda, o Dr. V. Descemos no mesmo andar e ficamos conversando um pouco. Eu agradeci pela conversa da semana anterior, que tinha rendido bons frutos.
Encontramos a amiga da minha mãe que disse que ela tinha acabado de descer para o cateterismo. Eu teria que ficar lá esperando cerca de 1h30 até acabar o exame.
O Dr. me chamou para conhecer seu laboratório, sentou, ficamos conversando. Ele perguntou:
- Vai fazer o que agora, está ocupada?
- Não. Eu ia ficar um pouco com minha mãe mas já que ela não está...
- Ah... então vem cá comigo. Vamos ao terceiro andar para vê-la.
Ele foi muito fofo (mais uma vez). Me levou até a hemodinâmica, entrou na sala comigo, tranquilizou minha mãe, que estava um pouco assustada com todo aquele aparato, me explicou tudo sobre o exame e me convidou para assistir um outro ("quando for um outro paciente porque é estranho quando é parente nosso, né? Eu, pelo menos, não gosto de assistir nada invasivo que envolva minha família. Quando você quiser a gente vem, tá?").
Saimos conversando, ele disse que se eu quisesse poderia ficar lá esperando, me apresentou a tiazinha da porta, que antes havia tentado me barrar ("Quem é essa mocinha? Filha?? Olha, ela não pode ir lá, não. Não pode entrar.") mas que depois se mostrou gentil (provavelmente depois que viu meu crachá pendurado no moleton).
Prefiri não ficar lá esperando. Seria muito tempo, seria muita angústia. Vim para faculdade pois preciso estudar para prova de amanhã (Anato Dig.), só que está tendo reunião do Centro Acadêmico, da qual eu gostaria de participar. Na dúvida do que fazer, acabo aqui, no computador, não fazendo nenhuma das duas coisas.
Acho que vou é sair para comer...
Dois violinos, um órgão e três vozes harmoniosas foram o suficiente para fazer desaparecer meu medo de altura.
Eu estava no 4º andar do PAMB (Prédio dos ambulatórios) esperando para falar com uma médica e comecei a ouvir uma música linda. Fui até o espaço aberto e olhei para baixo. No 1º andar estavam tocando e cantando. Fiquei lá olhando para baixo, sem nem me importar com a altura. Estava tudo tão lindo...

domingo, 30 de novembro de 2003

Meus parentes do Brasil inteiro estão se mobilizando à São Paulo para visitar minha mãe:
- ontem foram meus tios de Araçatuba, que não vêm aqui há uns 4 anos
- próxima semana, vêm meus tios-avós de Belo Horizonte, que não vêm aqui há uns 15 anos
- dia 22, vem meus tios de Manaus, que não vêm aqui há uns 6 anos
- no fim de dezembro, vem o pessoal do Paraná

Pois é, algum lado bom a doença da minha mãe tinha que ter...

sábado, 29 de novembro de 2003

A decadência total: comer pipoca no café da manhã por não ter outra opção (desconsiderando que miojo seja uma opção para a refeirção matinal).

quinta-feira, 27 de novembro de 2003

Ultimamente estou com dificuldades de escrever no blog. É tão estranho.
Acho que estou me auto-censurando muito mais do que antes. Fico pensando: "Ah, não vou escrever sobre coisas tristes de novo. Não quero mais falar da minha depressão ou da doença da minha mãe. Não queo chatear meus amigos que lêem isso." E aí acabo sem saber do que escrever.
Sempre escrevi de acordo com meu estado de espírito, nunca foi uma coisa forçada. Eu nunca havia publicado uma poesia, tendo procurado-a. Todas as que publiquei até hoje eu achei, gostei e publiquei ou eu lembrei, procurei e publiquei. Todas menos a última.
Ontem eu entrei num site de poesias e fiquei procurando uma para publicar, qualquer uma que fosse no mínimo bonitinha. Fiquei procurando! Isso é decadência para mim. Isso não é natural, isso é extremamente forçado. Isso é triste. Tão triste como minha vida, tão triste como minha alma está.
E já estou eu novamente falando de tristeza, de coisas ruins...

quarta-feira, 26 de novembro de 2003

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

(Cecília Meireles)
"A gente sempre fala que ele é fofo (entende-se por fofo, nesse caso, atencioso, sensível, inteligente, um ótimo médico) mas parece que quanto mais a gente fala mais fofo ele fica. Ele está sempre nos surpreendendo de uma forma tão fantasticamente boa."

Este é um dos meus anjos da guarda. Eu já conheci três mas imagino que tenha mais alguns voando por aí. Eles sempre estão por perto (mesmo que seja só na preocupação), cuidando para que eu não surte de vez, melhorando minha vida o máximo que podem e me oferecendo muito apoio.
Eles são realmente muito fofos...
Não sei o que seria de mim sem essa força dos céus.



sexta-feira, 21 de novembro de 2003

É incrível como as coisas dentro de mim mudaram sem nada fora ter mudado muito.
Passei uma semana terrível. Caí na real e me vi sozinha (quero dizer, sem minha família), cheia de responsabilidades, cheia de problemas e sem conseguir driblar a inércia que tomava conta de mim.
Chorei pra caramba, deixei de cumprir minhas responsabilidades (até faltei numa prova de Anato, ficando em casa dormindo), foi um horror.
Até que acordei. Do nada, na quarta-feira, comecei a me mexer, comecei a fazer várias coisas, assumi outros compromissos, parecia que eu estava voltando à vida.
Na quinta-feira, levei outro tombo feio. Descobri que minha mãe não estava sendo bem tratada no hospital. Duas enfermeiras estavam tratando-a mal. Um absurdo. Foi um choque terrível para mim descobrir que minha mãe estava sendo humilhada debaixo do meu nariz e eu não percebia. Eu não sabia o que fazer, comecei a procurar várias pessoas, reclamei, reclamei, reclamei. No dia seguinte, tinham mudado as enfermeiras ruins e as fofocas já tinham se espalhado para todo lado.
Aliás, falando em fofocas, há muuuuuita na enfermaria do hospital. Uma loucura. Para dar um exemplo (eu tenho vários), na terça-feira passei no hospital, na hora que minha mãe estava almoçando. Eu a ajudei a abrir o saquinho de sal e o de azeite, perguntei se estava tudo bem e saí para voltar depois. Hoje, a psicóloga da minha mãe veio me dizer: “Me disseram que você veio dar almoço para sua mãe a semana toda”. O quê?? Como assim? Eu nem sequer sabia do que ela estava falando (eu nem lembrava da terça). Ela falou que disseram pra ela que me viram dando almoço para minha mãe várias vezes durante a semana. Falei que não, até que lembrei daquele dia. Ela falou: “Aaah, foi isso, então. Te viram aí e já aumentaram a história. Acontece sempre”. É mole o que eu tenho que agüentar?
Voltando a minha descoberta dos maus tratos, me toquei (um pouco tarde) que vou ter que ficar em cima da equipe para que tudo corra bem. Eu já desconfiava disso, eu fazia isso quando ela estava no outro hospital... só que cansa pra caramba e, a partir de certo momento passei a não conseguir mais. Não basta ir lá perguntar, tem que ir lá fiscalizar, mostrar-se presente o tempo todo.
A faculdade e o aprendizado das matérias que esperem mas eu vou largar tudo que puder para acompanhar a evolução da minha mãe de muito perto, participar de cada detalhe para evitar que ela sofra ainda mais com esse tipo de absurdo.
Não sei se vou conseguir, se vou agüentar mas não tem outro jeito. Se eu não fizer, ninguém vai fazer, ela vai ser mal tratada e a gente não vai saber.
O fato de eu ter enxergado o que estava acontecendo e minha posição de ficar por perto são conseqüências da minha mudança interior. É engraçado, eu não sei o que aconteceu mas passei a perceber a realidade como ela é (antes eu não via isso), acho que passei a aceitar o que está acontecendo, aceitar todas as perdas e lidar com isso como algo irreversível. Parece que chegou a hora do meu lado adulta entrar em ação.
Antes tarde do que nunca!
A gramática diz: não se deve colocar pronome pessoal oblíquo (acho que era essa a classificação) no início da frase. Mas fica horrível do outro jeito. Não tem como ficar usando ênclise em todo início de frase escrita.
Vou começar uma campanha: Abaixo à ênclise no começo da frase. A favor da próclise!

Bom, eu nem preciso de campanha pois sempre uso próclise – nem sequer tento alterar a frase para tirar o verbo do começo. Uso na maior liberdade e não me sinto uma assassina da gramática por isso.
Me sinto um pouco culpada pois, afinal, foram anos de repressão, mas continuo ignorando a ênclise mesmo assim.

segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Já tinha saído, já ia desligar o computador... mas tive que voltar para desabafar.
Estou me sentindo muito sozinha, muito desolada, muito incompreendida, muito irresponsável, muito triste, muito carente, muito muita coisa de ruim.

Parece absurdo dizer isso mas minha "ficha" só está caindo agora. Eu estou mal por tudo que está acontecendo há muito tempo mas eu ainda não tinha me dado conta da realidade real.
Não sei explicar sem usar de absurdos. O fato em si é absurdo. Sei que minha mãe está doente, que o prognóstico é ruim, que tenho que cuidar dela... sei de tudo isso há tempos.
Mas só agora percebi que eu nunca mais terei uma mãe. Que por melhor que ela fique (difícil de acontecer), ela nunca mais vai poder andar direito ou mexer o braço, ela nunca mais vai me buscar na casa da minha vó em seu corsa verde, ela nunca mais vai me ligar dando bronca porque cheguei muito tarde e não avisei... há tantas coisas que eu nunca mais receberei dela e que eram tão importantes apesar de serem pequenas.
Eu sei que não deveria ficar pensando no que ela não poderá mais fazer. Eu sei que eu deveria pensar no que ela ainda pode fazer... Mas, nesse momento, não dá. É impossível. É impossível não pensar, não sentir falta, não querer que o tempo volte.
Natal???

Eu nunca gostei de Natal. Acho uma época triste, ruim, me faz lembrar que não tenho uma família unida.
Costumamos nos reunir com as primas do meu pai (4 irmãs), seus filhos e netos. Isso porque os irmãos da minha mãe moram em Belo Horizonte e os irmão do meu pai moram um em Araçatuba e outro em Manaus (é... lá no Amazonas).
Lembro-me que quando era pequena e queria ganhar muitos presentes, ficava sempre chateada porque quando iam distribuir aqueles pacotes lindos da árvore, eu e meus irmãos sempre ganhávamos 1 ou 2 (em geral, meias, camisetas ou sabonetes fedidos) enquanto nossos primos ganhavam 5 ou 6 pacotes grandes cheios de brinquedos, videogame, patins, jogos, coisas muito legais... era muito triste pra gente - não só pelo presente mas também por saber que aqueles não eram nossos parentes de verdade.
A partir de uma época, passei a gostar muito da decoração nas ruas e nos shoppings. Adoro aquelas luzinhas que piscam, as renas, os bonecos de neve... mesmo sendo algo nada brasileiro.
Esse ano, em especial, o Natal será o mais triste de todos. Hoje, meu pai me disse que a festa não será realizada na minha casa (como acontecia todos os anos desde que nos mudamos para lá). Ele completou a frase com um triste: “Nem sei se vou montar árvore esse ano...”.
Meu pai adora montar árvore, decorar a casa, colocar detalhes nos móveis. Eu nunca tinha reparado o quanto isso significa para ele... eu nunca tinha reparado que ele fazia isso porque ela gostava.
Nosso Natal, quase com certeza, será na av. Dr. Enéas de Carvalho, 5º andar, enfermaria do Incor... isso se deixarem a gente ficar lá. Se não deixarem é provável que fiquemos em casa, com as televisões desligadas, para tentar não lembrar que é Natal.
Ela era a única que dava real valor a essa data na minha casa. Ninguém se importava muito. Na verdade, ninguém gosta muito. Então, pra que fazer, pra que participar se ela não estará lá? Não faz o menor sentido...

Assim que terminei de escrever essa última frase, parei. Tive que parar pois as lágrimas tomaram contam de todo meu rosto. Acho que nunca chorei tanto na minha vida. Nunca sofri tanto...
Como tapar esse buraco de dentro de mim? Como aceitar a realidade atual?
Não sei. Não consigo! Não consigo aceitar! Não quero me acostumar!